O Fruto da Discórdia
1 Capítulo 1 - Leftovers
Notas iniciais
— Eu preciso saber quem enfrentaremos. Ou pelo menos o quê.
— Hmmm – Murmurou o velho. Mesmo cego dos dois olhos, suas íris corriam pela tenda escura e fétida como se pudesse enxergar os objetos de lá, entretanto Ana sabia que não era bem assim, ele era o Oráculo enviado pelos deuses, devia ser tão velho quanto os próprios deuses, mas isso era irrelevante para o momento – Os demônios interiores serão seus maiores desafios. E você, Skjaldmö, será a que mais terá de lidar com o próprio passado.
— Isso não faz sentido – Ela disse com a voz suave. Vick (ou como o Oráculo preferia chamar — Skjaldmö Bifrost) estava calma, no fim das contas, mas a última batalha enfrentada fez com que Eduardo fosse capturado pelas forças de Éris. A deusa havia planejado um acordo com Polifemo. Pouco a pouco, os mortais e os semideuses iam se sucumbindo à bizarra corrupção miasmática que tomava a ilha onde vivia o gigante ciclope com o Velocino Dourado. Porém, agora aliada ao Acampamento Júpiter, suas chances tinham aumentado, por mais que ainda tivesse medo do que enfrentariam, ao menos teriam uma chance. Isso a aliviava – Não sei onde quer chegar com esse papo de demônios interiores.
— Mas você saberá.
— Tá... – Ok. Eduardo sempre foi o que ficou por conta dessas interpretações mirabolantes. Dessa vez, estava tudo nas mãos dela, se tudo desse certo, ela poderia sacar toda essa profecia antes que fosse tarde.
Ela se levantou. Ajustando suas roupas de linho enquanto se preparava para sair. Todos os meio-mortais descendentes dos nórdicos se vestiam como nos velhos costumes. Sempre uma armadura de couro no corpo, um suporte para espada na cintura e escudo nas costas; e um chifre pendurado no cinto – Não dava pra dizer quando não seria útil um pouco de álcool.
Em seguida cumprimentou o Oráculo nas devidas reverências (lambendo sua mão, para ser mais específico) agradeceu-o e saiu da tenda.
A floresta em que se acampavam ficava no leste da ilha e tomava um bioma que, naquela época do ano, resplandecia um verde-esmeralda muito brilhante. Entretanto, com a corrupção do Velocino Dourado, as árvores aos poucos iam escurecendo e se secando, logo o local parecia muito mais um lugar quase devastado nessa altura da história.
É claro, como um bom autor, poderia ficar explicando os detalhes do que veio acontecendo desde então, mas não sou, então vamos para as partes relevantes.
A descida da atual comandante dos semideuses nórdicos chamou a atenção de muitas pessoas no acampamento. As tendas se dividam em dois lados. Ocas de pano envoltas por forjas e fogueiras que faziam muito barulho sendo utilizadas por nórdicos de todo tipo e, do outro lado, tendas quadradas de cor violeta brandiam estandartes elegantes do Acampamento Júpiter, que praticamente não saíam de seus alojamentos, mas o retorno de Vick era algo extraordinário, logo muitos romanos também se ocupavam do lado de fora, comendo vorazmente vários sacos de... Romãs?
— Ok. Muito engraçado essa brincadeira, quem foi que encheu os engradados com essas frutas? – Dizia Dohan rebolando sua toga de senador de lá pra cá. Nos meios tempos que não cumpria a função de Centurião, aproveitava para gabar seu novo traje. Risadinhas que vinham da oca dos filiados a Loki denunciaram os encrenqueiros de imediato, porém quando Dohan se preparava para gritar mais um sermão, Caian deu-lhe uma cutucada forte para se virar e ver que Vick se aproximava.
— O que você descobriu? – Rapidamente disse o outro jovem, pretor provisório do Acampamento, uma vez que Jasmine e GV também haviam sido sequestrados com Eduardo. Não que ele gostasse de ocupar aquele cargo, mas na falta de quem o fizesse... – Você ficou muito tempo lá.
— Eu não sei... O Oráculo disse algo sobre “lutar contra seus demônios interiores” e eu só falei “tá”.
— Mas você nem perguntou pra ele o que isso significava? – Precipitou-se Sara, uma outra membro do Acampamento Júpiter, que era um tanto exigente em entender as coisas numa situação tão inóspita. Reafirmando seu parentesco com Marte.
— Não é assim que as coisas funcionam com o Oráculo. Ele entrega enigmas para que não atrapalhemos o futuro. É difícil mas é isso aí. Precisamos agora nos preparar pra o que vier. Organize sua legião.
— Ok. Quando partiremos? – Replicou Caian.
— Precisamos do Frost ainda... E do Ernesto. Há dois esquadrões de romanos e nórdicos vasculhando o perímetro, ao voltarem nós poderemos iniciar. Até lá, afiem os gumes, preciso ajudar alguns soldados que voltaram da última batalha.
— Pode deixar – Afirmou os dois romanos que correram para a tenda central de seus acampamentos.
Encarar o rosto de seus aliados após uma batalha derrotada não era nada fácil, porém Vick se dava bem em trazer paz com sua expressão. Mesmo nessa situação, seu sorriso acalmava alguns contingentes, alguns acreditavam que esse era um dos misticismos concedidos por Freya, mas ela gostava de achar que tinha essa capacidade por si só.
Após abrir uma das tendas circulares de seu lado do acampamento, encontrou João Victor Apolinário em uma maca. Seu braço tinha sido remendado de qualquer jeito para estacar rapidamente seu sangramento. A fratura exposta não parecia nada legal.
— Eaí? Melhorou pelo menos parou de sangrar? – Ela perguntou, puxando um banquinho de madeira e se sentando nele para observar a ferida de perto, enquanto destacava a atadura. Um ruído de dor avisou que ela estava próxima do machucado.
— Por aí. Não sei o que aconteceu com muitos suprimentos. Esse maldito miasma conseguiu estragar todas as ervas medicinais.... Não importo de amputar o braço se for necessário.
— De jeito nenhum. A gente vai dar um jeito. Ou os deuses. Sei lá. Vamos ver o que conseguimos com isso... Mas eaí, não tivemos tempo pra conversar, o que você viu no seu lado do flanco?
— ... Monstros... E mais monstros... O que é mais estranho é que eu podia jurar que alguns se pareciam com alguns semideuses daquele Acampamento Meio-Sangue... Eu não sei dizer bem, mas eu me recordo do rosto do líder do chalé de Dionísio numa daquelas criaturas... Seu corpo estava deformado com espinhos escuros rasgando sua pele nas costas... E ainda tinha uma aparência que lembrava uma pantera gigante – Ele estremeceu-se com um arrepio. A visão que teve não se comparava a nenhuma batalha. Se recordar daquele líder só prejudicava mais ainda.
Por um momento, Vick parou. Será que o miasma era capaz de corromper até mesmo semideuses? O que poderia acontecer com Eduardo uma vez confinado como refém na morada de Polifemo? A associação a fez desvencilhar com a abertura da atadura. O galho acabou deslocando a posição de seu braço e a ferida esguichou sangue para sua blusa.
O susto fez com que ela se afastasse, mas a tempo conseguiu colocar a mão em cima para fazer pressão novamente.
Ela se virou para gritar por ajuda, mas sutilmente, seu desejo foi apaziguado. Uma mão grande e elegante sobrepôs a sua. Ao se virar novamente, era Célio, um membro do Chalé de Apolo, que instantaneamente convocara suas habilidades olimpianas para auxiliar na cura do machucado.
Aos poucos, Vick foi tirando sua mão de baixo e lentamente um brilho suave foi diminuindo a dor de João – Até que desmaiasse com tanta calmaria.
Célio usava um uniforme amarelo do acampamento, e em suas costas pousava um arco de peso-pena, com uma aljava cheia acompanhando. Ele tinha um brilho natural, um tanto irritante para Vick, porém que provocava uma sensação de calor suave, que o impedia de sentir frio o tempo todo.
Ao tirar sua mão de lá, o ferimento havia desaparecido, mas suas mãos e roupas continuavam sujas de sangue.
— Mas que p-
— Oi Vick. Eu trouxe meio acampamento pra ajudar vocês – Disse ele antes que a comandante terminasse o palavrão – Bom, na verdade a outra metade decidiu não fazer nada sobre o miasma, mas não quisemos ficar parados.
— Ah... E exatamente como vocês chegaram a nós?
— O Frost conseguiu nos chamar... Onde ele está?
— Sente-se e sirva-se, você deve tá cansado... E ele voltará em breve.
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