O Frio Hatori
1 Capítulo 1
Fui em direção à praça mesmo com o frio. Sabia que ela passaria por lá, inevitavelmente. Eu precisava vê-la naquele dia. Fazia algum tempo que não a encontrava e um amigo me contou que ela se casaria na primavera. Não que eu fosse me declarar novamente e implorar que ela ficasse comigo. Afinal de contas, fui eu mesmo quem apagou a sua memória, forçando-a a esquecer tudo o que vivemos juntos. Apesar de doer bem lá no fundo, eu estava realmente satisfeito porque ela havia alcançado a felicidade que eu nunca pude garantir. Fomos sim, muito felizes. Mas por um pouco de tempo. Pessoas da minha família estavam fadados a uma vida miserável. Alguns poucos tinham a sorte de encontrar a felicidade, mas eram uma pequena exceção à regra. Atravessei a rua, cobrindo meu rosto com a gola do casaco que usava. O vento era muito frio e parecia querer penetrar nas camadas mais profundas de minha pele. Ao chegar do outro lado da rua, procurei o mesmo lugar de sempre: um banco solitário, que ao contrário dos demais bancos da praça, ficava atrás de um grande arbusto, que o cobria completamente. Quase sempre, ninguém se sentava ali, já que a vista privilegiada daquele banquinho era a de um beco muito feio. Mas era por isso que me servia. Ela sempre passava na praça, ao lado dos arbustos. Eu a podia ouvir e, vez ou outra, ousava virar-me e contemplá-la.
A voz dela já servia para trazer algum alento a mim, mas sua imagem já me trazia muitas lembranças e, com elas, todos os sentimentos que a envolviam. A dor de termos o nosso casamento negado pelo patriarca do meu clã, a culpa por tê-la feito sentir-se responsável pelo meu castigo e o pesar de ter sido forçado a apagar sua memória. Como seus olhos estavam tristes naquele dia fatídico. Fazia muito frio, não um frio suportável como o de hoje, mas aquele frio que nos faz querer evitar a todo custo sair de casa. Mas nós saímos de casa. Ela chorava e eu a seguia, contendo-me. Num súbito, arranquei-lhe todas as lembranças que envolviam nós dois. Substitui os momentos que teve comigo, por situações corriqueiras, como se ela tivesse sempre sido a minha secretária na clínica. Como se o que ela sentisse por mim nunca tivesse passado de admiração. O pior de tudo, foi constatar no dia seguinte que tinha funcionado. Foi a sensação mais dolorosa da minha vida. Olhá-la com amor e vê-la sorrir para mim com indiferença. E isso foi quebrando meu coração dia após dia até que não suportei mais e pedi que ela procurasse outro emprego.
Como esperado, a ouvi passar em frente aos arbustos. Ela estava cercada de amigas, que conversavam animadamente sobre o casamento. “Você será uma noiva tão linda!”, disse uma. “Já está tudo preparado para a lua de mel?”, “Você realmente encontrou um bom marido!”, elas falavam, até que ouvi a voz doce e delicada de Kana: “Eu estou muito feliz. Ele é um homem honesto.” Aquelas palavras me deixaram contente. Realmente feliz por ela. Eu desejei que ela realmente alcançasse tudo o que eu falhei em lhe oferecer, mesmo que não fosse comigo. Depois de as vozes ficarem cada vez mais distantes, tive coragem de olhar para trás. Vi a parte de trás de seu cabelo, agitado pelo vento. Estava cumprido agora, deixando-a com ar mais sério. Ela virou o rosto e pude contemplar seu sorriso. Senti meus olhos se umedecerem e quando dei por mim, as lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eram quentes, em contrapartida à neve fria que começava a cintilar pelo ar. Olhei para cima e me deixei ser tocado pelo frio. Lembrei daquelas palavras amargas que havia ouvido um dia: “Haa-san é frio como a neve”, e então senti as lágrimas que brotavam de meu coração, aquecendo meu rosto.
No dia seguinte, acordei indisposto. Provavelmente, por ter ficado tanto tempo no frio. Mas não me importei com a garganta dolorida e a dor de cabeça. A certeza de que ela estava feliz, me deixava em paz. Chamei um dos serviçais da casa e mandei avisar que hoje não poderia atender Akito. Quis saber como ele estava.
— Bem, Hatori-san. Ele está disposto hoje.
— Que bom. – falei com a voz rouca.
— O senhor parece ter pegado uma gripe. Quer que eu chame um médico?
— Eu sou o médico da casa, Yahiko.
— Eu sei. Mas já dizia o ditado: “Médico, cura-te a ti mesmo” e...
— Eu só preciso de um pouco de descanso, Yahiko. – Eu o interrompi. Yahiko gostava de falar. — Amanhã estarei bem. Será que você pode avisar o Akito agora?
— Sim, senhor.
Ele saiu, murmurando alguma coisa em baixa voz. Deitei novamente no fuuton e fiquei encarando o teto. Yahiko havia aberto a janela, como ele sempre fazia todas as manhãs e eu pude ver que apesar do vento frio que inundava agora meu quarto, o sol brilhava forte lá fora. Senti vontade de me levantar e ir de encontro àquele sol, mas meu corpo estava dolorido. Por fim, acabei adormecendo e quando acordei novamente, o quarto estava escuro e havia um copo de água ao meu lado sobre uma bandeja. Yahiko podia ser muito falante, mas era realmente sensível. Provavelmente, deveria ter voltado para ver se estava tudo bem comigo. Olhei o relógio e vi que já eram 9 horas. Acordar tão tarde assim era algo totalmente fora de minha realidade. Não que não pudesse. Se quisesse, poderia descansar um pouco mais durante os finais de semana. Mas nunca foi do meu feitio levantar-me tão tarde.
Coloquei-me de pé e abri minha pasta que ficava num armário no canto do quarto. Lá havia um termômetro, com o qual medi minha temperatura. Depois do apito insistente, olhei a temperatura que marcava 36 graus. Não tinha febre, mas ainda sentia minha garganta doer, um indicativo de que tinha apenas um resfriado. Fui ao banheiro tomar um banho. Deixei a água um pouco mais quente que de costume e permaneci no ofurô por alguns instantes, pensando no dia de ontem. Pensei que talvez poderia ir à praça hoje. Só mais uma vez. Pelo que havia ouvido da conversa ontem, aquelas idas à praça não teriam mais propósito, já que Kana iria se mudar para o interior com o marido depois do casamento. Seria um fiz perfeito para tudo. Acho que eu finalmente sentiria que a felicidade a tinha alcançado. Saí do banho e me troquei. Senti fome e decidi comer algo no caminho. O sol ainda brilhava forte apesar do frio que fazia. Estava bem agasalhado e, ao invés de pegar o carro, quis andar um pouco. Sabia que não estava sendo o mais prudente dos homens, andando no frio com um resfriado, mas eu precisava daquilo. Cheguei à praça em 20 minutos e estava um pouco mais ofegante que de costume. Resolvi na pequena loja de conveniência que ficava na esquina e comprar uma bebida quente. Deixei que ela aquecesse minha mão antes de abri-la. Como ainda era cedo, quis sentar-me num dos bancos que ficava no centro da praça e sentir o sol na minha pele.
Comecei a observar as pessoas que passavam ali, até que me detive numa mulher que corria na pista. Ela olhava fixamente para frente, mantendo um ritmo forte de corrida. Mexia a boca, como se estivesse murmurando algo. Olhei para a mesma direção que ela para verificar se ela falava com alguém. A pista estava vazia. Achei engraçado. Ela realmente falava consigo mesma. Embora permanecesse olhando para frente, seu semblante mudava, como se ela estivesse tentando resolver um problema muito sério. Fiquei estranhamente curioso. Quando ela se aproximava, percebi que seu rosto me era familiar. Embora sempre tivesse sido muito bom com feições, não conseguia me lembrar de onde a conhecia. Ela parecia ser um pouco mais nova que eu. Agora eu tinha a impressão de que ela me olhava também. Fiquei um pouco constrangido com o fato de seus olhos terem capturado os meus enquanto a olhava que virei o rosto. Ela continuou correndo. O vento realmente estava frio e percebi que meu corpo começava a fraquejar. Talvez aquela ideia não tivesse sido boa. Se ficasse muito fraco, estaria correndo o risco de me transformar no meio da praça. A sorte era que quase não havia ninguém por ali. Aquela região era mesmo muito calma e o momento de maior movimento era quando as pessoas que vinham do distrito empresarial passavam por ali para chegar até os restaurantes que ficavam do outro lado da ponte.
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