O Frio

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Notas iniciais
Que a leitura comece!

O FRIO

O frio... O frio do cano da pistola na cabeça, com certeza, é o mais provocante de todos “os frios” que temos em nossa vida. A verdade é que provoca sentimentos, de morte e de vida.

“‘Bora’, moleque!”, o homem armado falava comigo, naquela hora. “Para de chorar! ‘Bicha’!”, gritava. “Vou te levar pra cama, como fiz com a sua irmã... Aquela gostosa! Mas não é isso que quero de você. Quero que você saia dessa casa. Ou morre!”.

Perder tudo que conquistamos ou perder tudo definitivamente. Ótimas opções. Esse vagabundo, safado, que ousou tocar em minha irmã... Homem mau! Preferi escolher sair da casa. Embora quisesse deixar esse assunto de lado, parte de mim queria se vingar, porque era pela minha família. Levantei. Peguei as minhas coisas. Fui embora.

“Isso mesmo... Bom menino!”, disse rindo. Um riso forçado que me descreveria sua personalidade. Só restava eu perceber isso, para acabar com ele.

Cresci. Alimentei o ódio para descobrir o porquê de querer a minha casa, a minha família, a minha vida. Não demorou muito para a resposta aparecer. Um novo negócio estava crescendo na comunidade: o tráfico. Abrir novos pontos estratégicos era o seu objetivo e nós fomos escolhidos. Mudei para um barraco com o papai na base do morro, logo quando o encontrei alguns dias depois. Fizemos a nossa vida. Papai morreu cinco anos depois. Vivi sozinho mais quatro anos.

Agora estou aqui e sei o porquê. Naquela mesma rua, mesma casa. Na mesma noite e com o mesmo cara. A vingança é um prato que se come frio. E incrivelmente vai ser muito bom...

“Moleque! Eu te conheço!”, gritou assim que me viu. Muito boa a sua memória. Mesmo para mim, uma pessoa sadia, era difícil ter uma memória tão potente. “O que quer? Vai se drogar?”.

“Não e sim. Isso vai ser a minha droga. Mas não vou comprá-la...”.

“Que história é essa? Não estou aqui para distribuir prazeres para ninguém, não. Tenho cara de puta?”.

“Sim”, concordei com a cabeça lentamente. “E de muitas outras coisas”, saquei minha arma e ele sacou a dele.

Tiros se espalharam pela fria noite de abril. A mesma noite que perdi a minha irmã e minha mãe — elas morreram após o estupro. Papai nunca mais falou delas. Minha droga se espalhou com a mesma velocidade da bala e da adrenalina causada por esta, porém durou pouco. Outra sensação de frio preencheu a minha alegria. O frio da bala.

“Quando cresci, percebi que tenho que ter responsabilidades. Os problemas batem na porta, por isso aprendi que tenho que abrir e superá-los. Aprendi muitas coisas nas manhãs frias em que saía com o meu pai para buscar papelão para nosso novo lar. Mas não o suficiente. Deveria ter explorado mais os becos de minha mente, da sociedade. Deveria ter visto que não podemos nos fixar em uma ideia e viver para ela. Pois bem, não aprendi e por isso paguei o preço... Mas o Banco Vida só aceita à vista”.

E estes são os meus pensamentos de alguns momentos antes de morrer. Ser riscado do universo e voltar pra terra...

Quanto às imagens, eu vi pouco. Vi luzes, um louco rindo, um carro branco com luzes. Sim, muitas luzes e só, pois logo escureceu tudo.

Aos sons: “Por isso que não mechem comigo”; “‘Fritou’. Polícia!”; “Entra na viatura, malandro. Acabou pra você!”...

Deduzo que meu malandro fará mal a você também. Porque ele vai para o presídio perto daqui, pelo menos acho que é este. Não importa, será você pagará toda estadia dele, a comida e todos aqueles benefícios que os presidiários recebem do governo...

Enquanto eu estou morto, ele está no bem-bom e você condenado a pagar as despesas dele. Ele que, aliás, só passará alguns meses na prisão...

Ah, me desculpe por isso.

Notas finais
E ai, gostaram?
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