O Florista de Star Hill
8 O trapezista
Notas iniciais
– Do que está falando...?
– Do que estou falando? Do seu amigo, aquele que acabou de sair daqui. Você está encantado por ele. Você o quer só para você, e eu quero só para mim algo que ele tem.
– Guarde só para você, seus planos, estranho.
– Como quiser. Mas, depois não venha me pedir ajuda... Ele vai se distanciar de tudo, de novo...
O lemuriano sabia onde estava mexendo.
– Se precisar falar comigo, pode me encontrar neste endereço.
Estendeu um papel escrito a punho para o circense, mas ele não pegou. Então, deixou-o em cima de um barril. Depois, como uma sombra, ele desapareceu.
Ficou olhando para o pequeno papel ali deixado. Voltou para sua tenda, sem pega-lo. Nem bem a tenda se fechou já se abriu. Ele saíra e se postara em frente ao barril. Ficou fitando o papel novamente. Pegou-o, certificando-se de que ninguém o vira fazê-lo.
– Em quê estou pensando...? – perguntou-se, amassando o papel. Mas não o jogou. Guardou-o junto das cartas que pegara para Afrodite, só por via das dúvidas.
–x-
– Se divertiu muito hoje? – perguntou Aldebaran.
Ele e o florista haviam acabado de chegar a casa.
– Sim, acho que sim. Conheci algumas pessoas. E você?
– Me diverti sim. Joguei em alguns brinquedos, ganhei um prêmio...
– E onde está?
– Ah... Dei para um garotinho.
– Fez bem. – sorriu o florista.
Seu tom estava mais calmo que o normal. Algo parecia ter feito com que relaxasse. Ele folheava algo que Aldebaran não reconhecia.
– O que é isso?
Afrodite apenas levantou os olhos.
– Nada... Apenas algumas folhas que encontrei hoje... Coisa antiga minha.
– Páginas de livros?
– Sim... – sua resposta foi em um tom vago.
Levantou-se, dobrou os papéis e seguiu em direção ao pequeno escritório nunca usado que mantinham. Escolheu seu livro preferido e guardou-os dentro dele. De onde estava sentado, Aldebaran apenas observava sem mostrar interesse. Mas, no fundo, queria muito ver o que tanto tirava a atenção do florista.
No dia seguinte, Afrodite se sentia mais vivo. Acordara bem humorado e animado. Cantarolava enquanto preparava o desjejum de ambos.
– Viu passarinho roxo? – perguntou Aldebaran, enquanto comia dos ovos feitos pelo outro.
– Vi, quando roubei os ovos do ninho pra fazer seu desjejum.
O artesão parou de mastigar e o fitou assustado.
– É brincadeira. – riu, um riso aberto e contente.
– Sabe, eu estava pensando... ontem você não saiu com nenhuma folha em mãos... Então não são anotações suas. Onde as conseguiu?
Afrodite olhou para trás, o rosto sem expressão alguma.
– Por que este interesse em saber tanto de minhas coisas?
– Não é interesse. É só que, pra você mentir sobre isso, é porque tem algo errado. Só acho isso.
– Se há algo errado aqui, Aldebaran, são suas conclusões. Você sabe bem como nunca gostei que interferisse em minhas coisas. Vivemos juntos à tempo suficiente para que entenda isso.
– Não estou interferindo, apenas curioso.
– Pois guarde essa curiosidade apenas para você, pois é como dizem: de curioso morreu o gato.
O gigante soltou um suspiro e aquiesceu.
Terminaram suas refeições em silêncio. Em seguida, Aldebaran se levantou e foi para sua confecção. Afrodite apenas cruzou os braços sobre a mesa e o observou.
–x-
O garoto estava brincando com algo que parecia uma ferramenta. O homem de cabelos compridos o vigiava pelos cantos dos olhos, mas sem que o pequeno percebesse. Gostava que ele pensasse que já era independente, pois, uma hora teria de ser. E da mesma forma que vigiava o menino, ele viu o homem chegando. Mas não se moveu, nem olhou em sua direção. Fingiu que não o viu.
Quando ele estava a poucos passos do lemuriano, ouviu uma risada fraca vindo dele.
– Eu sabia que você viria. Realmente o quer não, é?
– Sim... – disse num suspiro. – Eu sempre o quis, desde que o conheci.
– Mas isso é muito pouco tempo para se querer algo, ou alguém – julgou o lemuriano.
– Não, me refiro as cartas de meu irmão. Os desenhos da pessoa que ele amava... Esses desenhos apenas despertavam em mim uma paixão por ele.
– E por que não foi até ele, meu caro circense?
– Nunca tive coragem. Meu irmão estava tão feliz. Nunca o vira assim. Eu o amava. Ao mesmo tempo em que queria o amante dele, eu o queria. Queria meu irmão, só para mim, novamente.
Mu sorriu.
– Referente ao seu irmão, eu não posso ajudar, mas posso fazer algo em relação ao florista...
Mu já conseguira informações suficientes com Aldebaran, sem que ele mesmo percebesse. Agora, só precisaria fazer aquilo acontecer.
– Como?
– Ele vai se decepcionar, mas você estará lá, como a pessoa que realmente quer o bem dele... E você quer isso não quer? Quer vê-lo, bem, não quer?
– Quero.
– Ele jamais estará realmente bem com quem está...
– Vai me ajudar?
Shura demorou a responder. Ao mesmo tempo em que queria o florista, sentia algo lhe dizendo para não cooperar com o lemuriano. Algo o puxava para trás, mas seu desejo de posse do outro o empurrava para frente.
E foi esse desejo agressivo que o fez decidir-se:
– Sim, vou te ajudar, mas com a seguinte condição: se você ousar ir além da separação dos dois, eu me certificarei de que você receberá o que merece.
O lemuriano sorriu de um jeito estranho para ele.
– Tenho certeza que sim...
– Por onde começamos?
– Não precisa se preocupar com isso. Eu já comecei. Você deverá, apenas, participar. E vai saber sozinho quando isso acontecer. Apenas não me atrapalhe.
Shura permaneceu o olhar nele por mais tempo do que realmente queria. Algo nele o hipnotizava, e não era de um jeito bom.
–x-
Afrodite andava zangado pelas tendas. Logo depois de ouvir os desaforos de Aldebaran, logo pela manhã, ele resolveu andar para espairecer. E suas pernas o levaram justamente para lá.
Enquanto andava, apenas olhando os artistas se prepararem para mais uma noite, sentiu seus cabelos se moverem. Olhou para trás e não viu nada. Quando voltou-se para frente tomou um susto daqueles.
– Ah-oh... – foi a única coisa que conseguiu dizer. Colocou a mão no peito e abriu um botão da camisa de linho.
– Te assustei? – disse a voz grossa, quase numa risada.
– É claro que sim... eu nem te ouvi chegar.
– Me desculpe.
– Não me lembro de seu nome, mas já te vi em uma apresentação...
– Eu sei, eu me lembro de você. Me chamo Saga. Fui eu que me sentei ao seu lado naquele dia.
Afrodite o observava minuciosamente. Ele ainda mais interessante à luz do dia.
– Quer que eu te ensine?
– Me ensinar o quê? – perguntou, piscando rápido ao ser tirado do transe.
– Meu número.
– Ah, é muito perigoso.
– Perigoso, nada. Venha.
Antes que o florista tivesse tempo de perceber, já estava sendo arrastado por ele.
Saga o levara até a tenda dos trapezistas. Afrodite olhava o local vazio. Parecia até outro lugar. Parecia triste.
– Suba.
Apontou para a escada a frente deles.
– Nem morto. – disse, num só fôlego, sem nem pensar muito sobre o assunto.
– Vamos, é fácil... Eu vou logo abaixo de você.
– Não!
Mas Saga já o empurrava para a escada. Ele virou Afrodite e o fez pegar no objeto. Sem que percebesse, já havia escalado metade da mesma. Saga estava logo abaixo dele, mas jamais olharia para ele, não ali, naquela altura.
Em poucos minutos, de pura frustração para o florista, eles já se encontravam no topo.
– Pegue e se segure.
– Não vai mesmo e fazer saltar nisso, não é?
– Vou sim.
Ele empurrou Afrodite dali de cima. O florista começou a gritar e acabou por deixar suas mãos escorregarem. Fechou os olhos enquanto gritava. Acho que fosse bater no chão e morrer, mas sentiu uma mão rodear sua cintura. Era Saga.
Ele estava em outro trapézio. Puxou o mais jovem e sentaram-se naquele cabo preso apenas pelas cordas. Ele suava frio enquanto Saga ria.
– Achou mesmo que eu o deixaria cair?
– Eu... – ele mal falava.
– Mesmo que não tivesse dado tempo, tem uma cama elástica ali embaixo. Na apresentação, nós não usamos, mas em treinos, sempre deixamos... sempre há curiosos que aparecem aqui e tentam.
– Poderia ter me avisado...
– Não teria graça.
Afrodite parecia nervoso
– Ora, foi engraçado, admita! Você gritou como uma moça.
O florista tentou esconder o riso, mas não pode.
– Eu só quero descer.
– Ok. Segure-se em mim.
Ele obedeceu e, em mais um susto, Saga se jogou, sendo agarrado pelo florista. Sentiu as unhas do menor se cravar na pele dele.
Seus corpos bateram na cama elástica e pularam novamente. Repetiram isso mais algumas vezes, até finalmente parar.
Saga ria sem parar.
– Oh, meu deus. Eu não sei por que razão fui confiar em você. Eu nem te conheço... Em menos de trinta minutos você colocou minha vida em risco duas vezes!
Afrodite sibilava as palavras enquanto tentava se equilibrar na cama elástica. Percebeu que o outro se levantara, mas ele, não, parecia um filhote de alce aprendendo a andar. Saga andava na cama elástica como se estivesse andando no chão. O florista ficou olhando para ele, tentando entender como ele fazia, mas Saga já estava mais próximo dele do que devia.
– Você se deixou colocar em risco porque quer sentir seu coração bater mais forte, e mais rápido.
Pulou com força na cama fazendo o outro cair de costas.
– Não é verdade?
Afrodite estava vermelho. Saga estava em cima dele. Tudo parecia ainda mais quieto, já que ouviam o som do coração do florista batendo como Saga dissera. E, mesmo sem o circense o segura-lo, Afrodite permanecia imóvel. Até mesmo quando o gêmeo se aproximou de seu rosto e o beijou. Um beijo quente e estalado, com uma língua curiosa chamando a outra. Mas que durou pouco, pois Saga percebera a companhia de outra pessoa ali.
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