Era chegado o dia.

Luma estaria voltando ao Acampamento dentro de alguns minutos.

Eram aproximadamente 14h e ela estava terminando as malas. Sua mãe esperava no carro. Ficava feliz de poder levar algumas coisas desta vez. Poderia até escolher com que roupa chegar lá e não ser arrastada de camiseta grande velha e cinza, shorts e chinelos de uma garota de nove anos que nunca conhecera.

Não, desta vez podia levar sua escova de dentes, suas calças e shorts preferidos, seus sapatos... Já estava ficando cansada de usar o que Isis "arranjava". Mas a mala era pequena. Continha duas calças, cinco conjuntos de lingerie, meias, três shorts, dois tênis, seu lápis de olho e rímel, um batom, seu pente vermelho, seu shampoo e condicionador de menta e seu sabonete de pêssego. A estadia no Acampamento seria dez vezes mais confortável desta vez. Na mão, levava o iPod, seus fones e uma petúnia.

Também estava aliviada por poder fazer sua maquiagem apropriadamente desta vez. Previa que sua chegada no Acampamento seria muito melhor do que a primeira: de cabelo meio preso, meio solto, maquiagem preta completamente borrada e hálito alcoólico. É... Aquele não foi um de seus melhores dias.

Desceu as escadas sem pressa, despedindo-se mentalmente de sua casa. Na porta da frente, Bruce lhe esperava, com um sorriso que não escondia sua tristeza. Luma sorriu-lhe, solidária, porém também triste. Bruce abriu os braços e seus olhos lacrimejaram enquanto a garota corria para aninhar-se em seu peito.

– Ah, como vou sentir sua falta, menina! — disse, dando-lhe um forte abraço

– Não se preocupe, eu volto o mais cedo possível. — falou a menina, para a camisa azul de Bruce

– Ei, desculpe não ter lhe visitado com tanta frequência. — ele a afastou e olhou-a nos olhos — Ser professor é uma bênção, mas não é moleza. Eles não me liberaram, acredita? Quer dizer... Minha fi... Você está em coma e eu não posso nem...

– Está tudo bem. — Luma o cortou gentilmente — Sério, eu entendo.

Luma voltou a abraçá-lo. Claro que o desculpava e entendia a situação. Não dependia dele visitá-la ou não. Tudo bem. Agora ele devia achar que Luma não percebera que quase a chamara de filha. Não deve ser fácil esquecer um hábito como esse, que se levou por 15 anos. Mas não era o que Luma queria. Não esperava que ele esquecesse disso, pois, afinal de contas, ele era sim seu pai. Cuidara dela por tantos anos... Todas suas memórias em família tinham ele presente. Claro, ela não o considerava o único pai, pois Apolo também ajudara bastante criando-a à distância, protegendo-a dos monstros com o colar que lhe deixara. Até escolhera seu nome e, bem... Isso não se pode esquecer. Apolo também era uma figura paterna para Luma, embora essa visão dele seja nova, e ela estivesse mais acostumada com a visão paterna de Bruce... Os dois eram seus pais. Disso ela tinha certeza.

Após mais alguns segundos envolta no abraço de Bruce, Luma o olhou nos olhos, sem afastá-lo muito e disse:

– Pai, eu... — e sorriu — Não quero que pare de me chamar de filha. Você cuidou de mim por tantos anos... Tenho tantas memórias boas ao seu lado. Não quero que tente esconder de mim que também me considera da família. Porque é isso que te considero. Minha família.

Seu sorriso e lágrimas eram mais alegres após o pedido de Luma e, do carro, sua mãe buzinou:

– Vamos logo, Luma!

Após um suspiro para admirar a frente da casa, que não veria em um bom tempo, Luma pegou sua mala e direcionou-se ao carro. Colocou a mala no porta-malas e sentou-se ao lado de sua mãe, no banco do carona.

Enquanto passava por todo o litoral de Connecticut, Luma viajava pelas músicas de seu iPod, eventualmente conversando com sua mãe sobre os meses que passaram no hospital.

– Mas... Para fazer uma cirurgia cerebral não é preciso retirar toda a parte de cima do crânio? Como é possível realizar uma abrindo só a lateral? — perguntou Luma, curiosa sobre seu novo corte de cabelo

– Felizmente, o seu problema ocorreu apenas em uma parte pequena e lateral do cérebro. Então pedi ao doutor que fizesse o máximo que pudesse para não raspar o cabelo inteiro. Por um acaso, ele sabia que esse corte estava na moda. Claro, não havia certeza se você gostaria, mas era o máximo que podia fazer. E mesmo sendo uma parte muito pequena do cérebro que precisava ser reparada, eles tiveram de abrir toda a lateral da sua cabeça.

Luma abriu o espelho no teto do carro, à sua frente. Aproximando-se dele, pôde ver a grande cicatriz que acompanhava a raiz do cabelo que não fora raspado. Agradeceu por sua mãe ter sido atenciosa e pensado tanto na aprovação de sua filha, mesmo em um momento de tanto sofrimento. Se fosse com Luma, tinha certeza de que não suportaria. Iria mandar os médicos fazerem a cirurgia logo de uma vez e não ficaria pensando nisso, tentando obter uma forma de sua filha ficar mais feliz.

– O doutor Jerry Frieman, que você conheceu, foi muito compreensivo e até chamou um amigo seu, que é cabeleireiro para fazerem o "projeto" de sua cirurgia juntos.

– Uau. — disse sem muito entusiasmo, e então acrescentou mais alegre: — Obrigada, mãe. Eu gostei mesmo do corte.

Sheri sorriu para a filha e voltou a concentrar-se na estrada, assim como Luma voltou a concentrar-se em Snowblind, Black Sabbath, que infiltrava-se em seus ouvidos, tocando sua alma e reverberando nos pelos de seus braços.

Quase 2 horas depois, Sheri parou o carro às beiras da colina Meio-Sangue.

– É isso. — afirmou, puxando a marcha de mão

Luma olhava pela janela o grande pinheiro de Thalia a alguns metros dali. Suspirou e saiu do carro. Após fechar o porta-malas, ao lado de sua bagagem, sua mãe a observava triste, em pé próxima à porta ao lado do assento do motorista. Sorria como Bruce fizera.

Luma aproximou-se, as duas se olharam e então deram um longo abraço. Sheri deixou uma lágrima pingar no ombro de Luma.

– Boa sorte, filha.

Luma se afastou, sorriu para a mãe, pegou sua bagagem, lançou-lhe um último sorriso e, hesitante, virou-se enquanto Sheri entrava novamente no carro e dava a partida.

A garota olhou para trás a ponto de ver o carro de sua mãe partindo entre as árvores que adornavam a estrada. Outro suspiro e, ao som de Nothing Else Matters, Metallica, subiu a Colina. Ao chegar ao topo e avistar novamente aquela vista fantástica do Acampamento lá embaixo, sentiu as lágrimas chegando.

"Deuses... Deuses, como senti falta desse lugar!"

Desceu a Colina o melhor que pôde. Estava trêmula, segurando-se para não chorar e borrar todo o lápis de olho que, diferente do rímel, não era à prova d'água. E, embora estivesse com pressa, estava apreciando a vista, relembrando o rosto de cada um que fora forçada a deixar para trás por meses.

Ao final da Colina, quando o chão já havia se aplanado, atravessou o Acampamento, sentindo as cabeças se virarem em sua direção. Ninguém se aproximou, ninguém comentou ou lhe deu boas vindas. Apenas ficaram parados, em silêncio, assistindo à nova chegada de Luma. Claro, nem todo mundo a conhecia e já havia falado com ela, porém quase todos sabiam que era a garota que entrara em coma após uma luta com Annie Claire.

Então, quebrando o silêncio e dando algum movimento ao lugar, Jeff a avistou de longe e, gritou, correndo até ela:

– Luma! — sorriu e abraçou-a ao alcançá-la.

Luma o abraçou de volta, com saudades de seu menino-bode favorito.

– Jeff... Que saudades! — exclamou, olhando-o após afastá-lo

Audrey veio atrás dele, mais calma e contida. Cada vez que Luma a via tinha a impressão que seu cabelo estava mais curto. Agora sim era um sensual chanel, curtíssimo atrás com a parte da frente mais comprida, emoldurando perfeitamente seu rosto.

As duas se abraçaram, sem trocar um palavra. Durante o abraço, Luma abriu os olhos, para admirar novamente a vista do local. Nem sinal de Adam.

Após deixar sua bagagem no chalé de Apolo, receber mais abraços e saudações calorosas dos irmãos, Luma sentou-se na beliche. A quanto tempo não sentia aqueles macios lençóis embaixo de si... Trocou a camiseta do Metallica pela do Acampamento e decidiu partir para onde podia apostar que Adam estaria.

De estrutura forte de madeira, os estábulos guardavam dezenas de cavalos e pégasus bem-tratados. Mas não era por eles que ela procurava. Subiu a pequena diferença entre a grama e o chão de madeira do estábulo, fazendo o chão gemer.

A sete metros dela, Adam parou de escovar um cavalo cor de caramelo. Devagar, virou-se casual, apenas para ver quem estaria ali. Olhou-a, a surpresa aparecendo lentamente em sua face.

Ele tinha razão, o cabelo estava mesmo mais comprido, mas havia exagerado quando dissera que estava quase maior que o dela. Não mesmo. Não chegava nem à cintura. Continuava preto, liso e sedoso, completamente perfeito e de dar inveja em qualquer garota. Em contradição, ele carregava uma aparência cansada, que o envelhecia uns dois anos, mas sem deixar de fazê-lo irresistível. As feições, antes de amolecerem em completa surpresa, eram duras, impacientes, preocupadas... Mesmo que o estábulo normalmente o fizesse acalmar-se, relaxar na companhia dos cavalos, ele não parecia nem um pouco relaxado.

O maxilar, antes travado, após engolir saliva de forma forçada, abriu-se e fechou-se repetidamente, procurando as palavras e deixando que a respiração ofegante transparecesse de uma forma trêmula através de seus lábios de beleza poética, que se retorciam com a mistura de sentimentos: surpresa, felicidade, saudades, emoção...

O rosto apresentava vestígios de descuidado em fazer a barba. A pele morena, macia, convidava Luma a aninhar-se em seu calor, a acariciá-la com cuidado e beijar-lhe pausadamente.

Os ombros tensos relaxaram, acompanhados de uma brecha de respiração, uma metade de suspiro, soando como um riso em contramão com o resto da aparência de quem não podia acreditar.

Os olhos, que antes escondiam-se abaixo de escuras sobrancelhas franzidas, agora mostravam seu brilho, como jaboticabas muito bem polidas. Molhados, se cruzaram com os de Luma. Ela lhe sorria, apoiada em um dos compridos pilares de madeira, brincando com a petúnia entre os dedos.

As mãos viris do rapaz deixaram a escova do cavalo cair, reverberando o som da batida pela estrutura de madeira, que pareceu muito mais intenso que realmente era, vibrando no ar que pairava quente naquele fim de tarde de Outono.

Os pés se separaram, vibrando incontroláveis como o som, aproximando-se de Luma lentamente, como se temesse que fosse apenas uma miragem, e que qualquer movimento brusco a faria tremeluzir e sumir.

Porém era real. Era muito real. O que ficou claro com o impacto de seu abraço. Após decidir finalmente, que aquilo não era um sonho, uma miragem, e viera correndo por uns três metros, apertando-a contra seu corpo no final do trajeto, tão forte que Luma ouvia seus batimentos cardíacos, que se acalmavam devagar.

– Ah, Luma, Luma! — afirmou levantando-a com facilidade, contraindo os músculos do braço

Colocou-a com delicadeza no chão, aproximou-se, deixando de sorrir um pouco, pousou uma mão em se rosto e examinou-a com os olhos tremendo. Finalmente. Finalmente era real. Agarrou-lhe o pescoço com afeto, com as duas mãos. Seus olhos dançavam, se tocando delicadamente. Mas, para desespero de Luma, suas mãos se afastaram. Não era mais real. Lentamente, a ilusão de que aquele seria o momento foi se desvanecendo, como um desenho na areia atingido pelas ondas. Ele continuou a olhá-la, com aquele meio sorriso no rosto. Então seu olhar se desviou, pousou sobre suas mãos, que ainda brincavam com a flor deixada por ele.

– Essa... Essa flor... Fui eu... Eu que... — as palavras saíam com dificuldade, se atropelando no caminho

– Sim — Luma disse, percebendo o quase susto que sua voz lhe causou -, você deixou para mim. São lindas. Obrigada.

Luma continuou sorrindo para ele, enquanto sua face apresentava um breve pânico.

– Você... Leu o cartão? — perguntou, solene

– Cartão? — ecoou ela — Droga! — era isso, acabando com a calma do momento, Luma se odiava por ter esquecido — Esqueci. Desculpa.

– Não, tudo bem... — respondeu Adam, sem deixar transparecer o alívio

Ele continuou a olhá-la como se a qualquer momento fosse terminar a frase. Mas não o fez.

– Bom... Você se lembra o que estava escrito? Quer dizer, supondo-se que minha mãe não jogou fora junto com a embalagem para colocar as flores em um vaso, ele ainda está lá em casa. A duas horas daqui. Então... Se você se lembrasse... Bem, isso seria bom. — ela sorriu, casualmente. Por sua vez, sem deixar transparecer a ansiedade em saber o que o cartão dizia.

Ele pensou com cuidado na resposta que lhe daria, como se fosse um teste.

– Não, eu... — ele passou a mão pela nuca, em um caldeirão de vergonha e nervosismo — Bem, dizia algo sobre eu querer que você ficasse bem logo e que eu estaria te esperando. I-isso é tudo. — sorriu brevemente

– Ok. — Luma respondeu, claramente insatisfeita

– Ah, e eu descobri. Fui eu quem descobriu e dedurou Annie por ter te atacado. Era Sangue de Gór..

– Eu sei. — a garota o cortou

– Como sabe? Já te contaram?

Luma lembrou que ele não tinha como saber que ela o ouvia, deitada ali na cama do hospital, enquanto ele se declarava a ela.

– Hã... Sim. É... Foi. — respondeu

Ele sorriu novamente, praticamente rindo de algo que viera em sua mente.

– Senti tanta falta de você. Tanta.– disse, revelando no que pensava

– E eu de você. — ela sorriu com sinceridade, prometendo a si mesma esperar que ele se declarasse novamente, afinal era o que ele havia dito que precisava fazer. Como não o diria nada, pelo menos poderia tentar mostrar-lhe o que sentia sem palavras, para encorajar-lhe. E foi o que fez com aquele sorriso, aquele olhar.

Notas finais
Oi, gente (: Faz algum tempo que não escrevo, eu sei. Estou precisando de algum incentivo aqui, queria pedir para, se gostam da história, por favor recomendarem. Isso me ajuda a receber mais leitores e tudo. Obrigada, gente