O Filho do Inventor
35 Capítulo 35 - Adam & Luma
No fim do dia, chegaram ao Acampamento. Exaustos, demoraram para subir o monte até o pinheiro de Thalia. Ao alcançarem o topo, se sentiram extremamente aliviados, pois estavam em casa novamente. Tudo que Luma conseguia pensar era "Aquele dragão sempre esteve ali?", ao olhar o corpo comprido e sonolento do dragão que dormia envolvendo a árvore de Thalia, com o velocino pousado em seu galho mais baixo.
– Eles voltaram! — anunciou Travis Stoll
Muitos semideuses se aproximaram para saber o resultado da missão.
– Tivemos êxito! — anunciou Adam, provocando uma grande comemoração do público
Avançaram por entre a multidão de semideuses eufóricos, que os parabenizava. Chegaram até Quíron, que os observava de longe, depois de todos aqueles adolescentes.
– Precisamos conversar, Quíron.
Quíron não pareceu estranhar a situação. Os levou para a Casa Grande, onde sentaram-se numa vasta mesa oval de reunião.
– Muito bem... — disse Quíron ao transformar seu traseiro em uma cadeira de rodas — O que querem me dizer?
Então lhe contaram a trajetória da missão. Contaram-lhe sobre o primeiro encontro com Ártemis, sobre Ângelo, sobre Téfra, o encontro com Apolo, o encontro com Ares, a estada no Olimpo, a conversa com Zeus, a separação de equipes, os poderes descobertos, a conversa com Hermes e seus presentes, sobre a conversa com Afrodite, a com Hera e a com Atena, Adam contou sobre todas as noites em que passara agonizando de dor nas costas, com a certeza de que alguém estava abrindo-nas, contaram sobre o submundo, o segundo encontro com Ártemis, a luta no Parthenon, sobre Thalia, sobre Fran, sobre Perséfone e o terceiro encontro com Ártemis, contaram sobre as asas de Adam, sobre as promessas às deusas, sobre os Pássaros da Cítia e, finalmente, sobre o sumiço de Isis, Ângelo e Téfra.
– Hum. Eu vejo que vocês querem permissão para ir atrás de Isis Galagher, certo?
– Exato. Estamos muito preocupados com ela. — disse Luma
– Bom, eu não posso concedê-la, infelizmente. Mas entendo o ponto de vocês, então vou mandar uma equipe de busca atrás dela. Vou mantê-los atualizados, fiquem tranquilos.
Luma lutou para não exigir mais. Ela sabia que Quíron não podia fazer nada, que ele se importava e que devia estar agradecida por ele mandar uma equipe de busca. Mas não estava. Por dentro, estava desesperada por Isis, era uma pessoa tão boa e leal. Estivera em seu lado nos momentos mais difíceis e confusos, e também nos melhores que já vivera. Mas, enfim, disse:
– Tudo bem. Não se esqueça de nos informar.
Então levantou-se e partiu.
Apesar de não conhecê-la quase nada, os outros filhos de Apolo a receberam muito bem. Mas ela mesma não estava bem. Jogou a mochila na cama e recostou o arco de Ártemis com a aljava na lateral do criado-mudo e deitou-se, pensando em Isis. Mas fora distraída por alguém muito feliz.
Brian vinha correndo.
– Luma! Eu consegui! — ele se ajoelhou ao lado da beliche
Luma se sentou esperando as boas notícias.
– Lisa me beijou!
– Ah!! Jura? — ela animou-se de repente
– Sim! Depois te conto tudo, vou lá com ela agora. — ele se levantou e disse, sorrindo: — Estamos namorando!
Então Brian deixou o chalé.
Aquilo a havia animado por um momento, mas depois só a fez pensar em Adam. Embora o ciúme e a mágoa que sentia antes houvesse passado, ela ainda não sabia o que pensar sobre isso. Quer dizer, e se ele resolvesse ficar com Thalia depois daquilo tudo? Ou será que fora apenas uma recaída, ou um ponto final para a história dos dois?... Sua cabeça doía, então saiu para pensar.
Sentou-se no deque e pôs os pés na água. Já era noite e o Acampamento estava tão quieto. Dali a pouco haveria o jantar. Observou as nereidas brincando umas com as outras, com seus lindos cabelos flutuantes. Observou seu reflexo. Nunca fora do tipo de garota que se depreciava, mas o que havia de tão errado com ela? Será que Thalia era tão mais bonita assim? Não teve chance de reparar, embora tivesse uma breve imagem dela. Deuses, por que ela é tão linda?, pensou Luma, agitando os pés lentamente sobre seu reflexo. E então, enquanto pensava que Adam não parecia ser o tipo de cara que gostava das garotas só pela beleza, ele se sentou ao seu lado, no deque. Sorria, a olhando. Ela não o olhou de volta, para que ele não percebesse a mágoa em seu olhar. Mas ele conseguiu e parou de sorrir.
– O que foi, Luma? — perguntou, preocupado
– Nada... É só que... — ela decidiu não falar nada, balançando a cabeça
– É só que... O que? — insistiu ele
– Ah, eu me sinto mal com uma coisa aí... — ela não tirava os olhos da água
– Isis?
– Sim. — mentiu
Então ela o olhou. Cara, por que ele tinha de ser tão bonito? Os cabelos negros caíam em seu rosto, casualmente. Sua pele morena combinava tão bem com a camiseta do Acampamento que Luma ficava feliz de vê-lo usando-a o tempo todo. Seus olhos... Ah, deuses, seus olhos... Eram tão expressivos e profundos, mais negros que o mais fundo oceano. E seus lábios... por que o tempo todo a ocorria de beijá-lo? Mesmo que se estivesse falando sobre algo nada a ver, até algo triste, sua cabeça insistia fervorosamente para que o beijasse. Ele abriu a boca e ela tentou afastar os pensamentos sobre sua beleza.
– Não fica assim. — disse sério, abraçando-a — Vamos achá-la e vai ficar tudo bem.
A combinação do Toque Gentil com a firmeza nas palavras de Adam a acalmaram.
Ali, deitada em deu peito, envolvida em seus braços, todas preocupações acabaram. Afinal, estavam ali para serem treinados, não é? Treinados heróis. Era forte a esperança de encontrá-los sãos e salvos, derrotar o sequestrador, ou sei lá e voltarem vivos. Claro. Por que seria diferente? Devagar, Luma abriu os olhos, anestesiada pelo toque de Adam. Sorriu um sorriso fraco, porém claramente muito feliz. Adam a acompanhou e deitou-a em seu colo. E ali ficaram, Luma deitada em seu colo, recebendo carinho na lateral de seu tronco, olhando as estrelas e pensando sobre o quanto aquele garoto a fazia feliz.
Quebrando o silêncio, Ártemis apareceu. Não, você não leu errado e eu não confundi o capítulo. A deusa apareceu, apontando para Adam.
– Você! — ela se aproximou — Se quer me tirar a minha melhor Caçadora terá de lutar comigo.
– Do que você está falando?
– Eu não sou tola, mocinho! Sinto quando uma Caçadora trai minha confiança com um... Um homem. — ela estava realmente furiosa, enojada
– Esquece isso! Essa história acabou, pode ficar com a sua Caçadora!
Adam se sentia indignado pelo jeito que a deusa tratava aquelas jovens garotas. Claro, a escolha de se tornar uma Caçadora era delas, porém eram privadas de tudo. Isso não podia ser bom, não podia ser normal. Eram objetos, brinquedos de Ártemis.
– Eu já vi muitas delas partirem, sucumbirem ao desejo do sexo oposto. Já cheguei a entender e não tentar matá-la, mas nunca, NUNCA a deixaria voltar para a Caça!
Adam de repente se sentiu culpado. Havia estragado a vida de Thalia, tirando-a de tudo que tinha até ali para depois deixá-la ao relento, já que aquele episódio todo só o ajudara a entender o fim que aquela história deveria ter. Porém, anteriormente achava ser uma final feliz, e agora via que não era — não para ela. Por mais que não entendesse o porque de uma garota nova como ela ter entrado para a Caçada, Thalia gostava de ser uma delas. E ele a havia tirado isso. Mas respondeu:
– Pois então abra uma exceção! Eu não tirei ninguém de você, você mesma é quem a está afastando.
– Nunca! Tenho de manter minha dignidade, minha imagem. Mas sou uma deusa justa. Você nunca conseguiria me vencer sem a ajuda de um outro deus, então se me derrubar ou derramar icor, já vale. — disse Ártemis, indignando o garoto
– Não parece muito justo para mim afastar Thalia de algo que ela adora fazer por uma estupidez que cometi, mas que se não tivesse cometido, isso não teria acabado. Eu ainda estaria apaixonado por ela, e ela ainda confusa sobre tudo isso. Mas acabou! Você não entende não é? Não sabe como é amar alguém!
Por sorte, tinha acabado de voltar de um treino, estava com sua foice. Pegou-a e avançou.
Assistir àquilo era extremamente doloroso para Luma. Após um momento de ilusão, Adam arriscava a vida por causa de outra. Talvez fosse egoísmo, ela já percebera que ele não se ligava mais à Thalia como antes, mas se sentia realmente diminuída. E, por um lado, ele havia dito que tudo tinha acabado. Por outro, havia dito que a amava. E talvez a primeira frase não fosse sincera, fosse só para afastar a deusa, para não ter de lutar com ela. Ártemis tinha flechas e arco iguais aos de Luma e isso a preocupava ainda mais, pois ela sabia do que eram capaz.
Após uma rápida e desafiadora investida de Ártemis, Adam convocou sombras aos pés da deusa, que rolou para o lado como a coisa mais simples do mundo. Levantando-se rápido, Ártemis tentou flechá-lo, sem sucesso, pois o herói rebatera a flecha com sua foice. Erguendo as mãos, Adam convocou um esqueleto, que partiu para o ataque à Ártemis. A deusa, por sua vez, escalou com facilidade o tronco mais próximo, atirou na cabeça do esqueleto e pulou para a próxima árvore. Adam tentou segui-la libertando suas asas e voando até ela, porém, a deusa também era muito rápida e ágil, e novamente trocou de árvore. Adam tentava segui-la e atacá-la sem sucesso, já que perdia tempo se esquivando de suas flechadas. Tempo que Ártemis usava para pular para outra árvore. Talvez não fosse tão impossível vencê-la, mas para isso era preciso alcançá-la primeiro.
Adam pousou e Ártemis pulou ao chão, à dez metros dele. Os dois corriam ao encontro um do outro, Ártemis com um sorriso e Adam brandindo sua foice, cego pela culpa de tudo que havia causado. Traçou uma linha horizontal à sua frente, na direção da deusa, que apenas deu um salto mortal acima de sua cabeça e seguiu correndo, escalando uma árvore às suas costas.
– Pare de fugir para cima das árvores! — gritou Adam, furioso
Abriu suas asas e voou até Ártemis. Desta vez, ela estava parada, não tentava flechá-lo ou fugir, apenas o assistia. Ele esquivava-se dos afiados galhos do pinheiro, quase alcançando o topo, porém Ártemis bolara um plano: atirou uma de suas flechas prateadas a dez centímetros à esquerda de Adam, que se esquivou para a direita, sem prever que não conseguiria desviar do próximo galho, que arranhou gravemente o couro pela metade de sua asa esquerda. Em espiral, caiu no chão. Luma correu até ele enquanto a deusa descia alguns galhos e preparava novamente seu arco. Ártemis apontou uma flecha. Era uma questão de nanossegundos até que ela o matasse. Luma, então, o alcançou, o que Ártemis não previra.
– Luma! — gritou Adam, apontando para sua perna ao recuperar-se da dor
Então Luma viu. Sua coxa não estava apenas espetada pela flecha, mas estava perfurada, de lado a lado, jorrando sangue. Luma queria gritar, sentiu a adrenalina tomar conta de si, aterrorizada pelo acontecimento. Então Adam desistiu de voar, mas usou suas asas de apoio, o impulsionando pelos galhos até Ártemis duas vezes mais rápido.
– Sua vadia! — gritou
Quando Adam estava na metade da árvore, a deusa atirou-lhe outra flecha e pulou de volta ao chão. Desta vez o acertara no ombro esquerdo. Ele planou até ela com dificuldade e lutou mais feroz, os olhos embaçados de raiva. Então, por uma fração incalculável de segundo, Ártemis não se esquivou com êxito da investida de Adam. Ele arremessou a foice como um bumerangue, mas sem que voltasse. Fora um arremesso bem ruim, considerando que Adam era canhoto e o havia feito com a mão direita, por causa do ombro ferido. A foice planava girando, e Ártemis não se esquivara o suficiente. Embora fosse um ferimento mínimo, estava feito. Um gota de icor dourado surgiu em seu braço e rugindo furiosa, Ártemis, transformou-se em uma grande ursa e correu Acampamento afora.
Adam correu até Luma.
– Luma, como você está?
– Como se tivesse um buraco na minha perna! — respondeu desesperada
Ele a levantou, apoiou-a em seus ombros e a levou até a enfermaria. Em questão de minutos, não havia mais flecha, apenas um túnel vazio de quatro centímetros de diâmetro em sua perna para se cicatrizar.
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Quando acordou, Luma estava deitada na maca com um copo de néctar ao seu lado. Recostava a cabeça, exausta. Sua coxa havia sido enfaixada.
Na maca ao lado, Adam, com o meio da asa direita enfaixado, assim como o ombro esquerdo.
Em outras circunstâncias, Adam estaria feliz por ter dormido sem aquela horrível dor nas costas, que dera lugar a suas asas, porém esta dor fora substituída pela dor do ombro e do corte na asa.
– Luma? — disse, animado por ela ter acordado, enfim
Ela o olhou.
– Que bom que você está aqui. — disse, sonolenta
Eles sorriram um para o outro.
– Sinto que lhe devo explicações... Sobre a luta com Ártemis.
– É, eu meio que já entendi, está tudo bem.
Ele sorriu. Ela tomou um gole de néctar.
– Essa coisa não para de doer! Por mais que eu beba... — Afirmou casualmente, frustrada pela dor sem fim
Adam levantou-se e se aproximou. Descobriu a perna machucada. O local estava enfaixado, com uma mancha de sangue no meio. Suas mãos se pousaram sobre as coxas de Luma, uma abaixo e outra acima do curativo.
Ela o olhou, agradecida, enquanto ele se concentrava (demais) na cura de sua perna.
– Assim é melhor. — suspirou — Obrigada.
Adam fez uma nota individual: tinha de começar a se arriscar mais por aquela garota.
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