O Filho do Inventor

41 Capítulo 41 - Sheri


Sheri passara todos os dias na sala de espera em frente ao quarto 142 para dar privacidade às visitas de Luma. Passara todas as noites no quarto da filha, com ela, atenta para o caso de ela acordar.

Mas naquela, em especial, decidira buscar um café para si. Afinal de contas, sua filha não acordaria sem ela ali, certo?

Errado.

– Senhora? — chamou o médico, interrompendo seu pedido

– Só um minuto, sim? Preciso de um café. — respondeu, exausta

– Tudo bem, mas não acho que sua filha vai querer esperar nem mais um minuto sem você no quarto.

– Relaxe, homem! Estive com ela todo este tempo, não acho que ela se incomodaria se eu saísse para um café.

O funcionário da lanchonete assistia à discussão, entediado.

– Na verdade, acho que ela ficou bem incomodada.

– O que quer dizer com isso? — de repente, ela não se importava mais com o café; seria alguma complicação?

– Siga-me e veja com seus próprios olhos.

Então Sheri o seguiu de volta ao quarto 142, onde Luma estava de pé, encostada na cama, conversando com Jerry Frieman, o médico alto e negro, com lindos olhos azuis, o responsável por seu caso. Aparentemente falavam sobre a banda que passava no momento, Accept.

– Luma! — gritou Sheri — Você acordou! — exclamou, animada

– Mãe! — Luma começou a chorar. Passara tantas noites assistindo à mãe chorar por ela, e, por mais que não fosse muito de seu feitio pedir ajuda ao ex ou olhar demais para trás, rezar para que Apolo a curasse

As duas se abraçaram e se sentiram aliviadas de poderem fazê-lo de novo.

– Obrigada, doutor Frieman. — Sheri sorriu para ele

– Sem problemas, senhora. Fico feliz em vê-las felizes novamente e saber que cuidei de alguém com um gosto musical tão bom. — Jerry piscou para Luma e, por um segundo, seus olhos se tornaram dourados, como os dela

Apenas por aquele segundo ela pensou que, talvez... Não, não podia ser, era loucura.

Luma e sua mãe recolheram as coisas que ela recebera e foram para casa.

Ao chegar, Luma se sentiu tão aliviada por estar lá novamente. Fazia tanto tempo que não sentia o aconchegante cheiro de madeira que o piso exalava. E, embora já fosse Outono, ela sentia falta do velho sofá que, ao fim da tarde, esquentava por ter passado o dia inteiro embaixo da janela, enquanto o sol penetrava por entre o estofado. Sentia falta de seu violão, do sanduíche de atum ou patê de frango de cada dia...

– Voltou, meu amor? — indagou Bruce, sem olhá-la sentado nas banquetas do balcão da cozinha, trabalhando em seu notebook

– Voltei, sim. Com Luma desta vez.

Bruce apenas a olhou e piscou algumas vezes, como se tivesse dúvidas. Seria uma brincadeira? Mas passou a acreditar na mulher quando Luma entrou, atrás dela. Quase caiu da banqueta, gaguejando:

– L-Luma?

Correu até ela com um imenso sorriso e abraçou-a. Luma também sentia saudades de sua respiração quente em seu cabelo e sua barba mal-feita arranhando sua testa.

– Seu cabelo está incrível, filha! — e depois olhou-a como se fosse um erro chamá-la assim depois de toda aquela confusão

Mas Luma apenas sorriu e disse:

– Obrigada, pai.

Ele voltou a abraçá-la.

Assim que pôde, Luma foi tomar banho. Outro alívio, após dois meses tomando banho de bucha por enfermeiras que não sabiam seu sabonete favorito.

Pêssego. Finalmente, sabonete de pêssego e shampoo de menta. Ao sair do banho e acabar a bela hidratação que fizera em seu cabelo, secou-o pensando que estava mesmo incrível. Voltou ao seu quarto e vestiu-se. Ah, que saudade daquela jeans preta... Daquela camiseta do Metallica... De suas meias favoritas... Ah, que alívio! Como esperava ficar em casa, passou apenas um rímel, porque estava mesmo com saudades de se maquiar. Depois, passou um tempo tentando fazer as unhas e, percebendo que seus movimentos ainda não estavam 100%, desistiu. Então sua mãe chamou escada abaixo:

– Luma, correspondência!

Desceu as escadas, foi até a mãe, na sala e pegou as cartas para ela. Começou a abri-las. A maioria delas eram apenas um envelope escrito algo como "Melhoras! Com amor, titia." com cupons para produtos como Frozen Yogurt, Smoothies, Café, livros, LPs da loja de antiguidades da esquina e velas da "Loja de Velas do Paul". Então, um lindo envelope detalhado em dourado parou em sua mão. Atrás, estava apenas escrito "–Papai". Um sorriso se esboçou no rosto de Luma. Voltou ao seu quarto para lê-las.

"E aí?

Foi bom vê-la de novo. A você e a sua mãe. Foi bom saber que valeu à pena cuidadosamente criar você de longe, já que continua com o bom gosto musical de sua mãe.

Se está lendo esta carta, bom... Isto só significa que você está bem. Fico feliz em saber, já que, mesmo sendo um pai distante e não podendo estar aí para te dizer isso, eu queria. Queria mesmo poder criá-la como qualquer outro pai.

Bom, espero que goste do presente. Eu mesmo fiz.

Com amor,

Apolo.

PS.: Queria muito poder cuidar eu mesmo daquela garota que lhe fez isso, mas não posso, infelizmente.

PPS.: Agora que já está bem, volte a me mandar pizza."

Luma sentiu os olhos lacrimejarem. As bochechas já doíam de tanto sorrir. Apertava o pingente em seu pescoço enquanto lia a carta. Pegou novamente o envelope, o abriu e balançou, de cabeça para baixo, para descobrir qual fora o presente de Apolo. Em seu colo, uma palheta caiu.

Ela a pegou, cuidadosa. Era toda de marfim, com detalhes dourados próximos às arestas. Em um lado, tinha escrito "Απόλλων", Apolo em grego e, do outro "Λύμα", Luma em grego.

Havia também uma réplica, com um furo para que ela o colocasse em seu colar. E foi o que fez.

Então pegou novamente o envelope. No verso da língua, estava escrito, bem pequeno e quase da mesma cor do papel:

"PPPS.: Tem mais. Põe a mão aí."

Luma achou a mensagem estranha, mas obedeceu. Colocou a mão dentro do envelope, que era bem mais fundo que ela achou possível. Sentiu algo. Aparentemente de plástico, tinha duas pontas, uma delas era mais arredondada. Tinha várias outras pontinhas, nas laterais também arredondadas. Luma puxou o objeto e, magicamente, uma guitarra saiu de lá. Não era qualquer uma, era a guitarra conhecida como Cloud Guitar, que o próprio Prince usara. Claro, não era seu guitarrista favorito, mas a guitarra era linda, branca, com formas arredondadas como uma nuvem e detalhes dourados.

Como podia ser? Uma guitarra famosa, aparentemente dada a Prince por seu pai e, agora, dada à ela. Mas ela não tinha feito nada demais como ficar famosa e conseguir cantar agudo como Prince. Não. Apenas tinha entrado em coma.

– Mãe! — gritou, inconformada — Mãe, corre aqui!

Após alguns segundos, a mãe apareceu, acompanhada de Bruce em sua porta.

– O que foi, filha? — perguntou, preocupada

Luma apenas continuou olhando para a Cloud Guitar de Prince.

Após seguir seu olhar, Sheri disse:

– Ah, meu Deus! — não, ela não disse, ela gritou.

Aproximou-se com cuidado e passara a mão nas cordas, muito delicadamente.

– Onde conseguiu isso, filha? — perguntou, abismada

– Apolo... — não conseguiu acabar, olhou brevemente para Bruce

Tudo bem, ele também estava chocado com a guitarra.

– Posso? — disse Sheri à filha

– Claro.

Sheri pegou a guitarra, colocou-a no colo, conectou-a ao empoeirado amplificador do violão de Luma, que ela quase nunca usava, tirou uma palheta preta comum do bolso, ajeitou os dedos e começou a tocar. Em poucos segundos, Luma sorriu, reconhecendo a música. Era nada mais, nada menos que Fear of The Dark — Iron Maiden.

Cada pelo do corpo de Luma se arrepiava e, apesar do transe que a música a colocou, ela cantou a música, ao lado de sua mãe.

I am a man who walks alone

And when I'm walking in a dark road

At night or strolling through the park

When the light begins to change

I sometimes feel a little strange

A little anxious when it's dark

Fear of the dark, fear of the dark

I have a constant fear that something's always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there

Have you run your fingers down the wall

And have you felt your neck skin crawl

When you're searching for the light

Sometimes when you're scared to take a look

At the corner of the room

You've sensed that something's watching you

Fear of the dark, fear of the dark

I have a constant fear that something's always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there

Have you ever been alone at night

Thought you heard footsteps behind

And turned around and no one's there?

And as you quicken up your pace

You'll find it hard to look again

Because you're sure that someone's there

Fear of the dark, fear of the dark

I have a constant fear that something's always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there

Fear of the dark (8x)

Watching horror films the night before

Debating witches and folklores

The unknown troubles on your mind

Maybe your mind is playing tricks

You sense, and suddenly eyes fix

On dancing shadows from behind

Fear of the dark, fear of the dark

I have constant fear that something's always near

Fear of the dark, fear of the dark

I have a phobia that someone's always there
(2x)

When I'm walking in a dark road

I am a man who walks alone

Após um momento para recuperar todos do choque que o limpo som da nova guitarra proporcionava, Sheri perguntou para a filha, como se arrependesse-se amargamente de tê-lo feito:

– Você quer voltar para o Acampamento, filha?

Sheri estava exausta, mas, como sempre, disposta a fazer a felicidade da filha.

– Não. Não hoje. Quero dormir em casa. — respondeu sorrindo

Sheri passou a mão pelos cabelos da filha e então desceu para fazê-la brownies. Claro, ela não era a melhor cozinheira do mundo, mas todo mundo sabe fazer brownies de caixinha. E os de Sheri ficavam uma delícia.

Enquanto isso, no quarto, Luma tentava ensinar guitarra à seu pai, Bruce.

Notas finais
ta tudo parado de novo, né gente? Desculpa, já melhora ok? (: Não se esqueçam de comentar o que acharam e de, se gostam da história, acompanhar, favoritar e recomendar. Obrigada, gente. De coração (: