O Filho do Inventor

28 Capítulo 28 - Adam & Audrey & Luma


Seguiram por um macabro caminho. Sem muitas surpresas, afinal, estavam no submundo, não poderia ser melhor.

Cruzaram um cão gigante (a quem a quase presença de Hermes e Tânatos conseguiu enganar), milhares de almas perdidas e tristes, e duvidaram que aquilo poderia dar em qualquer lugar. Mas enfim avistaram um cenário diferente; um jardim. Pertencente à deusa representante da Primavera, não havia a possibilidade de ser menos bonito do que era. As flores — que mesmo sem luz do dia — cresciam sobrenaturalmente e brilhavam no escuro do local, dando ao submundo um canto iluminado e agradável. Ou quase. Era só pisar nas terras incrivelmente férteis dos Jardins do Éden para que uma fome surreal o tomasse. Não uma fome normal, uma fome de um só elemento. O que poderia ser? Passaram a imaginar dezenas e dezenas de alimentos diferentes, mas nenhum parecia capaz de satisfazê-los. Então, mas à frente, uma grande árvore os mostrou o misterioso elemento de que tanto sentiam necessidade. Romãs. Os mais suculentos e vermelhos frutos, na mais frondosa e bela árvore. Ela simplesmente se destacava, e a vontade de pegar uma romã e comer era aparentemente impossível de resistir. Os olhos de Luma brilharam. Só uma. pensou E então voltamos à missão. Três passos foi o máximo que conseguiu dar, pois Adam a segurou pelo braço, impedindo-a de cometer um grande erro.

– Não, Luma. — disse, sério

– Eu vou comendo. — Luma começou a lutar, tentar à força tirar as mãos de Adam de seu braço — Não vamos perder tempo, eu juro!

Ela quase chorava. Por dentro, seus músculos se contorciam de fome. A dor da trapaceira vontade de apenas uma mordida sequer em uma romã. Finalmente, se soltara. Corria em direção à árvore, acima de um pequeno morro. Novamente, sem sucesso. Adam correu e agarrou-lhe os dois braços.

– Luma, preste atenção!

Seu grito firme pareceu tirá-la do transe por algum segundo. Ela se virou para ele, confusa.

– Um mordida nestas romãs...

– É tudo o que eu peço, Adam, me deixa! — ela voltava a lutar

Ele a sacudiu

– Me escuta! — e continuou — Uma mordida e você já era. Você automaticamente se junta a uma destas almas. É isso que você quer?

– Não. — Luma choramingou e bateu o pé

– Nem eu. Então, resista!

Ele folgou as mãos. De repente, Luma acordou. Seus braços doíam de tanto que Adam os agarrara para que ela não fosse capaz de alcançar a romãzeira. Ele a encarava com os negros olhos profundos. Ela nunca o vira tão sério. Sua expressão mudou sutilmente, parecia perguntar-lhe se podia confiar nela agora, se não iria fugir. Adam a soltou devagar e seus pensamentos se acalmaram, assim como sua respiração. Talvez houvessem gastado muito tempo se encarando e pensando no que acontecera, nos sentimentos que os atacavam — não só sobre as romãs -, pois quando viram, quem estava atacando árvore era Audrey.

– Audrey! Não! — gritou Luma

Ao lado de Adam, ela correu até lá.

– O que você está fazendo!? — perguntou Luma

– Ai! Relaxa, eu ouvi a explicação de Adam. — Audrey levantou as mãos, segurando grandes romãs

– Então o que está fazendo com essas romãs? — interrogou Adam

– Apesar da vontade de comê-las... — ela as olhou, faminta — Estou só levando estas duas. Afinal, um poder tão grande pode ser muito útil.

– Ela tem razão. — observou Adam — Uma romã espetada numa flecha goela abaixo de qualquer monstro e pronto, energia poupada.

– Uau, como são espertos meus visitantes. — disse uma majestosa e delicada voz

Atrás deles, Perséfone. Cara, como as deusas são bonitas! Ela tinha o rosto mais jovem que já haviam visto dentro as deusas que visitaram. Tinha a pele branca como a de Luma e o rosto delicado de uma flor. Olhos amendoados, lábios pequenos e delicados e bochechas levemente rosadas decoravam sua limpa pele. Tinha cabelos claros até os tornozelos, que a davam um ar natural. Eles refletiam a luz do Jardim em verde, rosa e laranja. Ela usava um comprido e leve vestido cor de rosa, com o busto trançado com dourado e branco perolado. Um bracelete dourado no braço e flores no cabelos. Além dos adornos, ela estava descalça.

– Pe-Perséfone, senhora... Nós viemos conversar com... a senhora. — disse Adam, nervoso

– Tudo bem. — ela agitou uma das mãos. Imediatamente, raízes trançadas adornadas por flores imergiram do chão dobrando-se em forma de banco. Perséfone, sentando-se, disse: — Comecem.

– Hã... — eles se entreolharam — Bem, como você sabe há uma luta no Olimpo. Entre Atena, Afrodite e Hera.

Perséfone ouvia atentamente.

– O que eu tenho a ver com isso?

– Bom... Se tudo der errado e elas acabarem lutando de fato, não há a possibilidade de três meros semideuses ganharem de três grandes deusas, então, nós achamos que você é a mais adequada deusa para nos ajudar.

– Ta... E o que faz vocês pensarem que eu quero ajudar vocês?

– Talvez você não queira exatamente nos ajudar, mas o que você faria para sair daqui? Para ter um dia a mais ao ar livre?

Perséfone mostrou-se pensativa. Com toda certeza, levava em consideração a oportunidade de sentir novamente a luz natural em seu rosto, o vento em seus longos cabelos, e até mesmo a voracidade de lutar, coisa que não fazia há séculos.

– Faria qualquer coisa. — disse Perséfone, afinal — Qualquer coisa para sair daqui. Quer dizer, claro, amo Hades, mas vocês têm noção do que é ser a representante da Primavera e ser presa em um lugar escuro e frio? É horrível!

– Um grande motivo para nos ajudar, senhora. — disse Luma — Quem sabe assim sua mãe e seu marido enxerguem que você é independente e responsável o suficiente para ir e voltar quando quiser?

– Vocês têm razão! Vou ajudar vocês!