O Filho do Inventor
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Ela se sentia muito diferente, como uma completa mudança de visual, mas não conseguia se ver.
– Estou!? O que é? — Audrey perguntou, animada, apontando para a luz acima da cabeça
– Uma lua. E tem uma linda luz prateada.
– Mas então… Sou filha de Ártemis?
– Claro que não! Ártemis não tem filhos, por isso ela não reclama ninguém. Este símbolo foi adotado pela deusa-personificação da noite, Nyx. — ele a segurou pela mão — Venha, temos de mostrar aos outros, ou Quíron não deixará você mudar de chalé.
Eles saíram correndo. Estavam a uma boa distância do anfiteatro, então Audrey teve uma ideia. Parou, mentalizou a sombra que a fogueira gerava em seu redor, saiu correndo, arrastando Jeff pela mão e pulou. Tinha feito de novo. Ao emergir, esquivou-se rápido para ter certeza de que não estava perto demais do fogo. A luz já estava quase no fim e todos olhavam pasmos. "Que diabos acabou de acontecer ali?” todos pareciam se perguntar.
– Audrey Love, — anunciou Jeff — filha de Nyx, a personificação da noite, filha do Caos e mãe de Éris, deusa da discórdia, patrona das feiticeiras e bruxas, deusa dos segredos e mistérios noturnos, rainha dos astros da noite.
Filha do Caos, mãe da deusa da discórdia, feiticeiras e bruxas… Aquilo não parecia ter muito a ver com ela, mas ela estava feliz, sempre gostara dos “astros da noite” agora era filha da rainha deles. Os poucos filhos de Nyx se levantaram e a ajudaram a levar as coisas para o chalé 28, o chalé de sua mãe.
Por fora era escuro, uma cor indefinida. Azul-marinho, roxo, preto… Era exatamente como o céu à noite. Uma grande e central Lua estava disposta acima da porta. Diversas estrelas enfeitavam a fachada. Dentro do chalé, Apenas a parede do fundo era branca, o que quase não se conseguia ver, pois estava coberta com posteres de astronomia, as demais eram azul-marinho, com constelações desenhadas e observações escritas à mão. Havia uma mesa com poções e as beliches tinham cobertores azuis. Do teto pendiam miniaturas de planetas, muitos deles desconhecidos pelo ser humano, mas que Audrey facilmente reconheceria.
Um menino com ares misteriosos apontou uma cama abaixo de Saturno, encostada na constelação de Orion. Ela foi em sua direção observando a escrivaninha com poções. Havia um espelho. Ela o pegou e se dispôs a frente de seu rosto. Se olhou e tomou um susto. Sua pele estava inteiramente roxa, seus olhos de um amarelo venenoso, como os de uma cobra. Uma aura prata a rodeava, cintilante. Ela quase o deixou cair, mas o garoto misterioso o pegou no ar, se movimentando como uma sombra, como um vulto.
– Cuidado.
– O q-que…? — Audrey não conseguia falar.
– Acalme-se, este espelho é encantado, te mostra sua alma, mostra o que você é por dentro. Se chama Mátia (Μάτια), que significa “olhos”.
Era engraçado como ele dizia tudo sem expressão alguma, como se estivesse num video game com péssimos gráficos.
– Tá, e o que essa imagem representa?
– Esta aura em volta de você representa todos os seus poderes. — ele colocou o espelho na frente dela novamente. — Vê estes pontos minúsculos? Cada um deles é um traço ou poder. É como uma constelação.
A névoa rasa que a envolvia tinha de fato pequenos cristais pretos que lembravam flocos de neve para Audrey. Cada um era diferente.
– E por que a pele roxa e os olhos vorazes?
– Bem… É complicado dizer o significado de cada coisa em sua verdadeira aparência, mais tarde você pode procurar no livro de feitiços.
Ele apontou para um grande e antigo livro de couro em cima da mesa. Tinha escrituras em grego na capa. A “dislexia” de Audrey começou a misturar as letras e fazê-la entender o significado, mas o garoto chamou sua atenção.
– A parte mais legal de Mátia? — ele sorria. Não dava pra ver, mas sorria — Chalé de Hefesto nos deu uma mãozinha.
Então ele apertou um botão na lateral. O espelho tornou-se normal. Audrey se surpreendera também. Não sabia como era possível, mas seu cabelo estava três vezes mais curto. Em um corte chanel. Ela gostara na verdade, mas parecia muito mais atrevida, o que não era. Ou será que era? Ela talvez se sentisse assim um pouquinho. Lá no fundo!? Não sabia. Deu de ombros e foi dormir.
Na manhã seguinte, Quíron estava tenso e inquieto. Olhava para Luma o tempo todo durante o café. Parecia ter algo a dizer, algo difícil, como uma notícia ruim. E era para ela. Audrey fora dar um toque a ela após o café da manhã. Luma se dirigia ao treino de arco e flecha quando ela a parou.
– Ei, Quíron estava estranho, não acha?
– Sim, com certeza. Está me deixando nervosa.
– É, a mim também.
– Acontece que, como Isabel deve ter te contado, sonhos de semideuses são muito mais reais. Acontece… — ela sussurrou — que eu tive um sonho.
Luma estava prestes a contá-la, quando a mão de Quíron pousou-se em seu ombro.
– Luma. — disse ele, sombrio — Preciso falar com você.
Eles seguiram até a Casa Grande. O centauro mostrou-a onde sentar. Luma estava nervosa.
– Então… Eu recebi uma mensagem de Apolo.
– Meu pai? Ele falou com você?
– Sim. Mas antes de te falar sobre isso quero que você me conte o tal sonho, tudo bem?
O estômago de Luma embrulhou-se ainda mais com aquele pedido. Era frustrante saber que algo era super importante e não saber o que significava. O sonho era como uma continuação do outro, aquele com a pomba, o pavão e a coruja. Agora as três pareciam ter se juntado e um rato, uma serpente e dois corvos as confrontavam. Elas pareciam maiores e mais brilhantes, com uma aura dourada em seu redor, mais poderosas.
– Bom, isso parece como uma missão para mim. — disse Quíron, pensativo.
– Mas tem algo a ver com meu pai?
– Na verdade tem sim. Ele me informou que Afrodite, Hera e Atena voltaram a brigar. Você sabe, aquela briga que houve para ver quem era a mais bela. Obviamente, Afrodite ganhou, mas agora a guerra se estendeu para técnicas de guerra, inteligência, força, melhores poderes… Além da beleza, claro. Atena se recusa a brigar, está quieta em seu canto e é isso que a coruja em seu sonho representa. Atena quieta em seu canto quando Afrodite e Hera vêm atacá-la. Pelo jeito, você é a encarregada de ir falar com o oráculo, já que foi você quem teve o sonho.
– Mas… O que meu pai tem a ver com isso? — indagou Luma
– Aparentemente, foi ele quem fez com que Hipnos te levasse a ter este sonho.
– Por que?
– É algo para se pensar, não acha?
Obviamente, Quíron sabia a resposta, mas queria que Luma a descobrisse por si só.
Ele chamou Isabel, que a levou levou até o porão da Casa Grande. Uma menina ruiva fazia faxina. Ela usava uma bandana azul na cabeça e tinha uma vassoura na mão. Quando percebeu a visita sorriu e cumprimentou.
– Ei, como vai, Isabel? Novidades?
– Uau! Você está fazendo um bom trabalho aqui, hã?
– Ah, obrigada. Já era hora de alguém limpar aqui, não? Pobre María Di Angelo, "vivendo" naquela imundice que estava antes… Mas eu já havia me cansado de viver numa caverna também.
A luz do Sol irradiava no sótão e grãos de poeira dançavam no ar. Metade do chão estava livre de poeira, a outra, completamente suja. Móveis tinham sido arrastados até a frente da escada. Eram antigos e empoeirados como a metade do lugar, com vários espaços limpos nas prateleiras, como se estivessem cheios de objetos antes. Luma tomou um susto quando viu uma cadeira de balanço com o cadáver de uma mulher, como se estivesse mumificada, com teias de aranha nos globos oculares vazios.
Cavaletes, instrumentos de pintura como pincéis, palhetas, tintas diversas (em tubos, latas, sprays…) e uma escrivaninha, uma cadeira, uma cama, uma cômoda e um criado-mudo, todos coloridos. A parede do lado limpo do sótão estava pintada de um verde vivo e Luma estava feliz por nunca ter entrado naquele lugar antes da garota ruiva começar a limpar.
– Bom, na verdade eu tenho novidades. Parece que tem mais uma missão vindo aí. Tem recebido alguma profecia, Rachel?
– Na verdade não, mas algumas coisas atingem minha mente às vezes, como flashes, como lembranças, sabe? Uma guerra. Pequena, entre três mulheres poderosas, mas uma guerra importante. Suspeito que sejam deusas.
– Então está certa. Bom, esta aqui é Luma Valentine, a mais nova filha de Apolo do Acampamento Meio-Sangue.
A garota se aproximou, estendeu a mão e se apresentou.
– Sou Rachel Elizabeth Dare, mortal.
– Mortal? — Luma dizia enquanto apertava sua mão, olhou para Isabel — Ela devia estar aqui?
Isabel e Rachel riram.
– Não se preocupe. Estou aqui porque sou o Oráculo do Acampamento. Significa que o espírito de Delfos me toma de vez enquanto e me faz recitar profecias. Este é o meu trabalho aqui. Sempre vi através da névoa também, então eu sei muito bem o que cada um é.
– Ok. — Isabel bateu uma mão na outra, encerrando o assunto — Rachel, consegue uma profecia pra gente? — perguntou Isabel.
– Haha, vou tentar.
Ela pegou dois banquinhos roxos e os trouxe para o centro do sótão.
– Ei, você teve um sonho, certo? — perguntou Rachel, sentando-se.
– Sim.
Ela segurou as mãos de Luma e se concentrou. Luma também. Ficou se lembrando do sonho. De repente as mãos de Rachel se afrouxaram. Luma abriu os olhos e a garota flutuava, emanando luz verde dos olhos. Ela abriu a boca e a mesma luz, acompanhada de uma névoa saiu de lá também. Uma voz monstruosa reverberou-se no lugar. Dizia:
A Guerra da Maçã leva quatro heróis à aventura
Em dez rodas chega a ajuda
Ameaça vem da filha de tudo que já fora desejado
E o terror nas alturas
Trará o Filho do Inventor revelado
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