O Filho do Inventor
14 Capítulo 14
O sonho começou com um close num galho de uma árvore. Havia uma coruja. Uma pomba branca a atacou e ela caiu. Enquanto brigavam, já no chão, um pavão se juntou a elas. Luma não tinha certeza se corujas, pombas e pavões brigavam e muito menos o porquê. Os pássaros se afastaram, a pomba pousou nas costas de um javali e ele saiu andando, levando-a. A coruja voltou para seu galho, encolheu-se e dormiu e o pavão saiu voando. Luma não entendeu nada, então o sonho começou a mudar. A imagem se distorcia e tudo ficou preto. Havia uma pequena luz no fundo, que foi se aproximando. Um clarão ofuscou o olhar dela. Quando ela conseguiu enxergar novamente, havia um homem encostado em uma carruagem inteiramente dourada, assim como os cavalos que a puxavam. Ele parecia uma estrela de cinema. Era loiro e usava óculos escuros. Vestindo jaqueta de couro, cruzava os braços e sorria.
– Olá, Luma. – ele tinha uma voz profunda e melodiosa.
Luma se aproximou contra sua vontade e ele abriu os braços. Ela se afundou em seu peito enquanto ele a abraçava. Sua pele era muito quente, aconchegante.
– Você perdeu isto. – do bolso da jaqueta, o homem tirou o colar de Luma – Tome cuidado, eu não lhe deixei isto à toa.
Ela pegou o colar da mão dele.
– Pai? – agora ela se dera conta.
Ele tirou os óculos, mostrando os olhos extremamente dourados e brilhantes, exatamente como o sol, quase laranjas, incandescentes. Num primeiro momento, era difícil olhar para eles. Ele abriu os braços com orgulho e sorrindo brincalhão disse:
– Sim, e eu adoro pizza.
Luma riu.
– É bom te ver. Nenhum filho meu sobreviveu tanto tempo no mundo mortal.
Não era uma coisa exatamente acolhedora ou que fosse animá-la.
– Foi o colar, certo?
– Sim, uma vez fiz uma aliança com Hécate. Ela me ajudou a encantar o colar com eficiência. Foi por sua mãe. Sheri nunca quis que você soubesse desta parte da sua vida. – ele olhou o relógio no pulso – Bem, tenho que ir, tenho de trabalhar até a noite cair.
A imagem começou a se desfazer, mas depois voltou e Apolo disse, orgulhoso:
– Você percebeu que rimou, né?
A imagem se desfez por completo e ela acordou com um susto. Alguém a cutucava. Não havia mais ninguém no chalé além dela e Isis. Quando abriu os olhos, a amiga disse:
– Você está atrasada.
– Ugh, — Luma sentou-se — que horas são?
De dia, as persianas em todas as paredes do chalé se abriam e o chalé ficava muito claro, por causa do piso branco que refletia todo o sol que fazia lá fora.
– Nove horas.
– Que horas deveria acordar?
– Sete horas.
– Mas é domingo. – resmungou Luma, se jogando no travesseiro
– Aqui não há fim de semana, amiga. Levanta, vai, antes que o café acabe. – ela jogou uma bolsa azul na cama. – Isto é pra você, pedi ajuda para alguns irmãos.
Isis piscou. Dentro da sacola havia um pente rosa e um rímel (provavelmente roubados do chalé de Afrodite), uma escova de dente, pasta e chinelos brancos (provavelmente roubados da lojinha do Acampamento).
Luma estava de shorts e sutiã. Havia um criado-mudo ao lado de todos os beliches. No dela havia o espelho da noite anterior e a camiseta laranja jogada. Ela desceu e se vestiu. Prendeu o cabelo numa trança em frente ao espelho. Agora percebera que estava mais bronzeada, devia ser efeito da reclamção. Havia achado ótimo. Morava próximo ao litoral de Connecticut, mas nunca passara horas deitada ao sol, e já se cansara da velha pele cor-de-vampiro.
Filhos de Hermes jogavam vôlei, filhos de Apolo tocavam violão e cantavam, outros do mesmo chalé praticavam arco e flecha. Filhas de Afrodite andavam em grupo falando sobre maquiagem, filhos de Poseidon sentavam na ponte e colocavam os pés na água, conversavam com as Nereidas, alguns outros semideuses cavalgavam em pégasus ou cavalos comuns, outros tentavam escalar a parede de lava, outros lutavam esgrima e outros poliam suas armaduras de bronze, rindo e conversando.
De café da manhã, Luma recebeu o tradicional lanche de atum que fazia em casa, o que a deixou com saudades. Limonada preencheu o copo magicamente. Quando Luma bebeu, suas expectativas se solidificaram. Era idêntica à que sua mãe fazia todo dia quando ela tinha cinco anos, no café da manhã. Isis a esperou. Quando acabou, foram dar uma volta no Acampamento. Era lindo em dias ensolarados. Os campos de morango reluziam ao sol e pareciam mais suculentos. Sátiros cuidavam deles. Jeff era um deles e veio em encontro às garotas. Para Luma, era difícil se acostumar com ele sem muletas e com pernas de bode. Principalmente quando ela percebia que ele estava pelado. E que tinha um belo tanquinho.
Eles seguiram andando. Isis os levou ao estábulo e apresentou a Luma uma garota de cabelos loiros avermelhados e olhos verdes. Era bronzeada e bonita. Luma achou que nenhuma aparência podia se adequar melhor àquele dia quente. Ela acariciava um cavalo.
– Esta é Samantha, filha de Deméter. Sam, caso você não tenha prestado atenção à noite de ontem, esta é Luma, filha de Apolo.
As duas trocaram um olhar e acenaram. De trás do estábulo, apareceu um cara que tirou o fôlego de Luma por mais tempo do que deveria. Ela tossiu e recuperou o ar. Ele parecia perigoso e isso a atraía, principalmente combinando sua beleza. Ele tinha cabelos lisos e compridos, até os ombros, pele morena, porte forte e feições sombrias, irresistíveis. Usava touca e tinha um ferimento de batalha abaixo do olho.
– Sam, eu não achei o… – ele parou ao perceber que ela estava acompanhada.
– Depois eu procuro, Adam, obrigada.
Isis e Luma se olharam. Luma podia ver na expressão de Isis o que ela pensava. E era exatamente o que Luma pensava. Isis se inclinou e estendeu a mão.
– Prazer, Isis Gallagher, filha de Hermes. Você é?
– Adam McCain, filho de Tânatos.
– Adam, elas acabaram de chegar ao Acampamento. — disse Samantha — Deixe que eu explique. Tânatos é filho de Nix, que é filha do Caos. Esta combinação resultou no deus da morte.
– Mas e Hades? – perguntou Luma.
– Sempre me fazem esta pergunta. – disse Adam. – Quando os deuses venceram os titãs, o mundo foi dividido. Zeus reina sobre o céu, Poseidon sobre a água e Hades sobre o mundo inferior. Já Tânatos é a personificação da morte. Ele é quem guarda as portas da morte para que os mortos não possam fugir.
– E ele tem asas bem legais. – complementou Samantha.
Isis e Luma saíram conversando. Andando pelo Acampamento acharam Sr. Brunner. Jeff sorriu e disse:
– Não se assustem meninas, ele é sim um centauro.
– Mais um? – indagou Isis.
– Não é um qualquer. É o épico Quíron, que instruiu grandes heróis da história. E agora é diretor de atividades aqui do Acampamento.
– Então quer dizer que o Sr. Brunner é o “lindo e másculo, bravio, forte e corajoso” Quíron, tão citado em suas aulas de história? – disse Isis, referente à descrição que o professor fazia de si mesmo
– Sim, exatamente isso. – confirmou Jeff.
Duas pessoas estavam montadas nele.
– Isabel! – chamou, ela apareceu na porta da Casa Grande – trouxe as duas últimas, leve-as ao chalé de Hermes, tudo bem?
Isabel veio galopando e ajudou e descer as garotas das costas de Quíron. Luma e Isis se encararam, surpresas. Por um lado se perguntavam se tudo ao redor delas pertencia àquele mundo, por outro, estavam felizes de ele ter dito as duas últimas. Da garupa dele, desceram Audrey e Annie, que pareciam ter conversado a viagem toda e ter se divertido. Outro motivo para as duas estarem chocadas. Audrey as olhou, surpresa, sorriu e correu para abraça-las.
– Deuses, Audrey! Achei que nunca mais a veria! – disse Isis.
– Caramba, já pegou a gíria dos semideuses? Hahaha
– Dois dias são o suficiente para mim. Eu tenho que me enturmar, certo?
– Deuses, Isis! – disse Luma
As meninas riram.
– Bom, é melhor você ir. Isabel tem muito o que te explicar. — disse Isis
– Mais surpresas além do professor de história ter uma bunda de cavalo de milhares de anos?
– Você não faz ideia. – Luma confirmou
– Quando acabar nos encontre no chalé, ok?
– Ok, Isis. – disse Audrey. Isabel a chamou. – Vou lá.
E saiu correndo até a Casa Grande.
– Ela não faz ideia da onde fica o chalé, certo? — comentou Isis
– Não mesmo. — respondeu Luma
Ela cutucou a amiga no braço e depois apontou a companhia de viagem de Audrey.
– E aí, Annie, sentiu saudades? – provocou Luma.
– Hahahaha – Annie soltou uma risada irônica – não devia fazer brincadeiras antes de falar com seu namoradinho.
Ela saiu andando, atrás de Audrey, mas Luma tentou partir para cima dela. Normalmente aquilo não a afetaria, mas tudo que vinha de Annie a afetava de forma doentia.
Isis a segurou.
– Calma, Luma. Ignora! Ela está só blefando. Jeremy te ama!
Luma conseguiu se soltar. Corria atrás de Annie. Seus olhos ardiam e seus pensamentos estavam confusos. Annie se virou e disse:
– Vai me bater?
Ela parou a três metros de Annie.
– Ah, como eu queria. – disse Luma rangendo os dentes.
A garota riu, com desdém.
– Você se acha muito melhor do que eu, não é? – Luma se segurava.
– Eu sou, querida. Pergunte ao seu ex–namorado, à sua ex–amiga.
– Que tal eu perguntar ao treinador Hedge?
Annie pareceu ofendida.
– Sorte de principiante não vale.
– Não foi sorte, Annie. Sou filha de Apolo, deus dos arqueiros, além de seus muitos talentos. E você? Quem é sua mãe? Quem é seu pai? Qualquer um que te abandonou.
– O seu também, espertinha.
– Não. Meu pai me viu nascer! Meu pai me deu nome! Meu pai me protegeu até que eu chegasse aqui! Me deixou um presente!
– Chega! – Annie gritou e foi para cima.
Isis assistia satisfeita. Chamou:
– Luma!
E jogou uma espada. Ela a pegou no ar e tentou atacar. A menina recuou.
– Estou desarmada! – protestou Annie.
– Você não é tão melhor do que eu? Prova!
Annie se defendeu, desviou e fugiu até que conseguiu uma espada. As duas lutavam calorosamente. Várias investidas falharam de ambas as partes. As duas lutavam com graça, mesmo que nunca tenham tido uma sequer aula antes. Annie atacou na altura da cintura de Luma, à esquerda. Ela levantou o braço esquerdo, rodou para o outro lado, agarrou um escudo dos braços de um semideus que assistia. Annie estava em desvantagem, mais difícil de defender-se e o sol fortalecia Luma. Por outro lado, Luma não conseguia raciocinar com êxito, pelo efeito que Annie causava nela, mas investiu. Quando a adversária foi recuar, tropeçou, caiu de costas. Luma se aproximou e apontou a espada de bronze para seu rosto.
– Tanta produção nessa cara pra acabar aí. – Luma espetou a espada na bochecha dela.
Ela a olhava com raiva. Luma afastou a espada e estendeu-lhe a mão. Annie levantou com ajuda dela. Enquanto seguravam a mão uma da outra, olhando-se nos olhos, Luma disse, sorrindo:
– Ainda se acha melhor que eu?
Annie soltou sua mão, deu meia volta, fazendo seu cabelo voar. Luma se esquivou e sorriu, enquanto Isis aparecia para parabenizá-la.
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