O Filho de Ares
2 Capítulo I. Começando com o pé errado
Notas iniciais
Eu havia dormido muito pouco na noite que antecedera minha partida.
Farrear com as outras caçadoras na companhia de Ártemis havia ajudado a distrair minha cabeça.
Quer dizer, não que eu não pensasse no dia seguinte enquanto nós festejávamos.
É claro que eu pensava, era inevitável. Mas por alguma razão, estar ali fazia eu me sentir acolhida, esperançosa. Como se nada fosse mudar – mesmo que no fundo eu já pressentisse que isso não era totalmente verdade.
Já passava do meio-dia quando Ártemis resolveu nos acordar. Os raios de sol eram filtrados pelo tecido fino da barraca, mas isso não foi capaz de impedi-los de queimar minhas órbitas logo que ergui meu tronco pela metade em um solavanco, ajeitando-me sentada no meu saco de dormir. Cocei os olhos e bocejei, ainda muito sonolenta.
— Arrumem-se, já estamos atrasadas — anunciou a deusa.
Começamos a nos levantar e fizemos fila para nos banharmos no lago que havia próximo dali. A água estava bem gelada, o que acabou sendo um ponto positivo – me ajudava a esfriar a cabeça, literalmente.
Demorou um pouco até que estivéssemos prontas e eu não tinha muita coisa para levar. Na verdade, tinha apenas uma mochila com quatro trocas de roupas – as outras eram todas idênticas; meros clones do meu uniforme de caçadora, que, é claro, eu não poderia utilizar durante minha estadia em Long Island.
A ideia era que eu fosse apenas mais uma campista. E funcionou muito bem, já que nunca me senti tão excluída na vida quanto me senti no primeiro dia que passei naquele lugar – nem mesmo no orfanato, onde eu era considerada “Isabella, a esquisita”.
Agradeci a todos os deuses mentalmente por não ter que viajar de avião – ou pior, de carro.
Eu não suportaria passar horas sentadas quando eu já sabia o destino que me aguardava. Sem dúvidas minha ansiedade me mataria antes que eu pudesse chegar ao acampamento.
Nos ajeitamos em uma fileira indiana logo atrás de nossa Senhora e ela realizou um movimento circular com as mãos enquanto articulava alguns provérbios em grego antigo, provavelmente conectando-se com a força lunar – já que esse era o seu ponto de poder no universo.
Uma névoa espessa se formou diante de nós e recobriu toda a clareira.
— Preparem suas flechas, meninas. Podemos precisar delas a qualquer momento — o tom de voz dela era sério.
Instintivamente, minha mão foi até minhas costas, onde eu me preparei para me munir do meu arco. A mão de uma das outras caçadoras me impediu e ela me lançou um olhar de solidariedade. Quase havia me esquecido de que eu havia sido obrigada a deixar minhas armas para trás, também.
Ártemis ingressou na névoa e desapareceu de nossas vistas. Fiz o mesmo, seguida pela terceira caçadora, pela quarta, por Nina... Até que todas nós estivéssemos lá, diante da entrada do Acampamento Meio-Sangue.
— Preparada, Bella? — perguntou-me Nina, respirando fundo e olhando-me nos olhos com rigidez.
— Estou — menti, tentando dar um sorriso convincente e fracassando miseravelmente.
Ela crispou os lábios e apertou os olhinhos na minha direção, passando a mão em meu ombro em um sinal de cordialidade.
— Vai ficar tudo bem.
— Certo... — eu disse.
Ela saiu da minha frente e Ártemis tomou o seu lugar, olhando-me daquela maneira de sempre. Temi que ela fosse se desculpar de novo por não ter conseguido evitar aquela situação, mas graças ao Olimpo ela não o fez.
— Lembre-se: sem privilégios, imortalidade suspensa, ninguém sabe que você é uma caçadora... — advertiu, seriamente. — Tente não arrumar encrencas, porque você é novata e, por favor, chegue até o final de sua pena viva. Estaremos te esperando aqui fora quando você estiver pronta para voltar.
Eu assenti e apertei os olhos por puro reflexo, decidida a não chorar mais.
Em seguida, ela envolveu-me num forte abraço e esfregou minhas costas com sua mão direita. Quando nos desvencilhamos, eu recuei um passo, com a expressão mais natural que consegui encenar.
— Então, é isso, meninas... — eu disse. — Nos vemos daqui a um ano.
— Tchau, Bella — elas disseram em coro, algumas mais descompassadas puderam ser ouvidas depois, mas todas sorriam.
Meus dutos lacrimais latejaram. Respirei fundo e segurei. Eu precisava ser forte.
Dei as costas ao meu grupo e comecei a caminhar em passos rígidos e largos, mas, de repente, a voz da deusa me impediu.
— Espere, espere! — ela disse, correndo na minha direção.
Ártemis retirou do interior de suas vestes um embrulho, que vinha com um bilhete colado na parte externa do envelope laranja. Franzi o cenho quando ela estendeu a mão, me incentivando a pegar o que quer que fosse aquilo com o olhar.
— É um presente do seu pai — informou-me, simplesmente.
— Não quero nada que venha dele — meus olhos se apertaram quando eu pronunciei a frase com profunda amargura.
Ártemis me repreendeu com o olhar.
— Não insulte um deus, Bella — pediu ela. — Pegue o presente. Não complique ainda mais a sua situação.
Hesitei, por um momento, mas eu tinha que admitir que ela tinha razão. Ela tinha a sabedoria de uma deusa, era uma das criaturas mais antigas do nosso planeta. E os castigos dos deuses tendiam a ser cruéis e impiedosos. Apanhei o envelope de suas mãos, a contragosto.
— Boa sorte — despediu-se ela, com um olhar incentivador e um sorriso no canto de sua boca.
Sorri de volta. Não um sorriso forçado, como todos que eu vinha dando desde que a notícia havia chegado, mas um sorriso sincero. Era reconfortante estar próxima de alguém que se preocupava tanto comigo. Especialmente sendo esse alguém uma deusa milenar.
— Então é isso — defini. — Adeus.
Me virei de uma só vez, tentando evitar que algo mais dramático acontecesse, e transpassei o arco de pedra. Em cima dele, podia-se ler em grego “Acampamento Meio-Sangue”.
Eu carregava, em minhas costas, minha pequena mochila da Adidas.
Varri os olhos pelo perímetro e não vi muito além de verde, muito verde. Era uma colina bem grande, a que eu teria que subir, mas acima dela eu já conseguia ver alguns indícios de civilização.
Fui subindo, estranhando o cansaço humano que já não me acometia havia quatro anos, e, sem perceber, esbarrei em duas campistas. A primeira deveria ter entre oito e nove anos e a segunda já deveria estar na faixa dos dezessete.
A mais nova era pálida e tinha belíssimos cabelos loiros presos em duas trancinhas, uma de cada lado da sua cabeça e a outra tinha longos cabelos ruivos e uma pele impecável, embora muito maquiada, de modo que sua beleza exótica fosse escondida pelas cores chamativas.
Mais a frente, um jovem as conduzia impacientemente. Conclui que ele deveria ser um veterano.
Assisti a menininha pequena cair e rolar alguns metros para baixo com o nosso encontrão. Meus olhos se arregalaram.
— Pelos deuses! — ralhei de impulso, descendo na direção da garotinha para acudi-la e ouvindo os passos do rapaz e da outra menina atrás de mim.
— Kyra, você está bem?! — a voz grave do garoto, que era excessivamente pálido, retumbou em meus ouvidos e eu o assisti ajudar a garotinha loira a se levantar assim que a alcançamos.
Ela parecia meio atordoada, mal conseguia abrir os olhos.
— Eu, eu... — A novata, chamada Kyra, não foi capaz de terminar. Simplesmente desmaiou.
— Merda! Veja só! — Ele me olhou meio aborrecido. Reparei em seus traços gerais por um momento. — Temos que levá-la para a enfermaria às pressas.
— Posso tentar ajudar... — sugeri.
— Não, você fica aqui com a Gisele Bündchen e tenta chegar até lá em cima sem machucar mais ninguém — ele disse e levantou a menina de uma só vez com os braços, começando a subir a colina em passos acelerados. — Já ajudaram o bastante.
Franzi o cenho, assistindo-o partir.
— Já disse para você parar de me chamar assim! — ralhou a garota ruiva, girando os olhos.
— Você é a Gisele Bündchen? — questionei, um pouco surpresa com a criatividade do apelido.
Ela girou os olhos de novo, estapeando as vestes para se livrar dos resquícios de poeira. Só então compreendi o apelido. Realmente, ela era muito bonita e vestia-se como se estivesse indo para um desfile de moda ao invés de um acampamento.
Suas órbitas se fixaram em mim, por um instante. Ela pareceu não gostar muito da minha pergunta, mas se esforçou para não ser rude quando notou o meu semblante de inocência – eu não tive mesmo a intenção de ofendê-la.
— Hazel Petrova. — Apresentou-se ela, estendendo a mão no ar. Sua voz era feminina, mas o tom era firme, nada adocicado; conclui que ela estava tão assustada quanto eu, e por isso precisava demonstrar força. — E você?
Correspondi ao cumprimento, sem muita empolgação.
— Eu sou Bella Swan — respondi.
— Ah... — Ela desviou o olhar, como se não soubesse muito bem o que dizer. Me senti uma idiota por estar conversando com uma estranha. — É um prazer, Bella. Vamos subindo?
Assenti e nós recomeçamos o trajeto. Nenhuma de nós duas falava muito, o que acabou aumentando a minha tensão. Por mais que eu geralmente evitasse a companhia humana, confesso que naquele dia quis muito que alguém viesse e conversasse comigo, só para me ajudar a distrair minha cabeça.
Mesmo arfante, extrai um maço de “Marlboro vermelho” do bolso menor de minha mochila e puxei meu velho isqueiro já quase sem gás, que demorou um pouco para dar algum sinal de vida. A garota chamada Hazel franziu o cenho quando dei o primeiro trago.
— Você parece meio jovem para fumar — analisou.
Eu estava desacostumada com aquele tipo de comentário, já que geralmente não convivíamos mais do que cinco ou dez minutos com qualquer pessoa que não fosse da Caçada. É claro que, vez ou outra, algum vendedor pedia meu documento quando suspeitava da minha maioridade, mas eu sempre mostrava e o assunto se encerrava por ali.
— Eu sou — menti, sorrindo convincentemente e em seguida desviando o olhar.
— Quantos anos você tem? — Ela me pareceu meio desconfiada ao perguntar, mas conclui que era eu quem estava ficando levemente paranóica. Na verdade, ela só estava curiosa, o que era até que natural, já que não é muito comum ver meninas de quinze anos fumando por aí.
— Eu tenho quinze — menti novamente.
O cenho dela se franziu ainda mais, mas ela desviou o olhar para certificar-se de que não havia nenhum obstáculo em nosso caminho – outra queda seria humilhante demais, tanto para nós quanto para aquele campista que estava conduzindo Hazel e a garotinha menor.
— Você vai morrer cedo — ela comentou em voz baixa.
“Não acho que seja possível”, respondi mentalmente, rindo de minha própria piada.
Subimos mais um pouco daquela colina aparentemente interminável e, para meu alívio, alguns raios de sol atingiram meu rosto pálido. Levantei as mãos em um instinto para proteger minha visão.
— Chegamos — ela disse, correndo os olhos por todo o perímetro e analisando todo o acampamento com um olhar crítico; fiz o mesmo.
— É, chegamos — repeti, simplesmente.
Depois de alguns segundos analisando toda aquela extensão, eu percebi que não tinha muito o que fazer. Na verdade, eu não sabia muito bem para onde eu deveria ir. Esperava que alguém estivesse lá para nos receber, um guia, um monitor ou algo do gênero.
De repente, uma besta projetou-se bem na minha frente, avançando na minha direção com um sorriso simpático no rosto. Reconheci a fera de imediato e estreitei os olhos; meio homem, meio cavalo. Era um centauro. Eles podiam ser bem perigosos, quando queriam.
Tateei minha retaguarda em busca do meu arco, mas não o encontrei. Gelei. Estava desarmada e sozinha ali. Ao meu lado, a garota chamada Hazel Petrova recuou um passo e pareceu também incorporar-se à defensiva, fechando os punhos e colocando-os na frente de seu busto. Recuei junto.
— Ei, ei, fiquem calmas! — Pediu ele, se afastando em um só galope com um semblante de rendição. Seus braços se ergueram no ar.
— Quem é você? — O tom de voz da menina ruiva ao meu lado era perigoso, quase assassino.
Mantive-me em silêncio, mas séria. Tentei parecer tão intimidadora quanto conseguia naquela situação de vulnerabilidade.
— Sou Quíron, diretor de atividades do acampamento e eu vim aqui para rece...
Ele não teve tempo de terminar. Ao meu lado, um garoto trajando vestes de batalha passou com uma adaga afiada e eu extrai o armamento de suas mãos de uma só vez, avançando contra a besta num salto.
A fera até tentou reagir, mas eu tinha quatro anos de prática com Ártemis e, como ela mesma sempre me dizia, eu era uma guerreira promissora, então montei em cima dele e finquei minhas unhas em seus olhos, sentindo o sangue escorrer pelos meus dedos.
Ele realizou um brusco movimento com a parte dianteira de uma só vez após soltar um grave urro de dor e jogou-me metros para trás, no chão. Alguns campistas se aproximaram, indignados e tentaram me conter. Pude ver, de relance, a garota chamada Hazel apavorada, com os olhos bem abertos e as mãos cobrindo sua boca arregalada.
— Ficou louca, menina?! — interveio um garoto, que trabalhava junto com mais duas meninas para tentar me impedir de me mexer.
Foi a minha vez de arregalar os olhos. Percebi que ele estava me tocando.
— TIRE SUAS MÃOS DE MIM! — berrei, cravando a adaga em seu punho destro.
Ele urrou de dor e recuou vários passos para trás, as meninas se afastaram, mas não tardaram a recuperar a posição de luta. Uma delas estava com uma espada e a outra com uma peixeira semelhante ao facão de caça que utilizávamos nas batalhas com Ártemis.
— JÁ CHEGA! — O garoto pálido que havia conduzido Hazel e a garota loira se aproximou do cenário caótico, com o nuance vocálico bem acentuado e um tom de voz que expressava fúria, mas também estarrecimento. Gotas de suor pingavam pelos seus cabelos acastanhados, escorrendo pelo canto de sua testa excessivamente pálida. Ele parecia incrédulo diante da cena que se desenrolava bem na sua frente.
Todos pararam, imediatamente. As garotas largaram suas armas e o rapaz tentou se locomover, olhando-me com um semblante de terror e amargura. A criatura não enxergava mais nada e dois garotos o auxiliavam, por vezes me olhando com um profundo ódio estampado em seus rostos. Mais campistas se aproximavam para ver a confusão e Hazel, a ruiva, corria seus olhos de cada um dos presentes para mim, atônita.
— Você está louca, menina?! — bradou ele, um pouco menos histérico. — Por que raios você atacou o diretor de atividades do acampamento?
— Bem, ele é uma fera... — tentei me explicar. — Eu pensei que...
— Então não pense! — Vociferou. Seus olhos amendoados literalmente fulguraram na minha direção, pude ver as chamas em suas órbitas e me senti levemente acovardada. Arregalei os olhos por um momento, mas não tardei a me recompor. — Dessa vez, eu vou deixar passar, porque é seu primeiro dia aqui com a gente. Mas não é assim que a banda toca aqui no Acampamento Meio-Sangue. Se fizer algo assim de novo, eu...
Todos pareceram ficar assustados por um momento e abaixaram a cabeça. Ele hesitou.
— Eu chamarei o Sr. D. e ele irá te transformar em uma barata imortal, e depois vai pisar em você por toda a eternidade. — Ele parecia estar falando sério. — Estamos entendidos?
Seus olhos eram peculiarmente intimidadores, o que fez com que eu recuasse logo de primeira, me rendendo. Devia ser alguma característica de seu parente divino; um de seus poderes mágicos, sem dúvida.
Eu achei que iria simplesmente levantar e ir embora, mas ele não desistiu de confirmar a sua vitória sobre mim assim, tão facilmente.
— Estamos entendidos? — Ele se aproximou ainda mais de mim e me pegou pelo pulso violentamente, seus olhos estreitaram-se na direção dos meus. Estremeci.
Fiquei sem reação, gaguejei. Meu coração parou durante alguns instantes. Analisei sua face pálida e de traços fortes por um momento, mas eram seus olhos flamejantes que mais chamavam minha atenção naquele momento. Eles eram literalmente hipnotizantes.
— O-Ok... — foi tudo que saiu.
Ele continuou me encarando por alguns segundos e eu pude sentir o clima pesar, com todos olhando ao nosso redor. Por fim, ele me soltou e saiu andando.
— Levem o Sr. Quíron para a enfermaria — pediu, antes de deixar o local.
Era o meu primeiro dia. E eu havia acabado de atacar um instrutor e ser repreendida por um garoto. O primeiro garoto que havia conseguido me intimidar em muito, muito tempo.
Desejei, mentalmente, que Ártemis viesse me buscar o mais rápido possível.
Eu precisava sair daquele lugar logo.
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