O Filho Perdido
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Semanas seguinte, enquanto Edward trabalha sobre um gráfico de saldo de uma pequena empresa têxtil, calculando a lucro e o prejuízo, os juros dos materiais e lucro máximo e mínimo que poderia ser obtido; o recepcionista da contabilidade o interrompe anunciando que o Sr. Milen McConnor estava presente.
―Ele não marcou horário. ― comentou Edrward olhando na lista de atendimento do dia. ― Mas pode manda-lo vir.
O secretário assentiu e depois retornou trazendo consigo dois homens. O Visconde McConnor é um antigo cliente da contabilidade, desde que Edward começara a trabalhar ali ficara responsável pelas finanças do visconde, o homem era péssimo com matemático e pouco se importava em perder tempo com afazeres os quais poderiam pagar uma pessoa para fazer por ele. O segundo homem que o acompanhava fez com que Edward engolisse em seco e suas mãos começaram a suar, respirou fundo algumas vezes e levantou-se para cumprimentar os nobres.
―Lorde McConnor. ― cumprimentou ele apertando a mão do homem.
―Sr. Armstrong, como vai? Sua cabeça ainda não pifou de tanto calcular números? ― brincou o visconde.
―De forma alguma. ― respondeu o contador, sorrindo.
―Gosto de você meu rapaz, o outro que me atendia era um rabugento. ― comentou McConnor e sentou-se na cadeira a frente da mesa. ― Este é Gregory Bridgerton, agente imobiliário.
―Como vai, Lorde Bridgerton? ― cumprimentou Edrwad apertando a mão.
―Fechando um ótimo negócio. ― respondeu ele com um sorriso largo nos lábios.
―É verdade. Sr. Armstrong, lembra-se que comentei que gostaria de me mudar? Aquela casa onde vivo está pequena para meus filhos e netos.
Edward lembrava-se sim, fora duas vezes na Mansão McConnor, uma propriedade de porte médio, mas de arquitetura bela do século passado. Ouvira o visconde resmungando que a casa ficara pequena para seus herdeiros, o primogênito casara-se e vivia com a mulher e os gêmeos na mansão, outros filhos que ainda estão solteiros ou estudando ocupam a mansão transformando-a numa casa agitada e barulhenta. Aqueles dois dias fora incomodante para Edward, trabalha com tanto barulho distraía sua mente e teve que refazer vários cálculos.
―Lembro-me muito bem, Lorde McConnor. Contou-me que estava de olho nas mansões próximas de Mayfar e do Hyde Park. ― disse Edward.
―Sim, sim. E consegui uma bela mansão no Hyde Park. Contratei os serviços do Sr. Bridgerton e aprovei a Mansão dos Young.
―A mansão estava a venda? ― perguntou Edward curioso.
―Sim, o sr. Young falecera e deixou uma dívida para a família. Como a Sra. Young só tem duas filhas que ainda irão debutar, providenciou a venda da propriedade para quitar a dívida com o banco. ― respondeu o Bridgerton.
Edward observara o meio-irmão enquanto este explicava a situação delicada da condessa e suas filhas, ele notou o quanto Gregory assemelha-se com Anthony e lembrou-se da fama da família de terem a aparência similares. Até ele, que era um bastardo, tinha os mesmos cabelos castanhos e ondulados, com olhos castanhos da mesma cor.
―E o motivo da vinda ao consultório contábil é a compra da casa. ― adivinhou Edward.
―Exato, meu jovem. Fomos ao banco e vi que tinha capital suficiente, mas queria me assegurar de que tal retirada não implicaria com meus negócios. ― disse McConnor passando para o contador alguns papeis provindos do banco.
―E o contrato para a venda da casa. O preço está excelente. ― comentou Gregoy passando outros papeis para o contador.
Edward olhou para os valores divulgados no banco e o contrato de venda da Mansão Young.
―Senhor, terei que consultar os arquivos de seus negócios e fazer o balanceamento necessário, mas pelo que pude ver o senhor poderá fechar negócio sim.
―Magnífico, meu jovem. ― exclamou o visconde sorrindo. ― Analise tudo direitinho e vá até minha casa com as boas notícias.
Edward engoliu em seco só de imaginar ter que trabalhar mais uma vez enquanto umas das filhas ensaia dança enquanto os filhos maiores treinam tiro e faz com que os bebês gêmeos comecem a chorar assustados. Ele olhou para Gregory e lembrou-se que o nobre a sua frente também vinha de uma família grande e perguntou-se como seria barulhento Aubrey Hall com todos os oitos filhos presentes.
―Será um prazer, Visconde. ― disse Edward sorrindo.
―É incrível como a indústria de tecidos cresceu nas últimas décadas, não? ― comentou Gregory olhando para os cálculos que Edward deixara de lado.
―Sim, o governo inglês incentiva tais práticas para o mercado exterior. ― explicou Edward.
―De acordo com a rainha, é a modernidade, o novo mercado e o capital. ― disse McConnor repetindo as palavras da majestade proferidas em seus discursos.
―Com todos esses incentivos, as mulheres irão falir a Inglaterra. ― brincou Gregory, rindo.
McConnor riu escandalosamente e levantou-se, apertou a mão do contador e despediu-se. Gregory apertou a mão dele também, mas perguntou:
―Você me parece familiar, já nos conhecemos?
Edward surpreendeu-se.
―Não, Sr. Bridgerton.
―Desculpe então. Mas é porque você me lembra alguém.
―Um rosto comum.
O nobre assentiu e foi embora no encalço do Visconde McConnor. Edward sentou e liberou a ar que prendia. Não desejava que a família ficasse sabendo de sua exitência, sempre se virou muito bem e não seria bom ter oito nobres intrometendo-se na sua vida, pior, julgando-o de bastardo e pai irresponsável. Já bastava que um deles soubesse do nono filho do ex-Visconde Bridgerton e talvez viesse a calhar, pelo menos uma boa educação para as filhas estava prometido.
O mais difícil de evitar era Colin. Este mora no mesmo bairro que ele e as vezes o avista de longe a caminhar pelas ruas ou acompanhado por sua mulher e seus filhos, evitava caminhar na mesma calçada que ele e poucas foram as vezes que o cumprimentou.
Edward voltou sua atenção para as finanças da pequena fábrica têxtil e tentou esquecer a visita de um de seus meios-irmãos os quais lutava para não ter contato.
***
Anthony e Kate caminham de braços dados pelo Hyde Park, é final de verão e o vento frio começa a agitar as árvores e as folhas começam a amarelar prenunciando o outono. A alguns passos a frente do casal, Charlotte caminha com empolgação, quase pulando e desejando loucamente poder correr, a criança adora ir visitar o parque, sempre encontra algum amigo para brincar próximo do lago, mas sabe que tem que esperar os pais os quais caminham muito devagar para a opinião dela.
Minutos depois, os Bridgerton chegam a área próxima ao lago, local preferido para crianças brincarem. Charlotte correu, desgarrando-se dos pais, e aproximou-se da já conhecida Annabelle.
Kate observou a filha sorrir enquanto conversava com a amiguinha, tão radiante de felicidade. Ao virar-se para o marido para conferir se ele também via a grande empolgação da filhinha caçula, percebeu que ele mantinha o olhar fixo em um homem que estava parado a observa as crianças.
―Anthony? ― perguntou ela.
―É ele, Kate. É o Edward.
Kate olhou com curiosidade para o homem a alguns metros dali. Ela notou que ele tinha alguns traços em comum com o seu marido, o cabelo castanho e ondulado era uma marca na família, seu olhar fixo nas crianças tinha a mesma tonalidade do cabelo, seu porte esguio e seu peitoral largo lembrava-lhe Benedict o qual é o mais alto de todos. Sim, Edward devia ser mesmo um Bridgerton, concluiu a viscondessa.
―Quero conhece-lo. ― afirmou ela.
Anthony a olhou com curiosidade, não desejava que mais ninguém da família conhecesse aquele homem, desejava ser o único e carregar o segredo até sua cova, porém ele mesmo foi quem contara tudo a esposa desde o início e sabia que não podia freá-la quando metia alguma decisão na cabeça.
Com tranquilidade, o casal aproximou-se do homem o qual matinha as mãos para trás.
―Edward. ― chamou o visconde.
O homem virou-se e seu rosto assustou Kate a qual disfarçou bem a surpresa, seus olhos e o formato do maxilar lembrava-lhe Colin, mas o sorriso contido nos lábios daquele a sua frente era diferente, característica da mãe.
―Lorde Bridgerton. Lady Bridgerton. ― cumprimentou ele, apertando a mão já estendida do nobre e beijou a mão dela.
―Por favor, já disse para chamar-me de Anthony. ― pediu o visconde.
O homem assentiu e observou com curiosidade a esposa do seu meio-irmão. A mulher de quem já ouvira falar por seus clientes não tinha uma beleza formosa ou chamativa, mas era bela e tinha seus atrativos, além de uma personalidade forte que todos alegavam.
―Esta é minha esposa, Katharine. ― apresentou Anthony.
―Pode me chamar de Kate. ― disse ela afavelmente. ― Já sei de tudo ao seu respeito.
― É claro. ― respondeu ele e desviou seu olhar para o grupo de crianças que brincava próximo a margem.
―Suas filhas? ― perguntou Kate seguindo o olhar do Sr. Armstrong.
―Sim. Trouxe-lhes aqui para um passeio. Adoram vir brincar aqui. ― disse ele apontando para duas meninas, uma de 6 e outra de 4 anos as quais brincam de boneca com outras duas filhas de nobres.
―São adoráveis. ― elogiou a viscondessa ao observar, principalmente, a mais nova que continha covinhas ao sorrir.
―Obrigado. São lindas mesmo. ― afirmou ele, orgulhoso.
Logo, a filha do casal aproximou-se do grupo de meninas, falou algo que os adultos não ouviram e sentou-se junto a elas a brincar.
―Nossa filha caçula, Charlotte. ― afirmou Kate.
―Encantadora. Lembra muito a senhora. ― elogiou o contador.
O silêncio reinou entre os três, não havia assuntos triviais para aqueles adultos que ostentam um grande segredo. Tal proximidade de suas filhas, deixou Edward incomodado, nunca desejou aproximar-se dos nobres, não eram sua família e nunca seriam, não poderiam anunciar aos amigos que “ganhara” mais um irmão e nunca seria convidado para os jantares aos domingos, nunca festejaria junto a eles e não conheceria os outros da família. Ele era um bastardo, aceitava tal condição, sempre foi forte e determinado suficiente para se sustentar e conseguir tranquilidade na vida, é claro que houve momentos que desejou ter nascido nobre, assim nunca sofreria tanto, mas também orgulha-se de suas batalhas... A única culpa que carregará até a sua morte era ter mentido sobre a morte do filho caçula, envergonha-se de ter dado a adoção o seu única varão.
Edward olhou para o céu, nuvens cinzentas cobriam o firmamento e ameaçava uma noite com muita chuva.
―Temo que logo irá chover. Preciso voltar para casa. ― anunciou Edward ao casal.
―É claro.
―Com vossa licença. ― o contador cumprimentou o casal e afastou-se o mais rápido possível.
Com passos firmes, aproximou-se de suas filhas, anunciou a temida hora de ir para casa, argumentou sobre o clima, foi firme quando a caçula teimou em poder ficar, pegou-a no colo, deu a mão para a primogênita que, depois da morte da mãe, tomou ares de maturidade e protegia com firmeza a irmã que lhe restou. Então os três partiram, andando pelo trajeto do parque até a avenida onde poderiam pedir uma carruagem de aluguel.
Kate e Anthony observaram o tempo todo a devoção de Edward por suas filhas, a viscondessa encheu os olhos de lágrimas com a cena dele carregando a pequena Elizabeth e dando a mão para Mary Anne.
―Oh, Anthony... O que será que aconteceu de tão trágico e miserável a este homem que dedica-se tanto as filhas, mas dá pra adoção o terceiro filho. ― comentou Kate.
―Perdeu a mulher em meio ao desemprego, viu-se desesperado de como cuidaria de um recém-nascido.
―Será que se arrepende? Será que desejaria ter de volta o... Daniel?
―Não sei. Mas talvez seja o melhor, ele mal tem tempo para cuidar das meninas, contrata uma velha governanta para cuidar delas.
Os dois ficaram imerso em seus pensamentos mais uma vez.
―Kate. ― chamou Anthony quebrando o silêncio.
―Sim?
―Ninguém, jamais, deve saber da existência de Edward e suas filhas. Meus irmãos e, principalmente, minha mãe nunca devem saber. ― afirmou ele. ― Não posso manchar a boa imagem que meu pai tem diante deles.
―Tudo bem. E o Edward?
―Nunca desejou ter contato conosco. A necessidade exigiu tal risco.
Kate assentiu. Os dois continuaram a caminhada, em volta do lago e de olhos atentos na sua filha.
Semanas e meses se passaram, Edward e Anthony raramente se viam e quando isso acontecia os cumprimentos trocados eram formais e cortês. Como prometido, o casal sigilou a existência de um irmão bastardo, Violet e os outros sete filhos com seus respectivos maridos e esposas, nunca souberam do nono filho de Edmund.
Edward manteve-se distante dos nobres, sua vida seguiu-se com dificuldades normais de todo trabalhador, a alegria de um pai e, até, conheceu uma nova mulher, uma jovem trabalha na casa de Portia Featherington sendo que ele analisa a possibilidade de proporcionar uma nova mãe para suas filhas.
Já John Daniel é paparicado por sua mãe, seu pai e suas três avós: Helen, Janet e Violet. Alegria maior veio com novidade de que, finalmente, Francesca estava grávida. A gestação seguiu de forma cautelosa e no início do ano seguinte, a condessa deu à luz a uma menina que recebeu o nome de Janet. Mas em momento algum, John foi esquecido ou rejeitado só porque o casal conseguiu sua primeira filha legítima.
Neste mesmo ano, Anthony e Kate providenciaram mais um herdeiro, a menina chamou-se Mary, em homenagem a madrasta da viscondessa sendo que essa chorou ao ser homenageada.
Assim, a vida de cada um dos Bridgerton, legítimo ou não, seguiu-se tranquilamente.
FIM
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