O Filho Do Olimpo E O Cinto Do Amor
4 Como Virei Terapeuta De Afrodite
Notas iniciais
Voltei a montar em Loki e nos rumamos para o Empire State. Poucos sabem, mas a localização atual do Olimpo é o 600º andar do prédio. O que é um egocentrismo, afinal podia ser um pouco mais baixa a história.
Pousei em uma das praças, as pessoas olhavam, animadas, quase me senti amado. Tirei minha mochila mágica do compartimento da sela de Loki e o mandei ficar por lá com suas adoradas ninfas e fui para uma das mansões.
Cada deus tinha sua própria mansão e templo na cidade. A principal estava exatamente do lado do Conselho era a maior: Zeus e Hera. A segunda mansão a esquerda seria minha casa por seis meses: Afrodite e Hefesto. Acho que por Hefesto ser o primogênito, ele merecia um lugar de destaque. Hera, não devia ter ficado feliz com aquilo.
A fachada parecia uma mansão de beira de praia só que no estilo grego da coisa: uma porta enorme de madeira branca, uma varanda coberta, com colunas de mármore, flores por todo o canto, moveis de ultima moda e maçanetas de ouro maciço.
Engoli seco, soltei o cabelo, colocando a liga no braço, passei os dedos por ele, tentado me deixar apresentável ou quase isso, e toquei a campainha. Depois de alguns segundos um homem baixo, corpulento e com cara de que tinha acabado de chupar um limão verde abriu a porta.
– Sim? – perguntou sério me olhando de cima a baixo parecendo enojado e furioso. Seus olhos eram azuis límpidos, mas aqueles olhos eram frios e sem vida. Senti um arrepio em pensar que conhecia aqueles olhos, eles eram tão... O homem se virou para a escada e eu não consegui ver o que realmente me parecia familiar.
Lá em cima, para onde ele olhava, estava Afrodite, encostada no corrimão do segundo andar, ombros curvados e um ar de divertimento como se não pudesse acreditar naquilo, me pareceu estranhamente irritada também, mas não era muita coisa. Só esperava que não fosse comigo.
Ela era uma mulher belíssima, alta, magra, seus olhos azuis e indecifráveis brilhavam como se eu fosse a melhor coisa que tinha visto em semanas, o sorriso me faria entrar em um estado de transe se eu não estivesse tão ocupado em ficar feliz por vê-la depois de um ano. Afrodite está entre as pessoas que conseguem me acalmar, seria necessário apenas um dedo dela na ponta do meu nariz e eu relaxaria.
Eu nunca a tinha visto de roupas casuais, mas gostei disso, pareceu mais humana, mãe, tia... Ela vestia com uma bermuda jeansazul bem curta e uma camiseta sem mangas branca. Seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e pela primeira vez estava sem maquiagem. Era natural, mas, ainda sim, glorioso.
– Frederick, deixe-o entrar – sua voz estava sim um pouco irritada.
Frederick me lançou um olhar venenoso, meu peito martelou, tinha algo ali, depois respirou fundo e saiu da frente. De lado ele parecia ser transparente, sua pele parecia ser feita de algo parecido com plástico fino, e eu pode ver suas engrenagens.
Espera ai. Suas engrenagens?
O mordomo da casa de Hefesto e Afrodite era um robô.
Compreensível, pensei, Mas uau! Como será que funciona? De onde vem a energia necessária?
Afrodite!,gritou Vox, Se concentre no que é importante e bonito.
Eu corri escada à cima. E percebi que, lá no fundo, estava louquinho para ficar bem longe do robô/mordomo assustador e perto de Afrodite, ele me dava uma sensação de perigo. Ela me abraçou quando cheguei ao andar de cima (me apertei ali) e segurou meu rosto entre as mãos para ver se eu mudara de algum jeito.
Eu olhei em volta enquanto ela arrumava meu cabelo com a ponta dos dedos e tirava o plissado da minha camisa, e percebi que a definição de mansão era vaga. A sala tinha o tamanho da Estação Central e era completamente organizado de acordo com a estação do ano. Cores básicas: cinza-claro e azul.
– Como foi a viajem? – perguntou quando pareceu satisfeita com meu cabelo, eu devia estar parecendo um mauricinho.
– Ótima – sorri, mas ele me olhou com tanta descrença que eu quase acreditei que era mentira – Catarina esta bem. Esta com os irmãos no colégio. Foi divertido visitar minha antiga escola. Acho que você poderia ter me avisado sobre Ortro, foi uma surpresa e tanto quando o cara criou uma segunda cabeça.
Afrodite sorriu e me olhou com se eu fosse uma criança sem jeito e tocou meu rosto.
– Eu não podia dizer sobre o monstro porque isso desrespeitaria as Leis Antigas e eu já as tinha infligido demais.
– Tudo bem. É um cara legal. Gostei do palácio.
Ela em encarou tentando reprimir o risinho, então me puxou pelo braço. Se um dia você conhecer a deusa do amor não imagine que ela não tem força nos braços, porque tem e sua determinação é incontrolável. Como toda mulher que gosta de mim...
Nós entremos em um quarto completamente azul-bebê e preto, a cama de casal não pegava nem metade do lugar e era enorme. Os armários azuis que contornavam o quarto eram enormes, eu não tinha tantas roupas assim, Afrodite me mandou entrar no banheiro que era do tamanho do quarto de visitas da casa dos meus pais mortais.
Depois que voltei para o quarto devo ter dito uma coisa inteligente e completa com:
–Uau!
Afrodite me deu um beijo no rosto, me fazendo corar, e se sentou na cama esperando um julgamento mais completo. Ela não devia ter tanta expectativa.
– É perfeito – disse-lhe. Se eu fosse ela não esperava uma definição própria– Tudo isso é para mim? Só para mim?
– É claro que é para você, bobo – nunca gostei tanto de ser um bobo – Para quem mais seria? Eu não ia deixar meu filho sem conforto, não é mesmo?
– Obrigado, mamãe.
Ela se levantou em voltou a me beijar rindo. Eu senti meu rosto ficar quente mais dessa vez. Devia estar cor de cereja.
– É muito lindinho! Hum... Você deve estar cansado. Tome um banho eu vou preparar um lanche e depois você vai dormir um pouco. Quando acordar, vamos conversar seriamente sobre o tamanho do seu cabelo.
– É... O que?
Ela sorriu e fechou a aporta ao sair.
Neguei com a cabeça, rindo, algumas vezes. Maluca. Ela não mudara nem um pouquinho. E eu não cortaria meu cabelo nem morto.
Caminhei até o banheiro e comecei a tirar as coisas dos bolsos. Carteira onde eu guardava a carta que minha amiga Amanda, a que morreu por causa de Píton, me daria no Natal após sua morte, nele ela se declarou para mim. Ler ainda me faz chorar. Dentro da carteira também estava um bilhete que Ártemis me dera com minha mochila. E o cartão do Banco do Olimpo que Demeter e Poseidon tinham me dado no solstício de inverno, com credito infinito.
Minha Harley-Davidson de brinquedo.
Uma mascara preta que Dionísio me dera no Solstício de Inverno que podia me transformar em qualquer um que eu desejasse.
Uma gaita de ouro que ganhei de Apolo ela poderia se transformar em qualquer instrumento musical. E eu saberia tocá-lo.
E por fim a calculadora de Hefesto. De todos os outros meu presente favorito, mas ainda sim eu tinha dificuldade de me lembrar o que cada número era.
1, pensei, espada. 2 arco. 3 lança. 4 faca. 5 isqueiro. Subtração uma corda com gancho.
Do pulso tirei a pulseira de roqueiro que Atena tinha me dado.
Do pescoço o colar da Afrodite e o que Amanda tinha me dado com dois corações de prata. Um indicando família e o outro, amigos. Ainda me doía ver aquilo e me lembrar de que ela queria um escrito namorado e esse seria eu.
Me abaixei e tirei de uma bainha presa a minha perna a faca que Zeus tinha me dado para que eu pudesse controlar a eletricidade. Tirei também os coturnos mais resistentes de Hermes.
Passei as mãos pelo rosto e coloquei tudo isso, inclusive a liguinha que Lya tinha me dado no ano anterior em cima da pia, que, só para constar era enorme.
Puxei as luvas de couro que Ares me dera, tirei o casaco, o resto das roupas e entrei debaixo do chuveiro. E fiquei lá. A água quente pareceu lavar minha alma. Não dormi bem nos meses anteriores, sabia que Erebus não me deixaria em paz nunca. Ele me mostrava coisas horríveis, me torturava, não me deixava dormir e, nos primeiros meses, não calava a boca.
Depois do banho me vesti com uma bermuda preta e uma camiseta cinza grossa que colocaram na minha cama. Desci me sentindo mole e cansado. Frederick me levou até a cozinha onde Afrodite estava encostada no balcão de mármore negro de frente para uma caixa de bombons de chocolate.
– Vem cá, Jack, prova isso.
Ela me entregou um dos bombons de chocolate. Eu comi esperando muita coisa, mas não era bem uma das coisas que eu esperava.
– Tem gosto de papelão – afirmei.
Ela concordou com a cabeça, fungou dramaticamente, pegou outro bombom e indicou um papelzinho dobrado em cima do balcão.
– Olhe.
Abri o bilhetinho e li em voz alta:
– Espero que possa ajudar em seu coração partido. Preparei especialmente para você. Uau, a não ser que meu pai tenha sofrido uma lavagem cerebral realmente seria ou Hefesto tenha começado a beber muito... Você ganhou isso de um mortal?
– Sim. Ele é muito fofo. É dono da loja de bombons– previ coração partido pra o cara –, mas vou acabar magoando-o é isso que eu faço normalmente.
Pressenti também a chegada de um novo semideus ou de uma crise neurótica depressiva ou os dois.
– Conte a ele – aconselhei – Que é Afrodite. Possivelmente irá entender, principalmente se ele realmente gosta de você. Mas quem foi que partiu seu coração?
Ela fez muxoxo e pegou outro bombom, imaginei que não se importasse com a balança, afinal podia ter a forma que desejasse. Me senti no banco mais perto dela.
– Seus pais são dois idiotas –Eu, um ser lesado e sonolento, pensei por alguns segundos de quais pais ela estava falando, até que me lembrei com quem eu estava falando.
– Ares eu nem discuto – improvisei –, me sinto até aliviado por ter tirado essa conclusão, mas o que foi que Hefesto fez?
– Além de ser um psicopata sem sentimentos, nada – ela bateu com a mão fechada na pedra. Me afastei um pouco, imaginando aquela mão batendo na minha cabeça – Com a guerra quase não vem para casa. Ele tem um forja no Mar de Monstros onde faz seus monstros de metal e não tem mais saído de lá. Diz que pode ajudar na guerra e bla-bla-bla. E quando esta aqui tenta ao máximo se afastar. Nem está me dando atenção. Dá mais atenção à Atena.
Fui obrigado a rir.
– Mas é o trabalho dele. Atena provavelmente deve ter encontrado alguma utilidade pra os monstros de metal, pode ajudar. Eles não estavam trabalhando umas maquinas para ajudar o exercito? E com todo a respeito ele também merece atenção, não é?
Ela pareceu querer chorar então pegou outro bombom e o engoliu sem mastigar. Arregalei os olhos, peguei um bombom e mastiguei bem devagar.
– Eu tento, mas ele se afasta. Ele deve me odiar por tudo o que lhe fiz. Tento não insistir muito, tenho tanto medo que ele me rejeite. E Ares é um idiota. Estou só, isso é triste.
– Estamos falando da mesma pessoa? Porque pelo que eu sei você é casada com um Hefesto só, provavelmente o único do mundo. E ele te ama, mas que qualquer coisa. Está magoado, sim, mas para rejeitar você... – olhei-a de cima a baixo incrédulo.
– Você não entende! – me interrompeu – Frederick, saia! Hefesto colocou-o para me vigiar, estou prestes a explodi-lo em milhões de pedacinhos de metal retorcido, ele me persegue em todo lugar que eu vou. Nem teria deixado você entrar se eu não estivesse lá. Como se Hefesto não quisesse você aqui.
Nota educativa: nunca sufoque uma deusa neurótica em um momento crítico, você pode virar um monte de carne assada. Ou, se você for um robô, milhões de pedacinhos de metal retorcido.
“Voltando ao outro assunto de lata. Como minha triste necessidade de demonstrar o amor de todos os jeitos, eu o machuquei muito. E ele pode até me amar ainda, mas nunca vai me perdoar.”
– Você já tentou dizer a ele que o ama? – peguei outro bombom e ela olhou para minha mão como se quisesse arrancá-la a dentadas – Com sinceridade. Sabe, mostrar a ele o porque de fazer isso. Explique. Ele entenderia, é esperto.
– Você não conhece Hefesto, ele lida melhor com uma porta de metal reforçado do que com algum ser vivo, mesmo um ser vivo que seja casado com ele – ela pegou dois bombons de uma só vez e começou a falar com a boca cheia – Por que eu tinha que me apaixonar por alguém insensível? Ele é charmoso, ele é atencioso, em momentos realmente raros. Eu o amo tanto! Ah, Jack!
Eu me estiquei e peguei um bombom. Ela abaixou a cabeça sobre os braços na bancada com jeito de que ia chorar.
– Sinceramente não sei o que dizer – admiti – Isso é raro! Normalmente eu falo demais. Mas acho que se você não arriscar...
– Arriscar parecer fraca na frente dele, isso sim! Não obrigado, Jack – ela levantou a cabeça e me lançou um olhar de dó – Ai, você esta de dar pena, Jack. Tem dormido esses dias?
Eu a encarei como se não entendesse, mas era verdade. Minhas pálpebras estavam pesadas, minha mão já não sustentava a cabeça do mesmo jeito que antes, eu estava com minha cara de incredulidade se dissolvendo aos poucos.
– Não – respondi com uma voz débil – Ele não me deixa dormir, quando fecho os olhos começa a me atormentar. Estou prestes a pedir para Morfeu me isentar do dever de dormir.
Ela sorriu, mas eu estava falando sério.
– Abarreira mágica do Olimpo pode te proteger disso, tenho quase certeza. Vá dormir um pouco, lindinho.
– É esse quase que me mata – murmurei e me levantei – Boa noite.
– Boa tarde – corrigiu rindo de maneira desanimada e pegando outro bombom.
A caixa logo ficaria vazia e eu me perguntei o que ela utilizaria como distração a seguir. Explodir robôs programados para persegui-la, arrumar mais caixas de doces ou sair para compras? Rezei para que não fosse eu.
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