O Filho De Ártemis
4 Mitologia e realidade
Notas iniciais
- Monstros. – Caleb repetiu sentindo um calafrio descer por sua espinha.
- São os seres que os heróis das histórias antigas combatiam. Que eu, minhas Caçadoras e semideuses ainda somos responsáveis por bani-los frequentemente. – Ela falou e olhou para Layla. – A partir de hoje quero que o ensine sobre os mitos, ele precisa aprender o máximo possível, mesmo que isso implique que seu cheiro como semideus se torne mais forte.
- Sim minha senhora. – Ela disse sorrindo e olhando para a deusa.
- Espera um momento. – Caleb interrompeu olhando para a mulher que o criou com certa intensidade, como se ela pudesse voltar a ser o que era antes se ele continuasse a olhá-la. – O que você é? Exatamente?
Layla voltou seus olhos para Ártemis, que observava a cena tranquilamente como se esperasse aquela pergunta a qualquer momento. Ela fez um breve aceno com a cabeça.
- Eu sou uma dríade, uma ninfa dos bosques. – Layla respondeu com um sorriso caloroso para ele, como se não quisesse outra coisa senão contar a verdade para ele. – E Lady Ártemis confiou sua vida a mim por todo esse tempo.
Ele olhou para a deusa e a mesma assentiu.
- Eu acreditei que se mantivesse você afastado o máximo possível da vida de semideus, você não notaria o que é. Achei que ficaria em segurança. – Ártemis disse com o tom de desculpas. – Mas coisas antigas estão se agitando, monstros que são capazes de te encontrar. Então decidi que não poderia mais fingir que você não é um semideus e deixar você vulnerável Caleb. Precisei vir aqui para explicar tudo a você pessoalmente.
Ele assentiu, assimilando apenas pedaços do que ela dizia e uma lembrança da noite anterior veio até ele o fazendo estremecer.
- Então, o que estava embaixo da minha janela ontem, eram monstros? – Perguntou e a deusa pareceu preocupada.
- Sim, os encontrei antes que pudessem fazer algum mal para você.
- Mas eles disseram que iam me levar para uma mestra e então descobririam de qual deus eu sou filho. – Caleb disse recordando das estranhas vozes que havia ouvido. – Mas porque estariam interessados em mim?
A deusa estreitou os olhos.
- O que disseram Caleb? – Ela disse e ele estremeceu, ela parecia muito perigosa.
- Que eu ainda estava inconsciente do que era. – Ele disse fazendo um esforço para lembrar as palavras. – Mas que isso estava prestes a mudar, pareciam saber que eu descobriria que sou um semideus e depois disso me mandariam para a tal mestra.
Ártemis se pôs de pé num rápido movimento, sobressaltando tanto a Caleb quanto a Layla.
- Fiquem quietos por alguns instantes. — Ela disse baixa e rapidamente. Seu rosto preso em uma expressão de intensa concentração. – Tenho alguns assuntos para resolver.
- Sim minha senhora. – Layla disse e segurou a mão de Caleb.
Os dois seguiram a deusa com os olhos enquanto ela remexia em algumas coisas na tenda, indo de um lado ao outro como se procurasse algo. Então ela parou em um canto afastado e ele a ouviu murmurar algumas palavras e uma imagem tremeluzente apareceu em seguida. Um homem gorducho, com cabelos encaracolados e camiseta de estampa de leopardo entrava e saía de foco.
Caleb conteve uma exclamação de surpresa. Bem a tempo, pois o homem na imagem falou.
- Ah. Olá Ártemis. – Disse como se fosse algo normal imagens surgirem do nada contendo a figura de uma deusa. – O que houve para você assumir essa forma?
- Assuntos particulares Dionísio, mas nada muito grave. – Ela respondeu e Caleb segurou a língua novamente, não podia ser verdade que aquele cara era o deus do vinho, então seus olhos analisaram a postura de sua mãe e ele percebeu que ela estava tensa, qualquer fosse o pensamento que a perturbava. – Mas preciso avisar que minhas Caçadoras estarão aí daqui a dois dias.
O deus pareceu confuso e ligeiramente irritado antes de franzir a testa.
- Contanto que elas não destruam nenhum chalé. – Disse e Ártemis assentiu.
- Tudo bem.
- E não mutilem desnecessariamente um campista, não que eu me importe, claro, mas precisaria fazer relatórios para nosso pai... E você sabe que eu odeio papelada. – Ele disse e Caleb ficou confuso. O que o deus do vinho estava fazendo em um acampamento?
- Certo. – A deusa disse rangendo os dentes em frustração. – Acredito que Thalia consiga mantê-las sob controle.
- Muito bem, se é só isso, posso voltar ao meu jogo? – O deus disse parecendo entediado.
- Sim, volte. – Ártemis disse e desfez a conexão, abanando a mão pela projeção.
Ela suspirou e murmurou novamente algumas palavras, outra imagem apareceu um tanto tremeluzente, dessa vez mostrava uma garota, com cabelos pretos e olhos azul-elétrico que parecia nervosa, ela usava uma fita prateada na testa.
- Senhora Ártemis! – Ela disse e sorriu.
- Olá Thalia. – A deusa a saudou tranquilamente. – Como estão as coisas por aí?
A garota olhou para trás por um momento e gritou algo em grego, que só depois Caleb percebeu que havia entendido perfeitamente. Ela voltou a olhar para a deusa.
- Está tudo certo senhora. – A garota, Thalia, disse.
- Muito bem. – Ártemis disse. – O assunto que vim resolver vai demorar um pouco mais do que eu esperava, então quero que você guie suas companheiras para o acampamento, Dionísio já está avisado, quero apenas pedir que não mutilem nenhum campista desnecessariamente, ou destruam qualquer chalé que seja.
A garota pareceu preocupada com a afirmação da mãe de Caleb, mas assentiu levemente.
- Sim senhora, farei o que me pede. – Disse e a deusa desfez novamente a imagem.
Ela se voltou para Caleb parecendo preocupada, então fez algo que o perturbou bastante, ela brilhou levemente e assumiu a forma de uma garota de dez anos, uma versão mais jovem da mulher que esteve a sua frente por aqueles poucos minutos. Seu queixo caiu e ele fez um som estrangulado que fez a deusa sorrir com diversão.
- Não se assuste meu filho. – Ela disse e ele tentou assimilar o fato de que aquela menina de dez anos o chamou de filho. – É que apenas me sinto mais confortável com essa forma.
- Tudo bem. – Ele disse tentando esconder o próprio desconforto. – Mas o que significou tudo aquilo?
- Precisei deixar Dionísio avisado que em breve minhas Caçadoras irão para o acampamento... E bem, elas não gostam muito de lá. – Ela respondeu. – Não que eu as culpe.
Caleb tentou ignorar essa parte.
- O que é esse acampamento? – Ele perguntou levemente curioso.
- É um acampamento de verão para semideuses, normalmente minhas Caçadoras não possuem permissão para ter contato com heróis. E no acampamento há muitos semideuses do sexo masculino. – A deusa disse com um toque de irritação na voz e Caleb se sentiu mal. – Isso sem falar nos filhos de Afrodite.
Ártemis fitava o vazio e só notou o que disse ao ver o rosto vermelho do filho.
- Desculpe. – Ela disse lembrando de suas palavras duras.
Caleb suspirou.
- São suas concepções minha senhora. – Ele disse tentando se situar, depois daquilo tudo não parecia mais que ele morava na terra, e ao mesmo tempo aceitar tudo aquilo. – Não posso pedir que as mude por minha causa. Não se preocupe.
Ártemis olhou para Layla, seu olhar mostrava a evidente surpresa pela escolha de palavras de seu filho, ele parecia entender perfeitamente tudo aquilo e tentava agir tranquilamente, mas ambas podiam ver por seus olhos o turbilhão de emoções que se passavam dentro dele.
- Você o criou bem. – Ártemis elogiou a ninfa e Caleb sorriu com o elogio, não era sempre que alguém elogiava, ou ele ou sua mãe.
A ninfa assentiu com um leve sorriso e Caleb notou que suas bochechas se tingiram levemente de verde, ele piscou achando que não havia visto direito, mas ao olhar novamente ele viu que era verdade, talvez precisasse se acostumar a isso dali para frente.
A deusa sorriu para ele e se aproximou lenta e cuidadosamente, como se ele fosse uma imagem que pudesse desaparecer se ela não tomasse cuidado o suficiente, ergueu a mão e acariciou o rosto dele de leve e Caleb sentiu como se uma corrente elétrica passasse por seu corpo, e uma lembrança chegou a ele juntamente com a sensação: um par de olhos dourados que o observava com ternura e ao mesmo tempo apreensão. E essa lembrança deu a certeza que ele precisava dentro de si, ele se agarrou a ela como alguém que precisava de uma corda salva-vidas e de repente uma fosse atirada em suas mãos como em um passe de mágica.
Pois impossível ou não, Ártemis realmente era sua mãe.
Fale com o autor