O Filho De Uma Traição
9 A chave dos problemas
Rick se despediu de Quíron, e ficou ainda alguns minutos sentado na relva. Até que resolveu voltar ao chalé e tomar um bom banho.
Ao chegar lá, abriu sua mochila e começou a vasculhá-la em busca de alguma roupa agradável. Porém, antes de achá-las, sentiu a falta de algo.
Ele procurou tudo no interior da mochila. Roupas, ok. Hot Toys, ok. Miniatura da TARDIS, ok. Livro e porta-retrato, ok. Chave da Corvette... Chave da Corvette... Onde estava a chave da Corvette?
–- Cadê? Eu tinha certeza de que tinha colocado aqui dentro! — Ele exclamou, e, inconscientemente, apalpou os bolsos da calça enquanto olhava ao redor.
Olhou em cima da bancada ao lado de sua cama, e nada. Abriu todas as gavetas, mas ela não estava lá.
–- Não é possível! — Rick gritou, tirando todas as coisas de dentro da mochila à procura das chaves. Procurou em cada bolso, porém, não encontrou nada.
Ele jogou tudo dentro da mochila e foi até o local onde tinha estacionado a Corvertte, para ver se ainda estava onde tinha deixado.
Chegando lá, ficou aliviado ao ver o carro, mas seu alívio rapidamente passou ao lembrar que ainda não sabia onde estava a chave.
–- Hey novato! — Clarisse o chamou, se aproximando.
–- Me chame de Rick, por favor — ele disse, se sentando na grama do local.
–- Só por que fui com a sua cara — ela riu, mas logo parou ao ver a cara que ele estava fazendo — Que bicho te mordeu?
–- "Perdi" a chave do carro — ele disse fazendo aspas com as mãos.
–- Você tá no chalé de Hermes. Era de se esperar que cedo ou tarde eles pegassem alguma coisa sua.
Rick meneou com a cabeça, e Clarisse se sentou do seu lado.
–- Calma, novato. O carro tá aqui, quer dizer que ainda dá pra recuperar.
–- Daria, se eu soubesse qual dos filhos de Hermes pegou.
–- Os Stoll — A morena disse, com toda a certeza do mundo.
–- Como você tem tanta certeza de que foram eles?
–- Depois daquela luta, depois de mim, é claro, só eles teriam coragem pra encher com você. E, além disso, eu passei por eles agora a pouco e estavam cochichando entre si, o que só reforça a minha teoria.
–- Onde estavam? — Ele disse sério.
–- Na quadra de vôlei.
–- Eles vão aprender que não devem mexer nas coisas dos outros — Rick disse, levantando com um salto, e saindo em direção a quadra. Clarisse também se levantou, e saiu correndo atrás dele.
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Na quadra de vôlei, alguns semideuses estavam jogando, dividos em 2 times, e vários assistiam da arquibancada.
Perto da entrada, havia uma semideusa, pequena e com os cabelos loiros presos em duas tranças. Ela lia um livro em grego antigo. Em um dos ataques feitos, a bola vôou na direção da garota que estava entretida na leitura.
Rick antecipou o que iria acontecer, então correu e se pôs entre a garota e a bola, agarrando a bola com as duas mãos.
Todos os semideuses ficaram parados, assustados com o que poderia ter acontecido. Rick foi até a menina.
–- Está tudo bem? — Ele perguntou a garota.
–- Sim... — Ela assentiu, assustada.
–- Ótimo. Segure essa bola pra mim, então — ele rebateu, colocando a bola no colo dela. Em seguida voltou pra onde estava Clarisse.
–- Quais são os Stoll? — ele perguntou a Clarisse, quando se aproximou.
–- Você vive com eles e não sabe?
–- Eu cheguei ontem, não deu pra me tornar super popular — ele disse sarcástico.
–- São os gemêos. Connor é aquele magro, de cabelos encaracolados e escuros — ela apontou pro rapaz — Travis, obviamente, é a mesma coisa do irmão, só que mais alto — ela concluiu e apontou pro outro.
–- Certo — ele assentiu com a cabeça e começou a descer as escadas, com Clarisse ao seu alcance.
Ele foi em direção aos gêmeos e aplicou uma rasteira em Connor, que estava mais perto.
–- Fica no chão. Se você levantar, vai ser pior — ele avisou e foi em direção a Travis.
A cada passo dado por Rick, Travis dava um pra trás, até que chegou na parede que protegia a quadra.
Rick então o levantou pela gola da camisa, usando a parede como apoio às costas do rapaz.
–- Cadê as chaves da Corvette? — Ele falou, pausadamente.
–- E-eu n-não sei — Travis respondeu, gaguejando.
–- Olha só garoto, eu estou me controlando pra não quebrar tua cara agora mesmo. Então, ou você colabora, ou eu juro que a minha paciência não vai durar muito tempo.
–- Connor entrega a chave pra ele -Travis gritou pro irmão. Dava pra ver o medo que o garoto sentia.
–- Entrega a Clarisse — Rick falou, ainda com os olhos fixos em Travis. Connor obedeceu.
Rick colocou Travis no chão e foi em direção da saída, novamente com Clarisse o seguindo de perto. Antes de sair deixou mais uma ameaça aos Stoll.
–- Se mexerem nas minhas coisas outra vez, nem o melhor cirurgião plástico desse país vai poder consertar a cara de vocês.
E saiu, pisando forte.
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Rick acompanhou Clarisse até o chalé de Ares. Ela jogou a chave para ele.
–- Obrigado pela ajuda.- ele disse, pegando a chave no ar.
–- Não se acostuma não, viu? — ela respondeu, e os dois riram.
Rick olhou ao redor a procura de outros semideuses. Ao notar que estavam sozinhos, roubou um abraço de Clarisse e saiu correndo para o chalé de Hermes.
–- Seu abusado, eu vou te bater! -Clarisse gritou para que ele ouvisse, mas ele somente riu.
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Rick guardou a chave em um dos bolsos da mochila, e começou a arrumar as coisas dentro dela. Na pressa que ele saiu pra procurar a chave, enfiou tudo de qualquer jeito.
Quando ele pegou uma roupa para vestir depois do banho, o garoto de óculos que também dormia ali em cima correu em sua direção.
–- Você é Henrique, né? — O garoto perguntou.
–- Sou. Por que?
–- Quíron e o Sr. D. estão lá fora, e querem falar com você.
Rick suspirou e colocou a roupa dentro da mochila. Depois, desceu as escadas.
O Sr. D. estava na porta, de braços cruzados sobre a barriga enorme. Tentava fazer cara de mal, mas, o máximo que conseguiu foi enrugar as sobrancelhas.
Rick riu pra si, enquanto se aproximava. Ele saiu do chalé, enquanto o Sr. D e Quíron o observavam.
–- Veja só você, Henrí Ferrari. — O Sr. D. começou — Mal chegou no acampamento e já está causando problemas.
Rick olhou pra Quíron, que o mirava com pena.
–- Você vem comigo até a minha sala, Henrí. Temos muitas coisas pra acertar. — Ele disse, e saiu andando com uma pose de rei.
Eles entraram na Casa Grande, e foram até o escritório. Dionísio se dirigiu a sua cadeira de couro e sentou. Analisou Rick se cima a baixo.
–- Você se lembra do que eu lhe disse quando aqui chegou? Pra não se meter em problemas? E, que se causasse, eu lhe daria um castigo correspondente a confusão que criou?
–- Sim, senhor.
–- Então me diga porque você tentou matar os gêmeos Stoll.
–- Eu não tentei matá-los! — Rick exclamou, indignado.
–- Ah, não? E tentar quebrar as costelas de uma pessoa não é ter a intenção de matá-la?
–- Quebrar as costelas? — Rick repetiu.
–- Não se faça de desentendido! — o Sr. D. gritou, batendo na mesa — eles vieram aqui pra me queixar que você jogou um no chão, e ao outro tentou enforcar.
–- Eles lhe contaram também que abriram a minha mochila e roubaram a chave do carro do meu pai?
–- Eles machucaram alguém enquanto roubavam a chave?
Rick negou.
–- Então, não interessa o que eles fizeram ou deixaram de fazer.
Rick suspirou e olhou pra Quíron, que permanecia em silêncio.
–- Você está procurando problemas. Acha que não lembro que você quase botou fogo na Forja de Hefesto?
–- Eu?!?! — Rick arregalou os olhos.
–- Sim. Está tudo anotado aqui nos meus arquivos.
Ele foi até o armário e pegou um livro dos muitos que ali se encontravam.
–- Veja! — Ele disse abrindo o livro e mostrando para Rick — Foi no sábado à tarde! Aqui diz, Perry...
–- Percy, Dionísio. — Quíron corrigiu — Quem fez isso acidentalmente foi o Percy. Henrique nem havia chegado ao Acampamento quando tudo aconteceu.
–- Não importa. — Ele disse, fechando o livro com força — Os dois são da mesma laia. Você e o Peter. São parceiros.
–- Percy — Quíron corrigiu mais uma vez.
–- Mas eu nem conheço esse tal de Perry, Percy, Peter... ou o que seja! — Rick disse.
–- Melhor assim. Continue sem conhecê-lo. Vocês separados já me dão problemas demais. Juntos iriam acabar com o Acampamento. Mas, me escute bem garoto. — Ele continuou, colocando o indicador na frente do rosto de Rick — Você está na minha lista. Mais uma queixa sua e eu não pensarei duas vezes antes de puni-lo. Agora saia daqui.
Rick se levantou e saiu rapidamente, bem a tempo de ouvir a trombeta do jantar tocar.
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Depois do jantar, ele voltou para o chalé de Hermes. Seu dia havia sido extremamente cansativo. Ele tomou um banho quente e foi dormir.
O cansaço era tanto que Rick não percebeu a hora que dormiu. Não demorou muito e já estava sonhando.
Ele sonhou com o dia em que encontrara a Harpia. Desta vez, como um espectador.
Ele viu a si próprio, aos doze anos, pulando a cerca divisória das fazendas. Ele tentou ir em direção ao garoto, mas seus pés estavam grudados no chão.
A moita em frente ao garoto começou a se mecher, e ele se aproximou. Rick sabia o que vinha a seguir. Ele tentou gritar, mas não saiu som algum. Tentou levantar os braços e acenar, mas parecia que estavam atados ao corpo. Estava impotente, obrigado a ver aquela cena mais uma vez.
O garoto se aproximou da moita, e aquela criatura horrível saiu do meio dela. Ela agarrou o braço do garoto e rasgou a pele. Ele gritou de dor, e o sangue começou a escorrer instantâneamente. Ele começou a correr, apertando o braço, mas a criatura voava atrás dele. Parecia que ela ia alcança-lo.
E, de repente, as duas flechas prateadas cortaram o ar, e o monstro se dissolveu em pó.
Da posição onde o Rick espectador estava, ele pôde ver quem as atirou, e como o olhava com ternura e receio ao mesmo tempo. E desapareceu.
Rick acordou ensopado de suor. Estava tudo escuro, todos estavam dormindo.
Ele foi até o banheiro e lavou o rosto. Aquelas cenas permaneciam vivas em sua mente.
Ele voltou pro quarto e se dirigiu a janela. Abriu uma banda, e sentiu o vento gelado cortando a sua pele. Ele se perguntou como aquilo seria possível.
"É só um sonho" — ele pensou. "Um sonho exatamente igual aquele dia, mas continua sendo um sonho!"
Mesmo afirmando isso pra si mesmo, não conseguiu dormir até pouco antes do sol nascer.
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