O Filho De Uma Traição
24 Um encontro com a morte
Notas iniciais
Como eu calculei, as flechas cumpriram bem o seu papel, e Talos voou em pedaços pelos ares.
Eu nem me importei comigo mesmo, apenas me joguei em cima de Bianca. Logo depois, senti uma forte pancada nas minhas costas e depois na nuca, o que me fez desmaiar.
Aí vem a parte interessante: Eu não caí em inconsciência. De alguma forma, eu estava consciente e me lembro de tudo o que aconteceu.
Eu me encontrava em um lugar assustador, e olha que eu não sou uma pessoa medrosa. Eu estava em frente a um rio. Ele tinha a água bem escura, cheio de ossos, peixes mortos e objetos jogados. Um barco passava por lá, cheio de pessoas, e o barqueiro que o conduzia me fez acertar em que lugar eu estava. Estava no submundo. Logo senti um arrepio percorrer meu corpo.
—- Será que eu morri? — Me perguntei.
Um esqueleto vinha em minha direção. Rapidamente levei a mão ao pomo da minha espada, mas diferente dos esqueletos que me atacaram, esse não parecia ter intenção de me machucar. Ele estendeu um papel em minha direção. O peguei e li o que estava escrito:
"Acompanhe o esqueleto até o meu castelo".
—Hades-
As palavras estavam escritas em grego, mas eu consegui ler facilmente. Fiz sinal com a cabeça para o esqueleto andar e o segui.
Logo eu fui reconhecendo os locais das histórias de minha mãe. Passamos pela entrada do Elísio, o campo de Asfodelos, os campos de punição, o Jardim de Perséfone, até chegarmos a casa de Hades. Ela tinha pilares e mármores negros, os pisos eram de bronze polido, não havia teto e todas as portas eram guardadas por esqueletos, que assim como o que me conduzia, não pareciam querer me atacar.
Hades esperava sentado em seu trono. Assim que me viu, se levantou e caminhou em minha direção, parando bem em minha frente. Ele tinha pelo menos três metros de altura, e usava mantos de seda preta e uma coroa de ouro trançado. Sua pele era branca como a de um albino, o cabelo comprido até os ombros era preto-azeviche. Não era corpulento como Ares, mas irradiava força.
—- Que bom que chegou garoto, estava lhe esperando — Ele falou.
—- Eu morri? — foi a primeira coisa que perguntei. Hades riu da minha cara.
—- Não, eu lhe trouxe aqui para lhe agradecer — ele disse.
—- Me agradecer? Pelo que? — perguntei franzindo o cenho.
—- Você salvou a vida da minha filha.
—- Bianca é sua filha? — perguntei, boquiaberto.
—- Sim — Ele respondeu — E você a salvou.
—- Só fiz o que achei certo — falei.
—- Mesmo assim, eu senti a morte dela. As Pacas já tinham cortado a linha da vida dela. E mesmo que eu goste da ideia de tê-la mais perto, ela tem direito de viver mais.
—- Ela sabe que é sua filha? — Perguntei e ele olhou para o chão.
—- Ainda não. Contar antes faria ela perder o foco da missão. Mas pretendo contar ainda hoje, em sonho.
—- E Nico... — Comecei e ele me interrompeu.
—- Ele também é meu filho. Também lhe contarei em sonho, e amanhã eu o reclamarei na frente de todos.
—- Fico feliz que eu tenha ajudado.
—- Eu quero te agradecer — Ele continuou.
—- O senhor já me agradeceu — Rebati.
—- Quero agradecer de outra forma, uma forma que possa fazer por você o que você fez para minha filha. Eu vou lhe dar controle sobre um dos poderes que só meus filhos teriam.
—- Quê? — Me surpreendi — Não precisa, já estou feliz só de ter conseguido salvar a Bianca.
—- Eu insisto, é uma forma de agradecimento.
Pensei por alguns segundos e decidi aceitar a oferta de Hades. Tinha a impressão de que mesmo que eu dissesse não, ele iria acabar me dando o poder.
—- O senhor não irá desistir, não é? -Perguntei suspirando.
—- Com certeza não — Ele riu. Nesse momento meu corpo começou a brilhar e fui envolvido por uma luz
negra.
—- Você tem a minha bênção garoto, e também o controle sobre o poder de viajar nas sombras. Irá saber como fazê-lo quando precisar.
—- Obrigado, tio! — Falei e ele sorriu.
—- Agora você precisa ir, seus amigos já estão entrando em desespero. Feche os olhos e boa sorte! — Ele pediu e eu o fiz. Ao abri-los estava com a cabeça sobre algo macio. Logo percebi ser a coxa de Bianca, que me encarava com preocupação.
—- Graças aos deuses você acordou, pensei que estivesse morto! — ela falou e eu levantei, sentindo minhas costas doerem. Ela me abraçou forte — Por que fez aquilo? — perguntou.
—- Você ia morrer, prometi pro Nico que ia cuidar de você. Eu quase sempre cumpro minhas promessas — falei me soltando.
—- Como sabia que ela ia morrer? -Grover perguntou e eu vi que os outros também estavam em volta de mim.
—- Qualquer um com a mínima noção de física sabe que metal conduz eletricidade, só foi juntar isso com a profecia — respondi estralando as costas.
Todos sorriram.
—- Porque não deixamos pra seguir viagem pela manhã? — Bianca pediu — Podemos descansar um pouco.
Ninguem questionou. Estava escuro e todos estavam cansados. Ela e Zöe estenderam novamente os sacos de dormir. Eu me deitei em um deles, e não lembro de muita coisa depois de fechar os olhos.
Quando acordei, os raios do sol me atingiam. Ele já estava começando a subir no horizonte, mas ainda era cedo.
Me sentei, sonolento e vi que os outros ainda dormiam. Eu me levantei do chão, me sentindo dolorido. Minhas costas estavam realmente doendo, e minha nuca latejava. Dei uma leve caminhada, mas logo a dor aumentou e eu me sentei no chão de novo.
Não demorou muito, passou-se alguns minutos e um a um, todos foram acordando. Depois de uma espreguiçada geral e vários bocejos em sequência, resolvemos seguir nossa jornada.
Não andamos muito, até que Thalia nos chamou atenção para um reboque abandonado. Não tinha chave no quadro, e eu tentei fazer uma ligação direta, o que ligou o motor. Como o tanque estava cheio, decidimos pega-lo emprestado. Thalia fez questão de dirigir, e dessa vez eu não contrariei.
Zöe e Bianca se sentaram na parte da frente com Thalia. Já eu, Percy e Grover ficamos atrás, encostados no reboque. Assim seguimos pelo deserto, praticamente sem assunto pra conversar.
Thalia dirigiu por um bom tempo, até que, na beirada de um desfiladeiro, o combustível acabou. Pulamos para fora.
—- Droga! — Thalia gritou e bateu a porta com força, o que fez um pneu furar.
—- Beleza! Agora sim temos uma boa desculpa para largar o reboque aqui no meio do nada — eu comentei e os outros riram.
—- E agora? — Bianca perguntou — Para onde vamos?
Não havia muitas opções, o deserto se estendia por todos os lados. A diferença era o desfiladeiro. Fui até a borda e olhei pra o rio esverdeado que serpenteava lá em baixo.
—- Há uma trilha — Grover disse — Podemos chegar até o rio.
Grover apontou para uma minúscula saliência ao longo do penhasco.
—- É um caminho para bodes — disse Percy.
—- E daí? — Grover rebateu.
—- O resto de nós não é bode — Percy explicou — Acho que devemos continuar andando e procurar outro caminho.
—- Mas...
—- Vamos — Percy concluiu — Uma caminhada não vai nos machucar.
Eu estralei as costas de novo. Acho que elas vão me incomodar por algum tempo. Mesmo assim, seguimos andando por quase um quilometro, até chegarmos a um declive.
—- Vamos descer por aqui — Eu falei. O declive não era tão acentuado, e descemos sem dificuldade. Em baixo, na margem, havia uma lojinha com algumas canoas, e uma placa de SERVIÇO DE ALUGUEL, FECHADO TEMPORARIAMENTE.
—- Devemos subir o rio — Zöe indicou — As corredeiras são muito velozes.
—- Deixe isso comigo — Percy completou. As canoas eram pequenas, então colocamos três na água enquanto Percy deixava algumas dracmas e um recado no balcão.
Grover e Thalia entraram numa canoa, Percy e Zöe na outra, e eu e Bianca sobramos na última.
Quando Percy subiu na canoa, logo chamou três garotas que estavam na água, e que eu não havia visto antes.
—- Glu, glu! — Uma disse. Naiádes, eu reconheci das histórias gregas.
—- Estamos subindo o rio — Percy disse — Vocês poderiam...
Mas antes que ele terminasse, as naiádes escolheram uma canoa para cada e começaram a empurrar.
Logo que as canoas entraram em movimento, eu enfiei a mão no bolso e pesquei a pequena estatueta.
—- Toma — Falei. Bianca se virou pra mim e eu entreguei — Você já pode entregar pessoalmente.
Ela esboçou um sorriso enquanto observava a estátua.
—- Tenho vontade de joga-lo no rio — Ela falou — Isso quase nos matou.
—- Não faça isso! — Exclamei — Encaramos um perigo muito grande por esse bonequinho, não vale a pena jogar ele fora agora.
Ela me encarou, com uma expressão meio triste.
—- Desculpa por isso — ela disse — Eu não sei o que tava pensando, mas você quase morreu por minha causa.
—- Qual é! — Rebati, sorrindo — Eu não sou tão fácil assim de se livrar, sabia?
Ela sorriu de volta, e guardou o bonequinho em um bolso. Depois olhou sonhadoramente pra água.
—- No que está pensando? — Perguntei. Ela suspirou.
—- Em um sonho que tive, nada de mais...
—- Ele te assumiu? — Rebati e sorri quando ela me encarou surpresa.
—- Do que está falando?
—- Você sabe — Respondi, olhando para as montanhas — Afinal, tio Hades tem palavra. Promete e cumpre.
Do canto do olho eu vi ela fazer um "o" com a boca. Não contive o riso.
—- Quando eu desmaiei, encontrei com ele — Expliquei — Ele ficou muito satisfeito com o que fiz por você, e eu o fiz prometer que iria assumir a você e a Nico.
—- Entendo... — Bianca respondeu. Ela ainda estava bastante surpresa.
Ficamos um pouco mais em silêncio.
—- O que aconteceu? — Perguntei — Você sabe, eu não vi muita coisa depois da explosão.
—- Bom — Ela começou — Depois de você me proteger, Talos expodiu e isso nos afastou. Quando eu levantei do chão, você tava caído, e não respondeu ao meu chamado. Os outros começaram a se aproximar, e Grover disse que a profecia tinha se cumprido...
—- Nossa... — Falei.
—- Você nos deu um baita susto — Ela rebateu e empurrou meu braço de leve.
—- Foi por uma boa causa!
—- Obrigada mesmo... — Ela falou, levemente.
Eu a abracei, e ficamos um pouco nessa posição. Ela precisava disso, e parecia aliviada quando nos soltamos.
—- Fico feliz que esteja vivo — Ela falou — Eu queria um favor seu...
—- Qual?
—- Bem, quando voltarmos da missão, eu muito provavelmente vou sair para a Caçada...
—- Você quer que eu cuide de Nico, não é? — Interrompi e ela assentiu.
—- Ele não entendeu minha decisão. E eu não quero que ele se sinta sozinho.
—- Não se preocupe! — Falei — Eu ia fazer isso, não precisava pedir. Eu gosto muito do garoto Nico.
A canoa começou a desacelerar e eu me virei pra ver onde estávamos. A nossa frente, uma enorme represa se formava.
—- Preparada pra continuar o desafio? — Perguntei.
—- Preparada! — Ela sorriu.
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