Notas iniciais
E ai gente? Blz? Durante a missão os capítulos serão contados com o PVO do Rick. Começando com esse capitulo.

Eu me sentei na margem do lago, pensando em tudo o que estava acontecendo, e em como minha vida virou de ponta cabeça em questão de dias.

Estava tão perdido em meus pensamentos que mal percebi que alguém se aproximava.

—- Você vai na missão, né? — ouvi alguém perguntar. Me virei e vi o garoto Nico ao meu lado.

—- Como sabe? — Perguntei. Ele sorriu e se sentou do meu lado.

—- Você é filho de Ártemis. Era de se esperar que você fosse.

Eu sorri pra ele. Peguei uma pedrinha e joguei no lago. Nico estava visivelmente triste, e eu fiquei curioso.

—- Porquê você está assim? — Perguntei. Ele suspirou antes de falar.

—- Minha irmã, Bianca, também vai.

—- Bianca é sua irmã? — Rebati, e ele assentiu. Eu lembrava que em nossa última conversa ele disse que esse era o nome da irmã, mas não imaginava que ela e a nova Caçadora fossem a mesma pessoa.

—- Ela veio falar comigo mais cedo — Nico continuou — Me disse pra não me preocupar, mas isso é impossível.

—- Eu imagino — Concordei.

—- Você pode ficar de olho nela? Digo, cuidar pra que ela não se machuque?

—- Pode contar comigo!

—- Obrigado! — Ele respondeu, e parecia bem aliviado.

—- Mas eu quero que faça um favor pra mim — Falei, e ele me encarou — Quero que você vigie meu carro. Não deixe ninguém encostar nele. Posso contar com você?

Nico confirmou com a cabeça, animado. Eu coloquei a mão no bolso e pesquei a chave da Corvette.

—- Aqui — Disse entregando. Ele olhou, curioso. — Estou confiando em você. E não é porque você está com a chave que é pra você sair dirigindo por aí, entendeu? Eu te dei só pra ela ficar segura. E cuidado com os garotos do chalé de Hermes. Não quero que a roubem de novo.

—- Não se preocupe! Eu vou cuidar, e quando você voltar vai estar tudo do jeito que deixou!

Sorri pra ele. Parecia bem animado, e eu achei que seria a coisa certa. Pelo menos, ele iria ter uma das primeiras lições de responsabilidade de sua vida.

Nos próximos minutos, ele me explicou tudo que podia se lembrar de seu jogo de cartas preferido. Tenho que me lembrar de agradecer a ele por isso, pois por mais que fosse difícil acompanhar a explicação, me fez esquecer de minha mãe e do perigo que estava correndo. Lembre-se: se estiver triste ou preocupado, peça a Nico para lhe ensinar Mitomagia. Garanto que ele vai fazer você esquecer seu próprio nome, enquanto tenta absorver o nome de cada deus e sua carta holográfica ou sua escala de pontos de ataque.

Começava a anoitecer, e logo a trombeta do jantar tocou. Fomos para o Pavilhão, onde eu me despedi de Nico. Como nas outras vezes, as Caçadoras estavam aglomeradas na ponta da mesa. Eu me sentei na outra ponta. Vi que Clarisse estava comendo com os seus irmãos. Eu ainda tinha que me falar com ela, não podia ir à missão sem me despedir.

Pra minha surpresa, ela logo se levantou e saiu. Terminei de comer rapidamente e fui na direção dos Chalés, pra onde ela tinha ido. Fui até o chalé de Ares e bati na porta. Um meio-irmão de Clarisse abriu e me explicou que ela havia ido pra perto do lago. Corri rapidamente pra lá.

Ela estava em pé em frente ao lago, de costas pra mim. Me aproximei e parei ao lado dela.

—- Hey — Falei.

—- E aí, preparado pra missão? — Ela perguntou, sorrindo.

—- Tô sim. Vim me despedir de você. Vê se não arranja confusão enquanto eu estiver fora, hein? Quero estar presente nas tretas — Falei rindo, e me sentei na beira do lago.

—- Meio impossível eu arranjar confusão aqui, novato. Quíron me mandou pra uma missão — Ela disse, se sentando ao meu lado.

—- Que missão? Pensei que precisávamos de uma profecia pra sair em uma missão — Falei, começando a ficar preocupado.

—- De vez em quando, quase nunca, acontece de irmos sem ter recebido uma profecia — me explicou.

—- Quem vai com você? — perguntei.

Ela suspirou antes de me responder

—- Ninguém — falou.

—- Como assim ninguém? Você não pode ir sozinha, é perigoso — falei. Agora sim eu estava preocupado.

—- Ei, não se preocupa, tá? Eu sei me cuidar muito bem. E você sabe disso.

—- É você realmente sabe... — admiti — Mas ainda assim é perigoso.

—- Somos semideuses, é perigoso pra gente até ir comprar pão — Ela falou, e conseguiu me arrancar o riso.

Enquanto ela falava, eu percebia que ela também estava preocupada com algo. Então resolvi perguntar.

—- Você também parece estar preocupada com algo... O que é?

Ela suspirou e olhou pra mim.

—- Demorou muito tempo pra eu arranjar alguém que eu considerasse amigo. Rick, você chegou faz pouco tempo, mas já te considero meu melhor amigo. E você conseguiu isso antes de qualquer um aqui. Eu não tenho mais ninguém tão próximo... Não quero te perder... — Ela terminou e me abraçou de lado. Fiquei surpreso com o abraço, era a primeira vez que era uma atitude dela e não minha.

—- Quem disse que você vai me perder? — Perguntei, passando meu braço em volta da sua cintura.

—- A profecia diz que duas pessoas não irão voltar. Tenho medo que uma delas seja você... — Ela apoiou a cabeça no meu ombro.

—- Eu vou voltar — Disse. Não tinha certeza disso, mas precisava passar confiança a ela. Nunca tinha visto a Clarisse sendo frágil, mas já percebi que odeio vê-la assim. Ficamos algum tempo naquela posição, em silêncio.

—- Vou voltar — Falei, quebrando o silêncio — E quero que você esteja aqui, e com todos os membros no lugar — Brinquei, para tentar aliviar a tensão.

—- Acho que minha missão pode demorar um pouquinho mais que a sua — ela disse, levantando.

—- Uma semana, se você não estiver aqui uma semana depois que eu tiver voltado, eu irei atrás de você — Levantei também e começamos a andar em direção aos Chalés.

—- Você nem sabe pra onde eu vou! E não pergunte, não posso te contar.

—- Não importa, eu descubro. Nem que eu tenha que torturar o Quíron — Brinquei.

Andamos em silêncio até chegar ao Chalé de Ares.

—- Boa sorte, volte vivo — Ela me abraçou novamente. Um abraço demorado, sem se importar se teria ou não alguém olhando.

—- O mesmo pra você — Respondi, assim que nos separamos — E lembre-se: uma semana.

—- Tentarei — Ela me deu um beijo na bochecha e virou-se para entrar. Segurei seu braço, impedindo que ela andasse. Ela olhou pra mim, sem entender.

—- Vou sentir sua falta — Eu disse, e ela sorriu — E só pra constar você também é minha melhor amiga.

A soltei e saí, indo pra o meu Chalé. Ao chegar, tomei um banho demorado, e me deitei no sofá.

Não consegui dormir direito durante a noite. Estava ansioso, animado, preocupado, inquieto, tudo ao mesmo tempo. Eu fiquei um bom tempo apoiado no peitoril da janela. A visão era linda, a lua refletia no telhado de alguns chalés e brilhava em uma parte do lago. A luz dela me fez bem. Senti minhas forças renovarem.

Como na outra noite, as Caçadoras faziam barulho no andar de cima. Não acho que elas também tenham conseguido dormir. Por volta das quatro da manhã, Zöe e Bianca desceram e saíram do chalé. Fiquei com vontade de segui-las, mas talvez não fosse um bom momento pra ver Zöe ter seus ataques de raiva.

Quando o sol começou a aparecer eu me cansei de esperar o sono chegar. Quíron havia dito pra nos apresentarmos cedo, pois não podiamos perder tempo. Tomei um banho rápido, arrumei meu estojo de adagas na cintura, prendi minha aljava nas costas e guardei o bastão no bolso.

Antes de sair, dei uma última olhada no meu porta-retrato, e prometi a mim que, mesmo que fosse o meu último ato, eu ia salvar a minha mãe. E a princesinha irritada, se ela estiver por perto.

Saí do chalé e fui andando devagar até a Casa Grande. Não havia ninguém por perto dela, aparentemente eu era o primeiro a chegar. Então, me sentei nos degraus da varanda, pensando. Ando pensando demais esses dias.

Alguns minutos depois, ouvi a porta atrás de mim ranger, e depois som de cascos na madeira. Nem precisei olhar para reconhecer que era Quíron.

—- Henrique? Já tão cedo? — Ele perguntou, e eu me levantei — Pedi que viessem cedo, mas poderiam esperar o dia terminar de amanhecer — ele concluiu, rindo.

—- Meu pai me ensinou que cedo é logo que o sol nasce — brinquei — Na verdade, não dormi direito essa noite.

—- Eu imagino. É sua primeira missão, e com um motivo muito importante — Eu assenti, e ele colocou uma mão em meu ombro — Vocês vão conseguir. E, mesmo com as perdas, vão voltar vitoriosos.

Eu sorri, e pensei em como me sentia à vontade com Quíron. Aos poucos, os outros integrantes da missão foram se aproximando, e Quíron nos serviu alguns sanduíches, já que não ficaríamos pro café. Enquanto Quíron nos dava algumas informações, percebi que faltava alguém. Deviam estar três Caçadoras, mas só Zöe e Bianca estavam ali.

—- Onde está a outra Caçadora? — Perguntei.

—- Houve um acidente. — Zöe falou — Aqueles garotos Stoll borrifaram a parte de dentro daquela camisa com sangue de Centauro. Phoebe vestiu, e... Bem, ela está na enfermaria e não poderá sair por um bom tempo.

—- Ficaremos desfacaldos! — Grover exclamou.

—- Mas não podemos arriscar outra pessoa — Zöe rebateu e Quíron concordou.

—- De qualquer maneira — ele disse — Não há mais tempo para escolher mais um. Vocês cinco devem partir e completar a missão. Aqui está a chave da van que vai levá-los, mas Argos não pode dirigir dessa vez. Qual de vocês irá dirigir?

—- Eu dirijo! — Eu e Zöe falamos ao mesmo tempo.

—- Tu não dirijes melhor do que eu — Ela disse.

—- Eu vim dirigindo do Brasil até aqui — Rebati — Pergunte ao Grover se eu não me saí bem! Diga a ela, Grover!

—- Bem... — Grover gaguejou — Ele dirige bem, mas não deixe ele fazer manobras radicais com o carro, porque ele quase me matou de susto da última vez.

—- Isto não importa! — Zöe continuou — E eu tenho anos de experiência à frente deste garoto.

—- Ter anos de experiência é uma coisa, ter conhecimentos básicos da arte de dirigir é outra totalmente diferente — Respondi.

—- O que insinua? — Zöe pareceu ofendida — Já me viste dirigir?

—- Não — rebati — Mas mulheres não guiam carros tão bem quanto os homens.

—- Esta informação é irrelevante — Ela bateu o pé — E além do mais, eu tenho uma base de coordenadas que fiz com Lady Ártemis. E a não ser que queira dirigir enquanto digo em que avenida, rua ou beco deve entrar, pode pegar a chave.

Pensei. Eu dirigir enquanto ela me guiava? Isso não daria certo. Um de nós ficaria irritado e perderíamos o controle. Melhor não. Eu poderia causar um acidente. Já podia ver a van dando voltas no ar antes de explodir em um barranco. Não queria que o primeiro indicado na profecia morresse de um acidente de trânsito.

Zöe deve ter entendido o que eu pensava, pois sorriu vitoriosa. Ela pegou a chave da mão de Quíron e se levantou pra sair.

—- Mas eu vou dirigir na volta — avisei, me levantando também.

Nos despedimos de Quíron. Todos desceram a escada, mas Quíron me chamou. Eu voltei e ele me entregou algum doláres.

—- Compre algo pra se aquecer no caminho — Ele disse — E boa sorte!

Agradeci ao receber, apesar de não ter entendido o porquê dele dizer aquilo. Estava uma temperatura agradável, não tinha nescessidade de algo pra me esquentar.

Fomos até o pé da colina, onde a van estava estacionada. Mas eu estava incomodado. Todos tinham suas armas escondidas, mas como eu faria pra esconder minha aljava? Resolvi perguntar a Grover.

—- Grover... — Chamei.

—- Sim?

—- Quando nós chegarmos na cidade, como farei pra que ninguém veja a aljava?

—- Que aljava? — Ele me olhou, confuso.

—- A que está em minhas costas.

—- Mas não tem aljava nenhuma em suas costas e... — ele interrompeu a própria frase e arregalou os olhos — Oh! Que incrivel!

—- O quê?

—- A aljava está mesmo em suas costas! — Grover exclamou.

—- É claro que ela está! — Eu respondi — Foi por isso que te perguntei.

—- Mas eu não tinha percebido... — Ele parou e estalou os dedos — Dissolução óptica!

—- Que é isso?

—- Basicamente, ela está e não está com você. É como as das Caçadoras, você a prendeu nas costas e vai andar com ela. Mas enquanto não precisar, ela não vai aparecer. Se quiser, nunca mais precisa tirar, porque ela não estará lá! Ártemis é demais!

Eu fiquei surpreso com aquela explicação. Minha mãe havia pensado em tudo mesmo. Eu nem sentia que carregava algo em minhas costas, e eu realmente não carregava, a não ser que eu precisasse. Era mais incrível do que eu podia ter imaginado.

—- Vão ficar parados ou pretendem ir conosco na missão? — Zöe gritou, de repente. Só então percebi que eu e Grover tínhamos parado pra conversar. Todos já haviam entrado e esperavam por nós. Eu e Grover sentamos atrás, junto com Thalia. Zöe colocou a chave. A van rangeu um pouco antes de ligar. Ela pisou no acelerador com força, e fomos jogados para trás no banco.

Subimos a colina e atravessamos a barreira mágica, para depois descer e seguir pela estrada rumo a Oeste. E só então eu entendi a recomendação de Quíron. Foi incrivel, pois mal começamos a seguir na estrada, ficou extremamente frio. Devia estar uns 3 graus. Eu, acostumado ao frio de 22 graus da Bahia, praticamente congelei.

—- Só eu que acho que está frio demais? — Comentei. Thalia começou a rir.

—- Estamos no inverno, e muito provavelmente nevou por esses dias — ela disse, ainda rindo — o Acampamento tem regulação térmica, mas aqui temos que lidar com a fúria da natureza.

Isso seria ótimo. Uma experiência bem marcante. De repente, me deu uma vontade enorme de cantar.

—- Let it go! Let it go!

—- Que música é essa? — Grover perguntou.

—- Frozen — Respondi — Let it go! Can't hold it back anymore!

—- O que é Frozen? — Thalia estranhou.

—- É um desenho — Rebati — Frio e gelado. Tem muito a ver com este momento.

—- Belo momento pra brincadeiras — Thalia revirou os olhos.

—- Povo sem cultura — Resmunguei e perdi a vontade de cantar.

Zöe continuou dirigindo. Indiferente ao meu "show", ela ia fazendo curvas entre os carros. Apesar de ser cedo, a estrada estava muito movimentada, talvez por causa dos feriados. Não sabíamos exatamente pra onde Zöe nos levava, mas ela estava convicta do caminho que iria percorrer. Somente uma coisa era certa: estávamos partindo rumo ao desconhecido. Só três de nós iriam voltar e, talvez, não inteiros. Eu estava incluso nessa listagem. Pra falar a verdade, naquele momento achei que eu deveria ter me despedido melhor do meu pai.