O Filho De Uma Traição
15 Enquanto uns discutem,outros beijam
Ártemis estava parada, em frente ao escritório de Zeus. Na verdade, não era bem um escritório, já que se tratava da sala de jogos do Olimpo. Mas, Zeus achou que ali deveria ser o lugar onde ele iria "trabalhar".
Ela havia acabado de se transformar. De sua versão Thaemi, ela agora estava da maneira que se apresentava ao Conselho: adulta, cabelos castanho-avermelhados e ondulados, e olhos de um tom incrivelmente prateado.
A porta estava aberta, mas Ártemis achou prudente bater antes de entrar. Zeus estava jogado em uma poltrona bebendo alguns goles de néctar, e abriu um largo sorriso quando a viu.
—- Ártemis! – Ele disse, se sentando direito — Não esperava vê-la agora, já que todos deveriam estar ocupados preparando seus relatórios e pautas para o Conselho anual.
—- É justamente sobre isso que eu queria falar, pai – Ártemis interrompeu. Pra sua surpresa, Zeus enxugou uma lágrima.
—- Minha princesa! Sabia que você é a única que ainda me chama assim? Mas venha, sente-se aqui! – Ele falou, e apontou pra uma cadeira em frente. Ártemis se sentou, e ele continuou – Então me diga, filhinha. O que você quer me contar?
Ártemis respirou fundo. Era agora ou nunca.
—- Papai... Eu quebrei uma promessa.
—- Isso é normal, todos nós quebramos alguma promessa. – Zeus rebateu, enchendo seu copo.
—- Talvez... Mas a que eu quebrei foi a pior de todas.
—- Do que você está falando? — Ele interrompeu, levando o copo aos lábios.
—- Eu me casei, e tenho um filho meio-sangue.
Zeus engasgou no mesmo instante. Ele cuspiu todo o néctar da boca e começou a tossir desesperadamente. Ártemis suspirou, se preparando pra o que viria depois.
—- Eu não acredito! — Zeus gritou, após a crise de tosse.
—- Pai...
—- NÃO ME CHAME DE PAI! — Ele esbravejou, se levantando. Ártemis se levantou também.
—- Me permita explicar...
—- Quantos anos tem esse filho? — Ele interrompeu.
—- Acabou de fazer 16.
—- E se supõe que você seja casada com o mortal pai de seu filho, certo? — Ele perguntou, e Ártemis assentiu — Quer dizer que há 16 anos você esconde isso de todos!
Raios e trovões começaram a cortar o céu. Da janela, Ártemis viu os clarões, mas a tempestade lá fora não era maior do que a fúria de Zeus.
—- Eu não esperava isso de você, Ártemis! Você jurou pelo Rio Estige! Prometeu pelo sangue de sua mãe! Um juramento tão pesado virou pó por um romance com um mero mortal?
—- Porque está tão bravo? — Ártemis interrompeu, perdendo a paciência — Você, Hades e Poseidon também juraram pelo Rio Estige que não teriam filhos com mortais, e tanto você quanto Poseidon quebraram esse juramento!
Zeus parou pra pensar naquela repentina acusação. Mas não demorou para fechar a cara novamente.
—- Eu não vou discutir agora com você. Essa questão será pauta do Conselho, e caberá a ele decidir o que pensar. Mas não pense que nada acontecerá a você ou a esse... bastardo.
Ártemis abriu a boca para rebater, mas Zeus fez sinal para que ela se calasse.
—- Você me decepcionou, Ártemis — Ele continuou, se virando pra janela — Agora saia daqui!
Ela saiu da sala, enquanto Zeus se apoiava no peitoril da janela.
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Rick ficou deitado no sofá por um tempo, completamente entediado. Ele olhou no relógio da parede, e ainda faltava uma hora para o jantar. Fora isso, nenhuma atividade especial.
Ele se levantou, decidido a assistir algum treinamento que estivesse acontecendo. Saiu do Chalé, e viu que vários campistas estavam saindo, com mochilas em suas costas. Sem ligar, ele foi até o campo de volêi, onde alguns campistas jogavam.
Rick se sentou na arquibancanda próximo a duas jovens, que logo começaram a cochichar. Ele podia ouvir o que diziam.
—- Nossa...
—- É o filho de Ártemis.
—- Como um garoto pode ser tão gato? Lindo demais!
Rick sorriu levemente, passando a mão no cabelo, e elas suspiraram.
—- Ouvi que ele é brasileiro.
—- Hum... Que interessante...
Elas abaixaram o tom, e Rick não pôde ouvir mais. De repente, uma se levantou saiu, enquanto a outra continuou sentada. Ela começou a observa-lo de forma nada discreta.Rick sorriu pra ela, pensando o quanto precisava de uma distração, e aquela garota parecia perfeita.
Ele formulou um pequeno plano em sua cabeça e decidiu que ia colocar em prática. Mal sabia que não ia precisar mover um dedo para isso.
Ele se levantou e saiu da arquibancada, indo em direção à área dos chalés. A garota foi rápida, e o alcançou no caminho, o encarando.
—- Olá — Ela o cumprimentou.
—- Oi — Ele sorriu.
—- Está indo pro chalé? Eu poderia lhe acompanhar...
—- Com todo gosto — Rick respondeu, e eles começaram a andar.
Uma bela garota, Rick pensou. Olhos escuros e cabelos loiros e lisos. Sim, muito bonita.
—- Filha de...? — Rick puxou conversa.
—- Afrodite — ela respondeu — E você é filho de Ártemis, né?
—- Isso mesmo — Rick assentiu.
—- E ai, já se acostumou a rotina do Acampamento? — Ela perguntou.
—- Sim, não é muito difícil.
—- Nem acordar cedo todos os dias?
—- Estou acostumado a acordar cedo. — Rick rebateu — Lá onde eu morava, eu acordava cedo para ir ao colégio ou simplesmente para ajudar meu pai.
—- Você é brasileiro né? — Ela perguntou e Rick assentiu — Sabe, eu conheci um brasileiro no verão retrasado, que ficou muito amigo meu. Ele era do Rio de Janeiro, mas tinha o sotaque diferente do seu... De onde você é?
—- Salvador, Bahia.
—- Hum...
—- Ouvi o que você estava falando com aquela garota na arquibancada. — Rick disse sorrindo.
Ela não ruborizou ou se afastou, como Rick imaginou que faria. Pelo contrário, ela se aproximou ainda mais.
—- Então você me ouviu dizer que eu sempre quis saber se brasileiro tem pegada... — Ela falou, tocando em seu braço.
Ela jogou a isca sorrindo maliciosamente e parou de andar ao chegar ao lado do chalé de Afrodite.
—- Você não prefere que eu lhe mostre a resposta? — Ele também sorria com o mesmo tom.
Rick olhou ao redor, a procura de algum campista. Quando constatou que estavam sozinhos, se aproximou na garota, que sorria. Ele entrelaçou seus dedos em meio aos cabelos dela e a beijou.
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Clarisse se aproximou da área dos chalés, a tempo de ver Rick beijando uma garota.
—- Não acredito! — Ela exclamou, se aproximando. Ela ficou ao lado deles, que mal notaram sua presença, de tão entretidos.
—- Atrapalho? — Clarisse gritou, após limpar a garganta ruidosamente. Rick se afastou da garota, divertido.
—- Ah, oi Clarisse! — Rick a cumprimentou, com um largo sorriso.
A filha de Afrodite saiu correndo na mesma hora .
—- Oushi, nem fiz nada! — Clarisse falou.
—- Com a fama que você tem aqui no Acampamento, é natural que ela tenha essa reação — Rick disse e Clarisse riu.
—- Muito bem, novato! — Clarisse bateu palmas — Você se revelou bem rápido. Mal chegou ao
Acampamento e já esta se
agarrando com um das filhas de Afrodite?
—- Ah, desculpe — ele ironizou — Eu deveria ter esperado completar um mês da minha chegada.
—- E de todas as garotas do Acampamento, você tinha que beijar logo a Dorothy, que é a mais ousada?
—- Ah, o nome dela é Dorothy? — Rick comentou, e ela arregalou os olhos — É que não deu tempo de perguntar o nome dela.
—- E você não tem vergonha de falar isso?
—- Ela queria saber se eu tenho pegada, e foi o que eu demonstrei!
—- Isso é ridículo! — Clarisse cruzou os braços.
—- Espera aí! — Rick interrompeu — Deixa eu entender... Você está com cíumes?
—- Não! — Ela exclamou, ofendida — Cíumes não é a palavra certa. Tá mais pra surpresa.
—- Imagino.
—- Nesse quesito, você parece mais com um filho de Apolo.
—- Ah, eu tenho que fazer jus ao meu sangue! — Rick riu, e Clarisse meneou a cabeça. — Eu estava precisando me distrair — continuou.
—- Nossa, ótima forma de distração -Clarisse ironizou e ele riu.
—- Mas eu acho que você não veio me procurar pra falar da minha forma de distração. — Rick questionou.
—- Realmente. Só vim dizer que Quíron vai fazer um aviso oficial durante o jantar, pro caso de você querer faltar.
—- Ah, obrigado por me avisar. Não que eu fosse deixar de comer, mas eu vou estar lá. — Ele continuou rindo. Clarisse revirou os olhos, e começou a andar. Rick a seguiu.
Eles viram vários campistas de mochila subirem a colina, em direção à barreira mágica.
—- Pra onde estão indo? — Rick questionou.
—- Hoje é 15 de dezembro. Todo ano, nessa data, os campistas são liberados pra passar alguns dias com suas famílias.
—- Legal. Você vai?
—- Não. — Clarisse fechou a cara, e Rick achou melhor não perguntar o porquê.
Eles mudaram de assunto, e conversaram por um tempo até ouvirem a trombeta da refeição tocar.
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Os campistas se reuniram no refeitório. Haviam poucos, alguns de Ares, Afrodite, Hefesto e Hermes, pois a maioria foi curtir o feriado em casa.
Todos conversavam com os seus irmãos na mesas, com excessão de Rick, Thalia e Percy. Percy e Thalia, pois não tinha irmãos. Rick, porque as Caçadoras ainda tinham receio de se aproximar do sexo masculino. Elas se aglomeraram numa ponta da mesa, rindo e brincando, enquanto Rick se sentou na outra ponta.
O Sumiço de Annabeth era o assunto principal entre os semideuses, que discutiam em voz alta.
Quíron entrou no local em sua forma centaurica. Ele bateu palmas, fazendo todos se calarem, enquanto ia até o palanque.
—- Olá, jovens Campistas. Como todos sabem, as Caçadoras estão de visita aqui no Acampamento. E quando isso acontece, sempre temos um caça-a-bandeiras amistoso. Dessa vez não será diferente. Ocorrerá amanhã à tarde.
—- Mas não teremos gente o suficiente — Percy questionou.
—- Sim, eu sei. Muitos vão visitar seus parentes, e as equipes terão de ser formadas com poucas pessoas. Mas, como eu já disse, é uma partida amistosa. É só isso que tenho a dizer, então, boa refeição a todos — Quíron respondeu e saiu.
O jantar foi servido. Os poucos que ainda estavam no Acampamento logo terminaram, e a maioria se dirigiu aos seus chalés.
Rick estava muito cansado. Ele tomou um banho rápido e se jogou no sofá. Não demorou muito pra dormir.
Ele poderia ter dito que foi um sono bom e agradável. Infelizmente, ele teve um pesadelo que o fez estremecer.
Estava em um lugar escuro e coberto por uma névoa. Ele pensou ser uma caverna, pois não havia luz por cima. E era muito frio.
Ele não conseguia enxergar nada além da névoa. Ele esticou os braços, e a poeira começou a se dissolver. Rick então viu algumas sombras que aos poucos se revelavam.
—- Ela ainda está inconsciente? — Alguém perguntou.
—- Talvez tenham exagerado nos golpes. Mas ela não ficará assim por muito tempo. — Respondeu uma voz marcante e pesada. Rick estremeceu.
Ela não viu quem falou, mas pôde ver a quem estavam se referindo: Mesmo não estando na forma que estava acostumado, Rick tinha certeza que era Ártemis. Ela estava desarcordada, agachada e com suas mãos presas em correntes acima da cabeça. Ela sangrava em muitos lugares um líquido dourado, que Rick reconheceu como o Icor. Seu vestido estava rasgado, e seus cabelos sujos. Pelo estado dela, parecia que só conseguiram desacorda-la depois de uma luta.
Ele tentou gritar, mas como no sonho da Hárpia, não conseguiu.
—- E o que faremos quando sentirem a falta dela? — A primeira voz perguntou.
—- Não demorará pra isso acontecer. Mas sei que quando chegarem, será tarde demais. — A voz marcante respondeu.
A névoa começou a ficar cada vez mais forte, e Rick não conseguiu ver mais nada.
Ele acordou ofegante. Ele se sentou no sofá, e enxugou o suor da testa com as mãos trêmulas. Olhou para o relógio e eram quase três da manhã.
De repente, ouviu passos apressados de alguém que descia as escadas correndo. Rick se levantou e viu Zöe.
—- Onde vai? — Ele perguntou.
—- Não é de tua conta — Zöe rebateu, ríspida.
—- Ah, é sim! — Rick exclamou, puxando ela pelo braço — Eu sei o que aconteceu. Você sonhou com Ártemis, não foi?
Zöe arregalou os olhos.
—- Eu tenho certeza que tivemos o mesmo sonho — Rick continuou — Ela estava muito machucada, e aquela voz disse que exageraram nos golpes... Não foi?
—- Me solta! — Ela gritou — Eu preciso falar com Quíron!
—- Correção: Nós precisamos falar com Quíron — Rick respondeu e soltou o braço dela. Os dois saíram do chalé, e se dirigiram à Casa Grande.
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Não foi tão fácil quanto imaginaram. Um cara loiro e cheio de olhos que Zöe chamou de Argos não permitiu que eles entrassem.
—- Precisamos falar com Quíron! — Zöe gritou.
—- E urgente — Rick completou.
—- Ártemis não está segura! — Zöe bateu o pé — Ela está com problemas e precisa de ajuda! Deixe-nos passar!
—- Se vocês não saírem daqui agora — Argos advertiu — Não serei o culpado caso percam seus braços.
—- Tu és um palhaço de cérebro fervido! — Zöe o insultou.
—- E você uma petulante do século 15! — Argos se defendeu.
—- Seu... Seu... — Zöe começou, ofendida.
—- Eu posso saber o que está acontecendo aqui ? — Quíron gritou, se aproximando em seu pijama, e Rick respirou aliviado.
—- Finalmente, Quíron! Precisamos falar com você — Rick disse.
—- Peço permissão para partir do Acampamento imediatamente! — Zöe começou e Quíron negou com a cabeça.
—- Lembre-se de que deve permanecer aqui até receber ordens de Ártemis.
Zöe engoliu em seco.
—- Mas como poderemos receber ordens se Lady Ártemis está perdida?
—- O quê? — Quíron não entendeu.
—- Tivemos o mesmo sonho, Quíron — Rick falou — E seja lá como aconteceu, Ártemis está com sérios perigos.
—- Entrem e me expliquem isso direito — Quíron rebateu, abrindo passagem. Antes de entrar, Rick olhou em volta e teve quase certeza de que viu Grover escondido atrás dos arbustos.
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