Zöe estava fazendo um bom trabalho. Apesar do trânsito horrível, ela conseguia passar entre os carros com rapidez. Tenho que admitir que ela realmente dirige como uma profissional.

Depois de eu parar com a cantoria, todos ficaram em silêncio profundo. Pra animar, eu perguntei que músicas eles conheciam, e a muito custo consegui que Thalia, Bianca e Grover cantassem. Fizemos um pequeno show dentro da van. Algumas músicas eu até conhecia o ritmo, e tentei acompanhar batendo no banco.

Aquele momento me fez ver uma Thalia que eu não havia conhecido. Percebi que ela é bem legal. Pelo menos, quando não está com raiva, ou querendo fuzilar alguém com aquele olhar profundo.

Cantamos durante boa parte da viagem, e isso aliviou o clima pesado.

Entramos em uma cidade, que Grover chamou de Manhattan. Mas não demoramos ali, porque logo voltamos pra rodovia.

Dali, Zöe dirigiu como uma louca até onde Grover chamou de Maryland. Lá, paramos em uma loja de conveniências, onde todos descemos da van.

Entramos na loja. Havia algumas mesinhas para os clientes, e nos dirigimos pra lá. Enquanto Bianca comprava um mapa, Zöe mandou que Grover fizesse o tal "encanto de rastreamento". Ele enfiou a mão no bolso e pegou várias bolotas, jogando-as em cima da mesa. Ele tocou algumas notas desafinadas em sua flauta, e algumas bolotas se agruparam enquanto outras se afastaram. Pra mim, não fazia sentido nenhum, mas Grover as analisava como se entendesse perfeitamente. Não demorou muito pra nos explicar.

—- Aqui diz que devemos ir pra Washington D.C. — Ele disse.

—- Washington? — Zöe interrompeu — Não pode ser... Não perdemos nada no sul, e a única coisa que faremos é sair da rota!

—- Mas é o que diz aqui. Está vendo? — Grover apontou pra um grupo de bolotas — Ali é o Museu Nacional do Ar e Espaço. Esse museu fica em um shopping, no Washington D.C. Mesmo que seja no sul, é pra lá que temos que ir.

Assim que Bianca voltou com o mapa na mão, saímos da loja. Zöe explicou a ela o que Grover havia dito.

—- Grover, você tem certeza? — Thalia disse, assim que Zöe parou de falar. Grover deu de ombros.

—- Bem... Quase certeza. 99%. — Thalia o encarou e ele gaguejou — Tudo bem, 85%.

—- E você fez isso com bolotas? — Bianca perguntou, como se não pudesse acreditar. Grover pareceu ofendido.

—- É um encanto de rastreamento honrado pelo tempo! Quero dizer, estou praticamente certo de que o fiz corretamente.

—- Washington D.C. fica a quase 100 km daqui — Bianca disse, e franziu a testa — Nico e eu... Nós morávamos lá. Isso... Isso é estranho. Eu tinha esquecido.

—- Não gosto disso — Zöe resmungou — Nós devíamos ir direto para o Oeste. A profecia disse Oeste.

—- Ah, como se suas habilidades de rastreamento fosse melhores — Thalia rosnou.

Zöe deu um passo na direção dela, e seus olhos brilhavam de raiva.

—- Contestas minhas habilidades, sua serviçal? Tu não sabes nada sobre ser uma Caçadora.

—- Ah, serviçal. Você está me chamando de serviçal? Que raios é uma serviçal?

—- Que eu saiba — interrompi — serviçal é o mesmo que empregado.

—- Estás me chamando de empregada? — Thalia gritou.

—- Wow, vocês duas! — Grover disse, nervoso — Rick, não coloque lenha na fogueira! Vamos lá, garotas, não vamos recomeçar com as discursões.

—- Grover tem razão — Bianca disse — Washington D.C. é nossa melhor aposta.

Zöe não parecia convencida, mas concordou com a cabeça.

—- Muito bem — Ela disse — Vamos continuar andando.

—- Você dirigindo vai causar a nossa prisão — Thalia resmungou — Você não tem cara de maior de idade.

—- É o que venho dizendo desde que saímos do Acampamento — Completei. As duas me encararam.

—- Eu pareço mais perto de 16 anos do que os dois — Thalia continuou, e eu revirei os olhos.

—- Eu conheço essas estradas melhor do que vocês — Zöe rebateu, enquanto entrávamos na van — Além de que eu dirijo desde que os automóveis foram inventados. Vamos logo.

Entramos na van, e seguimos para o sul. Duas horas depois chegamos nos limites da cidade. De lá até o shopping, onde Zöe estacionou a vários metros de distância. Saltamos e andamos até um dos prédios conectados.

O ar condicionado estava ligado, mas o interior do shopping estava mais quente do que lá fora.

Passando pelas lojas, lembrei do dinheiro que Quíron me deu, e achei que talvez fosse uma boa hora pra gasta-lo.

—- Podem ir, eu alcanço a vocês — Eu disse, enquanto examinava uma vitrine de uma loja de roupas.

—- O que pretende fazer? — Zöe chiou.

—- Compras — respondi — Preciso de algo pra me esquentar.

—- Porque precisa se esquentar? — Zöe rebateu — Está um tempo agradável.

—- Pode ser pra você — respondi — Mas se eu ficar mais um minuto assim, eu vou congelar. Eu os alcanço, podem ir.

—- Pode fazer seja lá que loucura pretende, mas nós vamos te esperar — Grover respondeu, cruzando os braços.

—- Ah, mas não vamos mesmo! — Zöe rebateu — Ele só vai atrasar e não temos tempo a perder.

—- Não vamos deixa-lo aqui sozinho — Thalia comentou — Ele faz parte da equipe.

—- Façam o que quiser — falei, já entrando na loja — Enquanto discutem eu vou dar uma olhada no estoque.

Entrei enquanto eles continuavam discutindo. Logo vi um casaco de couro preto, que esquentava bastante, além de combinar perfeitamente com o meu estilo.

Felizmente não havia muita gente no caixa. Logo paguei e já fui vestindo o casaco. Ao sair, vi que eles haviam dado uma trégua na discursão, mas Zöe estava de cara fechada.

—- Demorei? — Perguntei.

—- Felizmente não — Grover respondeu — Agora vamos.

Continuamos andando, passando por algumas lojas. De repente, eu comecei a sentir um cheiro de peixe. Olhei pra o lado, procurando por alguma praça de alimentação, e nada.

—- De onde vem esse cheiro? — Perguntei. Todos me encararam.

—- Cheiro de quê? — Bianca fez a pergunta que todos queriam saber.

—- Peixe. Peixe fresco.

—- Ele está louco — Thalia riu.

Mas eu tinha não me enganara. O cheiro passou e eu não estava mais sentindo, mas era peixe. Isso eu tinha certeza.

Subimos pra o primeiro andar, e Grover apontou para o museu espacial.

—- É ali — Ele disse.

Thalia mandou que esperássemos e checou a porta. Então, fez um sinal com a mão pra que a seguíssemos.

O Museu era enorme, e estava vazio. Quer dizer, não completamente, havia algumas poucas famílias admirando as naves e foguetes. Talvez estivesse mais cheio, se não fosse véspera de feriado ou estivesse tão frio.

—- Ao que parece, nada de importante. Espero que não estejamos aqui em vão — Thalia afirmou e Grover se ofendeu.

—- As bolotas não mentem! — ele exclamou — Se elas nos trouxeram até aqui, é porque algo vai acontecer.

—- Já que estamos aqui, e vamos ter que esperar de qualquer jeito, porque não damos uma olhadinha nas atrações do museu? — Perguntei, e todos concordaram.

Ficamos alguns minutos vendo as cabines e foguetes. Quando nos aproximamos da cápsula espacial Apolo, senti novamente o cheiro de peixe. Desta vez pude ver de onde vinha, no mesmo instante em que Thalia foi arremessada pra dentro da cápsula.