—- E então? — Bianca perguntou — O que disseram?

Eu não tinha percebido que ela e os outros haviam voltado. Desde que a limusine desapareceu eu me sentia meio tonto. Percy parecia estar do mesmo jeito que eu. De qualquer maneira, ali estavam os outros e queriam um relatório completo.

—- Quem estava na limusine? — Zöe perguntou.

—- Afrodite — Percy respondeu.

—- E o que ela queria? — Thalia completou.

—- Bem... Ela disse pra ser cuidadoso no ferro-velho do marido dela — Percy respondeu, nervoso — Disse pra não pegar nada.

Elas ficaram desconfiadas.

—- Precisamos seguir viagem — Zöe disse, e todos concordamos.

Eu afivelei a bainha da espada na cintura. Parecia que eu estava adivinhando que ia receber alguma coisa quando amarrei o estojo na coxa. Mas, esse simples ato de alguma forma chamou a atenção de todos.

—- Não me diga que Ares te deu uma espada — Grover arquejou e eu assenti, sem olhar — Adoraria saber o porquê.

Eu sorri.

—- Então, vamos andando? — Falei, passando os olhos no grupo.

—- Sim — Zöe concordou e apontou para o ferro-velho — Naquela direção. É o Oeste.

—- Como você sabe? — Percy perguntou.

—- Ursa maior está ao norte — ela apontou para o céu e depois para o ferro-velho — O que significa que lá é o Oeste.

Zöe devia achar que essa explicação era suficiente pra aceitarmos o fato de que tinhamos de atravessar um mar de lixo. Passamos pelo portão, e começamos a subir uma colina de sucata. Lá em cima tivemos uma visão melhor do local. Havia muitos montes e de todos os lados.

—- Uau — Bianca exclamou, apontando para um carro dourado — Parece ouro de verdade.

—- E é — Thalia respondeu — Não toque em nada. Isso tudo é sucata.

—- Sucata? — Grover pegou do chão uma coroa de ouro, prata e jóias partida no meio. Ele mordeu uma ponta e mastigou — Chama isso de sucata? É delicioso!

Thalia tomou de suas mãos e jogou no monte.

—- Estou falando sério!

—- Olhe! — Bianca disse. Ela correu colina a baixo e pegou um arco prateado que brilhava a luz da lua — Um arco de Caçadora!

Ao toque dela, o arco começou a encolher e se tornou um grampo de cabelo em formato de meia lua. Zöe lhe encarou, severa.

—- Deixa-o, Bianca!

—- Mas...

—- Está aqui por alguma razão — Zöe explicou — Qualquer coisa que foi jogada neste ferro-velho deve permanecer nele. É defeituoso. Ou amaldiçoado.

Bianca largou o grampo no chão, relutante.

—- Eu não gosto deste lugar — Thalia disse, apertando a haste de sua lança — Coisas são jogadas aqui por algum motivo. Vamos atravessar este campo.

Nós começamos a andar entre os montes de sucata que pareciam não ter fim. Você pensa que o lixo não tem nada de interessante, mas tinha muita coisa legal no meio de toda aquela sucata.

Percy se aproximou de mim enquanto andavamos. Ele estava bem pensativo.

—- Tá tudo bem? — Eu puxei conversa.

—- Sim — Ele respondeu — Só estou pensando.

—- No que Afrodite lhe disse? — sugeri.

—- Tambem. Mas não é nada importante.

Ele pegou uma guitarra de ouro de um monte e examinou, fascinado. Era realmente incrivel, algo que dói deixar pra trás. Relutante, ele devolveu e nós seguimos andando.

—- Sabe — eu falei — Não acho que ela tenha lhe convocado só pra dizer que devemos ter cuidado no ferro-velho.

—- Quem dera que fosse — Ele suspirou.

Voltamos ao silêncio. Okay, Percy está estranho. Então eu me lembrei de uma coisa. Veja bem, não que eu seja curioso, mas eu queria fazer essa pergunta desde cedo, e agora parecia ser uma boa hora.

—- Porque você veio nesta missão? — Perguntei.

Percy ficou surpreso. Talvez não esperasse uma pergunta desse tipo. Eu logo expliquei.

—- Eu quero dizer que não acho que esteja aqui arriscando sua vida apenas pela minha mãe.

—- E porque não? — Ele rebateu — Eu gosto dela.

—- Por mais que goste dela, não acho que saíria numa missão suicida para resgata-la. Mas talvez...

—- Talvez? — Ele me encarou.

—- Talvez você tenha vindo na esperança de encontrar Annabeth, a Princesinha Irritada.

—- Tem alguma coisa de errado em eu querer resgatar minha melhor amiga? — Ele completou.

—- Claro que não — Respondi — Eu te entendo. Se Clarisse estivesse em perigo eu também iria querer ajuda-la. E a amizade de vocês dois é bem mais antiga.

Ele ficou mudo, e eu sorri.

—- São namorados? — Tentei.

—- Não.

—- Ah, bom.

—- Mas onde quer chegar? — Ele parou em minha frente, começando a se irritar.

—- Calma, cara! — Rebati — Desculpe, eu acho que estou começando mal com você.

—- Okay — Ele sorriu — Se o que você quer é ser meu amigo, saiba que está indo pelo lado errado.

—- Então vamos tentar de novo — Eu sorri de volta — Desta vez pela maneira correta.

Seguimos, desta vez conversando amigavelmente. Ele me contou um pouco de sua história e como chegou ao Acampamento. Acho que começamos a nos dar bem.

Finalmente, depois de muito tempo andando, nós vimos o limite do ferro-velho. Cerca de um quilômetro a nossa frente as luzes de uma autoestrada se alongavam. Mas havia algo estranho no caminho.

—- O que é aquilo? — Bianca apontou.

Diante de nós estava uma colina diferente de todas as outras, o topo plano e da largura de um campo de futebol, com 10 grossas colunas de metal juntas.

—- Parecem pés — Disse Grover.

—- Dedos muito largos — Bianca completou.

—- Vamos contornar — Thalia disse, nervosa.

—- Mas a estrada está logo ali — Percy protestou — É mais rápido se escalarmos.

Thalia ia responder, mas um som assustador de metal fez com que todos nós gelassemos.

Eu peguei meu bastão, mas então percebi que foi Grover. Ele havia jogado um pedaço de sucata e acertou um dos "dedos", fazendo um longo eco, como se a coluna fosse oca.

—- Porque fizeste isso? — Zöe se irritou.

—- Eu não sei — Grover encolheu — Não gosto de pés falsos.

—- Vamos dar a volta — Thalia concluiu.

Ninguem discordou. Aqueles dedos eram realmente assustadores. Por via das dúvidas, eu transformei o bastão e deixei meu arco a postos.

Depois de vários minutos de caminhada, finalmente pisamos na autoestrada. A nossa frente se formava uma abandonada, mas bem iluminada linha de asfalto.

—- Conseguimos — Zöe suspirou.

Então ouvi um som forte de metal sendo amassado. Quando virei, a montanha de sucata estava se levantando. Os "dedos" se moveram, e realmente eram dedos dos pés. A coisa era um gigante de bronze com uma armadura grega completa, do tamanho de um arranha-céu, com pernas e braços brilhando pela lua. Ele olhou para nós e seu rosto era deformado.

—- Talos! — Zöe arquejou.

—- Quem é Talos? — Percy gaguejou.

—- Uma das criações de Hefesto — Thalia respondeu — Mas não pode ser o original. É muito pequeno...

—- Isso é pequeno? — Interrompi — Não quero nem imaginar o original.

—- Ele deve ser defeituoso — Thalia concluiu.

O gigante se ofendeu com esse comentário e puxou sua espada. O som dela saindo da bainha era horrível, metal chiando contra metal. A lâmina tinha mais de 30 metros.

—- Alguém pegou algo — Zöe disse — Quem pegou algo?

Não houve tempo pra resposta, Talos deu um passo na nossa direção e fez a terra estremecer.

—- Corram! — Grover gritou.

Nós nos separamos. Eu peguei uma flecha e atirei, mas ela não fez efeito. O gigante brandiu sua espada e acertou uma fileira de cabos de força, que explodiram em faíscas.

—- Hey Talos! — Grover gritou, mas o gigante não lhe deu atenção. Grover tocou uma melodia na flauta e os cabos caídos começaram a dançar. Um dos postes voou pra perna de Talos e se amarrou em sua panturrilha, mandando um choque. Talos rodopiou.

Todos estavam tentando fazer alguma coisa para conter o gigante, exceto Bianca que estava parada e sem reação. Eu corri até onde ela estava.

—- O que espera? — Eu a puxei.

—- Fui eu — ela gaguejou.

—- O quê?

—- Eu que peguei — ela continuou e tirou uma pequena figura de metal do bolso — Era para Nico. A única estátua que ele não tem...

Não deixei que ela terminasse a frase. Eu puxei a estátua da mão dela e joguei no chão. Esperei que o gigante nos deixasse em paz, mas nada aconteceu. O gigante perseguia Grover, e apunhalou uma colina de sucata que desmoronou sobre ele.

Thalia gritou e apontou sua lança, relâmpagos azuis foram lançados. O gigante caiu mas logo se levantou.

Eu e Bianca ainda estávamos parados quando Percy veio correndo em nossa direção.

—- O gigante tem um buraco na sola — Percy contou — Um túnel de manutenção.

—- Se alguem entrar pode apertar algum botão e desativa-lo? — Eu chutei e Percy confirmou.

—- Eu vou entrar lá — Ele afirmou.

—- Espere! — Bianca exclamou — Eu vou!

—- Não! — Eu gritei e segurei o braço dela. Ela me olhou triste.

—- É minha culpa que o monstro veio atrás de nós — Ela explicou — É minha responsabilidade.

Eu a soltei. Ela se agachou, pegou a estátua e me entregou.

—- Dê isso a Nico. E cuidem dele por mim.

—- Não! — Percy gritou, mas ela ignorou e correu na direção do pé do gigante.

As vezes, nos filmes, os personagens param e começa a mostrar cenas de fatos que aconteceram no passado, em estilo flashback. E foi isso que aconteceu comigo naquele momento. Eu olhei para a estatueta e então um filme passou pela minha cabeça. Lembrei do Oráculo dizendo que um se perderia na terra ressecada. Beckendorf nos alertou sobre ficar longe do deserto. Era aqui. Com dor no coração eu percebi que era aqui que Bianca ia morrer. E então eu lembro de Nico. Como ele me olhou com medo e pediu pra que eu cuidasse dela. Prometi a ele que Bianca voltaria. Eu não podia esperar o pior de braços cruzados.

Guardei a estátua no bolso e corri atrás de Bianca. Ela estava se equilibrando em um monte de sucata a alguns metros de distância de Talos.

—- Faça com que ele levante o pé — Ela gritou para alguem. Eu continuei correndo em sua direção.

Zöe lançou algumas flechas, o que chamou a atenção de Talos.

Eu alcancei o base do monte onde Bianca estava e a puxei pelo pé para baixo. Ela caiu do meu lado.

—- O que está fazendo? — Ela perguntou, agachada.

—- Salvando sua vida. Agora corre! — Eu respondi, mas ela ficou paralisada ao meu lado.

Eu vi quando Percy furou o dedão do gigante com a espada e ele olhou pra baixo. Talos levantou o pé para pisotea-lo e Percy correu, mas foi lançado no ar quando Talos pisou no chão. Ele levantou a perna mais uma vez e eu notei a oportunidade perfeita.

Lancei uma flecha de fio e ela fincou no joelho do gigante. Eu estiquei o fio, o que puxou a perna dele. Não que eu tivesse força, mas a surpresa fez ele cair no mesmo instante, com os pés virados na minha direção.

Sem perder tempo eu lancei duas flechas, dessa vez explosivas. Uma para cada buraco no pé.

Eu tinha alguns segundos antes das flechas detonarem, e tudo o que eu consegui fazer naquele momento foi me jogar em cima de Bianca, usando meu corpo como escudo para protege-la da explosão.