O Festim dos Ossos: Criminal
1 Capítulo Único
Enterrado em bancos de couro confortáveis, viu a ponta da rua se desdobrando mais à frente. Um filete de água serpenteava pelos vidros cerrados onde podia ver a imagem de outras crianças diluída por causa da chuva. Perguntava-se se quando chegassem em casa o pai ainda estaria bravo com ele. Queria muito comer maple syrup com torradas antes do jantar.
No geral, o pai só ficava bravo caso estivesse bêbado. Sóbrio era boa gente, as pessoas falavam. O problema é que vivia alcoolizado, aí sobrava sempre para ele ou para a mãe. A mãe dizia que o motivo do pai agir assim é porque ele não era feliz. O menino perguntava se isso era como ir para cama sem o jantar. “Quase isso”, respondia a mãe. Então ele comia menos durante as refeições deixando o suficiente para que o pai ficasse sempre satisfeito.
Isso era quando a mãe ainda estava com eles, é claro. Eram outros tempos agora. Agora era só ele e o pai.
O carro deu uma guinada. Ele viu quando as luzes se misturavam às imagens borradas dos meninos. A lama lambeu as laterais do Ford 1984.
Não sabia todos os detalhes de como aconteceu. Só o que ouviu. O pai estava sóbrio quando deu a notícia. Disse que a mãe havia abandonado a família por causa de outro homem e que sentia muito.
— Daqui pra frente, será só nós dois.
Parentes cochichavam sobre o caso, às vezes, principalmente a gente do lado do pai. Diziam que ela era uma vagabunda que não pensou no filho pequeno e nem teve consideração pelo marido. O menino se lembra bem dessas coisas pois eram difíceis demais de se ouvir. O pai não dizia muito sobre o assunto. Mesmo assim o menino podia vê-lo sóbrio com mais frequência e nesses momentos talvez sentisse algo como felicidade. Naquele período um odor pútrido passou a se espalhar por toda a casa, ao mesmo tempo em que as formigas começaram a brotar do piso de abeto, infestando até os lençóis da cama. Isso durou algumas longas semanas.
No ano seguinte, o pai começou a sair com uma loira. Rosto fino, quadris largos, olhar como de ave de rapina. Sensual. E aí o “só nós dois” já era. Para toda a gente aquilo era o bom exemplo de um homem refazendo a sua vida. O menino a conheceu no verão.
Logo ela passou a frequentar a casa. Lhe trazia doces, o cobria de beijos e às vezes colocava para dormir à noite. Sempre contava uma história e enquanto fazia carinho ele adormecia. Nas vezes em que acordava ela o cobria de palavras doces, mas o garoto nunca sabia lidar com as mãos deslizando por dentro de suas calças.
Por um tempo, as coisas deram certo. O pai conseguiu emprego na nova firma que se instalou na cidade. E com o dinheiro que estava entrando pensava em mudar de bairro e até em se casar de novo. Na mesma ocasião, o pai havia começado a beber com mais frequência. Ela também bebia. As brigas só começaram a acontecer a partir do inverno.
— Não encoste as mãos imundas em mim, seu merda!
E quebrando uma garrafa de uísque fez o gargalo raspar no supercílio dele. Um fio de sangue correu pelo lado do rosto, deformado de fúria ou de alguma surpresa.
— Você passa o dia fora. O que anda fazendo exatamente, sua vadia?
— Você quer saber, querido?
Ele detestava aqueles olhos. O brilho que corria pela pupila. Aquelas palavras, deslizando da maldita boca insolente.
— Quer mesmo saber? — Ela repetia. Agora foi a vez dele ter a expressão afetada, o rosto exibindo só duas faíscas no lugar dos olhos. — Eu fodo com o primeiro da rua que me pague um bom drink.
Era pouca a presença dela na casa agora. Até sua pilha de roupas diminuíra nas gavetas. Não ia aguentar um marido que cheirava a álcool toda noite, dizia, não era isso que queria da vida.
Ela voltou uma noite para tomar das gavetas o resto de suas coisas. Ia embora.
— Espere — ele sabia que estava perdendo — senti sua falta, hoje. Esses dias. Tudo está tão diferente entre a gente. Espere, está indo embora?
Não estava a fim de conversar, foi o que ela disse. Mas ele já sabia disso, tinha perdido o jogo. Por favor, me escute. Quando chega nesse ponto elas não estão mais a fim. Me dê outra chance, eu posso consertar. Sabia que não era mais hora para isso.
Tomou o braço dela a força. Uma ruga pulou no meio da testa, o sangue dando cor ao rosto que se desfigurava de raiva. Está me machucando, ela reclamava. Ele forçou a língua a entrar na outra boca. Ela o mordeu, tentando escapar. Foi pega pelos cabelos e atirada nos quadros da parede, rolando pelo chão semi-inconsciente.
Naquela noite, ele demorou a pegar no sono. Que aquela vadia vá para o inferno, balbuciava na cama, meio entorpecido. Era tarde quando foi se deitar e só depois de praguejar coisas sem sentido e dos delírios que viu subindo na fumaça do baseado, conseguiu fechar os olhos.
Na manhã seguinte, não pôde ir ao trabalho. E nem depois. O menino ficava sob os cuidados de uma tia quando acontecia do pai acordar dentro de um bar. Voltaria para casa no outro dia. Queria nem ter para onde voltar, às vezes. Mas voltava. Estivesse ele sóbrio, cuidava de levar uma coisa ao garoto como quem faz para selar um pedido de paz.
— Aqui, filho. Tem mais. — E os dedos do menino se enlaçavam no hambúrguer com blends duplos de carne. "Me perdoe", começava a lhe dizer com voz comovida, "você é muito corajoso, é um bom menino."
Com pouco, o cheiro de carne lembrava qualquer coisa parecida ao fétido odor que impregnou a casa novamente depois de certo tempo. Ele não sabia quando tinha voltado, achava que foi pouco depois da namorada do pai deixar de visitá-los. Assim, já não conseguia mais engolir a carne do hambúrguer que ele trazia.
Numa manhã de inverno muito típica, com um céu esmaecido sob as copas das árvores, e ainda o orvalho cobrindo a grama e as azaléas do jardim em decomposição, o garoto acordou sentindo um inseto rastejar sobre a região malar do rosto: formigas. Muitas delas rastejando sobre os lençóis.
Ele levantou e andou através do corredor em direção a cozinha, onde uma luz febril piscava ainda acesa no alto do teto. Parou antes de chegar ao destino assim que seus olhos caíram sobre o pai dormindo no sofá da sala. Após arrumar-lhe um cobertor e retirar do sofá garrafas de uísque vazias, deixou o lugar e foi atrás de bebida e biscoitos.
Perto das onze, o pai acordou com batidas insistentes contra a porta. Levantou praguejando e exibiu a cara amarrada ao homem que esperava do lado de fora. Gente do governo, pensou, sempre que podem te arrancam até o sono.
Recebeu um documento e uma mesura e logo ficou a sós. A cabeça martelava de ressaca. Examinou o conteúdo, a princípio com desinteresse. Os olhos vermelhos e inchados corriam sobre o papel vagarosamente de baixo para cima. "Ofício de intimação", encontrou no cabeçalho em negrito.
Enterrou-se no sofá, o rosto tão lívido como se não tivesse uma gota de sangue. "Merda", morria a palavra fria nos seus lábios entreabertos, a cara feia se contorcendo numa expressão de horror.
Entregou o menino aos cuidados da tia, assegurando que tinha serviço fora da cidade e por isso precisaria se ausentar uns dias. Parecia cheio de alguma excitação. Despediu do garoto com um olhar, vago, que lembrava sucos vazios feito na areia. Ele ficou à janela até perder o pai de vista no asfalto.
Tomou a Rota 45 e foi um pouco mais de quarenta minutos, até avistar um telefone público à beira da estrada.
Em dois dias retornou à casa da irmã. Foi no meio da noite e uma chuva principiava a cair. Estava bêbado. Queria levar o menino embora.
— Para onde? — Perguntou a irmã aflita. — Estão atrás de você em todo canto.
Não teve resposta. Ele parecia fora de si. Percorreu o corredor, subiu as escadas, deu com o quarto do menino e arrancou ele da cama. Sumiu na estrada como louco.
Luzes do carro de polícia piscavam bem atrás e o som da sirene enchia os ouvidos. Ele passou como bala, no cruzamento, forçando uma brecha no cerco de viaturas.
Sempre que acordava de manhã e via que tinha sobrevivido mais um dia lembrava de quando o garoto nasceu. Esse dia o fazia pensar que algumas coisas não têm volta. Que era mesmo burro por agir de forma tão idiota e que acabaria numa vala qualquer em cima do próprio vômito. Prometia a si mesmo que ia mudar. Pelo filho, ele dizia. Na outra semana, lá estava repetindo tudo outra vez. Um círculo do qual não conseguiria sair antes de perder todas as coisas. Pensava nisso agora, dentro do carro, o pé enterrado no acelerador.
— Errei com você, falou baixinho, assumindo uma expressão introspectiva. O mesmo olhar vago de antes que pulava da estrada para o filho. Você é um bom menino, dizia ao garoto, que pensava ouvir a voz dentro da sua cabeça. Muito corajoso.
O carro deu uma guinada. Ele viu quando as luzes se misturavam às imagens borradas dos meninos. A lama lambeu as laterais do Ford 1984. O garoto não sentiu nada. O barulho da sirene só foi ficando cada vez mais e mais alto, depois, mais e mais distante, até o som ir morrendo lentamente nos seus ouvidos. Passou a ver tudo como borrões de aquarela. E com pouco, a luz nos seus olhos também deixou de existir.
O relatório médico informou que Mark McGinn, 38 anos, veio à óbito sexta-feira, às 22h50, de traumatismo craniano. O menino ainda estava vivo quando a emergência chegou ao local, mas, segundo consta, faleceu a caminho do pronto-socorro.
Sobre o ocorrido, um do jornais locais noticiou o seguinte:
"Na última sexta-feira (9), o caso do desaparecimento de Phoebe Rice teve seu desfecho com o trágico acidente na River Street durante um cerco policial. Levando à morte do assassino em série, Mark McGinn, e de uma criança de 9 anos que, segundo as informações, seria filho do criminoso.
A caçada começou quando o departamento de Polícia recebeu uma ligação anônima indicando o local do crime. Na residência de McGinn, além do corpo de Phoebe Rice, com quem o autor do crime viva um relacionamento conturbado, segundo os relatos, foram também encontrados os restos mortais de uma segunda vítima debaixo do assoalho.
O novo fato coloca o criminoso como principal suspeito pelo desaparecimento de Nancy McGinn, sua ex-esposa, e mãe do único filho do casal."
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