Alguém bateu à porta. Videl ficou intrigada. Parou no meio das escadas, a ouvir os toques insistentes na campainha, as pancadas nervosas na porta. Pensou em não abrir, pois não esperava visitas. Ninguém que ela conhecia tinha-lhe dito que passaria pela sua casa para uma breve conversa e não abria a porta a qualquer um. Poderia ser alguém da Dimensão Real. Não fazia mal conversar com as pessoas daquela dimensão, mas evitava ao máximo conviver com elas. Não sabia bem porquê, mas sentia-se mais segura assim.

Uma pancada mais forte na porta sobressaltou-a e desceu alguns degraus, hesitante. Quem quer que estivesse do outro lado não iria desistir enquanto não lhe abrissem a porta, por isso tomou fôlego e agarrou na maçaneta. Abriu uma nesga, espreitou para o exterior a medo e admirou-se.

- Papa!

Mr. Satan estava no alpendre da vivenda, a cara muito vermelha, os olhos abertos como se tivesse acabado de ver um fantasma, todo ele tremia.

- Posso entrar?

- Estás sozinho? – Perguntou, procurando por Mr. Bu.

- H-hai

Assim que se viu dentro de casa, Mr. Satan lançou um lamento assustado:

- Videl! Fiz uma coisa terrível!

Ela sentiu um calafrio. Levou-o para a sala e sentaram-se no sofá.

- Papa, que coisa terrível é essa que fizeste?

- Estamos todos perdidos!

- Calma, papa. Olha para ti!... Não paras de tremer.

- Não fiz por mal, foi sem querer. Não o consegui evitar. Ele… Ele não me largava. Mr. Bu viu tudo desde a janela do quarto. Espero que me perdoem… Não fiz por mal. Eu… É terrível!…

- Papa! Estás a deixar-me nervosa também!

Mr. Satan engoliu em seco. E desabafou:

- Eu interagi com alguém da Dimensão Real.

Aquela novidade deixou-a sem ar.

- Na-nani?

O pai baixou os olhos envergonhado, repetindo:

- Eu interagi com alguém da Dimensão Real.

Videl olhou para as mãos, para as pernas, para o corpo. Continuavam com aquele aspeto macilento. Olhou em volta, para a casa, que estava igual. Até o pai continuava igual, bizarro e envelhecido.

Depois, tudo fez sentido – era mais uma cena do pai, que tinha a mania de exagerar os acontecimentos que o rodeavam, pois a vida de um grande campeão devia ser uma sucessão de emoções. Franziu a testa desconfiada e perguntou:

- Papa, o que foi que fizeste?

- Bem – começou, enrolando as mãos uma na outra –, estava no jardim, a observar as minhas flores… Não, Videl, não me podes censurar por estar no jardim, está muito calor dentro de casa e não estou habituado a ficar tanto tempo fechado. Isto de não podermos sair nesta dimensão está a complicar-me com os nervos.

- Papa, estás a desviar-te do principal. Estavas no jardim…

- Pois, estava metido com os meus pensamentos, quando oiço alguém cumprimentar-me. Levanto a cabeça e dou com um homem da Dimensão Real a olhar para mim. E ele insistia: “Olá, vizinho. Nunca o tinha visto por estas bandas”. Fiquei de todas as cores. Tentei fugir, mas se calhar era pior se fugisse, por isso continuei ali, especado, a olhar para o homem. Começou a fazer-me perguntas sobre as minhas plantas e eu, sem dar por isso, comecei a responder.

A voz dele tornou-se esganiçada:

- Eu falei com o homem, Videl! Uns bons vinte minutos… Que desgraça! Consegui desfazer-me dele com a desculpa que me doía a barriga e que tenho uns intestinos nervosos… Até é verdade, tenho mesmo uns intestinos nervosos… Assim que vi que o homem desapareceu, corri para cá. Ai, que grande desgraça!

- Papa! – Cortou Videl num grito para o fazer parar a enxurrada de palavras.

- Filha?

- Tu não interagiste com ninguém.

Mr. Satan piscou os olhos, atónito com a resposta dela.

- Ah, não?

- Apenas falaste com alguém da Dimensão Real. Isso não é interagir.

- De certeza?

- Certeza absoluta.

Um suspiro de alívio saiu do peito de Mr. Satan. Deixou-se escorregar pelo sofá, completamente exausto. Mas também aliviado.

- Ainda bem – murmurou.

- Se acontecer algum de nós interagir com alguém da Dimensão Real regressaremos à Dimensão Z e penso que isso acontecerá instantaneamente, com a mesma rapidez com que fomos enviados para esta dimensão. Como vês, ainda estamos neste lugar e com este aspeto.

Terminou a frase com uma careta. Odiava a imagem que via refletida no espelho e passara a evitá-los, como se o reflexo lhe devolvesse um monstro impossível de contemplar. O campeão limpou o suor da testa com as costas da mão, a soltar novo suspiro.

Como o pai lhe parecia menos agitado, ofereceu-lhe uma bebida, que ele aceitou. Videl regressou da cozinha com um par de cervejas frescas enlatadas.

- Não te podes enfiar em casa, como um eremita – disse-lhe a estender a lata. – Acabas por apanhar sustos desnecessários e assustas-me a mim também. Podemos passear, trocar cumprimentos com as pessoas da Dimensão Real, falar com elas. Podes também falar com a tua filha, de vez em quando.

Mr. Satan cruzou a perna, saboreando a cerveja.

- Aproveito o meu tempo dentro de casa. Tenho andado ocupado.

- Ocupado?

- Hai. Enquanto Bulma-san constrói a máquina das dimensões, tenho andado a tratar da minha biografia.

- Fazes muito bem.

Pelo menos, tinha encontrado uma distração válida, ao contrário dela, que não tinha nada para fazer e que se aborrecia a ver os dias passar monótonos e intermináveis.

- E arranjei um novo problema, por causa da biografia.

- Que problema?

- Não sei se deva incluir este episódio do feiticeiro, ou não.

- Nem penses! – Zangou-se ela.

- E porque não? – Indignou-se ele.

- Isto é um assunto de Goku-san, não teu.

- Mas Cell e Majin Bu também eram assunto de Goku-san – balbuciou.

- Papa, para todos os efeitos, Zephir nunca existiu.

- Como?

- Tu ouviste-me bem. O que Goku-san pretende é eliminar Zephir rapidamente e sem fazer muito alarido, logo que regresse à Dimensão Z. Assim, será como se o feiticeiro nunca tivesse existido.

- Mas Zephir existe! Afinal, enviou-nos para este lugar horrível, não estamos onde pertencemos e alguém deve dar pela nossa falta.

- Só se passaram seis, quase sete dias na Dimensão Z.

- Alguém deve dar pela minha falta!

- E depois? Dizes que foste fazer uma viagem ou coisa parecida.

- Videl, não me parece certo – alegou contrariado. – Isso não vai corresponder ao que realmente aconteceu.

- Ah, essa é boa! Agora estás preocupado com o que realmente aconteceu! E o que é a tua biografia senão uma série de histórias inventadas?

- Videl!

Ela bebeu um grande gole de cerveja, olhando o pai de través. Porque é que ele tinha de ser tão vaidoso? Goku-san tinha realizado muitos mais feitos heroicos ao longo da vida e não se punha a escrever livros e a relatar os factos aos quatro ventos. Por vezes, sentia-se incomodada por conhecer a verdade e saber que esta nunca seria conhecida. Ela, que quando era adolescente, sempre amara e combatera pela justiça.

Mr. Satan concordou com relutância e um toque de presunção:

- Está bem… Não irei mencionar o feiticeiro… Afinal, é só um feiticeiro. Não é um adversário digno do lendário campeão.

Mas, no fim, Videl acabou por sorrir. Não havia nada que pudesse fazer para mudar aquele velho espalhafatoso. Era tarde demais para corrigir vícios antigos. E porque se importava ela com a verdade se Goku-san não se importava? Pois devia fazer o mesmo. Até porque Mr. Satan era o seu pai e ela gostava muito dele.

Notas finais
Próximo capítulo:
Perigo.