Lanch correu a mudar a água da bacia que ficara quente por outra mais fria. Agarrou em meia dúzia de panos brancos lavados e levou-os, com a bacia, para o quarto.

Junto à cama estava um pequeno banco de madeira e uma mesa-de-cabeceira, onde ardia um candeeiro a óleo. A luz era fraca, mas era a suficiente para Lanch. Deixou a bacia em cima da mesa, ao lado dos panos, e sentou-se no banquinho. Depois olhou para o enfermo e suspirou, cheia de pena.

Ten Shin Han veio atrás dela. Ficou à porta a olhá-la, enquanto molhava um dos panos na água e o colocava cuidadosamente na testa escaldante do rapaz que gemia e delirava por causa da febre que o atacava. Ten acabava de voltar das montanhas, onde tinha ido com Chaozu buscar comida e apanhar mais lenha. Aproximava-se uma noite gélida.

- Ele está melhor? – Perguntou.

- Não – respondeu ela com a voz nervosa e meiga.

Lanch era tão diferente quando ficava morena.

Assim que tinham recolhido aquele rapaz ferido, ela tinha-lhe dito:

- Temos de o levar para um hospital.

Mas Ten refutara. O rapaz estava demasiado fraco para ser transportado para onde quer que fosse. O mais provável era não sobreviver à viagem. Além disso não tinham nenhum meio de transporte… Claro que a loira Lanch oferecera-se logo para arranjar esse meio de transporte com um dos seus truques especiais e nem ligara a Yamucha que lhes oferecia o aerocarro, mas Ten respondera-lhe que, se queria fazer algo de útil, o melhor seria ajudá-lo a limpar as terríveis queimaduras do rapaz. Ela concordara, relutante. Não era nenhuma enfermeira, alegara.

Ten, com a ajuda de Yamucha, deitara o rapaz inconsciente na cama. Quando Lanch regressara ao quarto com uma bacia e algumas ligaduras já não estava igual. Tinha espirrado e estava morena. Os enormes olhos escuros dela encheram-se de lágrimas ao contemplar o rapaz ferido.

Desde o dia em que o tinham recolhido na orla do bosque, que o estado do doente pouco evoluíra. Nunca chegara a recuperar totalmente a consciência e uma febre alta e muito estranha atacava-o quando parecia estar a melhorar. As queimaduras não mostravam sinais de cura, apesar dos bálsamos especiais que Chaozu preparava e que eram extremamente eficazes, quase milagrosos. O corpo do rapaz permanecia inexplicavelmente negro e áspero, como se estivesse possuído por uma maldição e não coberto por ferimentos graves.

Encostado à ombreira, Ten Shin Han observava-o apreensivo.

- Ele não vai sobreviver… – suspirou Lanch de cabeça baixa.

- Porque é que dizes que ele não vai sobreviver? – Depois, não soube porque fizera a pergunta, porque conhecia a resposta.

- Olha para ele, Ten Shin Han! Não melhora… – E as últimas palavras tremeram-lhe nos lábios.

- Lanch – Ten colocou-lhe uma mão no ombro para a confortar –, ele vai melhorar. Tens de ter um pouco mais de paciência.

- Mas já se passou tanto tempo. Tenho cuidado dele todos os dias e vejo que continua igual.

- O rapaz está gravemente ferido. Não se vai curar de um dia para o outro.

- Já se passaram duas semanas! – Levantou-se para o encarar com os seus enormes olhos negros tristes. – Não achas que devia, pelo menos, curar-se, não de todas, mas de algumas queimaduras? Abrir os olhos? Baixar a febre?

Concordava com ela, mas não o podia dizer abertamente, para não desmoralizá-la. Se ela desistisse, então o rapaz estava mesmo condenado. Este gemeu, como se percebesse que falavam dele, como se lhes pedisse que continuassem a lutar por ele. Os dedos apertaram tenuemente o cobertor que o tapava. Lanch mudou-lhe o pano que tinha em cima da testa queimada por outro mais fresco, que molhara na bacia, com a diligência de uma enfermeira dedicada.

- Estamos a cuidar dele, não estamos? – Disse Ten Shin Han.

- Mas não é o suficiente e tu sabes que não é.

- Não sei o que mais podemos fazer – confessou, baixando a cabeça. – Estamos a utilizar todo o nosso conhecimento. Os remédios de Chaozu, a tua paciência. Talvez num hospital da cidade se pudesse curar, mas continua fraco demais para arriscarmos a viagem.

- Ontem lembrei-me de uma coisa que o poderá salvar – revelou ela, acanhada

- O quê?

- Não tenho a certeza se irá funcionar no caso dele…

- Diz-me! O que é?

- Feijões senzu.

Ten Shin Han admirou-se.

- Feijões senzu?

- Sim… Os feijões senzu da torre Karin… Aqueles que alimentam por dez dias e repõem as forças dos lutadores. Sei que eram utilizados nos combates, para curar os ferimentos… Tu mesmo me contaste.

- Eu sei… Os feijões senzu. – Olhou para o rapaz – No caso particular dele, poderão curá-lo?

- Não sabemos. Mas também não temos nada a perder.

Os dois observaram o rapaz que dormia inquieto, afogado numa terrível febre que o consumia tão intensamente como o fogo vindo dos Infernos.

- Não, não temos nada a perder – concordou Ten resoluto.

- Vais até à torre Karin buscar os feijões senzu? – Perguntou Lanch ansiosa.

- Hai. Vou partir hoje mesmo. A viagem leva-me, pelo menos, três dias. É o tempo que demoro a ir e a voltar.

Ten Shin Han saiu do quarto e Lanch seguiu-o. Chaozu, na mesa de madeira, escolhia diversos tipos de vegetais para o jantar daquela noite.

- Vais viajar, Ten? – Perguntou Chaozu, abandonando o que estava a fazer, juntando-se ao companheiro.

- Hai, Chaozu. Vou buscar um feijão senzu para curar o nosso doente.

- Queres que vá contigo?

- Não é preciso. Fica aqui com a Lanch e com o rapaz. Protege-os. Conto contigo, Chaozu.

- Não consegues voltar mais cedo? – Perguntou Lanch preocupada. – Três dias depois e poderá ser tarde demais.

- Não te preocupes, ele mostrou ser bastante forte – sossegou Ten Shin Han, enquanto vestia um abrigo para se proteger do frio. – Se sobreviveu até aqui, acredito que conseguirá sobreviver por mais três dias.

Não estava a dizer a verdade. Sabia que o estado do rapaz era gravíssimo e surpreendia-lhe que tivesse conseguido resistir por tanto tempo. Esperava que melhorasse depois de o terem encontrado, mas tal não acontecera. E ao ver que não havia uma evolução visível do estado dele, esperara secretamente pelo seu derradeiro suspiro. Mas o rapaz era um vencedor. Apesar de ter passado quase quinze dias naquele estado lastimoso, combatia tenazmente os ferimentos, agarrava-se fortemente à vida e Ten Shin Han tinha o estranho pressentimento que aquele não era um rapaz qualquer.

Voltou-se para Chaozu e disse-lhe:

- Dentro de três dias estarei de volta. Prometo.

Depois, saiu para as montanhas.

Notas finais
Próximo capítulo:
Escrevendo a história.