O Farol

1 O Farol


O Farol


A noite, escura e gélida, tocava o imenso pélago num abraço silencioso. Uma estrela apenas enfeitava o céu e um batel apenas avançava sobre o mar, leve e sigiloso, como um fantasma sobre as águas. Sora Raikyuu fitava quieto o astro solitário que fulgia em meio às mais altas nuvens. Mais perdido em pensamentos do que geograficamente.


Uma pequena onda se quebrou na proa e despertou-o. Seu rosto reganhou o sorriso sarcástico que tinha no momento que ele embarcou. Sora respirou fundo, sentindo o salgado ar marinho renovar sua confiança. Seus olhos castanhos claros brilharam. "Hora da ação", comemorou mentalmente, enfim empolgado de novo. Cerrou os punhos algemados.


Como a maioria dos passageiros no convés, Sora não estava de pé. Fora assentado junto a vários outros sobre os próprios pés para aguardar por seu destino, mas nem isso lhe disseram quando o arrastaram ali à força. Ou ao menos foi o que pensaram que fizeram com ele. O garoto começou a contar os guardas, tentando decidir onde atacaria. Três à sua direita, mais três à esquerda, quatro ao sul e quatro ao norte. E, claro, o capitão.


Para proteger os outros, Sora decidiu atrair a briga. E era especialista em uma coisa: se meter em brigas. Aqueles piratas acorrentaram um leão feroz, pensando ser um gato indefeso. Fizeram a pior caça de suas vidas. A última. Passos se deslocavam na direção da presa que haveria de fazê-los se arrepender para sempre. Se destacando entre os demais, que mantinham abaixadas as cabeças, Sora ergueu a dele.


O prisioneiro ao lado lançou-lhe um olhar raivoso. Como todos, vestia um manto preto e evitava contato visual. Estava de cerviz abaixada e olhos no chão. O barco de madeira, a baloiçar no ritmo da música soada pela maresia, levava-o sem vê-lo opor resistência. Abandonara qualquer esperança de liberdade. Só queria viver.


— Ei! Idiota! — Sussurrava para Sora. — Abaixe a cabeça! Se te notarem assim, vão castigar todos nós!


Sora se ateve ao guarda que se aproximava. Foi notado, como desejava. Um gigante de olhar intimidador, corpulento e com uma barriga proeminente, chegava com passos pesados, exalando um fedor insuportável. Sua cara torva e rugosa parecia esculpida na raiva. "Isso é pra dar medo?", o Raikyuu pensava. Não entendia como alguém podia se intimidar com aquilo.


O grandalhão parou de andar e olhou nos olhos o único escravo de cabeça alçada. Sora prendeu a respiração.


— Cara, qual é?! Você não toma banho?! — Reclamou, prestes a vomitar.


O brutamontes sacou um punhal tão afiado que a ponta de sua lâmina cintilava. Em seguida, abriu um sorriso que exibia todos os seus dentes, os amarelos e os podres.


— Temos um engraçadinho a bordo, amigos! — Anunciou. — Há muito tempo não temos um tripulante assim! Isso vai ser divertido!


— E também não escova os dentes! — Exclamou o engraçadinho, protegendo o nariz com a mão. Revelando que arrebentara a corrente que selava suas algemas. — Saco! Eu não queria quebrar as algemas assim, você estragou minha entrada!


Lento demais para Sora, o grandão levou uma cabeçada no nariz e foi nocauteado. Seus companheiros, um pela esquerda e outro pela direita, tentaram cercar o rapaz que derrubou o primeiro. O que vinha pela destra alcançou-o, o outro, contudo, foi abatido por um viajante misterioso.


O capitão, que só podia olhar de lá do leme, entrou em pânico. Tão embasbacado quanto seus subordinados. Mas não demorou para perceber o que estava acontecendo. Dois jovens tão franzinos pondo guardas parrudos para dormir.


— Fujam! — Gritou para os seus. — É inútil lutar, vamos!


O passageiro misterioso se livrou da capa. Tratava-se de uma jovenzinha que não passava dos dezesseis anos de idade. Que se infiltrara ali logo após o próprio Sora, se aproveitando da atenção que ele chamou com os risos e os olhares desafiadores. Ela ajeitou com as mãos os curtos cabelos lisos e lilases, saltou sobre a turba de prisioneiros e puxou pela camisa dois dos piratas. Impediu-os de pular.


Atirando um para trás, ela o tirou de cena com um pontapé no rosto. O segundo, Yue pôs para dormir com uma cotovelada. Neste tempo, seu parceiro se engalfinhava numa luta confusa com os piratas restantes. Uma luta tão confusa que o próprio Sora nem precisava agredir seus oponentes, eles mesmos, na ânsia de acertá-lo, atingiam uns aos outros.


Um deles elevou a mão em um cruzado de direita para apagá-lo, mas ele se abaixou e o golpe atingiu o criminoso que tentava segurá-lo por trás. Desmaiou-o. Sora, em seguida, se moveu com tanta agilidade e força que lançou o homem inconsciente em cima daquele que o errou. Foram ambos parar longe. Os dois últimos homens de pé tomaram distância, sacaram alforjes e, correndo, partiram para o ataque.


Sora pegou a capa com a qual fora vestido minutos atrás e jogou-a no rosto do que se movia com mais rapidez. O cegou por alguns momentos. Mesmo de costas para o outro, abaixou-se e escapou da espadada desferida por ele. Girou, olhou-o frente a frente e, quando o golpe seguinte veio, saltou para a borda do muro. Ali, pôs na frente do ataque com espada a corda do mastro. Com o corte feito nela pelo inimigo, ficou com um bom pedaço para si.


Chutou a mão do adversário para desarmá-lo e, depois, a cara, para desorientar. O outro terminara de brigar com o capa que Sora jogou e partiu para cima de novo. Nesse ínterim, o Raikyuu completara um nó num dos lados da corda, permitindo que a ponta ficasse com um espaço largo o bastante para caber e apertar um pescoço. Ele laçou o bandido que desorientara com um chute e o arremessou contra o que vinha correndo com a espada em mãos. Os dois beijaram a lona.


— Sora, olha! — Yue o chamava, lá do outro lado da nau. — O capitão vai fugir!


A ordem era levar todos os infratores para efetuar a prisão de todos. De todos. Não que Sora se importasse muito com ordens e esse tipo de coisa. Ele não queria Kin enchendo sua paciência de novo porque um deles fugiu ou porque tudo demorou mais do que devia. E, quando isso acontecia, ela sempre o culpava. Não que ela estivesse errada.


Sora pulou do muro para o piso de madeira, um hábil salto mortal. Catou a espada do piso e fatiou a corda. Não pôde fazer sua entrada do jeito que queria, se atrapalhou com o bafo horrível do pirata que veio tentar intimidá-lo, mas o encerramento seria maneiro. Completando o laço, começou a elaborar uma frase. Pensou bastante, mas nada lhe veio.


Acabado o nó, ele enlaçou o pé do capitão e o puxou no instante que ele voou do barco para a água. Pegou-o no ar. O delinquente ficou pendurado de cabeça para baixo do lado de fora do navio, pedindo perdão e socorro. Yue correu para vê-lo. A "frase de encerramento" veio a Sora enquanto ele amarrava a outra ponta da corda aos barris cheios.


— Vim, vi e venci! — Disse, já ao lado da parceira. Cutucando-a com o cotovelo, perguntou: — E aí?


Yue balançou a cabeça em desaprovação. Seus olhos verdes refletiam a planície aquática, na qual a distante e delgada luz da lua dançava com presteza. Os ventos agitavam sua camiseta branca e jogavam os seus cabelos contra seu rosto.


— Plagiou, Raikyuu!


Tensa e firme, a corda parecia uma serpente pronta para estrangular sua presa. O capitão, com as mãos trêmulas, tentava se libertar. Inutilmente. Uma salva de palmas explodiu, de repente. Os dois jovens heróis se viraram, assustados, e trocaram olhares. Yue continuava atônita, mas Sora não resistia muito tempo a uma plateia calorosa. Ele acenava e ria como uma celebridade.


Um problema. Nem Yue e nem Sora sabiam pilotar. Problemão, na verdade. O que fariam? Ela perguntava por um piloto entre os raptados, um bom, um esperto. Rapidamente alguém levantou. E confessou não ser nenhum expert. No aperto em que estavam, disse Yue, qualquer um que soubesse o mínimo da arte já serviria, além disso, acrescentou ela, ficar tanto tempo em alto-mar, sem ter terra à vista, estava lhe dando vontade de vomitar.


Após vários minutos se gabando, apertando mãos e dando autógrafos, Sora encostou num canto, esticou as pernas e dormiu. Um dos melhores sonos de toda a sua vida, ele viria a dizer depois. Não que fosse preguiçoso. Cumpria ordens. A tarefa foi bem simples, ele pensava, desviando os seus exaustos olhos para o céu. Quase entediante. Se cansou mais pensando em como torná-la divertida do que vencendo.


Acordou junto com o sol. Caído de bruços e com o rosto marcado pelas tábuas do convés. Sua vista embaçada encontrou Yue a poucos passos de distância, sentada num barril, conversando com um homem preocupado. Ele se sentou, esfregando os olhos.


— Pode contar com a gente! — Dizia sua parceira, cruzando as pernas. — Não precisa pensar no dinheiro agora!


Sora se espreguiçou.


— Eu acho que tive um pesadelo... — Murmurou, ainda grogue. — Eu podia jurar que ouvi você falar pra esse cara que vamos ajudá-lo e que ele não precisa se preocupar com dinheiro.


Yue se virou, sorriu e respondeu:


— Não foi pesadelo, Sora. Desculpa!


O garoto bocejou. Ainda estava sonolento demais para dizer o quanto não queria fazer o que quer que ela havia prometido que fariam.


— No que você meteu a gente agora, Yue?


— Vai haver uma guerra civil na minha cidade. — O rapaz voltou-se para Sora. Os apreensivos olhos castanhos, os escuros cabelos curtos arrepiados de tensão, tudo indicava que ele não repousava direito há dias. — O príncipe Kael quer o trono só para ele e não está disposto a dividi-lo com Calantha, sua irmã e legítima sucessora. Ele quer matá-la mesmo que signifique a destruição de todo o reino.


Sora ficou quieto por quase um minuto.


— Não é da minha conta. — Deu-lhes as costas. — Eu só quero levar esses palhaços presos e dormir o dia inteiro. — Sua barriga roncou. — Depois de comer alguma coisa.


Yue saltou do barril e correu até ele.


— Sora, por favor! Não podemos deixá-los na mão, ele pediu nossa ajuda!


—Yue, eu que digo "por favor"! — Replicou. — Se eu fosse socorrer todo mundo que me pede ajuda, eu estaria... — Parou de falar. Coçou o queixo. Tentou pensar numa tirada engraçada, mas, sem ideias, falou: — Ah, não sei onde eu estaria, mas você entendeu! Além disso, tô com tanta fome que não consigo pensar direito.


— Pode vir comigo pro palácio, temos as melhores comidas do reino. — Sugeriu o que pediu ajuda.


Antes que pudesse negar de novo, sua barriga falou primeiro. Roncou tão alto que não houve discussão. Sempre que tentava discutir com a própria barriga, Sora perdia.


A tarde caminhou mais tranquila. Não choveu, o sol se conteve, o calor não incomodou ninguém, o frio não deu as caras. O céu não mudou de feição: acordou azul e azul continuou. Sora e Yue trocavam olhares. Quase tinham dificuldades para acreditar na história de Kaito. Nada parecia fora do lugar. Guerra civil? Nenhum sinal. Tudo passava por suas cabeças. Guerreiros conhecidos, os dois suspeitavam de alguma arapuca, talvez algum velho oponente. Mas não estavam despreparados.


Quem olhasse Sora de trás daquela enorme mesa de madeira coberta com um tão grande pano branco iria achá-lo um idiota. Vítima indefesa. Ele comia como se não houvesse amanhã. Como quem estava em casa. No entanto, havia algo nele que despreocupava Yue. Só ela, pois, conhecia-o. Por isso, não lhe dava muita atenção. Não tinha motivos. Concentrava-se, ao contrário, nos outros, nos que entravam e saíam.


Em uma coisa, foram forçados a reconhecer, Kaito não exagerou nem um pouco: na descrição do palácio. Na suntuosidade. Com imensas paredes de mármore alvo, colunas ricamente esculpidas e um piso tão limpo que mais parecia um espelho, abrigava uma variedade de estátuas e de quadros que só destacavam a qualidade real dele. A mesa do banquete fora posta no centro, ao redor dela havia uma miríade de servos. Ocupados com Sora.


Kaito, de repente, olhou o relógio de pulso. Os dois notaram. E ficaram com os olhos pregados nele quando ele praticamente correu até a porta. Se aprontaram. Não deixaram de reparar também que Kaito fazia tudo às claras, sem esconder nada. Sem dar sinais de medo ou nervosismo. Isso lhe deu alguns pontos com ambos, mas ainda não confiavam. Precisariam de mais.


A porta aberta, um soldado enorme esperava. Tinha um tapete vermelho no ombro. Kaito abriu alas, mas, o percurso todo, seguia o homem com o tapete. Bem de perto. Sora largou a comida e se pôs de pé. Yue juntou-se ao amigo. Diante dos jovens, o grandalhão, com todo o cuidado, desenrolou o tapete devagar. Kaito ajudava-o.


Qual não foi o susto da dupla ao cair do tapete uma moça com a idade deles? A moça, apesar da queda, se levantou graciosa, como se tivesse sido embalada num colchão de plumas. Seus olhos castanhos acharam os de Yue e Sora, refletindo uma mistura de medo e de determinação. Nenhum dos três sabia o que pensar. Ou o que dizer.


— Yue, você também viu isso? — Sora não deixou o silêncio se estender, embora houvesse falado em tom de sussurro. — Ou eu comi tanto que tô vendo coisas?


— Não, eu também tô vendo. — Yue, intrigada, não sabia ainda o que falar. — E essa aí deve ser a princesa Calantha.


A menina ignorou seu status real e se curvou. Todos os queixos foram ao chão, como que imitando-a. No estado em que chegou, porém, Calantha em pouco ou em nada recordava o sangue nobre que corria em suas veias. Tinha suados os cabelos pretos e encaracolados, tinha a pele bronzeada acinzentada pela poeira e, o rico vestido vermelho, encardido.


E com o orgulho ferido pelo gesto da garota, Kaito tentou sará-lo anunciando-a:


— Sora e Yue, conheçam a princesa Calantha!


A dupla corou. Especialmente Yue. Sora, por um lado, nunca foi conhecido pelo respeito às autoridades, então definitivamente não sabia como reagir. Nunca se importou com esse tipo de formalidade. Então lançava olhares para a amiga, esperando vê-la dar o exemplo. Mas viu-a estática. Boquiaberta.


O que chocou Yue não foi tanto estar na presença da realeza, mas ver a realeza humilhada. A única saída em que conseguiu pensar foi desconversar:


— Princesa Calantha! Se arriscou muito vindo aqui assim! É, foi genial, mas arriscado!


— Aqui é o local mais seguro da cidade inteira. — Asseverou a alteza. Apontando para o leste, informou: — Ali naquele lado fica o farol. De lá, vocês podem ver todo o país.


Sora deu de ombros.


— É, ela pensou em tudo. — Confessou. — Melhor ela ficar aqui. Sair de novo, mesmo como chegou, vai atrair suspeitas. Eu checo o farol! Yue, você a protege.


Yue só não gostou de uma coisa:


— Ah, tá! Pra você ficar com toda a ação de novo!


— É, eu ganhei no cara ou coroa! — Redarguiu.


— Mas só valeu naquela vez! — Ela argumentou. Por fim, sugeriu — Vamos jogar de novo!


— Tá! — Sora foi forçado a ceder.


Yue tirou uma moeda do bolso. Os demais sequer imaginavam uma reação adequada para o que estavam vendo. O que estavam vendo, afinal? Um casal de guerreiros que não levava nada a sério? Ou apenas autoconfiança? Talvez não devessem tentar achar uma resposta. Levando em conta que ambos não eram simples guerreiros, mas retalhadores, não havia como saberem.


Kaito parecia sem jeito. Ele, afinal, levou-os ali. Um tanto sem graça, esfregava a cabeça. Evitava o olhar de Calantha. Alentava-o, contudo, relembrar que aqueles dois o resgataram. Esteve a ponto de ser vendido como escravo.


Calantha arregalou os olhos, surpresa.


— Vocês vão jogar cara ou coroa para decidir quem protege a princesa? — Quis tirar a limpo.


Sora sorriu.


— Assim é mais emocionante. — Justificou-se. Em seguida, acrescentou: — E mais justo. Pra ela não ficar reclamando depois que eu roubei toda a cena.


Yue capturou a moeda no ar, abriu a mão e olhou. Sora correu para verificar.


— Cara! Eu ganhei! — Comemorava a menina.


O perdedor fez cara feia e cruzou os braços. Queria contestar o resultado, mas ouviu algo a algumas salas dali. Seu poder auditivo revelou algo mais interessante. Um complô, segundo entendeu. Estava entre traidores. Sua companheira imediatamente parou de comemorar. Sabia, só de olhá-lo, que ele estava escutando algo.


Yue gelou, fixando os olhos em Sora. "O que foi?" sussurrou. Sora ergueu a mão, pedindo silêncio. Seu olhar intensificou-se, concentrado no som. Calantha e Kaito trocaram olhares preocupados. De repente, Sora se moveu silenciosamente em direção à sala de origem do som. Gesticulou aos guardas que o seguissem. Kaito e a princesa consentiram.


Ao sinal do garoto, que apontou o mini vestíbulo do palácio, os homens puseram a porta dele abaixo. Dois anciões e um soldado mais jovem tramavam algo. Sora ouvira perfeitamente. Pretendia matar Calantha assim que Sora ou Yue se ausentasse.


— Estavam tramando contra a princesa! Prendam-nos! — Sora ordenou, orgulhoso de si. Em seguida, cochichou para a amiga: — Eu sempre quis dizer isso.


Mas, claro, Sora não tinha autoridade para dar voz de prisão a ninguém ali. Ninguém soube como agir. Se os conspiradores não se desesperassem, o impasse iria prosseguir, mas o soldado que planejava pôr em prática o plano correu.


Teve início uma atrapalhada perseguição. Uniram-se ao trio alguns outros traidores que passaram a tarde junto a Kaito, Sora e Yue, e então, no intuito de ajudar os assassinos, eles entraram no meio e instigaram uma confusão. Se aglomeraram ao redor dos três.


Por fim, foram pegos o soldado e um dos velhos. Kaito se jogou sobre o mais jovem com a espada e rendeu-o pondo ela em seu pescoço, Yue atirou o outro contra a parede e alçou-o. O terceiro escapou sem ser notado. Fugiu desesperadamente.


— Sora, proteja a princesa! — Mandou Yue. Irada, dirigiu-se ao que capturara e que prensava contra a parede: — Quem mais aqui está envolvido nisso?!


O homem, mesmo nervoso, riu.


— Todo mundo aqui! — Foi sua resposta. — Não há como protegê-la! Ela está condenada... e agora vocês também estão, por protegê-la! Vão se arrepender de se envolver nisso!


Yue deu uma cotovelada no rosto dele, silenciando-o. Sora aproximou a princesa da parede e cercou-a de costas para ela, não confiava em ninguém. Só em Yue. Talvez em Kaito. Este, mais irritado do que todos, tocou a garganta do inimigo com a lâmina.


Sora, vigilante, desconfiado, conduziu Calantha até a saída.


— Yue, você queria ação, não queria? — Falou, sem se descuidar. Sempre usando a si mesmo para guardar a garota. — Aqui é com você!


Yue entendeu o plano dele, mas perdeu a paciência.


— Idiota! Era tudo o que você queria, não era?! — Bradou, mostrando os punhos.


O garoto continuou correndo, fingindo não ouvi-la. Kaito estava focado. Pressionava, furioso, o oponente. Queria respostas. Sua intuição lhe dizia, insistente, que os atentados à vida de Calantha não terminaram. E se os adversários de seu reino não parariam, se os que só queriam uma fatia de sua pátria não desistiriam até tê-la, más notícias para eles: ele também lutaria até o fim.


Sabia bem que Kael só estava sendo usado. Que, por trás dele, havia uma multidão de velhos ambiciosos. De gente que só queria poder e dinheiro. O príncipe, por ser mais novo e ambicioso que a irmã, era manipulável. Seguia cegamente o que diziam os conselheiros. Eles o tratavam como ele queria ser tratado: um adulto. Pelo menos na frente dele. Sorriam, Bajulavam, prometiam.


Só Calantha ousava contradizê-los. Não se deixava enganar por nenhum deles, fazia o que sua consciência mandava. Era corajosa. Pelo bem do reino. A bravura dela inspirou Kaito, mostrou que ele devia protegê-lo. Ele, que outrora se sentia sem rumo, desarmado, enfim encontrou o que buscava. Sua vida ganhou significado.


— O que mais vocês estão planejando?! — Cobrava respostas. — Fala! Eu sei que não acabou por aqui! Eu vou contar até três! — Levou a lâmina ao pescoço dele. — Um, dois-


— O farol! O farol! — Exclamou o rendido. — Nós já suspeitávamos que Calantha iria pra lá! E plantamos uma bomba!


Yue olhou para a porta de entrada do palácio.


— Essa, não! — Bradou. Sabia que Sora fora para lá com a princesa. — Kaito, cuide das coisas por aqui!


Tão ágil quanto se seus pés fossem dotados de asas, ela foi até lá e escancarou os dois umbrais da corte. Um enxame de pessoas com lanças e armas improvisadas a esperavam. De crianças a velhos. Todos civis. Yue bateu os portais antes de ser atingida pelo primeiro tiro. E reforçou-os com suas costas. Logo em seguida, voltou para Kaito.


Ele, vendo-a tão nervosa, liberou o conspirador.


— Más notícias! — Começou a menina. — Estamos cercados! Uma multidão que com certeza não veio aqui para fazer amizade com a gente!


Kaito entendeu tudo. Franziu a testa.


— Deixei um dos conspiradores escapar porque eu foquei nesse aqui! — Disse, rememorando toda a cena. — Ele deve ter mentido pra população, deve ter falado que retalhadores estrangeiros estão mantendo a nossa princesa refém!


O homem que estava sob o poder dele riu.


— É isso mesmo! — Confessou. — E agora nenhum de vocês sai daqui pra avisar pro amigo de vocês sobre a bomba! A menos que ela comece a matar civis! Sora e Calantha vão explodir, junto com o farol!


Kaito, enraivecido, investiu sobre o prisioneiro. Se conteve, no entanto.


— Você pagará por isso! — Ameaçou, segurando a gola dele.


Yue interveio, decidida:


— Kaito, deixa ele! Vem comigo, eu tenho um plano pra salvá-los!


Kaito largou o adversário, mirando Yue.


— No que pensou? — Indagou, pondo-se de pé.


— Arranja um arco, flecha e papel! Você vai mandar uma mensagem enquanto eu seguro aquela multidão! — Respondeu.


O pobre homem foi, sem questionar, fazer o que ela mandou. Trêmulo, à beira do desespero. Uma grande pressão sobre os ombros. O destino de todo o seu país dependia de seu sucesso, afinal. Se agachou. Explorou, de ponta a ponta, o baú de madeira sob uma das estátuas. Acharia ali as armas. O papel estava no bolso de sua calça.


Mais calma, por sua vez, Yue retornou para a porta. Escancarou-a. Avançou pelo imenso pátio que precedia a entrada, todo de concreto, estendeu os braços e falou:


— Parem, por favor! Estamos aqui para ajudá-los!


Um jovem, armado, saltou na direção dela.


— Mentira! Libertem a nossa princesa e deixem já a nossa casa! — Sua fala foi seguida de um tiro de lança.


Yue habilmente se esquivou do disparo, retirou seu ombro da frente. Como anteviu um novo ataque vindo de um outro, ela o antecipou e aplicou uma joelhada no estômago dele. Uma luta feroz entre ela e as massas se generalizou. Todos tentavam feri-la, até mesmo matá-la, mas a garota fazia o possível para não ferir alguém pra valer.


Nesse ínterim, Kaito se agachava atrás de uma das colunas e punha no lugar a flecha que levava o recado. Procurava por Sora ou por Calantha. "Vamos", torcia. "Apareçam, não temos tempo", reiterava, ansioso.


O Farol erguia-se majestosamente sobre a cidade, sua silhueta imponente dominando o horizonte. A torre troncocônica, construída com pedras calcárias brancas e granito, brilhava como um gigante de luz, refletindo os raios do sol poente. A cúpula circular no topo parecia uma coroa de glória, abrigando a lanterna que guiava os navios pelo porto.


A escadaria espiral interna, escondida atrás das portas de madeira maciça, conduzia ao topo, onde a vista panorâmica da cidade e do mar tirava o fôlego. A plataforma intermediária, um local de repouso para os guardiões do farol, agora servia de refúgio para Sora e Calantha, perseguidos pelos conspiradores.


A estátua de Poseidon, no cume do farol, parecia vigiar a cidade, enquanto a lanterna, acesa pela escuridão do pôr do sol, projetava um feixe de luz sobre as ondas, um chamado silencioso por ajuda. O farol, testemunha de séculos de história, agora era palco de uma batalha pela sobrevivência.


Sora finalmente deu as caras, percorrendo zeloso a escadaria espiralada. "Isso", Kaito festejou. Pôs a mira bem ao lado dele e esticou o arco ao máximo. As mãos bambas de pavor. Tudo dependia daquele tiro. Quando estava pronto para efetuá-lo, uma pedra atingiu-o na testa.


Kaito cambaleou, o arco desalinhado. A flecha com a mensagem caiu. Sangue desceu de sua testa e cegou-o, desnorteou-o. Sora, de lá do alto, fitou a entrada. Estranhou a confusão, Yue lutando, Kaito derrotado. Este logo se recuperou. "Há muito em jogo", pensou, ajeitando o dardo novamente. Com a mira feita, atirou.


A seta cortou o ar com impressionante presteza. No entanto, ia passar pela parede alvejada sem parar. O vento mudava sua rota. Yue e Kaito iam perdendo as esperanças, mas Sora pegou-a antes que se fosse. Com seus reflexos, agarrou-a, puxou o papel com o alarma e leu-o.


— Vamos! — Gritou para Calantha, terminando de ler. — Vamos ter que saltar!


Calantha olhou para baixo e entrou em pânico.


— Pular?! Como assim!? — Vociferou. — Eu quase nem vejo o chão!


Sora estendeu a mão para ela.


— Confie em mim, eu sei o que fazer! — Asseverou. — Vamos, não temos tempo! A bomba pode detonar a qualquer segundo!


Yue, lutando, chegava perto do farol. Se não fizesse algo, a multidão poderia atacar a princesa sem saber. Kaito, que também temeu isso, voltou sua arma para a turba. Calantha respirou fundo, segurou a mão de Sora e fechou os olhos. "Estou pronta..."


Sora sorriu.


— Pule comigo! Agora!


Kaito não entendeu nada.


— Eles subiram no corrimão! Vão pular?! — Pedia a Yue que explicasse o que ele via. — Isso é loucura!


— Deve ter sido ideia do Sora! — Intuiu Yue. — Não tenha medo, confie nele!


Juntos, saltaram no vazio, enquanto abaixo, Yue e Kaito lutavam contra os conspiradores. O vento rugia. O chão se aproximava a uma velocidade alucinante. Ainda no ar, Sora abraçou Calantha, envolveu-a com seu corpo. E então... uma explosão ensurdecedora ecoou pelo farol. Ela lançou chamas e destroços para todos os lados.


O fulgor e o barulho do estouro atraíram a atenção da chusma. As brigas com Yue e Kaito pararam. A luz emitida foi tão forte que mesmo a retalhadora teve que tapar as vistas com as mãos, angustiada, se indagando o que teria sido de Sora.


— Sora! — Yue berrava. — Não!


A chama encantava os civis como a luz hipnotiza a mariposa. Sem se importar com mais nada, a guerreira correu em direção ao farol, tirando todos do caminho. Kaito seguia logo atrás. A multidão se movia, curiosa, atordoada.


Não vendo nem ouvindo nenhum sinal de vida, Yue se prostrou sobre a poeira em desconsolo. "Não", dizia, perplexa. E repetia. "A culpa é toda minha, eu o fiz vir aqui" e abaixou a cabeça, apertando a areia entre os dedos. Sem chão.


Foi quando uma figura manchada de fumaça surgiu do meio do fogo. Era Sora, marchando com Calantha inconsciente nos braços. Nada acontecera a ela, perdeu a consciência devido ao horror da queda. Kaito correu e tomou-a dos braços dele.


Yue se colocou de pé, chorando de gratidão. Com as mãos juntas. Kaito, aparte, examinava Calantha. "Está tudo bem", pensava, aliviado. "Só está dormindo, teve um longo dia". Yue saltou e abraçou Sora antes que ele pudesse pensar em dizer algo. Ele arregalou os olhos, surpreso a princípio. Depois, sorriu. E retribuiu. Seus corações pareciam bater em sintonia.


— Eu prometi que protegeria a princesa! — Disse. O rosto de Yue ainda estava em seu ombro, ela apertava o abraço como se não acreditasse que ele estivesse vivo. — Cumpri, não cumpri?


Kaito sorriu, observando-os. Contente, concluiu:


— Acho que retalhadores são tão humanos quanto o resto de nós.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!