O Fantasma de Ecomoda

9 Capítulo 9 –A face do medo


Aquele sonho a acompanhou várias noites e depois da confissão dele que a amava, precisava olhar nos olhos dele e saber se era verdade o que dizia e de preferência por inteiro, sem máscara.

A noite havia caído em Ecomoda, todos haviam ido embora, tudo estava à penumbra, Beatriz estava deitada em seu quartinho no fundo da sala, descansando. Depois de um dia de trabalho exaustivo, não tinha ânimo para pegar um carro e ir para casa. Quando um vento soprou, embora aparentemente não havia janela no local.

—Esperando por mim?

—Doutor!

—Sim.

—Pensei que não viria mais!

—Nunca deixei de estar aqui para você –disse posicionando-se atrás dela.

—Te chamei várias noites. Precisava conversar.

—Precisava de mim?

-Sim.

—É que estou magoado com você.

—Por quê, doutor?

—Sabe muito bem! Outro homem habita seu pensamento e por isso não tem se dedicado como devia!

—Doutor!

—Acaso não tenho mais importância para você?

—Claro que sim, doutor! O senhor sempre será importante para mim!

—Então, prove-me, Beatriz!

—Como?

—Venha para mim!

Ele estendeu sua mão em direção a ela e a doce donzela, totalmente hipnotizada, foi de encontro a ele de olhos fechados. Era tão irresistível seu toque, como no sonho.

Como passe de mágica, uma música começou a soar ao fundo. Queria resistir-lhe, mas ele acariciava seus braços, causando-lhe arrepios e deixando-a imóvel.

—Beatriz...minha Beatriz...

—Doutor, eu...

—Shiu... –disse colocando os dedos sobre sua boca e acariciando seu pescoço com seus longos dedos.

—Ah...

—Você me encanta, Beatriz! A amo! –a beijava suavemente no ombro. –A amo! Só você pode me curar desta solidão na qual vivo tanto tempo.

—Dou... tor... o senhor –dizia fechando os olhos já sentindo prazer -Está confundindo as coisas!

—Não... lutei contra isto. –beijo – Desde que cresceu, não deixo de amá-la. –enlaçou suas mãos em sua cintura, beijando seu pescoço.

—Ah!

—Renda-se, Beatriz! Deseja tanto quanto eu, meu anjo da moda. Nenhum outro pode fazê-la sentir o que posso...-dizia manso a seu ouvido, tal como no seu sonho.

—Ah!

—O senhor é ele, o Fantasma de Ecomoda?

—Para você não! Para você sou seu doutor! -dizia, virando-a para ele para que visse seus olhos. Quero te ensinar a amar como te ensinei tudo. –dizia beijando seu pescoço e apertando sua cintura.

—Doutor!

Ele segurou seu queixo. Olhando-o ela se senta ainda mais dominada por aquela figura misteriosa. Seu coração batia acelerado. O que estava sentindo por ele?

—Doutor.

—Shiu... –disse aproximando-se e beijando-a com muito doçura, tal como um roce.

Retornaram a olhar-se nos olhos, enquanto ele acariciava seu rosto.

—Nunca amei uma mulher como te amo. Me ama, Beatriz?

—Como posso amá-lo se não conheço o que tem debaixo de sua máscara?

—Não gostará o que irá ver!

—Deixe-me ver! Não diz que me ama? Prove-me! Como posso amar se não o conheço por inteiro? -Beatriz acariciava a pele macia do lado do rosto que era destampado.

—Er... Não é o momento, Beatriz! –dizia abraçando-a.

Abraçada por ele, queria que a paixão, o que não conhecia, o proibido para ela, a consumisse. Sentia-o quente. Ouvia sua voz grave e rouca falando a seu ouvido.

—Entregue-se. A amo. Ninguém pode amá-la como eu.

“Não é frio como um fantasma deveria ser. “ “Como ele deve ser?”

Munida de curiosidade e em um ímpeto quis ver o homem atrás da máscara. E tal como no sonho, Beatriz puxou a máscara que cobria metade daquele que por muito tempo chamava de anjo. Mas ao contrário do que aconteceu no sonho, o que Beatriz viu não foi uma luz. E sim um rosto deformado.

—AIIII!!

Nenhum sonho poderia preparar a inocente Beatriz para o que encontrou: seu professor tinha mais da metade do rosto deformado. Uma enorme cicatriz iniciava no início da testa, um pouco de carne sadia e uma deformidade, tal como se parte de seu rosto estivesse derretido tal como uma cera de vela.

—AHHHH! MALDITA SEJA! O QUE FEZ? O QUE QUERIA VER? DISSE QUE NÃO DEVERIA VER! -indignado por ver-se “nu” perante ela, o fantasma rogou plaga, o que fez com que a já assustada menina, gritasse de pavor.

—ADIANTA GRITAR AGORA? DISSE QUE NÃO, MAS É TEIMOSA! AGORA, ESTÁ PERDIDA! NÃO MAIS SEREI BONZINHO CONTIGO! –disse segurando seus braços

Cheia de medo, Beatriz desmaiou.

—____

Betty acordou naquela cama de lençóis de seda vermelhos, na parte mais funda daquele showroom no subsolo da grande empresa. Sabia que não adiantava gritar, aquele local era à prova de sons. Seu professor havia pensado em tudo quando resolveu se isolar naquele lugar. Se levantou com dificuldade naquela cama de casal. O cheiro de velas se misturava com a loção dele, tão máscula, que podia ser sentida por todo o lugar. Se deitaria novamente. Quem sabe acordaria e se daria conta de era tudo um sonho e que a face daquele homem que tanto admirava não era assim?

—Maldita curiosidade! Por que tinha que tirar a máscara dele?

—A curiosidade matou o gato, bela Beatriz!

—Doutor, me assustaste!

—Desta vez, creio que de verdade! Por que, por que foi tão insensata sendo que te preveni que não tirasse a máscara? Nunca deveria ter feito o que fez!

—Doutor, me perdoe!

—NÃO! NÃO! NUNCA DEVERIA TER VISTO MEU ROSTO, CRIANÇA INSENSATA. NUNCA! COMO OUSOU? É HORRÍVEL NÃO É?

Beatriz queria falar que não, mas não conseguia mentir tão bem.

—DIGA! QUER OLHAR DE NOVO E VER EM DETALHES? AÍ PODERÁ VER O QUE SOU!

—Doutor, pare! Por favor! -dizia com lágrimas nos olhos.

—Vou deixá-la sozinha, assim poderá acostumar-se com a escuridão como eu!

—O quê, o que quer dizer?

—Que uma vez que tenha visto o que sou não poderá mais sair daqui. Vivemos juntinhos nós dois aqui no subsolo. Juntinhos os dois como diz a canção!

—Não! Tenho muito trabalho a fazer, tenho meus pais, tenho, tenho...

—Michel Raoul ? Era isso que queria dizer?

—Eu... eu...

—Terá muito tempo a pensar sobre a vida, e o que significa amar, menininha. E quanto a empresa, se ousar perguntar, tem quem cuide! –disse a abraçando, na cama. -Mas aquela atração que sentia quando ele lhe fazia isso, passou. Agora, sentia medo, terror, a chuva caía lá fora, estava noite, tudo era escuro e sem forma. Estava frio.

—Tem frio, Beatriz? Posso aquecê-la com carinho como sempre fiz. –disse, querendo parecer carinhoso, mas o ambiente, o cheiro, a imagem que havia acabado de ver, contribuía para sentir mais medo e ainda mais arrepio daquele homem.

—Me deixa ir embora! Ou ao menos para minha sala, doutor!

—Não! Pensa que não sei que lá poderá fugir? Te ensinei tudo, pensa que sou um idiota?

—Por favor! –disse, chorando, com medo após ver a face do terror.

—NÃO MANDEI SER ATREVIDA E BISBILHOTAR O QUE NÃO DEVIA!

Beatriz chorava, mas o fantasma levantou e deixou sozinha na cama, insensível a seu medo e sofrimento.

—_________

No divã do que tinha como sala de estar, após trancar a porta, do quarto, o homem tirou a máscara, a mesma que havia tornado a colocar. Chorou de impotência, sentia-se inútil. Não queria assustá-la. Estava indo tudo tão bem. Por que ela tinha que arrancar a máscara e vê-lo nu? Não queria que ela visse o que ele era, o homem que havia se tornado. Aquele rosto deformado. Batia com a testa e dava socos no espelho.

—Assustei ela! Maldita Sea! Por eu não morri neste incêndio? Por que tenho que carregar este estigma para sempre? Nenhuma operação foi capaz de restituir-me! Continuo a mesma coisa horrenda de sempre! E assustei a única mulher que fui capaz de amar em minha estúpida vida!

Desejava ter o belo rosto antes do incêndio para fazer frente aquele homem que fazia sua amada suspirar, o imbecil do Michel R Doinell!

Os dias foram passando e ainda assim, Beatriz seguia deitada naquele quarto, naquela cama tão grande.

—Por que uma cama tão grande para um homem solitário?

Sabia que a procurariam, mas o fantasma ardiloso a fez escrever um bilhete a Nicolás avisando que havia feito uma viagem de negócios e que não a esperassem.

—Muito bem, Beatriz! Assim ninguém vai ficar preocupado contigo.

—Como pode ser tão cruel? Eu o admirava!

—Para você ver como um rosto deformado pode fazer? Não? Mas você se acostuma. –disse segurando-a –Ainda é seu querido professor que está aqui.

Beatriz olhou para ele indignada, mas a repulsa havia passado. Pelo contrário, queria ver de novo sua face e quem sabe se acostumaria com ela, como ele dizia. Mas o que tinha mais medo não era de seu rosto, mas sim que ele quisesse fazer algo contra ela.

—_____

Os dias passaram lentamente, o fantasma voltou a convidá-la para jantar à mesa, ao lado dele. E também deixava que o ouvisse a tocar sua melancólica música ao piano.

—O que faria para voltar a acreditar em você, Beatriz?

—Doutor....

—Por que fez aquilo?

—Foi impensado, doutor, me perdoe. Estava curiosa!

—E agora tem medo de mim? Do meu rosto horrível?

—Não. –dizia acariciando aquele rosto pelo lado sem máscara.

Mas ela não sabia ao certo o que sentia, se carinho, pena ou medo.

—Não sei se a deixo ir.

—A empresa precisa de mim.

—Está certo, mas eu também! Tenho medo que...

—Por favor, doutor! Confie em mim, não o trairia! Ninguém saberá como é seu rosto. Nunca disse que conhecia o Fantasma.

—Está certo. Quem não teria curiosidade e saber o que escondo, não é verdade? A deixo, desde que prometa que não vai contra o que viu para ninguém e que vai continuar sendo a minha doce Beatriz de sempre!

—Eu prometo. Tem a minha palavra, doutor. Juro que nunca contarei sobre seu rosto, sobre ser o fantasma. É meu tutor não poderia traí-lo!

—Grato, Beatriz! -saiba que o que faço tem uma razão.