O Fantasma de Ecomoda
6 Capítulo 6
No dia seguinte à festa, Beatriz estava na sala de presidência quando as luzes se apagaram.
Um grito de pavor em coro uníssono tomou conta da empresa, Beatriz ligou para sua secretária Mariana e pediu que a secretária e todos evacuassem o prédio, com a promessa de não comentarem nada com ninguém. Foi aquela correria pelas escadas da empresa. Todos saíram, menos Beatriz que já imaginava o que era. Ele estava ali e tinha provocado o blackout para chamar-lhe atenção para sua presença. Logo, ela se dirigiu à porta da sala de Presidência e a encontrou trancada. Não demorou para sentir uma mão enlaçando sua cintura e a outra em seu ombro.
—Mentiste para mim!
—Que susto!
—Não sentia isso antes! Menina Beatriz nunca teve medo de seu tutor! -dizia próximo ao seu ouvido.
—Mas agora tenho! Não sou mais uma menina sonhadora e temo suas atitudes! Como fizeste na festa!
—Sabe o porquê seu tutor fez isso.
—Voltando a agir como o fantasma depois de me prometer que não o faria!
—VOCÊ ME OBRIGOU A FAZÊ-LO!
—EU O OBRIGUEI? ESTRAGOU NOSSO DESFILE. UM DESFILE TÃO IMPORTANTE PARA A EMPRESA!
—Lamenta isso. -disse triste -Mas provocaste isso, Beatriz!
—Eu provoquei? Causaste terror entre os convidados, quebrou taças, ameaçou derrubar o lustre, derrubou manequins! Muitas pessoas desmaiaram!
—Sinto-me mal, mas minha menina sabe o porquê fiz tudo aquilo.
—NÂO! SUA “MENINA BEATRIZ” NÃO SABE! POR QUE FEZ ISSO? -copiando a linguagem dele, já que insistia.
—Por que me humilhou?
—Te humilhei?
—POR QUE ME CHAMOU PARA A FESTA? POR QUE INSISTIU QUE EU FOSSE, PROMETENDO QUE NÃO PRECISAVA TER MEDO DAS PESSOAS, POIS FICARIA O TEMPO TODO AO MEU LADO? SENDO QUE QUERIA FICAR AO LADO DE TEU AMIGO MICHEL! POR QUE DANÇOU COM ELE E NÃO COMIGO COMO PROMETEU? -dizia segurando-a pelos ombros e olhando-a nos olhos
—Acredite, te esperei, mas demoraste e achei que não viria mais! -disse com certo lamento na voz — Michel chegou e me convidou a dar uma com ele. Não tem nada demais nisso!
—TEM PORQUE FUI EU QUE A ENSINEI A DANÇAR E ME PROMETESTE, DISSE QUE IRIA... NÃO SE IMPORTA COM MEUS SENTIMENTOS!
—Sentimentos? Você que não se importa! Um ser insensível e frio!
—Insensível e frio, eu? Posso ser para todos, mas nunca para você!
Ela a pega pelo braço e a arrasta até a salinha que às vezes ela usa de dormitório, lá tem uma passagem atrás do espelho.
—Aonde vamos?
—Quero te mostrar algo!
—Não demorará para chegar polícia e imprensa ao saberem que estamos na escuridão, depois do showzinho que deste no lançamento!
—Isto só confirma a lenda e o atrativo do Fantasma da empresa! Todos os jornais comentarão!
—Podemos perder negócios!
—Sobre seu comando, nunca perderíamos! Você é brilhante! Chegamos!
O showroom estava às escuras, mas ele iluminou-o com luz de velas.
Ela pôde ver um espelho que antes era usado no ateliê.
—Sente-se.
Tão logo, ela tomou assento, ele começou a tocar uma música no piano.
—Não sabia que tocava piano.
—Não como queria! -dizia dedilhando as teclas — É um belo exemplar de um piano de cauda do século XIX, veio diretamente de Paris de um teatro que pegou fogo.
Ele continuou a entoar a melodia triste, mas muito bonita.
—Toca muito bem. Mas não conheço esta música.
—Com certeza, pois é inédita. O mundo nunca a ouviu. Chama-se: “Estou aqui, Beatriz.”
Quando sentir-se sozinha,
Lembre-se que estarei ali, contigo,
Quando se sentir derrotada, lembre-se que estarei ali ao seu lado para te apoiar.
Quando te machucarem e te ferirem,
Lembre-se que eu sempre estarei ali para ti. Estou ali, estou aqui,
Estou aqui, Beatriz!
(letra de Mitch Mckenna, tentando parecer o fantasma desesperado de amor)
Ele a cantou com sua voz grave de barítono, visivelmente emocionado.
Beatriz surpreendeu-se. A letra dizia muito, muito mais do que queria dizer. Eram palavras que lhe falava no ouvido quando era uma menina e todos a discriminavam por ser feia, ou sentia medo. De repente ele parou, pois ela o estava olhando admirada. Como gostava daquele olhar. O mesmo olhar que o olhava quando se a apresentou pela primeira vez e ela era apenas uma menina. Parou de tocar, mas continuou cantando.
—Dance então, comigo, meu anjo da moda. –disse, tomando-a em seus braços, já sem raiva.
O doutor estava sem as luvas pretas e as mãos frias faziam-na sentir ainda mais arrepios, mas procurou manter-se calma, ele era apenas seu tutor que conhecia há tanto tempo. Não havia porque sentir medo. Será que não havia?
Continuou a cantar em seu ouvido baixinho. Não era um grande cantor, mas tinha uma voz envolvente.
—Acaso ele dança mais que eu?
—Quem?
—Michel R Doinell!
—O senhor me ensinou a dar os passos, logo, sempre vou crer que o senhor possa ser melhor dançarino.
—Boa resposta, Beatriz! Sempre tão esperta.
Ela sorri.
—Levaria um A, mas... Os vi, maldita sea! O que com Michel Raoul Doinell não é apenas amizade, vi quando ele uniu seus lábios aos seus e não o rejeitou, ao contrário, devolveu-lhe, sentindo-se muito confortável em seus braços.
—Doutor, eu... Acredite, nada foi planejado, nem a dança, nem o beijo!
—Por que deixou que a beijasse? Por quê?
—Não imaginava, nunca imaginei que se passaria algo assim. Sempre tivemos uma relação de amigos.
—Amigos? Acaso, amigos conversam e se beijam como fizeram? –disse segurando forte seus braços.
—Me largue!
—Ah, eu devo larga-la? E Michel não?
—O senhor está me machucando e ele não o fez!
—Maldita sea! Por que faz isto comigo? –dizia segurando o seu próprio cabelo.
—O que fiz contigo, doutor? Não entende? –diz acariciando seu rosto (do lado sem a máscara) –Não há nada de mal nisso. Independente do que eu tenha com Michel nunca deixarei de... nunca deixaremos de sermos mestre e aluna. Mais que amigos. Tenho grande admiração pelo senhor!
—Você não pode entender! Não entenderia, maldita sea! -disse com lágrimas nos olhos. –Melhor que vá! Vai eu te levo para sua sala de presidência! Não a quero mais aqui no meu espaço!
—Melhor que eu vá mesmo!
Ela virou-se para ir embora, procurando a saída daquele lugar.
—É mais à direita, Beatriz! –disse, sentado e sentindo-se derrotado. –É só virar a maçaneta e empurrar. –Beatriz se aproximou da porta, disposta a fazer.
—Mas peço que não faça!
Ela se vira ainda com raiva.
—Por favor, não vá! Sou muito solitário.
—É porque quer, porque afasta as pessoas!
—Não sabe o que diz, Beatriz!
—Um homem tão inteligente, de porte elegante, que sabe tudo de negócios e ainda toca piano?
Quem não ia querer ser seu amigo?
—O mundo, Beatriz! O mundo!
—O mundo não é tão cruel como pensa.
—Ah minha Beatriz, sempre tão sonhadora. –disse ele acariciando seu rosto -Mas não está errada, já fui como você, senhorita. Acreditava na claridade e na luz.
—E o que te fez mudar?
—Er...
—Conte-me, nunca me contou porque mora aqui, o porquê desta escuridão.
—Creio que já está na hora de voltarmos ao trabalho!
—Dispensei todos quando apagaste as luzes!
—Estamos sozinhos na empresa?
—Sim.
—Deste jeito vai atrasar a produção.
—Tenho culpa se certo fantasma é imprudente às vezes e não pensa nas consequências?
—Sabe, a senhorita tem razão!
—Deveria não ser tão impulsivo!
—Vai querer mudar meu jeito de ser agora, senhorita?
—Desculpe, mas... está em ponto sem volta. (Ah não ser que pudesse dar-me uma chance, uma única chance para voltar a acreditar... E hoje que eu ia mostrar-lhe como a amo, beijar estes seus lábios macios e carnudos.) dizia ele abraçando-a.
—Está chorando?
—Não ligue para mim!
—Doutor...
“Se só pudesse mostrar-lhe, se a tomasse nos braços e me apoderasse de seus lábios, depois de tocá-los gentilmente, mostraria o que é um beijo de verdade e não te arrependeria! Mas como poderia impor-lhe o beijo de meus lábios , os lábios deste rosto deformado depois que experimentaste os beijos do rosto perfeito de Michel? Como?” -pensava ele
—Doutor! Está distraído?
—Pensando. Pensando em seus lábios... –disse ele, entre dentes, quase sussurrando, mas ela ouviu.
Ela ficou vermelha.
—Como?
Vendo-se descoberto em sua paixão, resolve perguntar-lhe.
—QUER MESMO SABER? A SENHORITA ME DISSE QUE NUNCA SE APAIXONARIA, QUE NUNCA TERIA UM NAMORADO, UM HOMEM. QUE SE MANTERIA COM A CABEÇA FOCADA NA EMPRESA, QUE ASSIM QUERIA E ASSIM SEU PAI PERMITIRIA QUE CONTINUASSE NA EMPRESA TRABALHANDO. MAS ME MENTISTE! AGORA, DANÇA, TROCA JURAS DE AMOR E BEIJA POR AÍ. ACASO NÃO MENTISTE? –disse segurando-a e olhando-a nos olhos, enquanto a mantinha firme pela cintura. -Mentiste para seu TUTtor!
—Não menti! Não foi minha intenção. Não planejei a dança, nem o beijo. Não imaginava que as coisas se dariam assim!
—E DEVO ACREDITAR AGORA? DEVO ACREDITAR QUE QUANDO OS DOIS SAEM POR AÍ, NÃO VÃO SE BEIJAR OU FAZER SEI LÁ QUE COISAS?
Com raiva, ela lhe dá um tapa no rosto (no lado em que não tem a cicatriz) e ele a solta.
—SE NÃO QUER ACREDITAR EM MIM, NÃO ACREDITE! MAS NÃO QUEIRA FALAR ALGO SOBRE MINHA HONRA! NÃO ACONTECEU NADA ENTRE MICHEL E EU ATÉ AGORA, ALÉM DESSE BEIJO! MAS SE TIVER QUE ACONTECER, NÃO SOU OBRIGADA A LHE CONTAR! O SENHOR NÃO É MEU PAI, NÃO É MEU IRMÃO, NÃO É NADA MEU!
O que ela disse doeu mais do que o tapa, mas do que provocou a queimadura que deformou seu rosto.
—É apenas meu doutor que me ensinou o que deveria saber para dirigir A EMPRESA! Que é o que lhe interessa nesta história!
—NÃO! NÃO! NÃO É SÓ ISSO QUE ME INTERESSA! NÃO É!
—Acaso não queria ensinar-me tudo para ser a melhor para fazer o que não tem coragem de fazer, dando a cara?
—Não é como pensa! Poderia dar a cara se... se... ainda... nunca vai entender!
—Se esconde nesta máscara! Ao invés de mostrar-se ao mundo!
—NÃO SEJA CRUEL, BEATRIZ!
—POR QUE SE ESCONDE? –disse ameaçando tirar sua máscara.
—NÃO, TENHO MOTIVOS! NÃO SE APROXIME! NÃO É COVARDIA! -disse ele se protegendo -E NÃO ME IMPORTA ESTA EMPRESA! SE PENSA QUE ME DEDIQUEI A CUIDÁ-LA E A FORMÁ-LA APENAS POR CONTA DA EMPRESA, ESTÁ MUITO ENGANADA! O que me importa nessa empresa é que moro aqui, mas você é brilhantemente a presidente!
—E continuarei sendo, se é o que lhe importa!
—A EMPRESA ME IMPORTA, MAS NÃO É O QUE MAIS IMPORTA!
—Sim, é! Lhe importa que sua presidente continue concentrada e não pense em nada mais do que na empresa, que viva e quase more na empresa! Que não saia, não tenha amigos, que não tenha namorado, que não tenha amor! Que seja absorvida pela empresa! Que não seja uma mulher capaz de amar!
—Não, não é isso! Não acho que tem que viver só pela empresa! Sei que é uma mulher, uma mulher que tem muita capacidade de amar.
(Infelizmente não uma besta como eu –disse ele em seus pensamentos)
—Então, por que se mete na minha vida? Por que lhe importa se tenho algo com Michel ou não?
—PORQUE NÃO QUERO QUE SE ENVOLVA COM MICHEL, NÃO QUERO QUE SE ENVOLVA COM NENHUM HOMEM, COM NENHUM! NÃO SUPORTO QUE NENHUM OUTRO HOMEM SE APROXIME DE MINHA BEATRIZ! SEU DOUTOR NÃO SUPORTARIA ISSO, NÃO SUPORTARIA! PORQUE SEU DOUTOR A AMA! ESCUTOU, BEATRIZ? NÃO SUPORTARIA QUE FOSSE DE NENHUM HOMEM SE NÃO FOSSE MINHA! –disse com tamanha dor no coração, pois estava ciumento e desejoso daqueles lábios, não mais virgens de beijos, pois Michel os havia provado.
Beatriz ficou chocada com aquela declaração. Desconfiava dos olhares que o fantasma lhe dava, mas como era inexperiente no amor, achava que fosse apenas impressão ou que estava confundindo as coisas.
—Não!
—NÃO SOU TÃO INSENSÍVEL QUANTO PARECE! NÃO PENSO SÓ NA EMPRESA! NÃO A QUERO SÓ PARA DIRIGIR ECOMODA! LHE ENSINEI TUDO PORQUE A AMO! E CREIO QUE A AMO DESDE SEMPRE, MESMO QUANDO ERA SÓ UMA MENININHA, MAS ERA UM AMOR DIFERENTE, COMO DE UM TIO! MAS AGORA A AMO! SEI QUE SOU UM MONSTRO.
—NÃO É UM MONSTRO!
—SEI O QUE SOU! SOU UM MONSTRO E VOCÊ UM ANJO, MAS A AMO. Agora já sabe de tudo. –disse com lágrimas nos olhos.
Abriu a cortina e lhe mostrou várias fotos dela ao longo dos anos, desde que era uma menina feia que ainda estudava no secundário, a foto que tirou como cadastro para fazer ficha para fazer o trabalho de pesquisa, até a foto que tirou para o convite do lançamento da nova coleção com Baile de máscaras. Beatriz deixou as lágrimas correrem, sentiu um misto de surpresa e medo. Ele a amava. O fantasma também sentia seu rosto banhar-se de lágrimas, inclusive por dentro da máscara, mas não a tirou. Não podia ver o desgosto no rosto dela ao ver a sua face deformada. Sabia que não tinha como concorrer com Michel, ele um homem perfeito, sedutor e rico. O empresário francês tinha tudo para preencher o coração de Beatriz, não havia com o que lutar como homem.
—Entende agora?
—Mas, não fiz nada para que despertasse estes sentimentos!
—Eu sei! Me encantou por ser como é, tão doce, tão... –disse acariciando seu rosto. –Nunca conheci uma moça como você.
—Eu não sei o que lhe falar. Preciso sair!
—Não, não me deixe! Não sou nada sem você! –disse ele com lágrimas nos olhos.
—Não o deixarei! Mas não sei o que pensar... –disse ela tentando encontrar de novo a saída, naquele quarto iluminado apenas por velas.
Foi quando suspendeu uma das cortinas e deparou-se com uma manequim de cabelos cacheados negros caídos sobre os ombros e óculos de grau vermelhos, tal como usava antes, quando feia. Era como ver-se em um espelho, dada a semelhança. O manequim vestia roupa de noiva.
—Não!
—Não era para ir por aí!
Ela ficou assustada ao ver aquela cópia sua. Não podia crer onde ia aquele homem.
—O que é isto? O que é isto tudo?
—Creio que ficou claro. Desculpe-me, Beatriz! Mas a amo!
—Mas doutor...
—Eu sei, sei que não deve sentir nada por mim, que sou um homem mais velho e que no momento não desperto a não ser asco nas mulheres.
—Não! O senhor...
—Eu sei como é!
—Me perdoe. Não queria sentir isso, mas...
—Eu, eu... não sei o que dizer! Sei que o que sente por mim é apenas o que uma aluna sente por seu professor e que não sou nada além disso para você!
—Doutor, eu não sabia, não queria magoá-lo.
—Não queria, mas magoou. Mas não é sua culpa, em sua situação, faria o mesmo! Melhor que vá! –ele destrava a porta –Deixe-me aqui!
—Doutor, o senhor não é só meu professor, também meu tutor e amigo.
—Não precisa dizer mais nada, Beatriz!
Beatriz sentiu-se mal, mas fez o que ele disse.
—Eu a levo!
Ele achava melhor levá-la, pois não queria que ela soubesse o caminho.
Logo, as luzes restabeleceram, mas Beatriz não teve ânimos para continuar o trabalho que estava fazendo, preferindo ir para a casa descansar e refletir.
—Meu tutor, meu mestre, está apaixonado por mim? -perguntou deitando-se na cama.
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