Os pais de Beatriz não podiam acreditar ao ver a filha adentrando o lugar, depois de quase um mês fora.

—Mas onde estava, menina?

Foi difícil dizer. Mesmo tendo ficado tantos dias fora não teve tempo de pensar sobre a desculpa da viagem.

—Er, creio que Nicolás disse que precisei viajar.!

-Sim, mas como resolve viajar assim de repente, pensa que não tem casa? Que se manda sozinha? Já não basta os dias em que fica na empresa por dias?

—Era um negócio importante, papai!

—E com quem viajou?

—Ora, fui sozinha! Para negócios não preciso de mais que isso. Tudo que aprendi.

—Muito estranho isso.

—Papai!

—Não gostei nada. Não gosto nada de que se dedique tanto a esta empresa!

—Papai, Ecomoda confiou em meu trabalho e me possibilitou ser a executiva que me tornei!

—Quando se casar isto vai acabar!

—Me casar? Está cedo para isso!

—Não foi o que ouvi do Senhor Doinell! Este senhor é um homem distinto e elegante. Precisa ver como ficou preocupado contigo. Ele gosta muito de você. –disse Hermes.

—O senhor defendendo um homem para namorar sua filha? -Betty incrédula a respeito do que seu pai dizia.

—Sim. Este é diferente!

Beatriz balançou a cabeça.

—____

Logicamente, Michel também a deu bronca por desaparecer.

—Mas Beatriz como viajou assim sem me avisar?

—Foi repente. Nem eu sabia que ia viajar!

—Isto é muito estranho!

—Michel, não me pergunte nada, por favor! –disse com lágrimas nos olhos.

—Está bem! Não gosto que fique assim. –dizia abraçando-a

Betty lembrou-se de seu tutor.

—Er, Michel, creio que está ficando tarde e preciso voltar para a empresa!

—Não, não me diga que vai voltar! Não acha que se dedica muito a um lugar que não é seu?

—Não entenderia, Michel. Sou parte de Ecomoda e Ecomoda é parte de mim! –dizia, inspirada no que sempre o fantasma lhe dizia ao longo desses anos.

—Bobagem! Querendo ou não, é apenas empregada da empresa, ainda que de luxo. Mas na minha, na nossa empresa, não seria mais uma!

—Não sabe que Ecomoda representa para mim! Bem, creio que está tarde, melhor que eu pegue um táxi.

—Não, eu te levo!

Ao chegar lá...

—Não prefere passar esta noite comigo?

—O que quer dizer?

—Desculpe-me se pareço atrevido, mas já estamos namorando há um tempo e... até cumpri de pedir autorização a seu pai.

—Er... –ele pegou o queixo dela e deu-lhe um beijo.

—Que eu saiba pediu autorização a meu pai para namorar comigo não para sei lá que coisas!

—Como assim? Não paro de pensar em você, Beatriz! Sei que estou sendo apressado, mas desde aquele dia que nos beijamos que não paro de pensar em você. –disse afastando seu cabelo –Está bem! Faço tudo do jeito conservador: Quer se casar comigo, Beatriz?

—Quê?

De repente, as luzes da rua da empresa se apagaram, deixando tudo na penumbraaa e um objeto acertou o capô do carro.

—Mas o que está acontecendo?

—Melhor que vá, Michel!
—Mas atiraram esta cadeira daí de dentro. QUEM ESTÁ AÍ?

—Melhor que vá, Michel!

—Imagina e deixá-la sozinha?

—Vai, enquanto há tempo! Sei o que estou fazendo!

—Não sei o que te liga a esta empresa! Não vê que tem algo aí? Pode ser um bandido.

—Ele não é um bandido!

—De quem está falando? Vai dizer que conhece quem faz estas coisas? Pois não acredito que seja um fantasma como dizem ou uma assombração. Há algo mais nesta história e com certeza algum aproveitador!

—Não, não é um aproveitador! Apenas uma alma amargurada!

—O conhece?

—Me deixe, Michel! Tenho muito o que fazer aqui! –disse, saindo do carro.

—Não! Não irei sem você! Não vai ficar sozinha nesta empresa e neste escuro! O que tem para fazer aqui neste escuro? Que tipo de emprego é esse? Você vai comigo! –dizia segurando seu braço.

—Solte-a, insolente! –disse uma voz na escuridão

—Quem está aí? -disse, largando-a e empunhando um guarda-chuva.

—Disse para ir, Michel! -pediu Beatriz

—Mas o que está acontecendo? Quem está aí?

—Pode pagar caro por sua curiosidade, rapazinho!

—Não se aproxime, ladrão!

—Ladrão? Pensa que sou um ladrãozinho, um simples ladrão? O que veio fazer em minha empresa?

—Sua empresa? O que acha que é! -Michel pega um canivete que carrega no bolso. –Não se aproxime!

O fantasma começa a rir, ao perceber o medo na voz de Michel.

—Bu! –

O loiro assustado vira para o lado, segurando Betty pelo braço.

—Bu, haha! -continuava.
—Estou armado e protegerei eu e minha noiva de sua fúria, seja quem for!

—Ah não sabe quem eu sou? Acha que pode matar um fantasma? Nunca ouviu falar do Fantasma de Ecomoda!

—O reconheço, agora! Você é o palhaço que invadiu o lançamento! O que ganha com isso?

—O que ganho com isso?

—Beatriz, fique atrás de mim! –disse, Michel, colocando-a atrás dele querendo parecer herói. -A cuidarei com a minha vida!

—Não seja imbecil! -disse, cheio de raiva -Beatriz, minha doce Beatriz, seu querido doutor a chama! –agora, o fantasma esticava a mão e falava-lhe com doçura

—Mestre!

Como hipnotizada, Betty sai do braço de Michel, de trás dele, sem que o francês nada pudesse fazer e vai de encontro a seu mestre.

—Beatriz! Beatriz! –dizia Michel, fazendo de tudo para despertá-la.

—Isto, minha menina! -dizia o fantasma com sua voz grave e sedutora

Michel com lágrimas nos olhos vê sua noiva caminhar sorrindo e hipnotizada por aquela figura no escuro.

—Não, Beatriz Christine! Acorde! –dizia Michel, tentando puxá-la de volta. Vendo que nada funcionava, deu-lhe leves tapinhas no rosto.

—Ah esta foi demais! Não ouse tocar em um fio do cabelo de minha musa, imbecil! –disse indo sobre ele para apertar seu pescoço.

—Ai!

Beatriz após ser tocada por Michel havia despertado do transe, agora estava sentada no chão. O homem havia parada de hipnotiza-la para ir cuidar de Michel, o qual apertava o pescoço.

—Imbecil! O que veio fazer aqui nesta empresa?

—É você o tal que chamam de Fantasma? Este é seu anjo? O homem que diz lhe ajudar? Não vê Beatriz que este não passa de um homem? –Michel tenta atacá-lo com o canivete. Mas o fantasma sendo mais esperto que ele se aproximou .

—Ô imbecil acha que pode me enfrentar em meu território?

O fantasma segurou e apertou seu braço para que soltasse o canivete.

—Ai! –disse Michel, sentindo dor, mas sem soltar a arma branca

—Por favor, não o machuque! –pediu Beatriz, ao vê-lo segurando Michel.
—Se importa com ele, não é? –pergunta o fantasma com ciúmes

—Claro, somos noivos! –disse Michel, para provocá-lo.

—É noivo dele?

—Eu...

Percebendo que a expressão do fantasma mudou e chegou a ouvir um murmúrio.

—Dói, não é? Se importa? Ó, ele está apaixonado. Desde quando um fantasma ou o que quer que seja, fica apaixonado? É um homem não passa de um homem!

Neste momento, o fantasma sentia-se derrotado, colocou uma mão no peito e virou de costas.

—As coisas não são como pensa, mestre!

—Como não são? Diga, Beatriz, diga ao fantasma apaixonado que estamos juntos. Acabe com esta farsa de vez! -dizia Michel indo sobre o fantasma, que o havia largado.

Percebendo o que ele ia fazer, Beatriz gritou.

—Não, Michel!

O fantasma virou e imobilizou Michel com uma gravata, golpeando-o, fez com que largasse o canivete e o amarrou-o, deixando-o bem apertado na região do pescoço.

Tudo aconteceu em questão de segundos.

Com raiva e ciúmes, o fantasma começou a golpeá-lo, Michel não parava de provocá-lo, Beatriz de gritar, pedindo que Michel parasse de falar e que o fantasma parasse de golpeá-lo.

—Para, por favor! Pare! Vai matá-lo!

—Talvez seja o que deva fazer! Assim não será mais seu noivo! Estará livre novamente! Diga-me o que ele tem além de um rosto perfeito que eu não tenha? Por que não pode me amar? –dizia batendo forte em Michel que a esta altura só ouvia, não provocava e recebia os golpes, amarrado e a ponto de desmaiar. Em sua mente pensamentos de ódio, se pudesse sair dali, iria matar aquele homem que se passava por fantasma e que pôde perceber que de certa forma hipnotizava aquela que queria como sua mulher.

—Pare! Está matando-o! Pare, por favor! Por mim!

—E o que eu ganho com isso?

—Você não é assim! Você é um anjo, um homem bondoso! Meu tutor! O que me ensinou tudo! Você não é um assassino!

—Quem sabe? O que sabe sobre mim? Não viu as pessoas que desapareceram? Todos que cruzaram nosso caminho! -dizia com raiva e ciúmes. –Michel deve ser o próximo! –dizia, olhando para o homem desmaiado e preso como um animal àquela cadeira. –Quem sabe posso usar esta mesma arminha com que queria me matar? –disse, segurando o canivete.

—Não! Mestre, não! Deixe ele ir embora.

—Para quê? Para ir com ele? Para que ele conte sobre o que viu? E venham me caçar aqui?

Beatriz, sentou-se, chorando.

—Não, Beatriz! Não chore, pequena! Sabe que não gosto de vê-la chorar. Você é bela e doce, não merece ver o fim de seu noivinho nas mãos de seu futuro marido.

—Não!

—Um dia poderá gostar de mim!

—Já gostei do senhor, quando era doce e gentil professor quando era uma menina sonhadora a sonhar com seu professor, um homem mais velho a ensinar tudo que ela precisava! Até fantasiava contigo.

—Fantasiava comigo?

—Sim, quando descobri que não era o anjo de meu tio Lázaro e nem um espírito. Quando soube que era um homem, passei a idealizá-lo, a querer descobrir porque usava uma máscara e para que tanto mistério!

—Já conhece meu rosto e sabe quão repugnante posso ser!

—A maior mancha e cicatriz que podemos carregar não está em nosso rosto e sim na sua alma! Não suja suas mãos de sangue!

—Palavras! Palavras vazias! Não sabe o que eu sinto!

—Sei, lembra-se o que me dizia quando me achava feia e desengonçada? Quando me ensinou que poderia melhorar a minha beleza externa, mas o que importava era conservar a beleza anterior? Onde está o homem que me ensinou isto?

—De que me adianta?

—Se matar Michel e nos prender aqui, sabe que nossa empresa estará arruinada! Meu pai vai colocar a Polícia para me procurar e com certeza vai dizer que estou aqui.

—Que me importa esta empresa? Fugirei contigo pelos subterrâneos desta cidade!

—Sabe que se importa com esta empresa! Ela é sua! A ama, não é?

—Muito. –disse, com lágrimas. Não conseguiria viver longe daqui, não é?

—O quê?

—Você é ele, não é? O herdeiro perdido dado como morto? ARMANDO MENDOZA! -disse tocando seu rosto

Armando gritou de dor. –caindo derrotado sobre a cadeira

—É você! –disse passando a mão no lado bom de seu rosto.

—Como descobriu?

—Desconfio há muito tempo. Tem razão não posso me afastar dessa empresa, pois a amo! O único lugar que posso ficar!

Beatriz já desconfiava que seu professor era o herdeiro, mas aquela era a confirmação.

—O que me faz ter certeza de que podermos ficar juntos aqui para sempre! -dizia apertando o nó em volta do pescoço do desmaiado Michel.

—Não!

—Não me ama porque ama Michel tanto assim?

—Não! Amo o senhor! –disse colocando-se em frente a Michel, para protegê-lo da raiva do fantasma. Sabia que seu tutor não faria nada contra ela.

Então, na penumbra daquele lugar, Beatriz levantou aquela máscara e desta vez percebeu que aquele rosto não lhe causava medo nem era repugnante, era apenas o rosto de um homem que sofreu muito, com amargura por ser privado de beleza e vaidade, por conta de um incêndio que havia derretido parte de seu rosto.

—Doutor! –disse acariciando seu rosto – E beijou-o com vontade.

Ao sentir os doces lábios, os quais havia desejado, há muito tempo, Armando apertou sua cintura contra ele e com a outra mão apertou seu pescoço para aprofundar o beijo.

—Beatriz! A amo!

O beijo doce que Beatriz lhe havia dado, logo se transformou em um beijo quente.

—_________

Quando acordou Michel gemeu, sentia uma dor de cabeça, por hora não sabia onde estava. Estava tudo escuro, apenas uma luminária e um ambiente de penumbra. Sua cabeça doía.

—Onde estou?

—Seu noivo acordou! -disse Michel

—Não é meu noivo! Não aceitei nenhum pedido.

—E vai aceitar?

—Não! Mas não quero que faça nada de mal com ele! Ele é um bom homem!

—É muito melhor que eu!

—Não, você é um grande homem!

—Após verem meu rosto, me desprezaram!

—Quem?

—As mulheres com que saía antes do incêndio. Algumas diziam me amar, não sabe o que falaram! E como me humilharam! Por isso, decidi me esconder.

—Não há motivo para isso. –dizia, acariciando-o e tornando a beijá-lo.

—Ai, onde estou? –dizia Michel desnorteado. –Beatriz, é você?

—Ah Beatriz! O que faremos com este seu namorado? –disse, adocicado, sem coragem de matá-lo.

—Deixe comigo. Me dê o líquido.

Assim, Beatriz deu um copo com um líquido para Michel beber, o qual aceitou porque tinha sede e partiu com ela daquele lugar.

—Minha cabeça dói, Beatriz! O que aconteceu?

—Melhor que descanse, Michel! Amanhã estará melhor!

—Acho que fomos atacados, Beatriz! Estou dolorido. –dizia encaminhando-se para seu veículo de braços dados com Beatriz — E não sei, creio que foi na sua empresa, pois a última lembrança que tenho é de ter entrado naquele lugar. Depois não me lembro o que aconteceu. –disse com a mão na cabeça;

—Melhor não tentarmos descobrir –dizia Beatriz segurando sua mão, deixando-se sair abraçada por ele. O importante era levá-lo dali.

A noite estava escura, mas antes de entrar no carro, Beatriz ainda virou para cima e o viu atrás das cortinas, observando-a.

O frio da noite e as lágrimas que Armando soltava empaparam a vidraça. Ela estava indo nos braços daquele homem bonito, de feições perfeitas. Se ele era o fantasma, Michel era o caça-fantasmas, seu maior pesadelo, o único que poderia roubar-lhe o amor da única mulher que amou.

Tinha receio que ela não voltasse mais, que abandonasse a empresa, que revelasse seu segredo e viessem prendê-lo, mas o que mais temia era que ela o abandonasse, tal como na história que seu tio lhe havia contado de certo fantasma que assombrava um teatro. O que faria se ela o abandonasse?