O Fantasma

2 Ato 2 – O Grupo Revolucionário.


Notas iniciais
O Fantasma, depois de suas perguntas sobre os sentimentos, parte em busca de entender algo mais “simples”, como o comportamento das pessoas diante de situações menos pessoais, como política. Encanta-se com jovens que muito entendem da ciência, e que muitas reclamações e correções fazem. No entanto, decepciona-se ao perceber que não há um deles que faça algo que diz.

(entra o Grupo Revolucionário: Revô, Lu, São Anarco, Capitá e Lista. Fazem roda: em pé ou sentados, tanto faz.)

(entra Fantasma. Fica de longe, como que analisando o grupo)

Revô: (em tom zombeteiro) Lu, tu tá fedendo, cara.

Lu: (revoltado) Ah, é tudo culpa daquele povo suvaquento no ônibus! Ainda mais nesse calor!

São Anarco: Meus pêsames.

Capitá: (conformado) Mas fazer o quê? É isso mesmo. O Esdato não investe em transporte público e a gente que sofre nessas condições.

São Anarco: Sempre quem sofre é o pobre...

Lista: Você nem é pobre, nem vem! Burguês safado.

São Anarco: Ei, não me xinga desse jeito! Eu sou professor...

Lista: (visivelmente constrangido)

Capitá: Coitado de tu, São Anarco. Passa o dia inteiro lidando com um bando de moleques e não ganha nada de mais.

Lu: Todo dia um escravo do Esdato... Que vida triste...

Revô: Pare pra pensar. Não é somente ele. Todos nós somos escravos do Esdato.

(Fantasma se aproxima, intrometendo-se)

Fantasma: (curioso) O que é Esdato?

Revô: É o Satã em forma de burocracia política. Digo mesmo, sem medo nenhum.

Lista: O Esdato é simplesmente aquele que ferra com todo mundo. O novo Absolutista. A nova Metrópole. Só que numa escala muito menor. Explora o povo e nunca é explorado.

Lu: (triste) Ai de nós, que só vivemos pra sustentar alguém que nunca nos ajuda...

Fantasma: (sem reação diante da um relato tão triste) Terrível. Simplesmente... terrível.

Capitá: Até mesmo tu, que é somente um fantasma, sofre debaixo das mãos do Esdato.

Fantasma: (espantado) E é?

Capitá: Lógico. Quando ele rouba de um, rouba de todos. Você é somente uma peça a mais no quebra cabeça da fortuna dele...

Fantasma: Sou somente uma peça?...

São Anarco: Somente... Somente uma peça de manipulação diária... E ainda paga por isso...

Fantasma: Pagar?!

Lista: Em forma de “retribuição” (faz as aspas com a mão, bem exagerado). Imposto! Maldita palavra!

Revô: Maldita palavra!

Grupo Revolucionário: Imposto é roubo!

Fantasma: E não há solução pra isso?

Lu: Lógico que há! Derrubar o Esdato!

Lista: Se não houvesse mais governo, tudo seria resolvido!

Fantasma: E por que não tentaram isso logo?

Revô: (começa a falar de forma preguiçosa, malandra, esfarrapada) Então... acho que não é possível, né? Por que, sabe, estamos nisso há muito tempo e...

Fantasma: (interrompe) Justamente por isso que deveriam dar um ponto final nesse Esdato!

Lu: (imita o tom de Revô) Ah, mas como a gente vai tirar o poder do Esdato? Ele já está todo protegido pelas burocracias...

Fantasma: (agitado, agoniado) Mas não entendem que se não tentarmos parar ele agora, talvez a gente nunca consiga?!

São Anarco: (mesmo tom de Lu: desmotivado, abestalhado, até sarcástico) Mas é que... é que... se a gente chegar lá, vão ser tantos impedimentos...

Fantasma: (sua agonia chegou ao nível de revolta) E daí?! A recompensa será muito maior!

Capitá: (mesmo tom dos outros) Sei não, sei não...

Fantasma: Então se não dá pra derrota-lo, por que reclamam tanto e não aceitam logo de uma vez que o Esdato é supremo?

Revô, Lu, São Anarco, Capitá, Lista: (em coro) ISSO NUNCA!

Lu: A gente tem o direito de reclamar!

Fantasma: Vão reclamar e não fazer nada?

São Anarco: Mas nossas reclamações já são uma ação...

Fantasma: Vocês são ridículos!

Revô: Nós não somos ridículos! Nós somos o...

(O Grupo Revolucionário faz uma pose a lá Power Rangers)

Revô, Lu, São Anarco, Capitá, Lista: (em coro) O Grupo Revolucionário!

(o Fantasma sai desacreditado na vida. O Grupo Revolucionário sai como um bando de heróis da nação. Fim da cena.)