Notas iniciais
Voltando a postar depois de um século. Pelo menos essa quarentena me fez voltar a escrever...

É normal que pouco antes de apertar a mão de alguém, algumas coisas passem pela sua cabeça. Você pode pensar se sua mão estará colidindo com uma outra mão suada, temendo a sensação desagradável que se sucederia. Você pode se preocupar com a transferência de bactérias que ocorre nesse, aparentemente, inocente cumprimento. Ou, se você é a Victória, você se desespera ao perceber que pode estar prestes a assistir a mais um futuro ex-namorado dando-lhe um fora.

Victória certamente preferia sentir uma mão suada. O que não foi o caso, a mão direita de Pedro era quente e macia. Não foi um aperto de mão com muita firmeza, Pedro quase não fazia força alguma para segurar a mão de Victória, talvez estivesse com medo de assustá-la apertando demais sua mão, já que tinha feito isso duas vezes e sequer sabia o motivo.

— Boa noite – Pedro sorriu ao cumprimenta-la.

E pouco antes que pudesse soltar a mão de Victória, ela ficou perplexa ao perceber que estava tão concentrada pensando na maciez da mão de Pedro que nem percebeu que nenhum vislumbre lhe surgiu.

— Está tudo bem?

Victória deixou a mão dele escapar com um pouco de relutância.

— Tudo ótimo – Victória respondeu, sem saber exatamente como proceder, mas começou saindo do elevador, deixando que ele se fechasse. – Até mais.

— Até – Um Pedro sorridente desapareceu atrás da porta metálica do elevador.

Não aconteceu nada. Era tudo o que Victória pensava no momento. A princípio poderia ser algo positivo, talvez a falta de um vislumbre significasse que eles nunca iriam terminar, mas infelizmente, Victória já tinha passado por isso antes para entender que, sem vislumbre, não havia interesse amoroso. Afinal, todo relacionamento chega ao fim, até que a morte, ou uma separação, os separe. Pedro simplesmente não estava interessado nela. Não é como se ela achasse que todos os homens do mundo deveriam querer namora-la, mas parecia uma piada cósmica como sempre após terminar um relacionamento – e eu digo terminar de verdade, não só na cabeça dela – o destino dava um jeito de colocar outro homem na vida dela e nem era de forma discreta.

Tomando o que aconteceu como um sinal, Victória resolveu encerrar aquele dia com um banho rápido antes de ir para a cama. Daquele momento em diante, Pedro seria o que nunca tinha deixado de ser, apenas um vizinho amigável. Mas como ela não tinha total controle sobre o seu cérebro, não conseguiu parar de pensar no aperto de mãos que acontecera há alguns minutos. Era tudo o que habitava a sua mente aquela noite, até cair num sono profundo.

Nos dias que se seguiram, Victória conseguiu focar nas coisas que realmente importavam. Não que achasse que sua vida amorosa não fosse importante, mas não achava que era saudável quando seus dramas amorosos serviam de âncora arrastando-a para o fundo de um mar de problemas sem soluções. Depois de convencer Fernanda a desistir de entregar todos os detalhes sobre a vida pessoal de Pedro que conseguira durante o almoço/entrevista que tiveram juntos, Victória pôde voltar a olhar para outras vertentes de sua vida que estavam sendo negligenciadas enquanto temia e esperava o Carlos dispensá-la.

Ela progrediu na escrita do livro. Fez a visita mensal que costumava fazer aos pais. Até conseguiu terminar de ver uma série que havia começado há uma eternidade, mas que não tinha terminado antes porque Carlos odiava musicais.

Não é como se não fosse feliz nos muitos relacionamentos que tivera, mas ela conseguia reconhecer a leveza de se estar solteira, por isso, não titubeou em aceitar o convite para sair com uma antiga colega do curso de confeitaria com quem fizera amizade na França.

— Certeza que não quer vir com a gente?

Victória estava na sala do apartamento de Fernanda, sentada no sofá, enquanto sua melhor amiga segurava um pote de sorvete e assistia a um reality show sobre mansões de famosos.

— Dispenso, mas obrigada – Fernanda falou, de modo complacente. – Já tenho amigas brancas e ricas demais. E sabe o que eu acho sobre riqueza em excesso...

— A quantidade de dinheiro das pessoas é proporcional à falta de noção – Victória falou, enquanto sua amiga dublava a mesma frase. – Vai ser legal, vamos naquele bar mega exclusivo que só contrata mulheres, o Atenas.

— O que é a única coisa interessante do lugar. Mas sabe que odeio frequentar lugares que a comanda no fim da noite parece a primeira parcela de um carro zero.

Victória já havia se dado por vencida e se levantou para ir embora quando a porta atrás dela se abriu e Bruno, o namorado de Fernanda, entrou. Tinha sido um longo dia de trabalho no escritório de advocacia onde trabalhava, o que dava para notar pelo seu olhar cansado, sua gravata folgada e sua lamentação rotineira:

— Eu estou exausto! – disse, tirando os sapatos sem ao menos se sentar.

— Dia difícil? – Victória perguntou.

— Vida difícil – Respondeu, se aproximando dela e cumprimentando-a com um beijo no rosto. – Você está bem?

— Estou bem. Estaria melhor se sua namorada aceitasse meu convite para sair.

Bruno se jogou no sofá ao lado de Fernanda, lhe deu um beijo no canto da boca enquanto roubava o pote de sorvete para si.

— E por que não quer ir? – Falou com a boca cheia de sorvete.

— A Jaqueline quem a convidou.

Fernanda pegou de volta o pote.

— E quem é essa?

Bruno se levantou e caminhou até a cozinha, onde só era possível ouvi-lo.

— Aquela amiga que ela fez na França – Fernanda falou alto para que seu namorado ouvisse.

Ew.

O som que Bruno emitiu da cozinha fez Fernanda rir.

— Vocês são uns idiotas.

Victória chamou um uber e saiu do apartamento de sua amiga. Ela estava linda com o look totalmente preto que escolhera com ajuda de Fernanda. “Eu sei que a ocasião não é pra isso, mas é sempre bom deixar claro que você acabou de enterrar alguém”, foi o que ela dissera, se referindo ao Carlos. Embora não tenha sido uma metáfora muito adequada, já que, para Victória, o corpo do Carlos jazia ao lado de uma cova profunda, mas ela ainda precisava empurrá-lo buraco abaixo e jogar a primeira pá cheia de terra.

Ela usava um vestido rendado que ia até um pouco acima dos joelhos, com mangas longas de tule e um decote discreto, onde repousava a pedra de quartzo rosa de seu colar. E se sentindo deslumbrante, caminhou pelo prédio até o elevador e depois até o uber, decidindo que nada acabaria com a sua noite.

Já sentada no banco de trás do “média 4.92”, um homem de meia idade que na verdade se chamava Márcio, e que foi um perfeito cavalheiro ao elogiar quão bela estava aquela noite, Victória aproveitou os trinta minutos que passaria no carro para atualizar suas redes sociais.

Tirou uma selfie sorridente e a postou.

Estava genuinamente feliz.

Depois de navegar um pouco nos perfis de seus amigos e de se inteirar no que estavam fazendo atualmente, pelo menos da parte que faziam questão de tornar pública, Victória mandou uma mensagem para Jaqueline avisando que já estava chegando. Enquanto admirava a selvagem vida noturna daquela cidade pela janela do carro, seu celular a alertou para o recebimento de uma mensagem. Era o Carlos.

Oi.”

Evitando colocar em risco sua noite de total diversão, Victória considerou por um momento se deveria se dar ao trabalho de responder. Não estava exatamente a fim de conversar com seu recente, mas nem tanto, ex-namorado que a dispensara aparentemente sem um motivo plausível. Mas também queria ter uma conversa madura com ele, para tentar entender o que aconteceu, já que não reagiu bem quando seu vislumbre se realizava diante de seus olhos.

Uma segunda mensagem chegou.

“Precisamos conversar. Quando estiver disponível, me manda mensagem.”

Victória dominou sua crescente e quase insuportável curiosidade e simplesmente bloqueou o celular. Não estava disponível para uma conversa com o Carlos. Tudo o que queria aquela noite, era se divertir.

Poucos minutos depois, Victória chegou ao bar chamado Atenas e seu primeiro pensamento foi o de que Fernanda teria odiado aquele lugar. A fachada do bar imitava uma construção grega com duas colunas de mármore entre uma grande entrada que dava acesso a um hall com uma escadaria de degraus largos que levava ao segundo piso, onde Jaqueline estava sentada ao balcão conversando com uma barmaid.

Je peux t'offrir un verre?— Victória falou por trás de Jaqueline, pegando-a de surpresa.

— Pode me pagar quantas bebidas quiser.

As duas se abraçaram.

— Estava com saudades – Jaqueline falou.

— De mim ou de ser cantada em francês?

Esquecendo completamente que tinha terminado há poucos dias um relacionamento no qual era muito feliz, Victória se permitiu se divertir. Conversou por quase duas horas com Jaqueline sobre como suas vidas mudaram desde a última vez em que se viram. Tiraram selfies para postar nas redes sociais. Relembraram momentos divertidos e até os embaraçosos que viveram juntas em Paris. Tiraram mais selfies. E acima de tudo, falaram sobre a autêntica paixão que sentiam pelo universo da confeitaria.

— E como anda a escrita do livro? – Jaqueline indagou, dando um gole em sua sexta taça de martini. Pelo menos ela achava que era a sexta.

As duas estavam uma ao lado da outra sentadas ao balcão, onde várias barmaids faziam os mais variados drinks.

— Mais devagar do que eu e a editora gostaria.

— Tem algo tirando seu foco?

A pergunta de Jaqueline inevitavelmente transportou a mente de Victória a todos seus ex-namorados. Pensou na sensação agridoce de tocar a mão de Pedro e não ter um vislumbre. Pensou no Carlos cumprindo seu papel no destino solitário dela. Pensou até na única exceção, que foi o início de tudo.

— Romance – respondeu secamente. – A falta dele, especificamente.

— Engraçado, você não me parece o tipo de mulher que precisa tanto de um relacionamento – Jaqueline falou sorridente, não percebia como aquele era um tópico delicado.

— Não preciso. Eu apenas quero um.

Jaqueline ficou séria ao perceber um brilho de tristeza surgir no olhar de sua amiga, que continuou:

— Eu quero um romance porque tudo na minha vida veio fácil. Eu não precisei trabalhar até os vinte e um. Eu visitei cinco continentes antes de maioridade. Eu sou dona do meu próprio negócio que já é um lugar conceituado e já estou escrevendo um livro sobre minha vida no mundo da confeitaria, enquanto ainda tenho apenas vinte e cinco anos – Victória parou para pegar fôlego, — o dinheiro dos meus pais facilitou tudo para mim. Mas não quando se trata dos meus namorados, nisso eu estou sozinha. E é justamente nesse aspecto da minha vida que eu não consigo deslanchar. Um dos pouquíssimos aspectos em que a influência e riqueza dos meus pais não podem ajudar.

— Ajudaria se estivéssemos no século vinte. Casamento arranjado... essas coisas.

Victória deu um sorriso discreto.

Jaqueline segurou a mão de sua amiga e a encarou nos olhos por longos segundos. Sentia profundamente a dor que Victória compartilhara através de suas palavras.

— Quero te fazer uma proposta.

— Tem a ver com aquele nosso beijo na minha despedida de volta para o Brasil? – Victória sorriu ao relembrar do quão divertido tinha sido sua estadia na França.

— Um pouco – Jaqueline também sorriu. – Volta comigo para Paris. Vamos abrir um negócio lá. Juntas.

Notas finais
Até o próximo capítulo! Espero manter o ritmo de um capítulo por semana.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.