O Estranho de Amarelo
5 Cante para mim. Para sempre.
Notas iniciais
— Você só pode estar brincando comigo.
Aquela noite chuvosa e fria estava ficando cada vez mais bizarra, pensava Jeferson. O que seria apenas uma noite numa boate qualquer com o seu melhor amigo se tornou um episodio de Além da Imaginação. Ele havia presenciado quatro homens morrerem instantaneamente na sua frente. E o causador dessas mortes é um cara de terno amarelo que estava sentado ao seu lado num banco de uma praça, comendo uma barra de chocolate. Mas o detalhe mais assustador do sujeito era que o própria se dizia um deus. Pelo que viu e ouviu Jeferson está totalmente convencido disto. E agora essa exótica divindade revelou o motivo de sua manifestação. Ajudaria Jeferson a se livrar do maior empecilho de sua vida neste momento, sua irmã. Mas o preço era demasiadamente precioso demais.
— Você me aparece dizendo que resolveria meu problema, que tiraria a minha irmã problemática de minha vida sem que eu seja acusado de nada. Mas quer minha alma em troca? Estava bom demais. – disse Jeferson
Ny deu um tapinha amigável nas costas dele.
— Rapaz. Nada é de graça nesse universo.
— Você não é um deus. Deve ser o próprio diabo.
Agora Ny deu uma gargalhada alta.
— Se eu te disser que já me chamaram assim há alguns séculos. Vocês são incríveis mesmo.
Jeferson estava se sentindo desconfortável. Evitava olhar para Ny. Resolveu que era melhor ir embora dali e tentar esquecer aquilo tudo. Quando ia se levantando do banco, Ny o segurou pelo ombro.
— Esqueci de dizer uma coisa. Não precisa ser exatamente sua alma como pagamento. Pode ser a da sua irmã.
Imediatamente Jeferson virou o rosto da direção de Ny, pasmo.
— Como é que é?
— É o seguinte, eu só faço meus truques se ganhar algo em troca. Geralmente é a alma de quem me pediu o favor. Mas há situações especiais que podem mudar isso. Por exemplo, se me pedem para serem ricos, famosos ou coisa do tipo, vai ser sempre a alma do freguês no final das contas. Mas quando me pedem para tirar a vida de alguém a coisa é um pouco mais diferente. Se a pessoa que eu devo matar for alguém inocente, de boa índole, o mandante é que vai pagar com a própria alma no dia de sua morte. Mas se o alvo for alguém mal e egoísta, por exemplo, eu posso levar a alma dela no lugar da do mandante. Acho que esse ultimo é o seu caso, não é? – Ny piscou com um sorriso para Jeferson.
Jeferson ficou sem saber o que falar, como se estivesse processando mais um monte de informações que Ny lhe dissera. De repente um sentimento prazeroso invadiu sua mente. A imagem de uma vida sem problemas e sem sua irmã surgiu em seus pensamentos. E era aquilo mesmo que ele queria. A esperança preencheu seu coração, como o de alguém que descobre que não vai mais morrer de uma doença grave. Jeferson não percebia mas sorria de orelha a orelha, as imagens de sua vida de liberdade rodavam sua mente sem parar. De repente o sorriso sumiu de sua face e uma expressão de preocupação tomou o lugar dele. Uma questão terrível surgiu em seus pensamentos.
— Mas, se eu mandar você matar ela, não serei eu uma pessoa má também? – perguntou, já desanimando novamente.
— Sabia que ia acabar pensando isso – disse Ny, sorridente – mas não se preocupe. Com certeza sua irmã tem muitos mais pecados para pesar no lado dela na balança. Está mais tranquilo agora?
Jeferson voltou a sorrir como antes. Sua vontade era a de abraçar Ny com força. Mas não sabia se devia fazer isso com uma divindade, por mais humana que ela aparentava naquele instante. Então, resolveu ir ao que interessa.
— Certo. E como você irá fazer para mata-la?
— Achei que nunca iria perguntar. – Ny meteu a mão no bolso do terno amarelo. Tirando dele algo pequeno que segurava entre o polegar e o indicador. Era um objeto redondo e de uma tonalidade verde bem escuro.
— Isto é um comprimido especial. Eu mesmo que criei. Coloque em qualquer liquido e ele se dissolverá. Não vai deixar cheiro e nem cor alguma. Então é só dar pra sua irmã beber.
Jeferson olhava atentamente a pílula esverdeada. E depois olhou para Ny.
— E o que isso vai fazer com ela? – perguntou.
— Ai é que vem a melhor parte. Ela terá uma parada cardíaca. E qualquer medico que examinar o cadáver dela constatará que foi algo natural e súbito. Está pílula não deixa nenhuma substancia no corpo da pessoa.
Jeferson ficou impressionado. Com certeza aquela pílula era feita de algo que nem ele e nem ninguém nunca ouviu falar. Aquele pequeno objeto seria o causador do grande milagre, da grande libertação de que ele almejava a anos. Mas uma nova dúvida invadiu seus pensamentos.
— O que você faz com as almas que você pega? – seu semblante ficou sério ao fazer a pergunta. Afinal, pensou ele, para que um deus cósmico interdimensional precisaria de uma alma humana? Seria ele mesmo o ser que a História passou a chamar de Diabo? Levaria as almas daqueles que utilizaram seus serviços para um lugar de tortura e sofrimento eternos? Ou tudo aquilo não seria uma loucura da cabeça dele. Talvez alguém tivesse colocado algo em sua bebida na boate e agora ele está tendo a maior viagem psicodélica que alguém já teve. Então ele lembrou que antes de ir ao bar viu aquele ser de nuvens em forma de tentáculos no céu. E aquela cor verde que perfurava elas com certeza não foi sua imaginação.
— Elas cantam para mim. – disse Ny, fazendo a atenção de Jeferson voltar ao presente.
— C-como disse?
— As almas que eu coleto. Levo elas para o meu lar e faço elas cantarem para mim. Lá me sinto meio solitário. Por isso que venho para seu planeta, como disse antes. Mas as vezes gosto de passar um tempo sozinho no meu canto. Alguns séculos olhando o infinito a minha volta.- Ny olhava o céu estrelado como se estivesse contando cada estrela que via.- Mas só sinto prazer fazendo isso ouvindo música. E a almas são as que tocam as mais belas canções de qualquer dimensão e universo. Pena que um simples humano como você jamais entenderia ou conseguiria ouvi-las sem enlouquecer completamente.
Jeferson pensou por um segundo na cena de Ny, ou melhor, da forma verdadeira de Ny (seja lá qual for), sendo rodeado por almas que cantavam como um coral.
— Não me parece tão ruim, afinal.
Ny gargalhou como nunca havia feito naquela noite.
— Se você acha. Mas creio que eles discordem. A canção deles é baseada no sofrimento que eles sentem. Imagine um passarinho preso em uma gaiola. Para você ele pode estar cantando um lindo assovio. Mas ele na verdade está praguejando e desesperado. Pedindo ajuda para fugir dali. Para morrer.
Isso realmente fazia muito sentido, pensou Jeferson. Nem queria imaginar como seria a sensação de ser uma das almas cantoras de Ny. Então resolveu voltar ao assunto principal.
— Então eu simplesmente faço ela tomar isso e espero?
— Sim. Coloque no suco, ou na água, ou qualquer outra porcaria. E depois compre passagens pro Caribe na internet, para comemorar.
Ny esticou o braço e passou o comprimido para Jeferson. Ele o pegou com cuidado e receio. Ficou contemplando aquele pequeno veneno mortal. Se ele funcionasse como Ny dissera amanhã seria um novo dia em sua vida. A sua irmã estaria morta. Estaria morta. Morta.
— Eu não queria que terminasse assim – disse de repente.
— Como é? – exclamou, Ny.
— Não queria que ela tivesse de morrer para que eu vivesse em paz. Tá certo que ela não é a melhor pessoa do mundo e não pensaria duas vezes em me ferrar ou qualquer outro que seja para poder se dar bem. Mas ela ainda é minha irmã mais nova. E ela não era assim. Ela era um anjo que virou um demônio. E sinto que foi culpa minha em alguma parte. Talvez se eu estivesse mais ao lado dela quando ela crescia. Nunca saberei o certo.
Ny colocou a mão na própria face e abaixou levemente a cabeça.
— Cara, você é o cara mais bundão e coração de manteiga que eu já conheci. Eu tô com vergonha alheia de você nesse instante.
Agora foi Jeferson quem ficou corado de vergonha. Ny percebeu e bufou.
— Olha só, acho que eu posso fazer uma exceção pra você... Posso curar a enfermidade da sua irmã.
As palavras soaram como um choque em Jeferson, que se alertou imediatamente e olhou para Ny, sem acreditar.
— Serio mesmo?! Você pode cura-la?!
— Claro. Sou um deus, lembra? Não tenho tantos truques assim. Mas curar simples mortais é moleza. Mas tem uma condição.
A alegria de Jeferson sumiu na mesma velocidade que apareceu. Ele percebeu que o que Ny falaria não seria bom.
— Para eu curar sua irmã eu quero em troca a sua alma, e somente a sua.
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