O Estranho de Amarelo
3 A Linha e o Cão
Já se passava das três da manha. A chuva continuava forte fora do Dragão Enjaulado. Tão forte que abafava o som e os odores obscenos que vinham de dentro. A luxuria e o vicio já dominavam a mente de quase todos do estabelecimento. Poucos ali poderiam se dizer estarem com a mente sóbria. Ou acharem que estão. A diferença entre sonho e realidade pode ser uma linha tão tênue como a da vida e a morte. Eis que alguém começara a caminhar sobre essa linha ainda hoje.
— Desculpe. Você disse que é o que? – perguntou Jeferson depois de soltar uma risada pelo nariz.
— Um deus. – respondeu o homem de terno amarelo enquanto comia seu espaguete.
Jeferson já não conseguia mais disfarçar o sorriso no rosto.
— Tá legal cara. – Fez um sinal para o barman colocar outra dose de vodka. Enquanto esperava olhava o ambiente em volta. Naquela altura da noite as pessoas já estavam alteradas. Uns pelo álcool e outros pelas drogas. Casais se dirigiam para pequenos quartos, a fim de fazer suas necessidades lascivas. Outros se satisfaziam ali mesmo, em qualquer canto, aos olhos de quem quisesse ver.
— Pelo jeito você também não acredita. – disse o estranho.
Jeferson voltou sua atenção para ele. O sujeito ainda estava sentado e comendo seu macarrão.
— Pois é. Não sei o que é mais estranho. Seu terno cor de banana, seu nome, ou você dizer ser Deus.
— Meu nome é complicado demais para sua mente primitiva entender. Ny é uma abreviação dele. Eu não disse que era o deus cristão, disse que era um deus, entre outros. E gosto de amarelo.
Jeferson escarou o sujeito esperando entender que tipo de piada era aquela. Desistiu.
— Tá legal. Cada maluco, ou deus, com os seus problemas. – voltou a bebericar o copo de vodka. Olhava novamente para a multidão da boate na pista de dança.
— Ah, mas eu não vim falar de meus problemas, Jeff. Vim falar dos seus. Mas precisamente o da sua irmã.
A ultima frase fez a vodka de Jeferson descer com mais força por sua garganta. Ele voltou-se rapidamente a Ny.
— Do que você tá falando?!
Sem olhar para Jeferson, Ny respondeu.
— Do fardo que você carrega por cuidar de sua irmã doente e, como você disse, ingrata.
Jeferson franziu o cenho observando atentamente o sujeito à sua frente.
— Como sabe disso?
— Eu disse que sou um deus. Mas não se preocupe. Antes do fim desta noite você ira acreditar em mim.
Jeferson encarou Ny de novo.
— Ou você pode ter escutado minha conversa com o meu amigo.
— Aquele que você chamou de “doente”? Não sei bem se foi uma conversa mesmo. Ele já nem mais escutava você direito. Nos pensamentos dele ele dizia que já estava de saco cheio de você reclamar da sua vida da sua irmã. Ele só queria beber e pegar umas fêmeas. Estava de olho naquelas jovens que estão com ele agora. Você achou absurdo um cara de 35 anos com garotas de 17. Não ache tanto assim. Quando ele esta sozinho na internet ele procura material de, como posso dizer, menor faixa etária.
Jeferson se virou para ver Ricardo. Ele estava com uma das garotas. Seu braço sobre o ombro dela, falava algo junto ao seu ouvido. Sua outra mão estava em uma das coxas da menina. Jeferson não sabia como processar o que ouviu de Ny e o que estava vendo agora. Voltou-se ao estranho e se levantou do banco do bar.
— Escuta cara. Eu conheço o Ricardo faz anos. Ele não é essa merda que você acabou de falar. E agora ele tá só meio fora de si porque bebeu demais, ok? E vê se para de me encher o saco ou eu chamo o segurança, ou eu mesmo te arrebento aqui e agora!
— Um acidente de carro. — falou Ny, de repente.
— O que?...
— Sua irmã ficou assim por causa de um acidente de carro. Foi num final de semana chuvoso, como esse. Ela chamou o ex-namorado e alguns amigos. Encheram o carro de bebidas. Quem dirigia era um amigo dela. Todos bêbados e em alta velocidade. O ser humano nunca aprende, não é mesmo? Dai um carro vindo no sentido contrario completou a receita do bolo da tragédia humana. Apenas sua irmã e o ex sobreviveram. Ele se recuperou em poucos meses, mas ela teve um trauma na espinha o que a deixou com serias dificuldade de locomoção. Então o namorado playboy largou ela porque não tinha mais utilidade para ele. Típico. Depois de meses no hospital ela teve alta e voltou para casa. E é desse ponto que o seu sofrimento começou.
Jeferson não sabia o que dizer. Abriu a boca para falar, mas nada saia. Quando pensou em algo a dizer Ny voltou a falar.
— Voltando um pouco no tempo agora. Você sempre foi um bom filho e uma boa pessoa. Aparentemente. Sempre estudou e trabalhou. Seus pais tinham um grande orgulho de você. Já sua irmã era o joio do trigo. Só queria saber de farra. Bebidas, drogas e sexo. Foi presa algumas vezes por pequenos furtos em lojas de roupas. E teve aquela vez que “pegou emprestado” o seu cartão de credito e fez um “pequeno” estrago. Você sempre tinha um pequeno sentimento de ódio por ela dentro de você. Mas, apesar de tudo, era sua irmã mais nova. As lembranças dos bons momentos que já tiveram acalmavam sua fúria. Porem, com o acidente e a morte de seus genitores as coisas mudaram nesse ponto. Cada um herdou quinhentos mil em dinheiro. Era sua chance de se ver livre dela e viajar pelo mundo. Mas logo em seguida sua irmã ficou do jeito que esta e se tornou sua cruz diária. Com a parte da herança dela poderia fazer um tratamento no exterior e ficar suficiente saudável. Mas a mesquinhe do homem grita mais alto, não é mesmo? Ela espera que você pague, coisa que o revolta. Afinal a culpa foi dela mesmo de ficar assim. Esqueci algum detalhe?
Levantando abruptamente, Jeferson apontou o dedo indicador na face de Ny. A fúria estampava os seus olhos. Mas ele falou paulatinamente.
— Escuta aqui cara. Não sei quem é você. Não sei como sabe essas coisas e nem o que quer comigo. Mas eu juro que se você voltar a aparecer na minha frente eu te quebro no meio.
— O cardápio. – Ny interrompeu Jeferson. Ele arrastou um papel emplastificado, com a ponta dos dedos, para perto de Jeferson. Ele olhou de relance, sem entender aquilo. Era só o cardápio da boate. Várias bebidas e alguns tira-gostos nada baratos.
— Eu estou comendo espaguete. – continuou Ny. – Se você ler o cardápio vai constar que não tem espaguete na lista.
E dai? Jeferson pensou.
— E dai que isso prova que digo a verdade quando afirmo ser um deus. Eu invoquei o prato de espaguete direto de um restaurante italiano.
Apesar de ter ficado surpreso por Ny ter “adivinhado” a sua pergunta mental, Jeferson não ligou. Foi só coincidência. E qualquer um com muita grana pode pedir pra se preparar um prato fora do cardápio. Colocou umas notas de dinheiro sob o copo de vodca e foi embora do bar. A noite já acabou pra ele. Queria ir embora. Mas, ao olhar em direção de onde Ricardo estava, viu que o colega estava aos beijos com uma das jovens garotas, e com uma das mãos na coxa da outra. Perderá sua carona de volta para casa.
Do lado de fora a chuva deu uma diminuída. Ele não queria chamar um taxi, queria ir logo embora daquele lugar, pra nunca mais volta. À alguns quarteirões dali havia uma parada de ônibus. Começou a caminhar.
As ruas estavam desertas àquela hora. Mal passava um veiculo ou pessoa. Mas Jeferson não se preocupava com isso. Sua mente apenas lembrava e relembrava a figura do misterioso Ny e as coisas que ele sabia de sua vida. Tentava formular uma explicação logica. Haveria varias. Talvez uma pegadinha de Ricardo. Poderia ser. Mas algo cutucava o fundo de sua mente, que tentava dizer que era algo complexo.
Sem perceber, ele havia chegado a uma rua que havia uma praça abandonada e pouco iluminada. Nada muito incomum, a não ser uma cena que acontecia perto de uma arvore. Quatro garotos estavam tirando fotos perto dela. Mas havia algo a mais ali. E quando o flash de um dos celulares iluminou o local, Jeferson pôde ver o que era. Um cachorro se encontrava enforcado em um dos galhos da arvore. Estava com cortes e sangue por todo seu pequeno corpo. Um dos jovens posava fazendo gestos ao lado do animal. O horror tomou conto de sua mente ao ver a cena. Em seguida foi substituída pelo ódio.
— Seus desgraçados! – ele partiu em direção aos quatro.
— Quem é esse maluco? – disse um deles.
Jeferson desferiu um soco no que estava fotografando o cão. O delinquente cambaleou para trás. De repente outro rapaz agarrou os braços de Jeferson por trás e o terceiro deu-lhe um soco no frente. O que estava com a faca encostou a lamina no rosto de Jeferson.
— Mermão. Cê vacilou feio! É agora que tu morre. – O rapaz fez um movimento para trás com a mão que segurava a faca. Ele mirava a barriga de Jeferson com o olhar. Jeferson se debatia para se livrar do meliante que o agarrava. Mas era em vão. Iria morrer ali naquela noite, como um cão.
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