O Estranho Mundo De Melanie.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sejam todos muito bem vindos ao estranho mundo de Melanie Hales. Terei
imenso prazer em ser sua guia por essa coisa perturbadora e hostil que costumamos
chamar de vida. Apesar de que quando o assunto é “prazer”, Holiday Gold tem muito
mais experiência do que a pobre Hales... Se é que me entendem.
Na verdade, ela é uma adolescente comum, de passagem econômica pelo
mundo fantasioso, ninfomaníaco e assustador de Brittany Lawrence, típica capitã das
líderes de torcida; com seus cabelos negros e encaracolados escorridos pelas costas,
que competem com o Sol no quesito brilho; Diferente dela, Melanie está longe, muito
longe, de ser disputada na hora do intervalo, não é atlética, e com a altura reduzida, está longe de ser alguma coisa perto disso, sua relação com o sexo oposto é
ridiculamente inexistente, e, acima de tudo, é uma adolescente em crise existencial,
cuja única preocupação é sair intacta do colegial, mesmo que isso não seja realmente
possível, porque, como todos sabem, não há nenhuma esperança de sair ilesa disso;
O ensino médio deixa traumas que nenhum antibiótico é capaz de curar: moralmente,
fisicamente ou espiritualmente... PFF!Quanta originalidade, Melanie... É eu sei, eu sei. Acredite, eu sei! Fala
sério, ela não podia ser mais patética. Mas, por mais que Melanie Hales, ou melhor, eu,
odiasse aquele lugar, para meu pai sempre foi “estreitamente e importante” que eu
construísse uma vida baseada em uma educação relativamente boa dentro dos limites
do meu poder aquisitivo, o que, basicamente, significava que eu precisava manter um
rendimento aceitável se quisesse continuar a usufruir dos meus privilégios tão “...
Dignamente almejados por jovens que desejam construir um futuro brilhante!”, caso
contrário, o Conselho Estudantil daria, de muito bom grado, uma extensa lista de
escolas no subúrbio que adorariam minha presença em seu corpo discente; Sendo
assim, mais uma vez eu estava lá: Babando sobre o caderno, ouvindo uma senhora de
meia idade recitar as características do Renascentismo. Não era de se admirar que
mais da metade da sala cochilasse.
- Melanie? Melanie, acorde!
Levantei a cabeça rapidamente e enxerguei, com dificuldade, a Srtª Petterson
me encarando por cima de seus óclinhos ensebados.
- Se não está a fim de aprender, peço que saia, Srtª Hales, ou então pare de
roncar na minha aula -disse severamente, antes de me dar as costas e se dirigir de volta ao quadro negro. Droga!
Senti meu rosto arder em brasa quando afundei novamente minha cabeça na
carteira, desejando fervorosamente que ela não tenha dito ‘roncar’ como eu pensei ter
ouvido.
- Mia, tem algo escorrendo da sua boca...
Ah, droga.
Encarei Brittany Lawrence sentada a duas carteiras na minha frente, sorrindo
como se não houvesse amanhã.
A Rainha das Líderes de Torcida e eu não mantínhamos nenhum tipo de contato
físico, verbal, mental ou espiritual. Não era nenhum esforço ou sacrifício fingir que a
outra não existia, mas demorou um tempo até que Brittany se desse por vencida e
parasse de aperfeiçoar seu hobby preferido durante anos: infernizar minha vida. Mas
por alguma razão desconhecida pelos astros e zodíaco, lá estava ela de novo, fazendo
o que sabia fazer de melhor.
Quando o sinal para o fim da aula finalmente tocou, me apressei em sair o mais
rápido possível, mas foi colocar o corpo para fora da sala que algo me acertou em
cheio.
Olhei para meus cadernos no chão, e em seguida para a figura monumental ao
meu lado. Zayn Malik. Quase tive um ataque histérico. Por quê? Bem, na minha mais humilde concepção de mera mortal e adolescente com um fogo bem peculiar nas entranhas, Zayn Malik é o que mais seaproxima de um deus grego que resolveu passar as férias no mundo dos mortais. Comseu porte físico avantajado, típico de atletas: o peito monumental, a pele morena,cabelos ao vento... Ah, Zayn.
- Melanie, oi – ele disse, dando um meio sorriso.
Ar?
Ele disse. Zayn, e todo aquele seu conjunto sensual, tinha acabado de dizer
meu nome.
Balancei a cabeça livrando-me de todos aqueles devaneios tentadores,
tentando me concentrar única e exclusivamente no que deveria fazer. Eu não podia
simplesmente falar ‘oi’... Aquela era uma questão que tinha que ser estudada com
calma, já que aquele momento poderia ser o inicio de um ‘felizes para sempre’.
Ah, droga. Zayn Malik fala comigo depois de todos aqueles anos e eu perco
tempo decidindo o que falar... Caramba, Melanie.
- Desculpe, eu não te vi, Hales.
Ah, ele fez de novo. Falou meu nome. Falou meu nome com aquela boca.
Aquela boca que se movia sensualmente para reproduzir as sílabas do meu nome.
Meu coração quase voou pela minha goela quando Zayn moveu-se
graciosamente e recolheu meus cadernos do chão. Prendi a respiração.
- Oh... Ahn... Bem. Oi. Zayn... Malik... Quero dizer... – balancei a cabeça — Obrigada.
Que diabos eu estava fazendo?
Suspirei.
De alguma forma, muito assustadora por sinal, eu ainda conseguia alcançar
novos níveis de idiotice quando o assunto era garotos. Oh, droga! Minhas mãos
estavam suando, e eu mal conseguia organizar uma frase coerente com o meu
cérebro entrando em transe.
- Bom... Ahn, eu tenho que...
- Oh, não, tudo bem... Pode... Tchau — falei, sentindo meu rosto queimar.
Zayn acenou com a cabeça e desapareceu no meio dos corpos que vagavam
exaltantes ao som do sinal do intervalo.
Bravo, Melanie! Bravo!
- Isso foi... Épico -disse a voz masculina ao meu lado.
Virei-me para me deparar com Louis Tomlinson e seu habitual sorriso travesso.
- Ele é... Irresistível – falei em meio a um suspiro demorado. –
Mas eu não consigo criar uma sequencia lógica de palavras quando ele está por perto.
- Ele é um gato! -disse, balançando os braços freneticamente, no que parecia ser um tique nervoso gay. – Isso foi horrível.
- É...
Louis era como um irmão mais velho para mim, fomos criados praticamente
juntos, um no quintal do outro; Ele estava lá quando comecei a dar meus primeiros
passos, quando minha mãe morreu naquele acidente, ou nas noites em que eu não
consigo dormir quando meu pai está navegando em alto mar. Louis sempre esteve do
meu lado; com seus cabelos de luzes naturais jogado na testa, quase sempre
acompanhado de uma barba rala, com seus olhos azuis ofuscantes e um sorriso
travesso tramando a próxima travessura.
Caminhamos até as mesas dispostas do lado de fora dos muros do refeitório,
Louis brincava com seu hambúrguer enquanto tinha os olhos fixos em um ponto atrás
de mim. Eu nem me dei ao trabalho de virar e ver do que se tratava. A coisa que tirava
Louis Tomlinson dos eixos tinha nome, sobrenome e pernas muito longas: Eleanor
Calder, líder de torcida, melhor amiga de Brittany Lawrence, e amor platônico do meu
melhor amigo.
- Você podia ser mais discreto – ri.
- Ela é linda, ok? Não me julgue por dar uma olhada de vez em quando – falou.
- Talvez se você se inscrevesse para o time de basquete... - Ou se eu conseguisse um topete daquele.
Louis arqueou as sobrancelhas e indicou a cabeça para o grupo onde estava
Eleanor, acompanhei o movimento com os olhos e assisti Zayn afundar sua língua
musculosa na boca carnuda de Holliday Gold.
- Eles parecem tão... Felizes – balbuciei.
- Depende do ângulo em que você olha. -Vi Louis inclinar sua cabeça e franzir o cenho em reprovação.
- Argh! – ri.
O resto do dia passou relativamente devagar, mas foi na última aula, com meu
estoque de ânimo reduzido a zero, que as coisas tomaram um rumo diferente do
previsto.
Entrei no laboratório de Biologia e me deparei com um casal de bonecos
pelados e presos com fita durex no quadro negro. Louis teve um ataque de risos
enquanto caminhávamos até nossa mesa.
- Que bom que está se divertindo, Srº Tomlinson – falou o professor, acompanhando o restante da turma que ainda entrava na sala. – Hoje vamos aprender sobre a reprodução humana.
- Não há nada que a Holly aqui não saiba -disse um garoto no fundo da sala.
- Fico... Honrado em tomar conhecimento sobre isso – falou, em um tom de cinismo.-Reprodução Humana é muito mais do que cinco minutos no banco de trás
de um carro.
— Eu garanto sete! – exclamou outro menino.
- A reprodução humana nada mais é do que uma ciência que se inicia nas
observações de um ser em busca de semelhante compatível.
Os olhos do professor percorreram atenciosos pela sala e pararam sobre a
cabeça de Louis.
- Louis – falou – o que te atraí em uma garota?
- Pernas – respondeu prontamente.
Soltei um riso abafado e um pé me acertou em baixo da mesa.
- E você sentou-se com Melanie porque ela tem pernas atraentes?
Louis me encarou com um careta e balançou a cabeça negativamente.
- Definitivamente não... – falou rindo, antes que eu lhe desse um tapa em sua cabeça.
- Isso porque vocês tem um tipo de familiaridade e para fazerem o trabalho, isso
deverá ser evitado, sendo assim, o trabalho de vocês nesse bimestre é estudar o seu
novo parceiro de classe.
Meu queixo caiu no chão. Novo parceiro? Como assim novo parceiro? Ele não
podia querer reorganizar a sala na metade do ano letivo.
Ignorando todos os protestos exaltados, o professor deu continuidade.
- Os que sentam a esquerda quero que pulem para a carteira da frente, e os
que sentam a direita para a carteira de trás. Vamos – falou, batendo palmas, apressando a todos.
Mordi o lábio e dei um tchauzinho para Louis, que já ocupara seu novo lugar.
Virei-me para me dirigir até a carteira de trás, onde já estava meu novo parceiro, o novo
aluno, trajando seu habitual sorriso sedutor. Ou seria infantil? Era difícil dizer.
- Oi. Sou Harry – falou, fitando-me com seu par de olhos calorosos e de cor indefinida.
- Melanie – sorri, colocando meu livro de biologia sobre a mesa.
- Muito bem -disse o professor quando todos já pareciam ter tomado seus novos lugares –, o jogo de sedução é o primeiro elemento que influência uma
reprodução animal. Pavões exibem as penas em seu rabo para atrair as fêmeas,
assim como os gorilas batem no peito. Vejamos... — seus olhos percorreram pela sala até encontrarem com os meus.
- Melanie, o que te atraiu em seu novo parceiro? –
perguntou.
Senti meu rosto começar a arder.
- Desculpe...
- Seu novo parceiro, o que te atraiu nele?
- Ah, não sei, eu acho que... Acho que... Os olhos.
- Então, com um simples contado visual, poderíamos dizer que Melanie já é
uma reprodutora em potencial para Harry.
Toda a sala caiu em gargalhadas.
- O que?! – protestei. – Não, não, não, não. Isso é relativo.
- A atração nem sempre é correspondida – falou Harry despretensioso ao meu lado.
- Azar o de Melanie, então – disse o professor, como se fosse o fim de uma piada hilária.
E toda a sala continuou com os risos abafados.
- O senhor não pode querer nos comparar com animais – falei. – Não é só porque Harry tem olhos bonitos que eu irei gastar três minutos no banco de trás...
- Dez – interrompeu Harry. – Dez minutos.
- Faz diferença?! -perguntei incrédula, mas Harry apenas riu e eu continuei –
Nós pertencemos ao reino Animal, mas somos racionais, é preciso bem mais do que
só olhos bonitos para chamar a atenção de uma mulher.
Claro que Holliday Gold não entrava nesse quesito. Para ela, se você tivesseum penduricalho entre as pernas, já era um reprodutor em potencial.
O professor me encarou por cima dos seus oclinhos, cruzando os braços da
altura do tórax.
- Você concorda com isso, Srº Styles?
- Em tese sim, mas na prática... Os bichos usam o sexo apenas para
reprodução, nós nem tanto.
Ele parecia saber bastante sobre o assunto.
- No trabalho final, vocês desenvolverão teorias de acordo com a opinião pessoal de cada um em relação ao tema. Quero teorias maduras e concretas. Por
hora, quero que vocês pratiquem um exercício de investigação. Estudem seu parceiro
de acordo com suas primeiras impressões, anotem no papel e vejam quais
características listadas te atraí, depois discutam sobre isso. Quero a conclusão disso
para amanhã.
Encarei o relógio na parede e contei quinze minutos até que o último sinal
finalmente batesse. Ouvi o deslizar suave da caneta ao meu lado. Inclinei a cabeça
tentando decifrar o que ele anotava em seu papel.
- O que você está escrevendo? – perguntei confusa. Cinco minutos ao meu lado e ele já tinha uma redação a meu respeito.
- Acha meus olhos irresistíveis... – falou, sem desviar o olhar de sua folha.
- O que? Não acho não.
-... Contraditória.
- Você está sendo precipitado.
- Estou sendo observador – respondeu ele, olhando-me de esguelha enquanto dava um meio sorriso. Arrogante.
— E o que mais você observou em mim? – perguntei.
Harry virou todo o seu corpo em minha direção, me estudando com seus olhos
azuis esverdeados. Senti um calafrio correr pela minha espinha e fiz um esforço para
não me encolher.
- Você é vulnerável quando sabe que está sendo notada – falou, cheio de prepotência.
- Sou o que? — ri. – Isso é ridículo.
- Vi você no corredor com aquele garoto do topete mais cedo...
Ele não precisou terminar o raciocínio, naquele meio sorriso estampado em seu
rosto era possível ver o que se passava em sua mente perversa. Pobre Melanie.
- Eu estava desprevenida! — protestei.
- Vulnerável – falou, arqueando as sobrancelhas.
Meu cérebro não conseguia processar muita coisa. Ele estava me estudando
de uma forma pouca discreta e isso me deixava... Vulnerável. Droga!
Fiquei contemplando Harry mais do que a educação me permitia, recuperei o
folego, abri meu caderno e agarrei minha caneta.
- Arrogante – falei enquanto escrevia. – Prepotente e... – extremamente...
Charmoso...
Levantei meus olhos a tempo de ver seu olhar curioso pairando sobre mim, me
desafiando a terminar de escrever.
-... Olhos verdes... – falei baixo, me martirizando por não ter conseguido nenhuma outra coisa ofensiva.
- Isso é óbvio – falou ele, rindo.
Não era não. Por várias vezes eu pensei ter visto um raio azulado pairando por
ali.
- E alguma dessas coisas te atrai, Melanie?
Sim.
- Não.
Harry parou por um momento, me observando, até que seus lábios se abriram,
e uma luz atravessou seus olhos.
- Acho você uma gracinha quando está... Vulnerável.
Engoli em seco e quase engasguei. Ele estava... Me cantando?!
Encarei-o por um longo segundo, completamente abalada, muda e estarrecida.
Ele está de gozação com a minha cara, pensei.
Meu rosto estava borbulhando quando abri a boca para responder, mas tornei a
fecha-la um segundo depois. Não conseguia pensar em nada que rebatasse aquele
comentário.
- E aí está – falou ele em um tom baixo quase como um sussurro,
completamente carregado de segundas intenções, quando se inclinou em minha
direção para que só eu pudesse ouvir suas palavras. – Vulnerável.
Foi como se um balde de água fria tivesse acabado de cair sobre meu corpo
febril. Ele estava de gozação com a minha cara. Forcei meu cérebro a continuar
processando qualquer coisa que o colocasse em seu lugar, mas Harry, em cinco
minutos, conseguira atravessar qualquer barreira que eu pudesse ter colocado.
Sem nenhum pingo de dignidade para contar história, eu apoiei minhas mãos na
mesa e o encarei com firmeza.
- Arrogante – falei.
Harry soltou uma gargalhada rouca, balançando sua cabeça em negação.
- Qual é o seu problema?
- Você.
Ele estava fazendo de novo.
- Para!
Harry prendeu o lápis em seus lábios, enquanto me fitava com um ar de
curiosidade. Houve um minuto de silêncio e o sinal tocou.
Os corpos ao meu redor começavam a se movimentar apressados em direção
à saída. Eu também estaria, se minha folha não tivesse praticamente em branco, a não
ser pelas três palavras que ocupavam apenas uma linha: Arrogante, prepotente e olhos
verdes; era tudo o que eu tinha conseguido deduzir sobre Harry Styles nos últimos
quinze minutos e, ao contrário de mim, ele praticamente tinha uma enciclopédia ao
meu respeito.
Droga!
Levantei-me rapidamente da cadeira e procurei pela cabeça encaracolada do
meu parceiro entre as demais que circulavam pelo corredor.
- Harry! – gritei. – Espera!
Me desvencilhei de alguns alunos até conseguir alcança-lo.
- Harry! – gritei de novo. – Eu não consegui nada sobre você – falei em um tom mais baixo, ignorando alguns olhares em minha direção.
- Arrogante e prepotente é um bom começo... – falou rindo quando tomou a folha de minhas mãos.
Bufei.
- Estou falando sério.
- Você é certinha demais para inventar alguma coisa...? – era mais uma de suas observações do que de fato uma pergunta. Quando não esbocei nenhuma
reação, Harry continuou. – Me encontre no Hidra hoje a noite.
Eu esperei pacientemente que ele sorrisse e desmentisse aquilo. Mas nada
aconteceu.
- Você está de brincadeira, né?! Você quer que eu te encontre num bar?!
- Não vai me dar um bolo, Mia – falou, alargando um imenso sorriso em seu rosto antes de partir.
Quem me dera poder ter essa opção.
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