O Estranho
1 The past never dies
Notas iniciais
Ele tinha visto o dia amanhecer. Sentado à mesa da cozinha, com uma xícara de café, agora não tão quente, nas mãos ele tinha observado o escuro infinito da madrugada dar lugar ao raiar do sol. À sua frente, no centro da mesa, um papel dobrado. Ele segurava a xícara com uma força mais que necessária e encarava o papel como se pudesse ler através dele e, ao mesmo tempo, não quisesse fazer. Não poderia acreditar que era verdade. As palavras ecoavam em sua mente, com a voz do homem. Será mesmo que aquilo estava acontecendo?
Quais as probabilidades de O Pescado tê-lo encontrado? Uma em duzentos milhões? Impossível. E o mais absurdo era que ele estivesse assustado com um pedaço de papel. Um mísero pedaço de papel! Revirou os olhos e levantou da mesa. Aquilo era um completo absurdo. Percebeu não tomara nenhum gole do café, agora frio, e jogou o líquido na pia. Ele não ia se deixar levar por um pedaço de papel que poderia não significar nada. Corrigindo, que não significava nada.
Pegou o celular em cima da mesa e mandou uma mensagem de texto para Josh “Muito engraçada sua brincadeira de ontem à noite. Mas vai precisar de mais do que isso para me assustar.” Ele se sentiu satisfeito ao mandar a mensagem. Não precisava de provas de que foi Josh quem fez essa brincadeira de mal gosto, pois se não fosse ele quem mais seria? Seu antigo chefe, talvez? Não... Eles não tinham tanta intimidade assim.
Tentando esquecer o assunto, Willian subiu para o quarto para se arrumar para o trabalho. William Stevens era um economista, trabalha com probabilidades no mercado financeiro de uma empresa de ações em ascensão em Chicago. Não era o emprego de seus sonhos, na empresa de seus sonhos, mas era o suficiente para ele no momento. Nunca foi um rapaz de esbanjar, sabia economizar seu dinheiro e fazer render, então escolher o curso de economia pareceu ser a escolha mais sábia. Will, como os amigos o chamavam, tinha facilidade com números e não via problema nenhum em lidar com eles o resto da sua vida. Simples. Sem mais problemas. Ele não era um garoto problemático. Não procurava confusão e evitava que as pessoas criassem problema com ele. Sempre foi assim... Pelo menos até pouco tempo.
Vinte minutos depois, Will estava pronto. Saindo pela porta com sua pasta na mão, ele trancou a casa e entrou no carro, seguindo para o trabalho. Não mexeu no papel. Queria esquecer a maldita brincadeira de Josh, mas aquilo o incomodava. O incomodava mais que o normal.
Will teve muitos afazeres naquela dia. Muitos acordos financeiros para analisar os riscos, muitos relatórios sobre os acordos; possíveis perdas se vendesse determinada empresa; possíveis lucros com a compra de determinadas ações; o dólar estava alto, mas estaria alto o suficiente? A queda do euro naquela manhã afetaria o mercado até que ponto? Foram tantas coisas que ele apenas parou para almoçar rapidamente, na verdade Will fez um lanche em sua mesa de trabalho. Sanduiche de atum, que ele considerava a melhor coisa do mundo.
Teve a leve impressão de que as pessoas ao seu redor iam se despedindo, mas estsva tão absorto que simplesmente as respondeu no modo automático – Pra você também.— era o que dizia. Quando se deu conta já passava das 18h e ele era o único no escritório. Olhou ao redor e tudo estava escuro. “Te achei, Rhonda. E vou te achar de novo.” Pôde ouvir claramente a voz d’O Pescador e sentiu seu sangue gelar. Olhou ao redor novamente, não tinha ninguém em ao seu redor. “Assim eu vou enlouquecer...” pensou consigo antes de começar a arrumar suas coisas e sair do escritório. Instantes depois já estava no estacionamento, entrando em seu carro. Antes de dar a partida, percebeu que não havia olhado seu celular durante todo o dia e pensou que poderia ter alguma mensagem perdida que era importante.
Ao desbloquear o aparelho, viu que notou várias mensagens recebidas e algumas ligações perdidas, mas, em especial, havia uma mensagem não lida de Josh, a qual ele foi ler, ignorando todas as outras: “KKKKKKK Cara, não sei do que ‘tá falando. Vamo ver o jogo amanhã?” Nesse momento, Will se sentiu confuso. Não foi mesmo Josh ou seu amigo apenas não quis admitir? Sentiu seu corpo todo ficar em sinal de alerta e seus olhos se fixaram no vidro retrovisor do carro. O banco traseiro estava escuro... Será que... Pôde sentir seu coração bater acelerado e começou a suar. Estava criando coragem para olhar para trás, quando uma luz forte apareceu em seu retrovisor e iluminou todo o carro. Will aproveitou a oportunidade e olhou para trás. Sentiu o coração aliviar ao ver apenas o banco vazio. Respirou tão fundo como jamais havia respirado em sua vida e ligou o carro. Ele não poderia se deixar levar por uma brincadeira. “É impossível me encontrar. É impossível me encontrar.” Ele repedia em sua mente, como um mantra. E assim foi durante todo trajeto até chegar em casa.
Ao estacionar o carro, Will se sentiu tão cansado que tudo que queria era dormir. A essa altura, já estava novamente convencido de que Josh quem mandou alguém entregar o bilhete e ele só estava surtando com uma besteira. Entrou em casa e sem ascender qualquer lâmpada, trancou a porta e subiu para o quarto. Tomou um banho rápido e se jogou na cama, dormindo quase que instantaneamente.
Acordou com o barulho do despertador do celular e o sol entrando pela fresta da cortina e clareando seu rosto. Ficou na cama por alguns minutos olhando as notificações no Facebook e as mensagens que não respondeu no dia anterior. A Josh nada disse. William se sentia bem, de bom humor. Tomou banho, se arrumou para o trabalho e foi preparar seu café. Ao chegar na cozinha, ele ligou a torradeira, pegou o pão, manteiga e preparou o tão abençoado café; quando foi colocar as coisas na mesa ele notou algo diferente. A mesa estava limpa. Vazia. Sentiu que estava deixando passar alguma coisa, mas não conseguiu se lembrar o que era exatamente. Decidiu ignorar e terminar de tomar café.
William então, ao terminar, colocou os pratos na pia, pegou sua pasta e seguiu até a saída. Quando estava trancando a porta, ele se sentiu ser observado. Não de fora, mas de dentro de sua casa. Naquele instante ele lembrou o que estava diferente. Ele havia deixado o bilhete com o recado d’O Pescador em cima da mesa da cozinha de manhã, quando saiu. E, na manhã seguinte, não estava mais. Ele foi na cozinha quando chegou e morava sozinho. O que...?
Ele correu de volta até a cozinha e constatou que não tinha nada na mesa. Olhou na pia: nada. Olhou no lixo da cozinha: nada. Subiu para o quarto, procurou na cama, criado mudo, pia do banheiro e nada. – Só pode ser brincadeira...— ele resmungou irritado. Will morava sozinho. Desde que se mudara para aquela cidade há seis meses, ele morava sozinho. Sem empregada, sem ninguém. Sozinho. – Tem alguém na minha casa.— ele constatou se sentindo apavorado.
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