O Estilhaço das Fitas - Oneshot
1 O Estilhaço das Fitas
Era uma noite clara de inverno de 2060 em Brasília, a megalópole finalmente completaria seu centenário. Estava frio e muito seco, com a umidade batendo abaixo dos 15%, juntamente da baixa qualidade do ar em certas áreas, muitos indivíduos necessitavam de ajuda de implantes ou até mesmo de máscaras específicas para respirar.
Um nevoeiro denso e cinza se espalhava pelo centro corporativo da cidade, que, com o passar do século XXI, foi perdendo lentamente seu traçado modernista. Crescendo intensamente a cada década, ela hoje se tornou um dos maiores símbolos corporativistas da América do Sul, juntamente com São Paulo e o Rio de Janeiro. Portanto, não apenas Brasília havia sofrido diversas transformações com o passar das décadas. Na década de 2030, guerras tomaram conta de todo o Oriente Médio e Ásia Central, destruindo completamente certas regiões e diversos monumentos históricos sendo apagados do mapa, como Jerusalém.
Já na década de 2040, a economia norte-americana quebrou, levando à ruína diversas nações espalhadas pelo globo, principalmente as do mundo ocidental. Porém, junto das crises étnicas, econômicas e conflitos armados, a tecnologia, principalmente militar, avançou rapidamente e em poucos anos, implantes cibernéticos começaram a ser comercializados, primeiramente em mercados clandestinos, mas atualmente, qualquer um consegue ter um implante no corpo, de boa qualidade ou não.
O enfraquecimento das potências mundiais trouxe consigo uma nova era que se construía lentamente, que chegara no seu ápice, com corporações começando a tomar espaço no jogo político, chegando a um ponto crítico quando a Samsung Electronics desafiou publicamente o governo sul-coreano no ano de 2052.
Naquela noite esfumaçada e seca de inverno, um homem solitário perambulava pelas ruas, perdido em suas mágoas e arrependimentos, sobre a sombra de uma floresta de concreto que parecia não ter fim, edifícios e torres colossais, com anúncios barulhentos e coloridos cobrindo boa parte de sua estrutura. O indivíduo andava e andava, pensamentos intrusivos apareciam e logo depois sumiam, como pedras leves caindo em um grande lago calmo. Havia acabado de perder seu emprego e atualmente era um viciado em cigarros em SimStim, uma droga capaz de fazer o usuária experimentar memórias de outras pessoas, podendo sentir todas as sensações que o "ator" sentiu. Seus sonhos de juventude haviam sido afogados em lama.
...
— Bom, eu não sei como começar esse vídeo, mas estou aqui agora no centro corporativo de Brasília, e hoje é dia 21 de junho de 2060. Sua voz era rouca, carregada de cinismo e resignação. O homem gravava, diretamente de seus olhos o vídeo, fazendo o mesmo coçar algumas vezes suas pálpebras.
— Eu não espero muito da vida e nem do mundo, esse lugar está completamente doente e acabado, e eu não consigo compreender a passividade das pessoas, a competição para entrar para as corporações, o crime, esses implantes. O homem faz uma pausa. Seus sapatos de couro sintético preto fosco batiam no concreto sujo da calçada.
— Sou um hipócrita por falar disso, sendo que eu tô literalmente gravando algo com meus olhos artificiais? Talvez, mas ninguém mais se questiona sobre isso?
O homem andava cada vez mais, se deparando com latas de lixo transbordando e espalhando um cheiro azedo e horrível à sua volta. Naquela rua, via mendigos, drogados convulsionando e um casal se agarrando nos fundos de um estabelecimento. E para completar esse cenário grotesco e distópico, as luzes, o círculo monocromático nunca estiveram tão presente como naquela rua. Rosa, roxo, azul, vermelho, verde, amarelo, azul, além de vários outros tipos de tons dessas cores, que pintavam aquele quadro de pessoas apesar de toda a desgraça, se divertindo em boates, casas de massagem, ou enchendo a cara de cachaça barata em qualquer boteco, caindo aos pedaços.
Aquele ambiente era tão decadente, mas também tão atraente, como se todos os sentimentos e impulsos primitivos humanos se cruzassem perfeitamente. Amor, ódio, competição, vingança, medo, prazer, agonia, vida, morte. Estava tudo ali, se misturando em uma estranha massa de concreto e ferro.
— Sabe, eu costumava ser tão otimista antes, jurava que conseguiria reerguer a sétima das Belas Artes das cinzas. Porém, ao me formar em uma faculdade particular, e depois de poucos trabalhos jornalísticos e mais alguns bicos, notei que era impossível ganhar da inteligência artificial, e após anos, fui engolido pelo mundo... Meu nome é Zéfiro, e tenho 32 anos, e hoje, fui novamente demitido para uma IA tomar meu lugar, e eu não aguento mais isso! Esses implantes, vozes de robôs completamente vazias e sem alma... sinto que estou deixando de ser um humano a cada dia da minha vida, a cada propaganda sobre carnes sintéticas, uma notícia sobre crimes violentos... Onde eu estou? Seria o inferno? Ou apenas o brilhante futuro que nos foi prometido quando éramos crianças? O homem parou de andar em uma encruzilhada movimentada de carros...
— Quem diabos vai escutar isso? Ele riu amargamente. E de repente, um carro autônomo, totalmente fora de controle, para desviar de bater em outro, se joga com tudo para a calçada, e o homem é esmagado entre um muro de concreto e o veículo. Seu sangue escorreu pela calçada e misturou-se ao óleo do carro, formando uma poça distorcida. Com todos os ossos do corpo quebrados, o homem caiu morto no chão.
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