O Espelho da Perfeição
1 Capítulo Único
“It’s not that perfection cannot be achieved. It’s that it’s so hard to stop there.”
(Não é que a perfeição não possa ser alcançada. É que é tão difícil parar lá.)
— Robert Brault
Eram onze da noite. Estava vagando por uma estrada exatamente no meio do nada quando uma construção apareceu ao longe. Como já era tarde, estava escuro ao extremo e precisava desesperadamente de um descanso, resolvi me aproximar. Chegando mais perto, percebi que se tratava de um hotel mui antigo, de três andares, que até um passado não muito distante fora muito abastado. Na fronte, estava entalhado um título “E tadia dos Anjos” e, no solo, logo abaixo do espaço entre o primeiro “E” e o “t”, jazia um “s”, já bastante carcomido pelo tempo e por uma vegetação rasteira que começava a adentrar o estabelecimento. Embora estivesse com aparência definitivamente decrépita, apeei do meu cavalo, amarrei-o a uma cerca que circundava um jardim sem flores e transpus-me para dentro.
Estava muito escuro e não dava para se ver nada. Tateei a parede ao meu lado e encontrei um interruptor que imaginei ser o da luz e apertei-o, não esperando obter resultados positivos. Porém, a luz se acendeu. Deparei-me com uma sala bastante ampla, de uns aproximados 150 metros quadrados, de aspecto muito antigo. Haviam sofás mofados que pareciam ser do século passado, plantas murchas, há muito mortas, dois lustres à vela com vários pedaços faltando, um piano sem metade das notas disposto em um canto da sala e uma lareira ao fundo, apagada. Teias de aranha pululavam por toda parte, no teto, nos móveis, nas esculturas. Aproximei-me ao balcão da recepção e chamei por alguém, mas esse alguém não apareceu. Certificada de que a instalação estava abandonada, pensei que não haveria problema em tomar um quarto durante aquela noite. Recolhi a única chave que estava em cima do balcão, a do número 302.
Não havia elevador, então fui de escada. A cada passo, um novo rangido. Ao passar pelos andares, todos com um enorme corredor estreito, carpete vermelho com adornos dourados no chão e tapeçarias nas paredes da mesma cor, cheguei à conclusão de que o hotel fora extremamente luxuoso algum dia.
Cheguei na frente do quarto. A porta, como todas as outras, era feita de uma madeira escura, de cor quase completamente negra. Entretanto, diferentemente das demais, a minha era a única que ainda mantinha um estado de completa conservação, sem traços de ação do tempo. Achei um tanto singular, porém o sono me era mais forte. Entrei.
O quarto era enorme. Havia uma cama gigante, sofás e várias estantes, cheias de livros. E tudo sem nenhum resquício de poeira. Joguei minha mochila de viagem em cima da cama, tirei um pijama velho de dentro e troquei minhas roupas. Abismada com todo o luxo do quarto, tentei ignorar o sono por mais um pouco e pesquisei os títulos dos livros das estantes. Dentre eles, Drácula, A Queda da Casa de Usher, Alice no País das Maravilhas, Macbeth, Um Estudo em Vermelho, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Retrato de Dorian Gray. Resolvi-me pelo último, tendo em vista uma boa indicação que possuía de um velho amigo. Trouxe-o para a cama, de uma maciez extrema, e principiei a lê-lo. Absorta na leitura, não tomei conhecimento do passar das horas. Após indefinido tempo, senti meus olhos pesarem, destarte decidi ir ao banheiro para lavar o rosto. Abri a torneira da pia, enxaguei minha face e depois me olhei num espelho limpíssimo, com uma moldura tão negra quanto o céu daquela noite.
Meu Deus. Minha pele estava perfeita, sedosa sem indícios de acne ou manchas de qualquer tipo. Meus cabelos, negros, vivos, brilhantes, com as mais belas ondas. Meus olhos, que sempre foram castanhos e tristes, adquiriram um tom azul-esverdeado e o triste deixou de ser o tipo murcho para ganhar uma intensidade, uma vivacidade nunca vista antes em nenhum mortal...
Recuperei-me do transe e empenhei-me em decifrar qual era o mistério do espelho. Ou, quem sabe, talvez fosse a água e o clima da região...
Voltei à cama para ler mais. O último trecho de que tenho ciência de ter lido foi “A harmonia do corpo e da alma... Nós, na nossa cegueira, separamos estas duas coisas para inventar um realismo vulgar e uma idealidade vazia!”. Após este, não consegui mais prestar atenção a nada e as palavras apenas rolavam pelos meus olhos, sem deixar impressões na mente... Precisava mesmo era voltar para defronte àquele espelho, que me mostraria como uma extrema beldade...
Voltei e lá eu estava, perfeita. Fiquei me olhando por horas e horas...e logo surgiu a ideia fixa. Ah, aquele pensamento que se prega ao cérebro, cujo único modo de abandoná-lo é cedendo aos seus impulsos... Precisava entrar dentro do objeto. Precisava intensamente adentrar naquele mundo da perfeição plena...
Estiquei a mão, pronta para sair daquela Terra infame e penetrar-me naquela outra realidade sem máculas...
Mas, quando estava quase tocando o vidro, de chofre uma voz veio à tona em minha racionalidade, dizendo para parar. Sussurrava também justamente aquele trecho do livro que havia lido por último (“A harmonia do corpo e da alma... Nós, na nossa cegueira, separamos estas duas coisas para inventar um realismo vulgar e uma idealidade vazia!”). Naquele momento, estava justamente buscando só a harmonia de um dos lados, a do corpo. Afastei-me de súbito do objeto, procurando não voltar a encará-lo, com o coração batendo em passe frenético.
Olhei em volta do objeto e vi um livrinho de bolso em cima da pia. Abri-o e comecei a lê-lo. Era um diário e sua última marcação fora no dia 27 de maio de 1912.
“Oh, Deus, me ajude! O mundo da perfeição! O quanto sonhei por isso! Mas que dor incômoda no coração... eu preciso entrar, eu preciso entrar.. preciso... ent---.”
Mas o resto não havia meios para ler. Havia tinta em todo o resto da página, como se a pessoa tivesse paralisado e deixado a pena e o tinteiro caírem.
Nesse momento, virei a face novamente para o espelho e vi, no reflexo, um outro rosto perfeito, de outra pessoa, ao lado do meu, observando-me com um meio sorriso e sobrancelhas franzidas... do outro lado!
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