O Espelho Alternativo

Ainda com o celular em mãos, David planejava seus próximos passos. A besta já havia ido embora há muito tempo, mas David achou que não era prudente voltar à sala de jantar. Resolveu então subir as escadas.

Assim q subiu, David deparou-se com um corredor grande e bem iluminado por velas, banhado em sangue como todos os outros. Mas este era diferente: assemelhava-se à uma sala, era quadrado e dava para 10 portas diferentes, todas com nomes escritos: Arthur, Guilherme, Edgar, Priscila, Bárbara....

-Bárbara.... – pensou David, recordando-se do bilhete – Eu já ouvi esse nome... Este deve ser o quarto da menina que me deixou a adaga....

Tentou girar a maçaneta, mas nada aconteceu. No lugar da fechadura, havia apenas um buraco com o tamanho aproximado de uma bola de tênis. Isso lembrou a David a pedra que ele havia pego pouco antes. Ele tentou colocar a pedra na fechadura e tentou abrir a porta de novo, mas, quando o fez, a pedra foi rejeitada pela fechadura e jogada para fora.

-Droga – reclamou, recuperando a pedra que havia sido jogada no chão – Alguma utilidade esta pedra deve ter....

Assim ele tentou colocar a pedra na fechadura das outras portas, e uma a uma, a pedra foi rejeitada.

-Ah!! Mas que merda!! – disse ele, colocando a pedra na porta que tinha como nome Guilherme.

E depositou grande força contra a maçaneta e a porta. Tal foi a sua surpresa quando a porta abriu e ele caiu no chão.

A porta atrás de si fechou-se sozinha, com um estrondo.

Era difícil dizer o que era aquele cômodo exatamente, estava tudo completamente escuro. David pegou então sua lanterna que havia guardado no bolso e iluminou-o.

Era nada mais que um quarto normal. Decorado com babados e muito azul, pouco se assemelhava com o quarto de um menino. Possuía uma cama encostada na parede, uma escrivaninha com alguns livros e papéis jogados, um grada-roupa alto e um tapete de pele com alguns brinquedos jogados.

Nada banhado a sangue, nada fora do normal. David respirou aliviado.

Resolveu vasculhar o quarto. Na cama nada havia. Os brinquedos no chão lembravam soldados feitos de chumbo, alguns até sorriam. No guarda-roupa, na além de ternos do tamanho de uma criança e roupas sociais, todas infantis.

Na escrivaninha, haviam apenas livros de histórias infantis clássicos, como A Bela e a Fera, Chapeuzinho Vermelho e outros. Um bilhete escrito á mão, com uma caligrafia adulta e firme, dizia:

“Papai disse que a Lavínia finalmente encontrou a pessoa que vai nos fazer felizes. Sei que ela parece muito estranha e sanguinária, já encontrei ela comendo carne crua e cheia de sangue e uma vez até a vi obrigando o papai a fazer o mesmo, mas ele disse que somente ela tem como nos fazer felizes então é melhor eu acreditar nela.

Eu só queria que fosse março novamente.”

-Acho que não vai achar nada de útil aí para se salvar, criança.

Uma voz infantil ecoou no quarto, vindo de suas costas, e David rapidamente virou a lanterna para a cama pra ver quem era.

A imagem definitivamente ficaria gravada em sua mente o resto da vida.

FIM DA PART 5

Sentada na cama não havia nada mais que outra criança, como ela própria havia denominado David. Vestida com traje social de época, uma boina e um short preso com um suspensório, parecia ter sido recortada de uma foto antiga, pois seu corpo e sua roupa estavam nítidos em cor marrom. Poderia ser uma criança normal, porém suas veias estavam marcadas em cada parte do seu corpo, algumas haviam até estourado, deixando escorrer um pouco de sangue pisado. Seu boné estava muito sujo de um liquido escuro em um dos lados. Provavelmente sangue também.

-Nunca ouviu dizer que não é educado entrar em qualquer lugar sem ser convidado? – Disse ele, numa voz distante, quase sonhadora. Seu olhar, apesar de encarar o rosto de David, parecia contemplar o horizonte. Aquele garoto parecia muito triste — Principalmente entrar no quarto dos outros??

David não sabia o que dizer.

-Você tem uma aparência tão jovem e viva – falou o garoto de novo, já que David permaneceu calado. O garoto falava como um adulto – Provavelmente é aquele de quem a Lavínia tanto falava. Aquela vaca descabida....

-Afinal, quem é Lavínia? – perguntou David, sem hesitar.

O garoto olhou assustado, como se a pergunta fosse uma surpresa. Pôs-se a rir, uma risada triste e sem graça, quase sádica.

-Você ainda não sabe?? A Lavínia é minha madrasta. Casou-se com meu pai muito tempo depois que minha mãe morreu. Nem cheguei a conhecê-la, mas somente por pensar que ela estava substituindo minha mãe biológica, já comecei a carregar grande antipatia por ela. Ainda mais depois que ela tentou implantar aquela estranha religião dela na nossa família.

Apesar de não expressar sentimentos, o menino parecia cheio de raiva.

-Ainda me lembro bem quando eu peguei ela e meu pai transando um dia... – David assuntou-se ao ouvir um garoto de no máximo sete anos dizer aquilo com tanta naturalidade – Lembro-me dela lá, gemendo e perfurando meu pai com uma faca no braço, enquanto ele implorava pra que ela parasse. Nem imagino quantas vezes ela já havia feito aquilo, meu pai sempre aparecia com feridas profundas em varias partes do corpo....

David ouvia a tudo, horrorizado.

-Aquilo foi demais pra mim. Não me agüentei e empurrei-a de cima do meu pai. Quando ela percebeu o que eu tinha feito, me pegou pelo cabelo e me jogou contra a parede! Meu pai agonizou, perplexo, implorado pra que ela parasse. Mas ela não parou. Continuou me pisoteando pelo corpo todo – disse, enquanto acariciava as veias que apareciam em seu corpo – Meu pai ficou lá, chorando, assistindo ela me matar. Antes ainda que eu morresse, ela me deu um forte chute na cabeça, enquanto me xingava de insolente e intrometido. Minha cabeça bateu na parede com toda força e eu morri.

Nisso, ele tirou a boina para mostrar cabeça para David. Ele pulou pra traz, tamanho seu susto. O crânio do menino tinha um lado quebrado, mostrando o cérebro lá dentro. Tudo estava coberto do mesmo sangue pisado, velho.

-Fiquei sabendo que meu pai queria me enterrar, mas Lavínia não deixou. Ela me abandonou em um campo para que eu apodrecesse. Felizmente, ou não, a Bárbara tinha algum conhecimento em magia negra que ela havia aprendido com a Lavínia. Ela encontrou meu corpo e me ressuscitou com Necromancia.Os outros moradores do castelo, que foram morrendo um por um, ela conseguiu transformar em fantasmas.

-Sabe, não gosto de você e realmente não é do meu feitio ajudar as pessoas, mas o meu intuito final é não deixar que aquela mulher consiga o que ela tanto deseja. Sei o que você deve fazer pra se livrar dela, então escute com atenção...

Porém o garoto nunca foi capaz de terminar esta frase...

FIM DA PART 6

A fala do garoto foi interrompida de súbito. Um murmúrio estranho soou de onde estava o garoto, como se ele estivesse tentando gritar, mas sua boca estivesse fechada. Somente quando chegou mais perto ele havia entendido o que acontecera: O garoto não possuía mais boca. No lugar onde deveria estar a fenda de sua boca, só existia a mesma pele pálida e morta do resto do corpo.

O que mais assustou David não foi o fato do garoto não ter mais boca, e sim sua expressão: pela primeira vez ele parecia humano. Gritava assustado, ainda que seu grito fosse abafado pela própria pele. Apontava freneticamente para porta, ordenando para que David saísse do quarto. Seus olhos agora exalavam um sentimento: medo. Muito medo.

David percebeu ainda que na cabeça do menino encontrava-se um dos bonequinhos que estavam no chão. O boneco estava estranhamente entrando na pele do garoto. Assim que entrou por completo, a cabeça do menino estourou, espalhando o estranho sangue escuro pelo quarto e pelas roupas de David. Um grito agudo foi o que se ouviu quando a pele que tapava sua boca e todo o resto de sua cabeça finalmente cedeu: “SAAAAAAI”

Horrorizado, David assistia agora outros brinquedos pequenos, junto com os soldadinhos que restavam, tentando invadir o corpo do garoto. Até que percebeu que algo invadia também a pele de sua perna esquerda. Olhou para a bonequinha que enfiava seu braço de pano dentro de sua perna, sorrindo para ele.

Saiu aos gritos do quarto, com a boneca gargalhando segura à sua perna, sendo levada. Fechou a porta com uma batida, arrancou o braço da boneca de sua perna e pisoteou-a com enorme energia. Pegou sua adaga e começou a estraçalhar a boneca por completo, desfiando seu corpo enquanto ela chorava desesperada. Uma estranha excitação estava invadindo seu corpo sem que ele nem percebesse. David já estava até rindo, sentindo prazer em arrancar a vida da bonequinha de pano.

Largou os retalhos estraçalhados e recostou-se na porta que havia acabado de fechar. Que sentimento assassino era aquele que havia acabado de sentir? Era prazeroso para ele tirar uma vida, mesmo que seja de uma boneca? Afinal, que excitação, que alegria era aquela que acabara de apreciar?

Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque de seu celular, o que não deixava de ser assustador:

-David?? Aqui é o Keyle!

-Onde você está? – Disse, ofegando.

-Porque você está ofegando? O que está acontecendo aí dentro afinal?? – Perguntou ele, sem dar importância à pergunta do amigo, ligeiramente assustado.

-Eu acabo de ver um garoto sendo morto por bonecos e uma boneca de pano acaba de perfurar a minha panturrilha esquerda! – Disse, em tom irônico – Onde você está??

-Não fale uma coisa destas, David, eu já estou bastante assustado.

-MEU DEUS KEYLE, PARE COM ISSO E ME DIGA LOGO ONDE VOCÊ TÁ, CARALHO!!! – gritou David, muito irritado com o amigo que não respondia.

-DAVID, PARE DE GRITAR AGORA MESMO!! Eu estou na frente deste castelo com os malditos dos bombeiros e nós não sabemos nada do que está acontecendo!! As portas estão trancadas, as janelas estão fechadas por vidros que parecem impossíveis de quebrar. Além do mais elas estão sangrando!! Sangrando, ouviu bem David?? Não pára de escorrer sangue e os bombeiros estão assustados e querem ir embora! É IMPOSSIVEL ARROMBAR AS PORTAS E JANELAS!! Há uma névoa estranha saindo do lago aqui perto da casa dos Sinfullness que envolve o castelo inteiro. O rádio dos bombeiros parou de funcionar do nada e o caminhão não pega mais. Ninguém consegue consertá-lo, DAVID ME DIZ O QUE ESTÁ ACONTECENDO!!!

Keyle estava nitidamente mais assustado que ele.

-Acalme-se Keyle, temos que pensar em algo. Já sei!! Está vendo a segunda janela à esquerda da porta principal??

-Sei.

-Vá até ela, vamos tentar nos ver!.....

-OK, ok..... Ah meus pais vão me matar quando descobrirem que eu vim até aqui sem avisar..... Mas eu não poderia acordá-los, acabaria apanhando, como sempre..... – reclamou baixinho o menino.

-O que você disse??

-Disse que não dá pra ver nada porque além de estar escorrendo esse sangue nojento, tem uma cortina preta tampando – disfarçou ele.

-É eu sei. Eu não consigo tirar a cortina do lugar, vou tentar abri-la, peraí!!

E fez enorme força para separar a cortina, mas nada adiantava. Pegou sua adaga e tentou cortar a cortina, mas também sem sucesso. Percebeu, então, que as cortinas estavam persas por sangue. Havia uma fina linha de sangue onde elas se encontravam.

Sangue... Isso o lembrou da porta que ele atravessou para entrar no salão do espelho.

Sangue...

Sem pensar duas vezes, David passou a mão na ferida de sua perna e melou-a de sangue. Resolveu passá-lo no sangue da cortina, assim como havia feito na porta, horas atrás.

A cortina abria-se lentamente, à medida que David passava o dedo sobre ela.

-Está cedendo, David, mas não é possível ver nada!! Está muito escuro aí dentro.

“Escuro???” pensou David. Com todos os castiçais e velas queimando lá dentro, o castelo poderia sim estar um pouco gótico e escurecido, mas também não estava aquele breu irreconhecível.

-É... Não é possível enxergar nada – finalizou Keyle – encoste-se na janela pra que a gente possa ter ver.

David achou estranho, mas só então percebeu que não havia ninguém do lado de fora. A névoa estranha realmente tomava conta de tudo, mas não havia ninguém à vista. David encostou-se no vidro, não pelas ordens de Keyle, mas para tentar enxergar alguma coisa.

-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!

David assustou-se tanto com o grito de Keyle que pulou da janela e caiu no chão.

-Keyle, Keyle! Me responde!! O que aconteceu??

Mas ele não respondia. Gemia e sussurrava no celular, sons que David reconheceu, mas nunca havia presenciado na voz do colega.

Keyle estava desesperado, chorando....

FIM DA PARTE 7

-Keyle, Keyle, me diz o que aconteceu?? Por que você tá chorando??? – Chamava David, desesperado. O susto devia ter sido realmente grande.

-DAVID?? DAVID SEU.. SEU FILHO-DA-PUTA!! COMO É QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO COMIGO?? O QUE ESTÁ ACONTECENDO AFINAL, QUEM É VOCÊ??? – Keyle engasgava-se no próprio choro.

-Keyle, sou eu, o David!! Me diz o que te assustou, afinal?!....

-VOCÊ!! VOCÊ ME ASSUSTOU SEU DESGRAÇADO!! ME DIZ COMO É QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO COMIGO?! COMO??

-Keyle, eu... Explique-me o que aconteceu por favor....

-Você!! Você... – tentou contar Keyle, controlando-se – Você.... VOCÊ APARECEU MORTO NA JANELA – disparou ele de novo – MORTO, ESTRAÇALHADO, TODO SUJO DE SANGUE E RASGADO, COM VARIAS PARTES DO CORPO EM CARNE-VIVA E SEM UMA PERNA!! ESTAVA ME OLHANDO COMO SE TIVESSE MORRENDO E A CULPA FOSSE MINHA!! PORQUE ISSO, DAVID?? PORQUE????...

David estava perplexo. Realmente, COMO??...

-Keyle, acalme-se Keyle... – tentava reconfortar o amigo, apesar de estar igualmente confuso – Por favor, pare de chorar... Olhe, eu estou falando com você, não estou? Eu não estou morto Keyle, nada é culpa sua...

-Mas David, não é possível que...

-Keyle, pare de falar — interrompeu-o, e o amigo parou imediatamente.

Silêncio.

-Keyle, acalme-se. Agora eu creio que você acredita completamente em mim. Vamos manter a calma e encontrar uma saída. Eu ainda estou preso aqui dentro e preciso de ajuda pra sair. Você vai me ajudar?

-Vou – respondeu, choroso.

David sentia-se como um pai que cuida de seu filho medroso, mas isso porque ele estava meramente mais acostumado aos horrores daquele castelo.

-Eu estou com medo... –disse Keyle.

-Eu também estou, Keyle. Todos estamos. Agora, por favor, vamos manter a calma e achar um modo de me tirar daqui. Olhe, essa janela deve esta amaldiçoada mesmo, por que quando eu me encostei nela, até mesmo agora, não estava enxergando ninguém do lado de fora.

-Nem eu estou enxergando aí dentro, está tudo muito escuro.. MAS NÃO ENCOSTE NA JANELA DE NOVO!! Ehr... Por favor....

-Tudo bem, tudo bem, mas escute, eu estive pensando, nós poderíamos...

-Como é que é?? Não, esperem, nós precisamos regatar ele!! – Interrompeu a voz distante de Keyle.

-Keyle?? O que está acontecendo??? – Não adiantava o quanto chamasse, David percebeu que o amigo não estava com o telefone na orelha. Enquanto isso, ele ouvia:

“Não, é serio!! Ele está lá dentro, nós precisamos resgatá-lo!! Exatamente por isso, imagina como está feia a coisa lá dentro!! Não vocês não podem ir embora, o carro não havia quebrado? Isso é impossível, vocês nunca vão conseguir se guiar nessa neblina! NÃO É SERIO VOLTA AQUI!!!...”

-David, temos um problema – voltou ele – Os bombeiros estão muito assustados e não querem ficar nem mais um segundo aqui! O carro não pega de jeito nenhum, eles vão ir embora pela neblina mesmo, eu não acredito que eles vão conseguir chegar à lugar algum, vão morrer de frio e fome, mas eles não me ouvem, o que eu faço??

Era a vez de David se desesperar.

-MEU DEUS KEYLE!! GRITE-OS, XINGUE-OS, FAÇA-OS VOLTAR!! NÓS PRECISAMOS DELES AQUI!

-Eu sei e...

Silêncio.

-Keyle?? O que aconteceu??

-Eu... não sei.... Eu... ouvi gritos da névoa.... de um dos bombeiros que foi embora... acho que alguma coisa deve ter atacado ele....

-KEYLE, TOMA CUIDADO NÃO TENTA FUGIR!!...

Silêncio.

-David, a portaria principal.... A PORTA ESTÁ ABRINDO!!...

David digeriu o absurdo lógico: É claro que a porta principal não estava abrindo, ela continuava fechada!!

-Tem... tem alguém saindo de dentro do castelo.. É.... DAVID!!

Como?? Ele continuava ali, com o celular em mãos e à frente da janela. Além de a porta principal estar fechada – e muito bem fechada. Havia correntes e um cadeado bem grande.

-Keyle, tome cuidado, a porta aqui permanece fechada!!

Mas era tarde. O amigo já não estava mais com o celular no ouvido. Um vento era perceptível: Keyle estava correndo.

-Keyle! Keyle você está me escutando?? KEYLE NÃO CHEGA PERTO!! A PORTA NÃO ABRIU!!!..

De repente um conjunto de sons invadiu o fone do celular. Primeiro, o grito agudo e desesperado de Keyle, tão aterrorizado que chegava a comover. O susto desta vez deveria ter sido bem maior. Depois ouviu-se uma batida seca, como uma martelada fortíssima em um saco de tomates, o som do próprio saco de tomates caindo arrasado no chão e, por último, um choro estranho, como um demônio que emerge do inferno sedento de carne humana.

-Keyle?? KEYLE O QUE ACONTECEU??

-Afinal... quem é você?..... – A voz de Keyle era um sussurro, como fala alguém muito doente.

-O David... EU SOU O DAVID!! SEU AMIGO, KEYLE!! O QUE ACONTECEU, SUA VOZ ESTÁ PÉSSIMA!!

-Ah... o David, não é?!.... – Sua voz estava horrível, mas ainda sim continha sua ironia – Se você.... se você é mesmo o David... Porque você fez isso?....

-Isso o quê, Keyle?? KEYLE, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?? VOCÊ ESTÁ BEM???

-Eu... eu acreditei em você.... levantei cedo em um feriado.... vim até este maldito castelo... por você – agora ele chorava, mas ainda sim sua voz era muito fraca – porque você fez isso comigo, David??.... Porque comigo??....

-Keyle, eu não fi....

Keyle interrompeu-o, não acreditava realmente que aquele fosse seu amigo.

-É por você que eu estou aqui agora.... – David só havia percebido agora: seu amigo não estava falando com ele, estava falando sozinho. – Por que eu vim até aqui pra te salvar, e você me matou? Por que eu estou morrendo por você?...

-KEYLE, VOCÊ ESTÁ MORRENDO??...

-Eu... eu estou morrendo?.... isso não faz sentido.... porquê?.... por você.....

-KEYLE!! – David chamava, desesperado. Estava chorando também.

Mas era inútil. Keyle já não falava mais nada. O telefone escorregou de suas mãos e bateu no chão, mas David não ligou. Só pensava no amigo. Pensava no amigo e chorava de ódio...

O amigo que morreu porque ele estava ali... que morreu porque acreditou no que supostamente seria um trote em um feriado... que morreu por que confiava em David... que morreu achando que o seu melhor amigo havia o matado....

E agora chorava de culpa.

FIM DA PART 8