O Espelho

1 Capitulo Único.


Notas iniciais
Fiz esse texto de "terror" para um trabalho da escola, mas decidi postar aqui porque sim :3
Vlw chuchus o/
Espero que gostem.

Ninguém sabe o que sinto sempre que aquela imagem tenebrosa volta a minha mente. A vontade que tenho de me matar toda noite que me dopam com os mais fortes sedativos. É uma vontade incansável e tudo culpa daquela miserável e daquele espelho mais miserável ainda. Eu não tive culpa. Ela teve.

A neve serpenteava do lado de fora, caindo em uma grande quantia. Eu acabei obrigado a ficar em casa, já que as principais estradas estavam fechadas e eu havia ganhado alguns dias de folga devido à nevasca. Para muitos, isso seria perfeito, mas não para mim.

Os móveis velhos da casa rangiam a todo instante. Rangiam quando eu levantava, quando eu sentava, rangiam quando eu caminhava e até quando eu ficava parado. Era sinistro, mas eu logo me acostumei com aquilo e, claro, com as diversas lendas que haviam inventado sobre meu pequeno chalé.

A velha Abbegail, antiga dona do chalé, tinha uma péssima fama entre seus vizinhos. Talvez por morar mais longe da cidade, na entrada da floresta, ou talvez por nunca sair de casa. Coitada, morreu de câncer no mês passado, três dias depois de me vender sua casa.

“Ela era esquisita”, insistia Frank, meu colega de trabalho. Ele nunca teve coragem de entrar em minha casa, mas tento não culpa-lo por isso. Tão logo, tenho motivos de sobra para querer me manter o mais longe possível da casa.

Há algumas semanas ouvi um barulho... Era algo como uma voz. Era grave e arrepiante e falava incessantemente meu nome: “Blake... Blake...”. Mas, claro, logo começaram as frases: “Sua hora se aproxima, Blake”. Até então, tratei daquilo com a maior naturalidade do mundo, tentando aceitar que não passava do meu subconsciente agindo de forma estranha e defeituosa.

Assim que entrei dentro de casa corri para um dos cômodos. Ele estava completamente vazio, exceto por um espelho dourado com a moldura totalmente desgastada e uma pequena cadeira de couro, muito velha. Algumas inscrições estavam nas laterais do espelho, mas eu nunca entendi nada, além de três palavras: miroir, regardez e décès. Espelho, olhar e morte, respectivamente.

Sentei-me em frente ao espelho, um hábito que acabei adquirindo depois de vir morar aqui. Apesar de ser algo que faço diariamente, ainda acho estranho, pois nunca tive nenhum tipo de hábito tão vaidoso. Algo naquela moldura velha, naquele vidro manchado e naquela pequena e empoeirada sala me atraiam. Algo lindo e mortal. Algo sem escrúpulos, sem princípios.

Olhando no espelho via a figura de cabelos ruivos e olhos azuis me lançando um olhar de escárnio, enquanto ria alucinadamente. Claro que aquele era eu, mas – de alguma forma – ao mesmo tempo não era. Era algo que estava muito acima do entendimento de um mero mortal.

– Eu já não lhe avisei que isso é perigoso? – perguntou meu reflexo, com um sorriso maléfico. Seu olhar me estudava, como se eu não passasse de um espécime que ele não compreendia e que nunca compreenderia. Eu deveria estremecer, fugir ou ao menos ficar apavorado por meu reflexo falante me olhar de tal forma, como se fosse me colocar num microscópio, mas somente fiquei levemente desconfortável.

– Disse – falei, me ajeitando na cadeira velha.

– E você ainda insiste em vir – constatou o reflexo, fechando a cara.

Seus olhos azuis, apesar de pertencentes a mim – um homem de vinte e três anos – pareciam ser de uma pessoa muito mais antiga. Algo tão primordial que existe desde antes mesmo dos primeiros seres conscientes. Algo que rondava nosso mundo buscando do que se alimentar, alguém que reinava nas cinzas, apenas esperando a próxima presa desavisada.

– A velha que morava aqui antes – começou o reflexo –, morreu de tanto me admirar.

– Ela me admirava? – perguntei inocentemente.

– Não. Ela me admirava – falou o reflexo, revirando os olhos. – Ela sempre me aguardou... Desde o dia do diagnóstico. Desde o dia em que lhe falaram que seu câncer era incurável, mas eu a deixei sofrer. Deliciei-me com cada segundo em que ela se ajoelhava e me implorava baixinho, com a voz embargada: “mate-me”.

– E como um reflexo pode matar?

– Reflexo – debochou. – Sou aquela que todos sabem que virá. Todos sabem, mas torcem por uma coisa: que seja rápido e indolor. Devo admitir que não gosto, mas nem sempre eu tenho tempo para ficar e tortura-los.

Meu reflexo levantou sua mão e a lançou contra o vidro, na forma de um punho. O vidro se partiu em um milhão de pedaços mínimos. Meu reflexo já não estava mais ali. Não no espelho...

O menor contato visual com seus olhos azuis me causava um arrepio e me obrigava a ver cenas de morte horrendas. Pessoas sendo devoradas, dilaceradas, queimadas, fuziladas, estupradas. Tudo aquilo passava como um turbilhão pela minha mente, mas eu não conseguia quebrar o contato visual que era mantido entre nós. Algo me obrigava a olhar naqueles olhos cheios de malicia e terror. Algo que ninguém conseguiria descrever com palavras.

A própria Morte tinha vindo ceifar minha vida. Quanto mais eu olhava naqueles olhos horrendos, mais fraco me sentia, até o momento em que finalmente consegui desviar meu olhar, encontrando uma parede de madeira empoeirada e velha.

Logo, fiz a coisa mais sensata a se fazer numa situação dessas, tentei correr. Corri, corri e corri, mas a porta de saída parecia infinitamente longe. Quanto mais em corria, mais devagar o tempo ao redor parecia passar.

– Posso lhe contar um segredo? – Senti o hálito da Morte. Tinha cheiro de hortelã. – Ninguém foge da morte.

Eu me virei e encarei a Morte. Não sei quem começou o boato de que a morte era um esqueleto e que ela carregava uma foice. A morte era exatamente como eu. Cabelos ruivos e bagunçados naturalmente – mesmo eu penteando-os milhares de vezes, nunca mudavam – e olhos totalmente azuis, mais até que os meus.

– Você é um dos únicos que tenta fugir – confessou a Morte. – Os outros tornavam tudo isso tão fácil. Talvez eu te deixe com mais um ou dois anos de tortura.

– Por favor – implorei, com os olhos marejados. – Me mate.

– Sem problemas.

A mão da morte rasgou meu peito, atravessando a carne até chegar ao coração. Ela o puxou, arrancando-o de meu peito e me fazendo cair no chão, totalmente inconsciente – e a principio, morto.

Seis meses depois acordei em um hospital psiquiátrico, preso a cama. Eu tentei me soltar inúmeras vezes, mas a cada sinal de vida que eu dava, me sedavam. Eu não tinha nem mesmo tempo de perguntar o que aquilo significava. A cada vez que eu era sedado, minha mente tornava-se nebulosa e eu sonhava com o mesmo sonho recorrente: o dia em que eu quase fui morto, com o coração arrancado de meu peito. Aquilo parecia vago e distante, como um sonho...

Bem que ela havia me avisado... Ninguém pode fugir da morte. Podemos antecipa-la, atrasa-la, resistir a ela, mas tudo isso é somente uma tortura infindável. Nossa vida é somente um preparo para que ela se delicie com nossos últimos suspiros, para que nós temamos, para que cada mísero sonho seja destruído e para que mais uma vida – a nossa – seja posta no armário de troféus da miserável. A morte é inevitável e ela veio para o jantar.

Notas finais
E aí?
Ficou legal? *--*
Não ficou? T.T
Quer um chuchu, chuchu? :3
Uma batata com sorvete e miojo? *¬*
Mereço reviews ou só um chute na cara? :P
Ou os dois? -qq
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!