O Espelho
5 A Assassina
Notas iniciais
Era como estar em um globo composto por fios, como um novelo de lã, mas visto por dentro. Era como se uma aranha psicopata traçasse uma armadilha para a pobre vítima, o inseto, e o prendesse na gigantesca e esférica cela de seda. No centro da cela, um busto (ou algo que lembrava um busto) erguia-se através do emaranhado de fios grossos. Na cabeça (ou onde deveria ficar a acabeça), uma abertura deixava perspassar um brilho vermelho. Era um brilho singular e atraía a atenção de imediato naquela brancura do mundo esférico, tecido pelas linhas.
Lady Ray tentou se mexer. Impossível. Era como se sua cabeça saísse do emaranhado de fios, como o busto diretamente em frente seu rosto.
— “Escute com atenção, Vossa Majestade.”
A Rainha se assustou. O busto falara com ela. Falara com a mesma voz venenosa que sussurrara em sua mente.
— “Eu hei de transformar-te na mais graciosa e bela das mulheres que ja andaram sobre este mundo. Ja a fiz a mais desejada e a mais poderosa, como sempre o fora. Mas para transformá-la na Mais Bela, preciso que me ajude com a minha sina.”
Lady Ray escutava com atenção, olhando diretamente para o brilho vermelho vindo da abertura na cabeça do corpo de fios.
— “Certa vez uma bela menininha, adorável, que vivia numa longínqua terra mergulhada em riqueza e belezas, foi morta. Foi um ato de pura monstruosidade realizado por um também monstro. Um demônio sem sombra e sem reflexo absorveu o sangue, a beleza e a alma da criança. A família caçou o monstro, que se transformou na cópia perfeita da pobre menina. Ele, então, aniquilou três gerações reunidas, incuindo o próprio rei. Porém um poderoso feiticeiro conseguiu salvar a alma da criança, prendendo-a em um objeto. Um espelho. Este Espelho. A criança sou eu, aprisionada e nutrida pela magia antiquíssima do mago.
Lady Ray não piscava. A luz penetrava em seu cérebro e criava imagens retratando o acontecido. Homens e mulheres destroçados por uma garotinha com chifres, depois um velho homem com uma grande barba agitou um cajado nodoso, e a criança cuspiu uma fumaça que se instalou no vidro do espelho.
— “Tenho meus próprios poderes, mas preciso sair daqui. Ajude-me, Lady Ray, e te recompensarei com a juventude e beleza eterna, somadas as minhas terras no mundo oriental.”
Lady Ray não esperou para responder.
— É claro.
— “O monstro atualmente está em sua cidade. É um demônio, não se deixe enganar. Parece uma criança muito bela, mas isso se deve ao fato de ter tido a minha alma presa em seu coração negro. Mate-o, corte sua cabeça e me traga um frasco de prata com seu sangue e eu hei de libertar-me e transformar-te na mais bela e próspera. O mago me deu poderes, mas tudo o que quero é descansar em paz ao lado de meus antepassados. Até logo, sua Majestade”.
Um empurrão repentino e a cabeça da Rainha fora impulsionada para fora. Ela caiu estatelada, os olhos sombreados pela escuridão repentina. Os cadáveres das crianças viraram pó, que permanecia sobre os lençóis de linho e cetim da Rainha.
— Ótimo... — Ofegou ela, levantando-se dolorida. — Sem sujeira.
Ela saiu do quarto intempestiva, cambaleando pelos corredores escuros de pedra iluminados por archotes. Algumas janelas de vitrais revelavam o clima tempestuoso do lado externo do castelo. Sua cabeça rodava. Armaduras refulgiam sinistramente nas laterais dos corredores. Tapeçarias centenárias exibiam cenas de conquistas em batalhas ou mesmo desenhos geométricos belíssimos.
A Rainha desembocou no grande Hall do 2º andar. Um candelabro de ferro fundido, com centenas de velas, iluminava cada aresta do aposento octogonal. As escadas davam diretamente no saguão de entrada.
— Alguém! Tem alguém aí? — Gritou ela, olhando ao redor.
— Vossa Majestade?
Padre Ferdinand saíra de uma sala ao lado.
— Estava na biblioteca. Algum problema?
— Eu ví... DEUS ME MANDOU UMA VISÃO!
Padre Ferdinand estacou, atônito.
— Vossa Alteza, isso é...
— Meu povo corre um grande perigo! Chame a cavalaria, os guardas, QUALQUER COISA! Uma criatura nefasta habita as vielas escuras de minha cidade!
— E é com grande pesar que estamos aqui hoje, reunidos na tragédia e sob o olhar de justiça de Deus. Dois de nossos irmãos foram violentamente massacrados até a morte por uma criatura que julgávamos doce.
A praça do mercado estava apinhada de espectadores. O sol da manhã brilhava tímido por entre o restante das núvens da tempestade da noite anterior. O capitão da guarda municipal estava majestoso em seus trajes. Parecia um pavão. Peito estufado, cabelos ondeados para os lados, a bainha da espada trabalhada em fios de ouro, que contrastava magnificamente com a população miserável abaixo. Homens, mulheres e crianças famintos, com olhos marcados pelo trabalho, sujos e sofridos.
— Estamos aqui para prestar a justiça dos homens, aliada a justiça divina. Este pequeno monstro, disfarçado de bela donzela, tirou duas vidas. E é de moesmo modo que encontrará o Criador e queimara por toda a eternidade nas chamas do inferno!
Ele descobriu um volume considerável próximo a ele no chão. Uma bela moça, ferida e chorosa se encontrava caída. Os cabelos louros como ouro encardidos. A face descorada e sanguinolenta. Suas mãos estavam algemadas sobre suas costas com pesadas argolas de ferro. Usava apenas um trapo encardido sobre o corpo, deixando as partes nuas e expostas.
Kelly chorava silenciosamente. Os olhos arregalados e em choque. Seu corpo balançava com os soluços.
— Levante, demônio! — Gritou o delegado, chutando a menina.
Ela se contorceu e, penosamente, ergueu sua anca e ajoelhou. Então, sob um esforço tremendo, ficou em pé. Vacilou um pouco, tonteando sobre o palco improvisado de madeira. A multidão observava-a, impassível.
O delegado então deu um tapa no rosto da moribunda, que foi lançada para o lado, dando uma volta completa em seu eixo. Caiu estatelada, chorando.
— ELA NÃO MERECE CONVALESCÊNCIA! MATOU DOIS HOMENS, DILACERANDO-OS. DEMÔNIO QUE ÉS! VOLTARÁ PARA LÚCIFER!
A multidão urrou aprovação às palavras do homem e injúrias à pobre moça, que gemia no chão.
O delegado caminhou tranquilamente até o corpo da infeliz e agarrou um punhado de cabelos na altura da nuca, puxando a cabeça para cima e revelando o pescoço branco. Ele desembainhou a espada passou a lamina na traqueia dela, tecendo um pequeno corte. Uma gota de sangue escorreu da ferida. O homem virou a moça de frente para a população, que assistia inquieta. Insultos eram atirados, enquanto o clamor pela “justiça” era atiçado.
— Uma última palavra em sua defesa? — Sussurrou ele no ouvido delicado da menina.
— Não fui eu... — Sussurrou ela, tossindo sangue.
— Claro que não foi você! — Ironizou ele, gritando para a população compartilhar com ele o gracejo. — Eu matei aqueles dois homens e eu fui encontrado no mesmo ambiente, coberto de sangue!
A população riu, insultando a pobre mulher, que chorava compulsivamente.
— E-ela pediu pra entrar... Ela... Ela matou o homem e arrancou a cabeça dele e quebrou o pescoço do meu patrão e... E me beijou.
O delegado parou de rir.
— Ela beijou você? — Perguntou, enojado.
Kelly afirmou com a cabeça.
— Puta nojenta! — Gritou ele, estapeando mais uma vez o rosto da menina, que caiu para o lado. — Apodreça no inferno! Mentirosa! E ainda inventa lorotas com carne semelhante!
— Parem com isso! — Rugiu uma voz masculina em tom grave.
A multidão olhou para o lado.
Padre Ferdinand desembocara da Estrada Principal na praça do mercado. Vinha afobado, segurando as vestes acima dos joelhos magros no feitio de maçanetas.
— Sua santidade, que passa? — Perguntou o delegado, esquecendo por um instante da pobre Kelly, cujos cabelos embaraçados estavam firmemente seguros por seus dedos curtos.
— Ha um mal nessa terra! Um mal terrível!
As pessoas se entreolharam amedrontadas, questionando a sanidade do velho homem sábio que lhes dirigia.
— Explique-se, ora pois!
— Um demônio! Um monstro! Vossa Alteza teve uma mensagem vinda de Deus de que a terra está sendo assolada por uma criatura vil vinda dos confins do Tártaro!
As pessoas exclamaram, horrorizadas.
— Não está falando deste demônio aqui? — Perguntou o delegado, levantando Kelly pelos cabelos. — Essa aqui matou dois homens, consumiu a carne de um e ainda se masturbou pensando em uma do mesmo sexo!
Padre Ferdinand empalideceu. A mão sobre o rosario no peito vestido com a bata.
— Deus tenha piedade da tua alma herege.
— EU NÃO FIZ NADA! FOI ELA! FOI AQUELA... COISA SEM SOMBRA QUE PEDIU PRA ENTRAR E MEU PATRAOZINHO DEIXOU E ELA MATOU ELE E COMEU O OUTRO E ME BEIJOU DEPOIS! EU NÃO FIZ NADA! Nada...
O delegado soltou a menina, que caiu de joelhos no chão, soluçando. O rosto entre as mãos, os cabelos louro-encardido caindo em cascata de sua cabeça curvada. Ela era a imagem da infelicidade. Da inocência.
— Mentirosa nojenta!
Ele ergueu a mão para desferir mais um golpe, mas uma voz surgiu da multidão. Uma voz fria e rouca.
— Ela não está mentindo.
Um ‘ooh!’ surgiu quando um homem saiu mancando do fundo da multidão. Era baixo e moreno, com uma bigodeira farta e braços estranhamente compridos e desproporcionais ao tamanho do corpo. Carregava um grande saco de pano pardo nas costas.
— Ela não está mentindo. Há um monstro no corpo de uma garotinha. Vocês devem caçá-lo.
O delegado riu.
— Mais um insano? Diga-me, senhor. Como acharei esse monstro? Olharei embaixo da minha cama? Abrirei meu guarda-roupa?
A multidão compartilhou das gargalhadas.
— Basta seguir os... — Ele deu um gemido enquanto puxava o grande saco que estava nas suas costas e espalhava o conteúdo pelo chão — rastros de sangue.
Uma cabeça dilacerada de cervo, um chapéu rasgado e manchado de sangue, um vestido aberto na cintura, armadilhas para ursos, um crucifixo quebrado ao meio e um cavalo de madeira branca, com uma pata lascada.
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