Desde que consegui meus poderes, costumo voltar ao dia de meu nascimento. Ver o olhar amoroso da minha mãe, o sorriso do meu pai, e o rosto radiante do meu irmão sempre me animava. Me fazia lembrar de tempos mais simples. Ou tão simples quanto poderiam ser.

Apesar disso, não consigo deixar de procurar o meu irmão na cena. Não o meu irmão de 5 anos, a criança do rosto radiante. Mas sim meu irmão de (25,26,27...) 29 anos. O que estaria ali como um intruso, talvez querendo me matar, talvez algo pior... era assustador pensar na real possibilidade de ele estar ali.

Afinal, assim como eu, ele tinha todo o tempo do mundo.

No momento seguinte, eu estou no ônibus com o meu irmão. Eu com 14 anos, penúltimo ano do ensino fundamental, já planejando o que fazer quando chegasse na faculdade (talvez eu seja um pouco apressado), e Nate (Nathan Park Specter era o nome dele) com 19 anos, já no primeiro ano da faculdade estudando física (alerta de nerd).

Estávamos indo ao Centro de Pesquisas Keth. Era uma quinta-feira nublada, e a sensação era de que a qualquer momento uma tempestade iria despencar do céu. O cientista conhecido como dr. Larry Keth anunciou que faria um experimento explorando as possibilidades do espaço-tempo. Uma espécie de máquina do tempo experimental. O anúncio dividia opiniões, entre assustadas e animadas. Meu irmão ganhou da faculdade credenciais para ir ao CPK, e me convidou para ir com ele, dizendo que seria um novo grande avanço para a ciência, como os aceleradores de partículas.

Veja bem, a teoria por trás de tudo isso pode parecer incrivelmente chata. E de fato, é um pouco. Mas eu lembro de quão animado Nate ficou na época, e o quão animado ele me deixou. Desde pequeno, Nate se interessava por astronomia. Com o tempo, esse interesse passou para física e logo depois para física-quântica, com direito a todas aquelas teorias loucas de Einstein. Eu sempre fui mais adepto à química, mas qualquer tipo de experimento científico daquele tipo me animava. Porém, no dia, eu sentia algo estranho. A mesma sensação que as nuvens escuras de tempestade que se formavam no céu me davam.

—E aí, animado? — A pergunta de Nate me traz de volta a vida real. Me viro para ele e vejo os mesmos cabelos e olhos castanhos que via em mim quando me olhava no espelho. Eu estava começando a chegar na altura dele (cerca de 1,80m), porém a barba ainda não havia chegado para mim.

—Bastante. — Eu disse, forçando um sorriso apesar de tudo o que eu estava sentindo.

—Eu também. — Disse ele, de forma mais confiante. Considerando o sorriso na cara dele e o brilho nos olhos, eu imaginei que ele daria uma mini palestra sobre o experimento pela décima quinta vez. Foi o que aconteceu. —Imagina todas as possibilidades. Esse experimento pode ser um grande avanço, nos ajudando a entender melhor teorias que já existem, sobre o espaço-tempo, propriedades gravitacionais, estruturas temporais em si...

Depois de um tempo, eu passei a apenas fingir que estava prestando atenção nele. Aparentemente fiz bem, considerando que antes dele conseguir terminar todo o discurso, a gente tinha chegado ao Centro de Pesquisas.

O Centro de Pesquisas Keth era basicamente um grande edifício no centro da cidade. As cores branco e azul marcavam a logo da empresa na entrada, assim como o lado de dentro. Tinha um quê de futurista. A sensação estranha bateu em mim mais uma vez ao chegarmos no edifício. Era impressão minha, ou as nuvens no céu pareciam se concentrar acima do prédio?

Uma moça jovem, com traços asiáticos, foi quem recebeu a gente, assim que entramos no edifício. Jornalistas e outros convidados estavam ali, esperando. A moça fazia parte da equipe de técnicos de laboratório que trabalharam na pesquisa do dr. Keth, e ia acompanhar os visitantes até o laboratório.

À medida que andávamos em direção ao laboratório, outras cores apareciam, aparentemente dando uma ideia de divisão de setores. Vi um monte de espectrômetros, cromatógrafos, aparelhos de ressonância magnética, e um monte de outros instrumentos que eu nunca seria capaz de nomear.

Finalmente, chegamos ao local do experimento, onde Larry Keth e sua equipe nos esperavam perto da máquina do tempo.

O instrumento parecia uma urna estranha, e no topo tinha uma formação mais ou menos esférica, de material transparente. O lado de fora era revestido com as cores pretas e douradas, e o painel de controle do instrumento se encontrava logo abaixo da parte esférica.

Já o doutor Larry Keth era... a personificação do estereótipo do cientista maluco. Os cabelos ruivos longos estavam completamente desgrenhados, os olhos verdes pareciam cansados e toda a linguagem corporal dele parecia gritar pedindo descanso. A sensação que ele me passava era que vivia a base de café.

—Sejam todos muito bem vindos. — Disse o dr. Keth, assim que se garantiu que todos estavam acomodados no laboratório. —Hoje, vocês todos vão presenciar um evento muito importante. Vocês já devem saber que essa máquina, na minha frente, tem como objetivo modular a atividade temporal. Se o experimento funcionar, a ciência dar um passo gigantesco para entender as propriedades do tempo como um todo. Sem mais delongas, vamos começar o experimento e, enquanto ele ocorre, explico para vocês a ideia por trás disso.

Keth começou então a operar a máquina, utilizando o painel de controle para programar o experimento, e explicando toda a teoria por trás daquilo. Nate prestava toda a atenção do mundo, olhava para máquina como uma criança olha para uma loja de doces. Os outros convidados faziam anotações. Era estranho. Todos os outros convidados pareciam ter uma razão para estar ali. Eu reconhecia a maioria dos jornalistas na sala, e os que eu não reconhecia deixavam claro sua profissão. Os outros pareciam outros cientistas, renomados. Por que só eu e Nate havíamos sido os convidados de fora desses grupos? Pensando de novo, Nate não soube sequer explicar direito qual foi o critério que a faculdade usou para escolher ele como o convidado.

—E então, eu irei parar o tempo dentro da máquina. — O anúncio de Keth me trouxe de volta à realidade por um momento. Ele apontava para estrutura esférica do dispositivo, e então apertou um botão verde, e o tempo parou.

Como o tempo é quando parado? Bem, difícil de explicar. Era como se o espaço no lado de fora da esfera ondulasse, e o lado de dentro estivesse completamente parado. Era como olhar para um oceano, com suas ondas, mas parte da água estivesse completamente parada.

Demorei um tempo a perceber que eu e Nate fomos os únicos que notaram a mudança.

—Como prova de que o tempo está parado... — Disse o doutor Keth, percebendo as múltiplas testas franzidas no laboratório. —Vou colocar meu relógio dentro da máquina, perfeitamente funcional, e vocês vão poder testemunhar o fenômeno em que ele vai parar.

Larry Keth prosseguiu com o experimento, abrindo a parte de cima da esfera e deixando seu relógio cair. No meio do caminho, o relógio parou no ar, com os ponteiros completamente parados. Foi aí que os aplausos vieram. Um sorriso se abriu no rosto de Larry e de seus técnicos de laboratório. Mas, de repente, ele olhou para mim e meu irmão, e seu sorriso alegre se transformou em um sorriso perverso.

—Agora temos todo o tempo do mundo para fazer coisas grandiosas.

Foi então que eu desmaiei.

Quando eu acordei e me levantei, todos os convidados e os técnicos de laboratório ainda estavam desacordados. Olhei ao redor da sala. A máquina do tempo havia explodido, de alguma forma um raio tinha a atingido. Não. O raio estava saindo da máquina do tempo, não a atingindo. Dei mais uma olhada ao redor da sala, e não encontrei Larry Keth. Aquilo fez com que um arrepio percorresse minha espinha. Depois procurei por Nate.

—Bem aqui. — Ouvi a voz dele às minhas costas.

—Nate, o que aconteceu? — Perguntei.

Algo sobre ele parecia estranho.

—Não parece óbvio? — Toda a animação dele de mais cedo havia sumido. —A máquina explodiu.

—Disso eu sei! Mas por que só a gente tá acordado, e por que tudo tá parado?

Ele deu uma risada fria.

—Irmão, você consegue sentir, não é? De alguma forma, a explosão da máquina nos deu poderes.

Ele estava certo. Eu conseguia sentir que algo tinha mudado. Não conseguia dizer o que, exatamente, mas algo em mim dizia que ele estava certo (aquilo eram... vozes?).

Olhei mais uma vez ao redor da sala.

—Nate, me ajuda a tirar todo mundo daqui! —

—Não.

Olhei para ele, com a testa franzida.

—Como assim, não? — Gritei.

—Jonas, pense no que a gente pode fazer com isso. A gente não precisa salvar essas pessoas.

A voz dele começava a ficar mais abafada. A sensação que tinha me acompanhado o dia inteiro estava ficando cada vez mais forte.

—Nate, você vai me ajudar a salvar essas pessoas agora!

Ele sorriu.

—Me obrigue.

A raiva subiu à minha cabeça, fazendo meu sangue ferver. Parti para cima de Nate com os punhos cerrados.

E foi esse o dia em que eu ganhei meus poderes.