O Espectro do Tempo
4 Helena Bridges Pillgrim
Notas iniciais
Acordei com a sensação de ainda estar com uma arma apontada para a minha cabeça. Com a visão turva, tudo o que conseguia ver ao redor era branco. Branco nas minhas roupas, no teto, até nas paredes, quebrados aqui e ali por alguns tons mais claros de azul. Meu primeiro pensamento foi: “Ótimo, eu morri. Era só o que me faltava nessa vida mesmo. Vamos para a próxima”.
Spoiler: Não, eu não estava morto.
Bem, talvez um pouco... Era difícil concluir com absoluta certeza.
Demorei um tempo para perceber que na realidade estava na cama de um hospital. Percebi máquinas checando meus sinais vitais à minha esquerda e uma bolsa de soro fisiológico um pouco acima da minha cabeça, sendo injetada no meu braço direito. Fiquei sem reação por algum tempo, e aos poucos me levantei vagarosamente de forma a ficar sentado e não mais deitado na cama. Meus músculos fizeram um protesto leve à essa ação.
Uma enfermeira entrou no meu quarto e teve um leve momento de surpresa ao perceber que havia acordado. Presumi que eu não fiquei desmaiado por muito tempo, considerando a reação dela.
— Ei, tenta relaxar. — A enfermeira disse, enquanto via em minha direção e colocava a mão em meu ombro.
— Eu estou bem. — Respondi. Meu cérebro deu um pequeno atraso entre o momento que eu pensei em dizer aquilo e o momento em que eu realmente disso, como se minha boca tivesse esquecido a pronunciação das palavras.
A enfermeira não pareceu convencida. Pediu para que eu ficasse quieto enquanto checava algo e retirava o soro. Então, ela olhou para mim.
— Você se lembra do que aconteceu? — Perguntou.
Assenti, e meu coração começou a acelerar um pouco. Arregalei os olhos e olhei para a enfermeira, me lembrando da mulher que foi baleada no banco.
— O que aconteceu depois que eu desmaiei?
Ela levantou as mãos, me pedindo calma. Vendo que aquilo não me acalmava, explicou com rapidez que ninguém mais se machucou. Mas quando perguntei para ela sobre a mulher que foi baleada, ela não soube me responder, disse que eu era o único que precisou vir para um hospital. Então, ela disse que a polícia pediu para falar comigo assim que eu estivesse acordado.
— Imaginamos que você tenha desmaiado por conta do estresse da situação. Você ficou um dia desacordado.
Não sabia muito bem como reagir a nenhuma daquelas informações. Uma pessoa comum possivelmente ficaria extremamente nervosa, mas uma situação daquelas não era nem de perto a mais perigosa que eu havia vivido.
A enfermeira perguntou mais uma vez se eu me sentia bem e avisou que ia pedir para avisarem os policiais do meu despertar (palavra bonita, “despertar”... foco na história, Jonas!). Fiz sinal de positivo, apesar de não estar muito animado com a ideia de falar com policiais sobre o que aconteceu.
Veja bem, eu passei quatro anos conseguindo ficar basicamente incógnito na sociedade, apenas mais um cidadão comum. Não só porque eu tecnicamente estava perseguindo meu irmão ao mesmo tempo que estava fugindo de algo (depois eu explico). De certa forma, me acostumei a ter uma vida tão normal quanto o possível. E agora, algo me dizia que aquele evento colocava tudo em risco. Meu coração mais uma vez disparou, e involuntariamente comecei a balançar minha perna. Podia ser só paranoia minha, mas acreditava que algo naquela situação toda estava errada. Quer dizer, eu sabia que não havia desmaiado por um estresse. Aquilo tinha sido um evento temporal, uma anormalidade que eu, como Guardião do Tempo, perceberia e reagiria de alguma forma. Uma anormalidade forte o suficiente para causar meu desmaio.
Alguém havia de ter feito aquilo. Não tinha como ser só um acidente, certo?
Aparentemente, eu passei mais tempo com esses questionamentos em minha cabeça do que pensei. Alguém havia entrado no meu quarto, uma policial. Quando olhei para seu rosto, reconheci a mulher que levou um tiro por mim.
Gaguejei um pouco, eu admito. Xinguei alguns palavrões na minha mente. Alguns direcionados a mim, outros direcionados ao universo. Pensava em dizer tanta coisa que as palavras simplesmente tentavam sair da minha boca ao mesmo tempo. Portanto, desisti e deixei que ela falasse algo primeiro. Ela sorriu, percebendo minha dificuldade em falar inglês, o que fez com que eu me xingasse um pouco mais mentalmente.
— Olá, senhor Landrum. — Ela disse. A expressão em seu rosto deixava claro que ela sentia certo alívio de me ver bem. Mas foi estranho ver uma pessoa da sua idade te chamando de “senhor”.
— Por favor, me chama de Jonas. — Foram as primeiras palavras que eu consegui dizer e me esforcei mais do que gostaria para formar a segunda frase. — Eu fico feliz de saber que você está bem, mas como?
Ela sorriu mais uma vez.
— Colete à prova de balas. — Disse, apontando e pressionando o lugar onde o tiro teria acertado. — Meu nome é Helena. Helena Bridges Pillgrim. — E então estendeu a mão para me cumprimentar. — Quando você receber alta, daqui a mais ou menos uma hora, eu vou precisar que você me acompanhe até a delegacia para prestar seu depoimento sobre o que aconteceu no banco.
“Merda”, pensei. Obviamente teria que retirar alguns detalhes do meu depoimento, como a anormalidade temporal. Não que essa fosse uma situação difícil, necessariamente (mesmo que fosse um pouco), mas ainda preferia não mentir para a polícia, sabia que tinha coisas que eu não conseguiria explicar.
Helena variava muito bem entre um tom amigável e um tom formal que sua profissão exigia para aquela situação. Olhava para mim, de forma severa o suficiente para deixar claro que estava em controle da situação, mas não o suficiente para a deixar exageradamente intimidadora. Retornei o olhar a ela.
— Há quanto tempo você faz isso? — Perguntei. Em retrospecto, talvez não fosse a melhor pergunta a se fazer naquele momento, mas achei adequado considerando que ela tentara salvar a minha vida.
Para minha surpresa, ela respondeu:
— Vai completar um ano daqui a 4 meses.
Assenti. Esperava realmente que fosse não muito tempo, apesar de toda a segurança e confiança que ela passava em sua postura.
— Obrigado.
Helena balançou a cabeça negativamente.
— Não precisa agradecer. É o meu trabalho. Além disso, eu não fui exatamente bem sucedida e aparentemente você não precisava de muita ajuda para se livrar daquele homem. — A sobrancelha arqueada e o tom de curiosidade deixaram claro, de uma forma bem passiva-agressiva, que ela queria saber como eu fizera aquilo, embora não fosse seu foco principal.
Dei de ombros e preferi fugir da pergunta implícita, pelo menos por enquanto.
— Acho que o meu desmaio alguns segundos depois é um argumento bem sólido contra isso.
Helena riu, e eu a acompanhei.
— É engraçado, você leva o tiro e quem para no hospital sou eu. — Rimos um pouco mais. Quando ela parou, eu a olhei, e percebi que ela tinha em mente a mesma coisa que eu. Uma sensação estranha, um pressentimento de que aquela situação não era por acaso.
Depois de alguns momentos, Helena tossiu e se levantou.
— Bom, eu vou esperar você receber alta para poder te acompanhar até a delegacia.
E foi saindo do quarto, sendo a primeira vez que a vi insegura (e uma das únicas que a veria no futuro).
— Ei. — Chamei, sem ter a mínima ideia do que eu queria falar a seguir. Gaguejando mais do que gostaria de admitir, falei: — Você quer, talvez, conversar depois? Sobre algo que não seja o que aconteceu no banco. Tem algum problema?
Ela olhou para mim, os olhos azuis me fitando de forma curiosa. E então, uma sombra de sorriso passou pelo seu rosto.
— Sim, podemos conversar depois, Jonas. — E saiu.
Ok, foda-se, eu admito, minha respiração talvez tenha dado uma falhada quando ela falou meu nome.
Balancei a cabeça, tentando voltar a ter foco em algo. O pensamento de que nada daquilo era por acaso voltou à minha mente. Desde o acidente do banco, até o fato de Helena estar lá e depois aparecer no hospital. Algo me dizia que algo, ou melhor, alguém estava por trás daquilo. Balancei a cabeça mais uma vez, tentando me convencer de que era só uma paranoia minha. Teria tempo para pensar nisso depois que desse meu depoimento para a polícia e depois de poder conversar com Helena. Passei quatro anos vivendo uma vida normal. Por que tudo mudaria tão de repente?
Spoiler: Eu deveria ter dado ouvidos à minha paranoia.
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