NITCH



Era nosso dia de folga, e também a primeira vez que Aayrine me visitava no castelo, desde que havíamos nos tornado amigos.

No momento, estávamos nos divertindo trocando informações sobre nós num jogo de cartas – uma forma descontraída de nos conhecermos um pouco melhor.

— Ok. Cor favorita? — indaguei.

— Vermelho – Aayrine sorriu – adoro vermelho.

— Como a cor dos seus olhos?

— Não… — apontou para suas íris rubras – isso aqui é quase rubi – piscou, sacudindo a cabeça de maneira risonha – eu penso nele como um vermelho vivo… sabe? Como a cor dos cabelos da Undyne.

Nós dois rimos em conjunto.

— É… realmente ela tem um cabelão – brinquei.

— Minha vez – ela apanhou outra carta do monte e leu – atividade preferida?

— Desenhar… — dei de ombros.

Ela ergueu a sobrancelha.

— Sério? — apoiou o rosto sobre as mãos, como uma garotinha curiosa – posso ver um dos seus desenhos?

Franzi o focinho. Eu levaria outra cabeçada dela antes de lhe mostrar meus portfólio de rabiscos sentimentais.

— Não tenho nenhum aqui agora… — dei uma risada fraca.

— Sem problema – ela puxou uma filha de papel e um lápis da escrivaninha mais próxima – desenhe agora…

Para meu humor, Aayrine girou o corpo, ficando de ponta cabeça no sofá, fazendo uma careta engraçada. Parecia, mais do que nunca, uma monstrinha brincalhona e mal crescida — a despeito da guarda feroz e impetuosa que havia conhecido de início.

Jamais havia esperado conhecer este lado dela.

— Como vou te desenhar de cabeça para baixo? — indaguei, achando graça.

— Se vira… — me lançou um olhar falsamente petulante – você que é o artista aqui.

Sacudi a cabeça, aceitando o desafio. Afinal, fazia muito tempo que eu não criava nenhuma ilustração. E finalmente tinha algo para treinar anatomia – algo raro quando se é um monstro que costumava viver isolado à maior parte do tempo.

— Ok.

Comecei a deslizar o lápis pela folha, tentando captar todos os detalhes visualmente.

Em poucos segundos, descobri que Aayrine Nacabi era um espécime particularmente difícil de desenhar.

Não por que se movimentasse demais – pelo contrário, parecia quase uma estátua jovial e gracejante.

O problema era que havia detalhes demais para registrar no grafite.

De repente, os cabelos dela pareciam estranhamente complexos de tracejar. Ou era um brilho novo e estranho que se resvalava pelos cachos?

Logo em seguida, iniciei a delineação dos olhos. Para minha enorme surpresa, o desenho saiu melhor do que eu esperava, apanhando a expressividade exata de seu olhar penetrante.

Senti-me corar um pouco ao começar a rascunhar o restante de sua fisionomia. Embora fosse nitidamente forte em sentido físico, Aayrine não tinha nenhum músculo realmente evidente em seu corpo.

Apenas curvas suaves – curvas que eu definitivamente nunca havia reparado em qualquer criatura do sexo feminino.

— Nitch?

Desconcentrei-me, quase rabiscando o final de sua perna.

— O que?

— Posso levantar um pouquinho? — disse, dando um sorriso torto – estou começando a ficar tonta nessa posição.

— C-claro – gaguejei, sem graça, ainda aturdido – eu já terminei…

Aayrine pulou para o sofá em que eu estava, fazendo-me revirar o olhar. A carneira riu, inclinando-se na direção do desenho.

Seus olhos saltaram.

— Caramba, Buster – ofegou — isso é uma obra de arte.

Sorri, encabulado.

— Não é para tanto – contestei, modesto – é só um rabisco.

— Queria ser rabiscada assim todo dia – bufou, sarcástica – pare de humildade. Ficou… incrível. Já vi fotografias menos fiéis ao modelo real do que essa sua ilustração.

Eu já estava ficando sem jeito.

— Que tal continuarmos o jogo? — lhe entreguei o desenho, sentindo o rosto esquentar – minha vez, certo?

Enquanto a olhava de soslaio – jurando que Aayrine refreava uma gargalhada – puxei a próxima carta.

— Maior arrependimento?

Me retraí, sentindo que havia acabado de tocar num tema delicado.

Vi-a fechar os olhos por um momento, resfolegando. Suas mãos se contraírem, fechando-se em punhos sobre seu colo.

— Não poder ter impedido… — guinchou – a morte de minha mãe….

Baixei a carta, pesaroso.

— Aayrine…

— Tudo bem – ouvi um leve soluço escapar de seu focinho – eu só penso que… se nunca tivesse deixado Snowdin… poderia ter estado ao lado dela naquele dia… e evitado que aquela contaminação acontecesse…

— Não imagino como isso deve ter te machucado – suspirei – eu realmente… sinto muito.

Ela ergueu o olhar, parecendo segurar as lágrimas a todo custo.

— Tudo culpa… — rosnou — daqueles malditos humanos…

Mordi o lábio.

Eu jamais a contestaria naquele momento… por mais que tivesse vontade de dissuadi-la daquela visão totalmente negativa sobre a raça da superfície. Ainda mantinha em segredo todo o meu passado com Alekey, pois sabia que Aayrine jamais aceitaria isso facilmente. E temia que nossa amizade, que mal havia começado, fosse totalmente destruída por este amargo fato.

Alguém bateu à porta de entrada dos meus aposentos, sobressaltando nós dois.

— Estava esperando alguém? — indagou, franzindo o cenho.

— Não — arquejei, perplexo – espere um minuto. Já volto….

Confuso, dirigi-me até o hall de entrada, indo em direção à porta. Ignorando completamente meu pedido, Aayrine também me seguiu, espreitando-me à alguns metros de distância, nitidamente curiosa em conhecer a visita recém-chegada.

Inclinei o braço, segurando a maçaneta, girando-a e abrindo levemente a porta de entrada — o suficiente para ouvir meu inesperado visitante.

— Pois não?

— Nitch Buster?

Aquela voz era estranhamente familiar.

— Quem gostaria?

Houve um ofego do lado de fora da porta.

— Uma… velha conhecida… — espantado, ouvi a pessoa choramingar – ele era tão pequeno… jamais conseguiria se lembrar de mim…

Pisquei, atordoado.

Não era possível.

Abri a porta de supetão – com tamanha força que ela bateu contra a parede e voltou.

Aquilo bastou para Aayrine se aproximar rapidamente, colocando-se ao meu lado, nitidamente tensa — já havia, em sua mão, o brilho incandescente de um espadim mágico.

— Nitch….? — ela sussurrou, vincando a testa.

Era uma loba de pelagem escura e olhar tristonho, evidentemente insegura, com ambas as patas unidas sobre o peito, em sinal de nítido receio.

Estava bem mais velha.

Mais abatida.

Mas era impossível não reconhecê-la.

— Como você cresceu, pequeno Nitch…

Era Karin.