O Espadim e a Manopla - Uma História de Undertale
24 Presente e Passado
NITCH
Era nosso dia de folga, e também a primeira vez que Aayrine me visitava no castelo, desde que havíamos nos tornado amigos.
No momento, estávamos nos divertindo trocando informações sobre nós num jogo de cartas – uma forma descontraída de nos conhecermos um pouco melhor.
— Ok. Cor favorita? — indaguei.
— Vermelho – Aayrine sorriu – adoro vermelho.
— Como a cor dos seus olhos?
— Não… — apontou para suas íris rubras – isso aqui é quase rubi – piscou, sacudindo a cabeça de maneira risonha – eu penso nele como um vermelho vivo… sabe? Como a cor dos cabelos da Undyne.
Nós dois rimos em conjunto.
— É… realmente ela tem um cabelão – brinquei.
— Minha vez – ela apanhou outra carta do monte e leu – atividade preferida?
— Desenhar… — dei de ombros.
Ela ergueu a sobrancelha.
— Sério? — apoiou o rosto sobre as mãos, como uma garotinha curiosa – posso ver um dos seus desenhos?
Franzi o focinho. Eu levaria outra cabeçada dela antes de lhe mostrar meus portfólio de rabiscos sentimentais.
— Não tenho nenhum aqui agora… — dei uma risada fraca.
— Sem problema – ela puxou uma filha de papel e um lápis da escrivaninha mais próxima – desenhe agora…
Para meu humor, Aayrine girou o corpo, ficando de ponta cabeça no sofá, fazendo uma careta engraçada. Parecia, mais do que nunca, uma monstrinha brincalhona e mal crescida — a despeito da guarda feroz e impetuosa que havia conhecido de início.
Jamais havia esperado conhecer este lado dela.
— Como vou te desenhar de cabeça para baixo? — indaguei, achando graça.
— Se vira… — me lançou um olhar falsamente petulante – você que é o artista aqui.
Sacudi a cabeça, aceitando o desafio. Afinal, fazia muito tempo que eu não criava nenhuma ilustração. E finalmente tinha algo para treinar anatomia – algo raro quando se é um monstro que costumava viver isolado à maior parte do tempo.
— Ok.
Comecei a deslizar o lápis pela folha, tentando captar todos os detalhes visualmente.
Em poucos segundos, descobri que Aayrine Nacabi era um espécime particularmente difícil de desenhar.
Não por que se movimentasse demais – pelo contrário, parecia quase uma estátua jovial e gracejante.
O problema era que havia detalhes demais para registrar no grafite.
De repente, os cabelos dela pareciam estranhamente complexos de tracejar. Ou era um brilho novo e estranho que se resvalava pelos cachos?
Logo em seguida, iniciei a delineação dos olhos. Para minha enorme surpresa, o desenho saiu melhor do que eu esperava, apanhando a expressividade exata de seu olhar penetrante.
Senti-me corar um pouco ao começar a rascunhar o restante de sua fisionomia. Embora fosse nitidamente forte em sentido físico, Aayrine não tinha nenhum músculo realmente evidente em seu corpo.
Apenas curvas suaves – curvas que eu definitivamente nunca havia reparado em qualquer criatura do sexo feminino.
— Nitch?
Desconcentrei-me, quase rabiscando o final de sua perna.
— O que?
— Posso levantar um pouquinho? — disse, dando um sorriso torto – estou começando a ficar tonta nessa posição.
— C-claro – gaguejei, sem graça, ainda aturdido – eu já terminei…
Aayrine pulou para o sofá em que eu estava, fazendo-me revirar o olhar. A carneira riu, inclinando-se na direção do desenho.
Seus olhos saltaram.
— Caramba, Buster – ofegou — isso é uma obra de arte.
Sorri, encabulado.
— Não é para tanto – contestei, modesto – é só um rabisco.
— Queria ser rabiscada assim todo dia – bufou, sarcástica – pare de humildade. Ficou… incrível. Já vi fotografias menos fiéis ao modelo real do que essa sua ilustração.
Eu já estava ficando sem jeito.
— Que tal continuarmos o jogo? — lhe entreguei o desenho, sentindo o rosto esquentar – minha vez, certo?
Enquanto a olhava de soslaio – jurando que Aayrine refreava uma gargalhada – puxei a próxima carta.
— Maior arrependimento?
Me retraí, sentindo que havia acabado de tocar num tema delicado.
Vi-a fechar os olhos por um momento, resfolegando. Suas mãos se contraírem, fechando-se em punhos sobre seu colo.
— Não poder ter impedido… — guinchou – a morte de minha mãe….
Baixei a carta, pesaroso.
— Aayrine…
— Tudo bem – ouvi um leve soluço escapar de seu focinho – eu só penso que… se nunca tivesse deixado Snowdin… poderia ter estado ao lado dela naquele dia… e evitado que aquela contaminação acontecesse…
— Não imagino como isso deve ter te machucado – suspirei – eu realmente… sinto muito.
Ela ergueu o olhar, parecendo segurar as lágrimas a todo custo.
— Tudo culpa… — rosnou — daqueles malditos humanos…
Mordi o lábio.
Eu jamais a contestaria naquele momento… por mais que tivesse vontade de dissuadi-la daquela visão totalmente negativa sobre a raça da superfície. Ainda mantinha em segredo todo o meu passado com Alekey, pois sabia que Aayrine jamais aceitaria isso facilmente. E temia que nossa amizade, que mal havia começado, fosse totalmente destruída por este amargo fato.
Alguém bateu à porta de entrada dos meus aposentos, sobressaltando nós dois.
— Estava esperando alguém? — indagou, franzindo o cenho.
— Não — arquejei, perplexo – espere um minuto. Já volto….
Confuso, dirigi-me até o hall de entrada, indo em direção à porta. Ignorando completamente meu pedido, Aayrine também me seguiu, espreitando-me à alguns metros de distância, nitidamente curiosa em conhecer a visita recém-chegada.
Inclinei o braço, segurando a maçaneta, girando-a e abrindo levemente a porta de entrada — o suficiente para ouvir meu inesperado visitante.
— Pois não?
— Nitch Buster?
Aquela voz era estranhamente familiar.
— Quem gostaria?
Houve um ofego do lado de fora da porta.
— Uma… velha conhecida… — espantado, ouvi a pessoa choramingar – ele era tão pequeno… jamais conseguiria se lembrar de mim…
Pisquei, atordoado.
Não era possível.
Abri a porta de supetão – com tamanha força que ela bateu contra a parede e voltou.
Aquilo bastou para Aayrine se aproximar rapidamente, colocando-se ao meu lado, nitidamente tensa — já havia, em sua mão, o brilho incandescente de um espadim mágico.
— Nitch….? — ela sussurrou, vincando a testa.
Era uma loba de pelagem escura e olhar tristonho, evidentemente insegura, com ambas as patas unidas sobre o peito, em sinal de nítido receio.
Estava bem mais velha.
Mais abatida.
Mas era impossível não reconhecê-la.
— Como você cresceu, pequeno Nitch…
Era Karin.
Fale com o autor