O Espadim e a Manopla - Uma História de Undertale
46 Piedade e Bondade
AAYRINE
Poderia dizer que houve uma batalha épica contra nosso soberano, em prol da sobrevivência do pequeno humano. Ou que eu e Nitch nos desdobramos para convencer Asgore a desistir.
Mas quando chegamos defronte á barreira – á frente de Undyne, que havia parado em frente no posto da Guarda Real para anunciar o que pretendíamos fazer — percebemos que não éramos os primeiros a chegar ali.
Foi com assombro que observei uma monstra lançar uma gigantesca esfera de fogo contra o rei – que se encontrava defronte ao garotinho paralisado – cujo impacto foi suficiente para jogá-lo do outro lado do salão.
Aturdido, Nitch sacudiu a cabeça para o lado, sugerindo que ficássemos atrás de uma das colunas, observando o que estava acontecendo.
— Que criatura terrível – ofegou a cabra, que se aproximou do humano estupefato, sem sequer dar atenção ao rei que ainda tentava se reerguer com uma expressão incrédula – torturando um pobre jovem inocente... – o fato de ela ter se referido assim á Asgore confirmou a hipótese de que eles provavelmente já se conheciam – não tenha medo, minha criança. Sou eu, Toriel... sua amiga e guardiã.
Talvez por um movimento acidental escandalizado, Nitch desferiu um soco forte em meu braço, fazendo-me reprimir um balido de dor.
— Nitch! – choraminguei – eu acabei de sair de uma luta...!
— Desculpa... – ele sussurrou, agitando os braços de choque – como assim, cara...?
Sacudi a cabeça.
Toriel... aquela só podia ser a rainha, que havia ido embora do castelo há muitos anos. O que ela estava fazendo ali, afinal de contas?
— Primeiramente, deixei que você seguisse sua jornada sozinho – prosseguiu Toriel, enquanto o rei ainda parecia estar tentando se recuperar da perplexidade, sem esboçar reação – mas não pude deixar de me preocupar com você. Sua aventura se mostrou muito traiçoeira – ela olhou para os lados, como se de alguma forma soubesse de nossa presença ali – e, com isso, faria com que você tivesse de fazer uma terrível escolha.
“Para deixar esse lugar, você teria que tomar a vida de outra pessoa. Você teria que derrotar Asgore.
Porém, eu percebi... que não poderia permitir isso. Não seria certo sacrificar a vida de ninguém apenas para ir embora daqui. Não é isso que tenho tentado evitar a tanto tempo?
Então, por hora, vamos suspender esta batalha. Por mais terrível que Asgore seja... ele também merece piedade.”
Por fim, Asgore pareceu recuperar a fala.
— Tori... – arquejou, num tom esperançoso – você voltou...!
Até me encolhi quando Toriel virou-se para ele, aparentando um visível aborrecimento.
— Não venha com “Tori” pra cima de mim, Dreemurr... seu verme patético – sibilou – se você realmente quisesse nos libertar, poderia ter atravessado a barreira, após absorver apenas uma alma... tomar mais seis almas dos humanos, retornar para cá e libertar a todos pacificamente. Em vez disso, fez todos aqui viverem em desespero... por que preferiu ficar parado, esperando que nenhum outro humano voltasse a cair aqui.
Nitch estava completamente retraído. Evidentemente, nunca havia encarado seu pai adotivo daquela forma que Toriel havia descrito.
Asgore resfolegou, olhando de soslaio para o pequeno humano.
— Tori... você tem razão... – disse – sou uma criatura miserável... – acrescentou, súplice – mas você acha... que podermos ao menos ser amigos de novo?
A rainha soltou um pesado suspiro.
— NÃO, Asgore.
Novamente causando um enorme sobressalto em mim e Nitch, Undyne surgiu correndo dentro do salão, interpondo-se entre o rei e a rainha.
— Nyahhhhhhhhhhhhh! – refreei o riso com a expressão paranóica dela – AGORE! Humano! Ninguém luta com ninguém! Vamos todos nos tornar amigos, ou eu vou... eu vou...
Vi-a dar uma olhadela na coluna onde estávamos escondidos, e vi sua pupila quase desaparecer de exasperação, como se estivesse se perguntando por que raios ainda estávamos parados ali.
Como que para quebrar a atmosfera estranha que havia surgido, a rainha pigarreou.
— Ah, olá. Sou Toriel – cumprimentou-se com Undyne – você é amiga do humano? È um prazer conhecê-la!
— Ahn... sim...? – Undyne parecia lisonjeada e confusa – prazer em te conhecer – e, logo em seguida, ladeou Asgore, cochichando perto dele – ei, Asgore... aquela é sua ex?Putz... agüenta firme aí, grandão.
Passos apressados se aproximaram do pequeno grupo, e reconheci a figura de Alphys surgindo logo ao lado de Toriel.
E-Ei! N-Ninguém machuca ninguém!
Outra vez, um silêncio incômodo pairou sobre o salão – até Toriel voltar a quebrá-lo.
— Ah! Você é outra amiga? Sou Toriel... olá!
A amabilidade da rainha estava começando a me deixar intrigada.
— Ahhhh... oi...! – nervosa, a cientista se posicionou ao lado de Undyne, sussurrando algo que soou como um “existem dois deles??”
O próximo que se aproximou foi fácil de identificar.
—EI! NINGUÉM MACHUCA NINGUÉM! SE ALGUÉM TENTAR LUTAR COM ALGUÉM... EU...! SEREI FORÇADO...! – Papyrus concluiu — ...A PEDIR AJUDA PARA UNDYNE!
— Ah... olá! – Toriel interveio.
— AH! OLÁ, MAJESTADE! – o esqueleto aparentou confusão, logo em seguida encarando o humano – EI, HUMANO... O ASGORE FEZ A BARBA... E CLONOU ELE MESMO?
Parecia que, aos poucos, mais monstros estavam adentrando na sala da barreira – todos procurando salvar a vida do humano.
Sans lançou-nos uma piscadela, antes de se avizinhar dos demais.
— Ei, galera... e ai?
A reação de Toriel ao som da voz de Sans foi impressionante.
— Essa voz...! – aproximou-se dele, diante do olhar escandalizado do ex-marido – ei, eu acho que talvez... já nos conhecemos...?
— Ah, sim – o revenant meneou a cabeça – eu reconheço a sua voz também.
— Sou Toriel... prazer em te conhecer.
— Sou Sans... e... ahn... digo o mesmo.
Ao meu lado, Nitch parecia lutar para não gargalhar da expressão impactada do pai adotivo. E eu não estava muito atrás, encarando, humorada, o sorriso reprimido do pequeno humano, que não tirava os olhos do grupo de monstros que o rodeava.
— Ah, espere! – a cabra arfou – então...! – virou-se para Papyrus, sorrindo – esse deve ser seu irmão, Papyrus! È muito bom finalmente conhecê-lo! Seu irmão me falou muito sobre você!
— WOWIE! – rimos quando Papyrus encolheu os ombros – EU NÃO ACREDITO QUE O CLONE DO ASGORE SABE QUEM EU SOU! ESSE É O MELHOR DIA DA MINHA VIDA!
— Ei, Papyrus! – minha incredulidade fez Nitch tapar o focinho para não gargalhar– por que o esqueleto foi ao cabeleireiro?
— POR QUE ELE ERA DESCOLADO DEMAIS?
— Não, bobinho! O esqueleto foi ao cabeleireiro... para fazer as costeletas!
Eu ainda não estava acreditando no que havia acontecido. Há meia hora, estávamos prestes a impedir uma batalha, e agora Toriel Dreemurr estava entretendo a todos com uma piada inesperada.
— EU RETIRO O QUE EU DISSE! – escandalizou-se Papyrus – ESSE É O PIOR DIA DA MINHA VIDA!
A essa altura, o garoto já não continha o riso.
— Vamos lá, Asgore! – Undyne deu uma palmadinha no ombro do rei, que decididamente aparentava estar arrasado com a proximidade de Toriel e Sans – vai ficar tudo bem! Ainda tem muito peixe no mar...
Sentia os olhos de Nitch sobre mim, e um rubor invadiu minhas bochechas, fazendo meu rosto se abrir num tímido e carinhoso sorriso.
Namorado...
Eu ainda estava custando a absorver aquela realidade.
— V-verdade, Asgore! – Alphys grasnou – Undyne está certinha sobre essa coisa de peixe! Às vezes você tem que parar de procurar monstros peludos e... hum... t-tentar achar uma peixe bem fofinha...? – todos a encararam, boquiabrindo-se levemente, ao que a cientista corou na mesma hora – hum... é uma metáfora.
Aham. Sei.
Undyne estava com uma cara estranha – um misto impossível de convencimento e desconfiança.
— Eu acho que é uma boa analogia.
Um berro robótico ecoou no salão, e quase derrubei Nitch na tentativa de ficar atrás de suas costas.
— AI MEU DEUS! – escandalizou-se Mettaton – POR QUE VOCÊS DUAS NÃO DÃO UMAS BEIJOCAS LOGO? A AUDIÊNCIA ESTÁ MORRENDO POR UM POUCO DE AÇÃO ROMÂNTICA! — alardeou-se, logo em seguida sumindo de vista.
— Ei! Cale a boca! – rosnou Undyne, fechando as mãos em punhos – nossa, que ousadia a desse cara! Não, é Alphys? – a dinossaura manteve-se quieta – uh... Alphys?
— N-não... – ela ofegou – ele tem razão... VAMOS NESSA.
Agora já não nos preocupávamos que nos ouvissem. Nitch e eu começamos a rir, vendo Undyne ficar cada segundo mais perplexa.
— Uhhhh? – guinchou – Eu acho...? Se você quiser...? Então...? – e, me espantando completamente, vi minha melhor amiga abrir um largo e corado sorriso – não se segure!
Surtando, me inclinei na coluna, quase eufórica, vendo as duas se inclinarem na evidente tentativa de um beijo.
E não contive minha indignação e diversão quando Toriel interpôs-se entre as duas, desesperada, olhando com preocupação para o garotinho risonho diante dela.
— E-espera! Não na frente da criança!
— Que inferno, Majestade – ouvi Nitch reclamar, num tom de voz exasperado.
— Uhhh! Certo... desculpa – pigarreou Alphys, enquanto as escamas de Undyne ainda continuavam absurdamente vermelhas — me deixei levar um pouco...
Toriel riu, olhando ao redor. Todos encararam o pequeno humano – que, por alguma razão, não conseguia esconder um assomo de felicidade.
— Meu pequeno... parece que você deverá ficar por mais um tempo – sussurrou a rainha carinhosamente – mas vendo todos esses ótimos amigos que você fez... eu acho... que você será feliz aqui.
Tudo aparentava finalmente ter terminado bem.
O humano seria poupado, e viveria entre nós. E, um dia acharíamos uma nova forma de nos libertar.
— Ei... isso me lembra... – Alphys virou-se – Papyrus.. você ligou para todos virem até aqui, né? Bom... a não ser, uh... ela – apontou para Toriel – mas se eu cheguei aqui antes de você... como você soube como ligar para todo mundo?
Papyrus inclinou o crânio.
— DIGAMOS QUE... UMA PEQUENA FLOR ME AJUDOU.
Alphys empalideceu.
— Uma... pequena... flor...?
Foi nesse momento que algo extenso e negro enredou-se ao nosso redor, enrolando-se ao longo de nossos corpos, imobilizando todos os presentes num emaranhado espinhoso e cruel de raízes esverdeadas.
Fale com o autor