O Espírito Viajante no Espaço-Tempo
1 Capítulo 1
Em um universo particular, distante do que você imagina chamar de realidade:
Lá estou eu andando de bicicleta como costumo fazer todo dia. Por minha sorte em um dia nublado, totalmente incomum nessa região do mapa que costuma fazer calor de 30° Celsius ou mais quase todo dia.
Estava em Eusébio, uma cidade metropolitana de Fortaleza, capital do estado do Ceará no Brasil.
Município relativamente pequeno e em bastante ascensão econômica, ascensão pra quem? Claro que pra quem já é rico, como em quase todo o mundo, no Brasil não seria diferente, a realidade do é pobre trabalhar cada vez mais pra sustentar a fortuna dos magnatas.
Eu tenho toda cidade mapeada em minha cabeça e o costume de andar de bike* por todas as ruas e ruelas, atravessar a perigosa CE-040, uma avenida que corta a cidade em duas e onde quase todo dia se pode se ver acidentes ou pelo menos ficar sabendo de algum através do boca a boca.
Pedalando despreocupado, sem as mãos no guidão e com o fone de ouvido do celular tocando nas alturas rap (Criolo — ainda há tempo.) Sempre opto sair com o fone de ouvido porque deixa o som externo totalmente abafado, o que me agrada muito, acho perturbador o som alto do motor dos veículos, as buzinas, freadas, os carros de som, xingamentos* normais de trânsito, cachorro latindo, pessoas conversando alto, barulho de avião, música de péssima qualidade e de teor obsceno ou fútil estourando as caixas de som e os tímpanos dos inocentes.
As pessoas daqui têm uma cultura de colocar música para todo o quarteirão escutar, sendo normalmente forró, sertanejo, gospel ou funk carioca, sons de letras repetitivas e que em geral não possuem mais de três acordes. Ser obrigado a escutar isso todo dia é semelhante à velha tortura do pingo d’água caindo compassado e lentamente na testa. Para não ser injusto com meus conterrâneos vou explicar: quem normalmente faz isso são pessoas de meia idade, sem formação acadêmica, frustrados com a vida ou benditos de tão ignorantes que não poderiam se frustrar e em sua benção consciente de que estão exercendo um grande favor aos vizinhos ‘compartilhando/os forçando’ a escutar a barulheira toda. (E não pense em discordar de mim, 21 anos de pura análise e convivência com essa rotina e pessoas.)
Logo a frente avisto uma curva quase fechada que não tem como ver se vem algum veículo na via contrária, pedalando muito relaxado e com as pálpebras pesadas, o certo seria segurar o guidão da bicicleta pra dirigir com mais segurança. Haha... Exatamente o oposto do que faço, continuo sem as mãos no guidão e inclino meu corpo para a direita pra fazer a curva, o que faço com a mesma facilidade de fazer um gol de pênalti no super Nintendo. Depois da curva avisto de veículo motorizado somente uma Kombi a uns 50 km de velocidade que estava na via oposta a uma distância razoável,era a que fazia as entregas do supermercado do bairro, com uma típica caixa de som em cima que anuncia as promoções do dia. ignorei. Dois homens sem camisa em uma moto e ambos com os capacetes pendurados no cotovelo, (isso é um tipo de cultura inconsciente e suicida por aqui.) percebo uma tatuagem bem grande nas costas do garupeiro* que representa o rosto de um palhaço com a boca sangrando, como se tivesse acabado de comer um animal vivo, e uma frase como se fosse pixada* na pele que diz assim. “Louvado seja aquele que corre pelo certo.” Confuso, como alguém com uma tatuagem que faz apologia ao crime poderia louvar outra pessoa? Confuso², mas quem sou eu pra julgar. Continuo a pedalar. De repente vi uma garota familiar saindo pelo portão de um sítio na marginal da avenida, pisquei os olhos com um pouco de força pra dar foco a minhas lentes de contato e então a reconheci.
— Andréia?! Acenei com a mão esquerda sem jeito, sempre fico nervoso quando vou falar com garotas que tenho atração física ou emocional, ou quando estou sobre pressão de amigos, ou quando as pessoas zombam de mim para me diminuir, ou quando estou com o cabelo desarrumado, ou quando estou desconfortável com minha roupa, entre muitos fatores, acho deu pra entender que não tenho muita auto-segurança.
Por falar nisso, droga! Meu cabelo com certeza está desarrumado!
— Espera Zé! Ela me cumprimentou e veio andando na minha direção sem ao menos olhar para a rua.
Senti algo de estranho, Andréia normalmente não viria falar comigo assim, uma garota ruiva, alta, magra de pernas grossas, com sorriso lindo e dentes bem alinhado. Nunca demonstrou interesse na minha pessoa e não tínhamos intimidade para trocar muita idéia, e ainda mais me chamar de Zé? Embora seja meu nome, sempre prefiro que me chamem pelo meu apelido, mas como todo homem em sã consciência faria, apertei os freios da bicicleta com força e parei bruscamente para atendê-la.
O barulho da minha bicicleta arrastando o pneu no asfalto foi interrompido por uma buzina altíssima e desesperadora e o cantar do pneu da Kombi desviando repentinamente da colisão com Andréia e vindo sem controle em minha direção, foi só o tempo que pisquei os olhos mais uma vez pra focar as lentes que ressecaram contra o vento, vi nitidamente a Kombi a menos de um metro de mim e literalmente não senti mais nada.
"Temos a carne mais fresca da região, abatida praticamente na hora! Quinta-feira da carne, você só perde se morrer!" ♪
Foi à última coisa que escutei antes de perder a consciência.
Fale com o autor