_ Camyu, acho melhor irmos embora, está começando a trovejar e não tardará para começar a chover. Vamos eu te levo até sua casa de carro. Infelizmente não há mais nada a se fazer por aqui._ Ouvi a voz de dite falando ao meu lado. Mas estava perdido demais em meus próprios pensamentos depressivos, arrastado em tantos sentimentos contraditórios, enquanto estava ali parado frente a lápide daquele novo túmulo, que agora jazia naquele grande e indistinto cemitério. Que a voz do meu amigo não passava de uma sopro, lançado ao nada.

Sim Eu posso imaginar que você esteja a se questionar do porque eu estar na frente , do que até minutos atrás era uma cova dentro do maior cemitério público de tokio. Com a a ameaça quase concreta de uma violenta tempestade a desabar sobre a maior cidade do Japão.

A resposta seca e direta é que eu havia acabado de enterrar o meu pai. Falecido decorrente ao esmagamento de vários órgãos e ossos de importante funcionamento vital. Ao ser atropelado por um conversível preto dirigido por um burguês alcoolizado, drogado e a 160/km por hora.

Se o meliante aprendiz a assassino fora preso?

Por favor! Estamos falando do filho de um executivo milhonario pertencente ao alto escalão elitista da tradicional sociedade Japonesa. Então é obvio até mesmo para pessoas com retardo mental que a resposta é não.

Até onde eu sei o canalha infrator já estava em sua mansão, após ser liberado da delegacia mediante pagamento de fiança, requerido pelos advogados contratados pela família.

Mesmo tendo sido pego em flagrante pela polícia dirigindo bêbado e muito acima da velocidade permitida. O desgraçado não seria julgado como réu de um crime, e consequentemente nunca seria condenado a sequer passar próximo das grades de uma prisão penitênciaria.

Era repugnante a constatação de que só existia justiça para cidadãos de classe pobre e sem nenhum poder aquisitivo. Como eu e meu pai, que agora era só mais um estrangeiro morto nas estatísticas do governo.

Chego a triste constatação de que na escala da cadeia social não passo de um número não inventado, bem abaixo de zero.

Mas como poderia ser diferente? Não passo de um estrangeiro pobre vindo da França ainda no ventre da minha mãe Natasha a vinte anos atrás. Falecida por complicações no parto devido a um câncer de rins ,causado por contato direto a radiação química. Meu pai fora operário de uma metalúrgica multinacional em Paris. Mudou-se para tokio junto com minha mãe após receber uma proposta melhor de emprego para trabalhar numa filial da empresa.

É irônico pensar que milhares de pessoas em várias partes do mundo sonham em vir para cá, no outro lado do mundo para tentar a sorte de uma vida melhor, ignorantes do fato de que estrangeiros aqui são vistos como lixo ou prostitutos . Portanto inferiores e desnecessários.

Não. Eu não estou exagerando. Quem vive e está em uma situação semelhante a minha, sabe muito bem do que estou falando.

Como se não bastasse a nossa frágil permanência aqui em Tokio, ainda tenho que suportar todos os dias os olhares maldosos, e toda sorte de humilhação psicológica pelo fato de que nasci geneticamente modificado.

Em outras palavras sou um doncel.

Um homem com a capacidade de engravidar. Isso claro, se o individuo for gay. As pessoas que tiveram a má sorte de nascer assim como eu , são vistos como a escória da sociedade. Como se o fato de sermos capazes de gerar outras vidas em nossos corpos masculinos , nos tornasse vadios ou prostitutos

Não é incomum casos de donces que são mortos por homofóbicos,

Estuprados, abandonados, e marginalizados. Muitas vezes pela própria família.

Eu não me orgulhava por ter nascido como uma aberração em uma sociedade moralmente hipócrita, que ocultava sua falta de ética através de máscaras dissimuladas.

As vezes eu desejava ardentemente voltar a morar em Paris. Terra natal de meus pais, de onde eles nunca deveriam ter saído.

Agora sou apenas um doncel órfão de pais em solo oriental. Que trabalha a tarde em uma livraria no centro da cidade para se sustentar, e estuda de manhã em uma faculdade particular coma bolsista do curso de história.

Gostaria de passar despercebido em público,

como uma pessoa comum em meio a multidão. Mas isso é impossível quando se tem um par de olhos vermelhos rubros que gritam “doncel´’. Sim. Infelizmente somos facilmente reconhecidos, devido a coloração carmesim de nossas pupilas.

O que é uma merda. Principalmente quando tudo que você mais deseja , é não ser notado.

Em decorrência disso minha convivência com os outros sempre foi para se dizer no mínimo, um inferno.

Desde que eu me entendo por gente só conheci o pior das pessoas. O lado mesquinho e preconceituoso que cada um carrega consigo. Não gosto de pessoas. Por isso me mantenho afastado delas. O que me tornou alguém introspectivo e de pouca tendência a se socializar.

Lembro-me de quando era criança e meu pai havia me matriculado em uma escola pública perto de casa. Estava intimamente animado por poder conviver com outras crianças e fazer novas amizades.

Mas toda minha alegria ruiu como cinzas quando entrei pelos portões da escola acompanhado de meu pai, e vi as outras crianças se afastarem de mim, como se eu fosse uma praga que deveria ser expurgado da face da terra.

Em minhas memórias ainda era nítido comentários pérfidos feitos pelos pais das outras crianças enquanto atravessava o pátio daquela instituição ,tal como. “ não quero meu filho perto desse aborto da natureza.” Ou “ esse tipo de gente deveria ser proibido de viver em sociedade.”

Naquela época eu não entendia o porque das pessoas sempre me olharem friamente. E do motivo por serem tão cruelmente ríspidos comigo.

Quando tentei me aproximar de um garotinho que deveria ter a minha idade, o mesmo me empurrou , derrubando-me no chão e disse.” Não quero um rato ruivo doncel perto de mim.”Aquelas palavras feriram-me com a força de um machado cego, e eu não entendia o que significava aquela palavra ‘ doncel’.

Perguntei ao meu pai e tudo o que obtive como resposta foi um abraço agoniado da única pessoa que me amava de verdade. Fiquei ainda mais confuso com aquela estranha reação vinda do meu pai, que era a pessoa mais racional e pouco emotiva que eu conhecia. Vi os seus olhos cheios de lágrimas e percebi que ele lutava para não chorar na minha frente. Em minha cabeça, até então infantil , eu não entendia a razão daquilo tudo.

Apenas alguns anos mais tarde eu viria a descobrir o que era um doncel.

Vária vezes fui espancado na escola , ao ponto de desmaiar ou fraturar ossos e costelas devido a intensidade das agressões cada vez mais repetitivos ao longo da minha formação escolar. Meu pai se enfurecia e fazia queixas na direção do colégio, que sempre davam desculpas pouco sinceras e uma suspensão mínima de dois ou três dias aos infratores, que logo retornavam como se nada tivesse ocorrido. E em poucas semanas voltavam novamente a me surrarem com mais vontade ,como forma de retaliação por terem sidos suspensos “ por minha culpa “, segundo eles.

Com o passar do tempo me tornei uma pessoa distante que não demonstrava emoções aparente. Como já havia dito antes, eu não gosto de pessoas, e não tenho motivos reais para mudar o meu modo de vê-las.

Prefiro o isolamento do meu mundo sólido, acompanhado de um bom livro do que a mesquinhes de pessoas inconstantes, presas em seus conceitos limitados e irascíveis. Pessoas são volúveis e altamente capazes de ferir os seus semelhantes sem razões justificáveis. Apenas para satisfazer os seus próprios interesses obscuros.

E eu conhecia por experiência própria a capacidade infinita dos seres ditos humanos de serem cruéis e falsos com os de sua propria espécie.

Meu único amigo era o Afrodite, que conheci a alguns anos atrás. Mais especificamente no último ano do colegial.

Afrodite. Ou Dite como ele prefere ser chamado, é alguém de personalidade egocêntrica e narcisista, isso para se dizer no mínimo. Não que eu me importe com sua fixação exacerbada por futilidades inúteis. Mas admito que as vezes toda essa sua pompa era algo extremamente aborrecedor.

Dite assim como eu era um gaijim(estrangeiro), vindo da Suécia ainda adolescente para morar com uma tia, após perder seus pais em um acidente de carro. Tornamo-nos muito amigos desde sua chegada aqui em Tokio.

Posso dizer sem margem de erro, que o único que realmente conseguiu atravessar minhas sólidas barreiras, que ergui para o mundo e as pessoas fora o Dite.

Não que eu tivesse tido opção. Afinal em matéria de insistência ninguém ganhava daquela Lolita desmiolada.

Apesar de tudo, e eu não ser exatamente o protótipo da sociabilidade. _ Por favor! Sintam a ironia._ Eu me importava com aquela criatura destrambelhada. Mesmo nunca tendo colocado isso em palavras, porque atos de demonstrações afetivos me incomodam sobremaneira.

Mas penso que ele sabia que eu o tinha não só como meu único e melhor amigo, mas como o irmão que eu nunca tive

Não que isso diminua minha irritação por ele sempre me chamar de ‘ pinguim’, ‘iceberg’ e ‘cubo de gelo’, dentre outros apelidos infames.

Mas fato era que ele sempre teria seu lugar garantido em minha vida, independente de nossas diferenças e escolhas.

E agora aqui estava eu.

Enterrando meu pai e último familiar vivo que eu ainda tinha. Completamente catatônico com esse incontestável fato, e sem saber como seria a minha vida de agora adiante.

Queria fechar os olhos e ser capaz de ignorar essa dor tão aguda, tão terrível, que me consumia lentamente. Me despedaçando em zilhões de fragmentos lançados ao nada.

Eu estava só em uma terra hostil e artificial, completamente sem rumo, como um navio sem leme em águas turbulentas.

Me sinto tão perdido neste momento fitando o túmulo do homem que sempre fora a base do meu ser, enquanto pingos de chuva enxarcavam a terra ainda fofa daquela cova, que parecia que não havia mais possibilidades de eu ser achado.

Mas eu sabia que isso era apenas um estado doloroso. Estado este que era somente escuridão e lágrimas não derramadas.

Procurei ver para onde minhas escolhas estavam me levando. Mas não encontrei nada, além de vazio e solidão.

É irônico como é fácil ficar perdido quando quebramos as asas. Sou consciente de sou responsável por minhas escolhas. Mas quem disse que lidar com a suas consequências era uma tarefa fácil?

As vezes me sinto um alienígena que não se encaixa em lugar nenhum, condenado a vagar em um lugar confuso e sem sentido.

Sinceramente não sei o que dizer. Derepente tudo virou de cabeça para baixo, abalando todas minhas certezas e convicções.

_ Camus vamos de uma vez. Ficar aqui não lhe acrescentará nada. Se insistir em permanecer aqui, só conseguira ficar doente por excesso de chuva._ Dite estava certo. Não havia mais nada a se fazer ali, naquele cemitério. Havia começado a chover, e a julgar pelas nuvens negras carregadas e pelos relâmpagos que cortavam o horizonte, a tempestade só estava começando. E se arrastaria pelo reto da semana, não havia dúvidas quanto a isso.

_ Vamos._ Disse secamente. Não deixando transparecer em meu rosto inexpressivo , a infinidade de emoções que borbulhavam em erupção no meu interior.

Dite tirou de sua bolsa um guarda-chuva e o abriu, colocando-o sobre minha cabeça e se alojando do outro lado do mesmo. Passou o seu braço direito sobre meus ombros, e em seguida me encarou diretamente nos olhos, me surpreendendo com a intensidade de suas esferas azuis piscinas.

_ Vai ficar tudo bem, Camyu._ Disse ele. Acenei lacônicamente em concordância, com sua sutil tentativa de consolo.

Mas de alguma forma eu sentia que nada ficaria bem.

Olhei uma última vez para trás. Em uma despedida muda ao meu pai. Sabia que o dia de hoje era algo que ficaria para sempre no quadro de minhas memórias. Como uma tela melancólica e cinzenta, perdida nos subúrbios solitários de minha alma.

Afinal, o que seria de minha vida a partir de agora?

Notas finais
gostaram?criticas e sugestões são bem aceitas.E no próximo capitulo teremos o tão esperado encontro de nosso querido ruivinho com o Milo.Adianto que vai ser tenso e de tirar o fôlego.beijocas a todos.