O Escorpião Escarlate

11 Final de semana parte 3


Notas iniciais
Até que enfim o Nyah voltou depois de quase duas semanas fora do ar. Mas especulações a parte gostaria de agradecer a YurikoLaka, Ceridwen Adit, Lovelobinhos, Zoë, camus uchiha, Noel Vermillion e Valeska por terem favoritado a fic. Sejam muito bem vindos. Aproveitando o embalo gostaria de avisar que após pensar e repensar decidi que o próximo capítulo será um extra do Dite e Máscara da Morte. Dado os devidos avisos divirtam- se com o capítulo.

Sedado... nada mais que um rebusco de um corpo hirto com todos os estímulos patológicos adormecidos em profunda letargia. Um vazio tão arraigado que nem mesmo o buraco negro esculpido no epicentro da galáxia poderia descrever a intensidade daquele entorpecimento da ausência do sentir em mim mesmo. Um poço sem fundo ou tão somente o rascunho de uma tela desbotada, sem as formas de uma aquarela regada ao tinteiro. É confuso, eu bem sei, mas era exatamente assim, ou bem próximo disso, que eu me sentia no esturpor daquele momento, escorado ali na lataria enferrujada de um container, abraçado ao próprio joelho enquanto acompanhava com os olhos ligeiramente embaçados Milo e aquele ser sendo asfixiado pelo braço duro do yakuza encarando-se no que me parecia ser uma espécie de briga muda. Senti um frio glacial percorrer minha espinha, e esperei, estático. A fúria faiscante embebida em suas safiras como chamas liquidas de um vulcão em erupção daria medo a qualquer um. E eu não era exceção, muito ao contrário. Seus rosto ao contrário dos olhos que flamejavam em negras labaredas não expressava nenhuma leva de emoção em sua face endurecida, parecendo uma máscara talhada no mais bruto granito.

_ Sabe, algumas pessoas pertencentes ao meu círculo de convivência tem por bem afirmarem pelas minhas costas que eu sou um tirano filho da puta dotado dos mais sujos dogmas sórdidos. Uma blasfémia, realmente. _ Começou Milo com aquela voz perigosamente aveludada como a mais pura seda confeccionada na Pérsia. Porém cortante como a mais afiada das navalhas, sem nenhum volume, paixão, ou emoção, deturpando o encanto envolvente de sua entonação, e de alguma maneira, aquilo soava pior do que se ele a tivesse forçado. Ele repuxou os lábios em um sorriso sardônico e continuou. _ Principalmente porque essa cifra tão justamente apontada por outrens é uma afirmação verídica no mais escavado sentido em que se encerra. _ Adicionou zombeteiro em tom de pilhéria, soprando as palavras como se tivesse acabado de fazer uma observação banal, supérflua, peculiarmente desinteressante, ou confessado um pormenor irrelevante de seu caráter deturpado, destituido de escrúpulos, senso de moralidade, ético, ou encargos de consciência.

_ Olha cara, a gente pode resolver isso de boa. Eu não sabia que o doncel já tinha dono, e eu nem ao menos cheguei a encostar direito nele. Se é só por isso fique com o ruivinho doncel e tudo se resolve nos conformes. _ O cara articulou parecendo esforçar-se sobremaneira para responder, já que a pressão que recebia do braço de Milo na garganta devia ser demasiado grande.

_ Não é assim que as coisas funcionam, imbecil, ninguém mexe com o que me pertence e sai por isso mesmo. _ Silvo Milo cortante, num timbre encantadoramente sedutor que não me admiraria que pudesse fazer até os serafins entoarem um Angelus, mas que a mim apenas fez com que eu prendesse a respiração e me sentisse como se de repente eu estivesse em uma montanha russa sem freio, descontrolada, como se o mundo estivesse acabando por um asteroide em rota de colisão com a terra e todos os meus órgãos estivessem brincando de pique- pega.

Quis vomitar.

Porque isso não podia ser um daqueles tipos de coisas triviais onde o quadrado é um retângulo, mas o retângulo nem sempre é um quadrado? Sim! Porque muito embora os traços implacáveis do rosto de Milo nada revelassem sobre seus intentos, o fulgor estulto, sorrateiro, ardendo em chispas em suas retinas cobaltos tão cruamente enegrecidas pelo mais bestial dos ódios, acentuando ainda mais os traços traiçoeiros de sua face indômita, não me advinhava de nenhuma forma um enúncio de bons presságios, como um prediz mau agouro fincando suas gélidas garras em minhas entranhas. Encolhi- me angustiado como uma bola debaixo do grosso casaco que cobria-me a nudez como um longo manto aveludado, sabendo mais por instinto do que pela lógica que Milo aprontaria uma da suas.

_ Mas eu nã... _ Iniciou o sujeito, forcejando a voz através da pressão asfixiante em seu pescoço, contudo, interrompido em seu colóquio quando num gesto de mão Milo esticou o punho canhoto impulsionando-o contra um dos braços estirados do outro de encontro à uma maciça calha de inox embutida na parede de concreto ao lado.

O som impactante de ossos se estralando seguido por um urro aterrador de dor, fez um bolo nauseante subir como uma bile pela minha garganta. Meus olhos arregalaram-se estarrecidos. Seu braço antes hirto pendia inerte com a ponta transversal do osso de seu ante- braço deslocado para fora da carne numa lacerante fratura exposta. O sangue viscoso vertia abundante de seu cotovelo distendido, gotejando espiralado sobre o cinza empoeirado do asfalto. Palavras desconexas eram lançadas de sua boca disforme toda vez que a brisa serena soprava seu frescor em sua direção, atingindo com seus bafejos carregados de fuligem e pó a ponta atrofiada do osso exposto.

No entanto o que realmente congelou cada uma das milhões de células encubadas em meu corpo fora a sordides do macabro sorriso esboçado nos finos lábios de Mil, condensando cruelmente sua aura predatória tão naturalmente emanada por ele.

Sádico.

Não satisfeito com sua ação anterior ele forçou a cartilagem dura do seu joelho contra o estômago daquele homem num brutal chute. Um grito de agonia e dor rasgou o ar noturno, propagando-se interminável, em forma de lamento por toda penumbra até perfurar meus ouvidos enlouquecedoramente, esmigalhando os ínfimos nervos ainda existentes naquela funesta sinfonia torturada.

Milo virou a cabeça, comprimindo ainda mais a falange daquele homem com seu braço, e foi então que, eu vi, através do sadismo sanguinário bailando ensandecido em suas escurecidas obsidianas, como a falsa calma no olho do furacão, o que ele pretendia fazer. E talvez tenha sido a conscientização do que estava prestes a se descortinar perante meus olhos embaçados por uma espessa letargia, como se todo meu corpo estivesse sobre o efeito de uma paralisante overdose de morfina, tenha sido o catalizador ou o antídoto necessário para erradicar por completo meu entorpecimento apático. Eu não queria assistir Milo quebrar o pescoço de uma pessoa bem debaixo do meu nariz.

_ Pare, Milo! Pare... _ Consegui por fim proferir, surpreso por minhas cordas vocais não terem perecido para todo o sempre na garganta, atraindo sua atenção para mim. Sendo que até aquele derradeiro momento ele nem sequer dignara- se a me olhar.

_ Parar? Tsc... eu acho que não. _ Debochou ele estalando a língua no céu da boca. Não havia nenhum traço de humanidade como pena, ou misericórdia, na inerência despreocupada de sua postura, como se aquilo fosse algo corriqueiro, sem importância. Ele parecia uma perfeita maquina de matar despojado de quaisquer pudor quanto a isso. O juiz, júri e carrasco de suas próprias sentenças homologadas por si mesmo. Um caláfrio desceu gélido por minha espinha lembrando- me de quem Milo era por debaixo de seu uniforme seduzente,um assassino mafioso acostumado a matar e torturar sem nenhum remorso, um yakuza cruel que parecia se divertir sadicamente de alguma forma doente em impor sofrimento aos outros. E a realização desse fato nunca se revelou tão real e irrefutável como naquele instante bem diante de meus olhos.

E eu me sentia chocado só por estar ali.

_ Por favor... Milo... _ Ele olhou para mim com um ar claramente divertido, mordas inclusive, eu diria, quando escutou-me chamando-o quase implorativamente. _ Deixe-o ir. _ Complementei, obrigando-me a não seguir o caminho dos covardes e sustentar o peso opressor de seus orbes azurres perfurando os meus como a lâmina de uma masamune afiada. Ele semicerrou os olhos sob os longos cílios parecendo me estudar, como se estivesse ponderando a viabilidade do meu pedido desesperado. Um lampejo de algo indefinível cruzou rapidamente seus olhos, mas fora tão rápido e fugaz que não pude nomeá- lo.

_ Hummm... se faz tanta questão... _ Num movimento brusco ele jogou o outro contra um extenso container, na parede da frente. Um som alto reverbou por toda travessa quando o corpo arremessado embateu violentamente na lataria enferrujada antes de atingir o chão. Atordoado, o sujeito guinchava esganiçado pelo agravamento de sua fratura ocasionada no impacto. Milo sequer olhou-o se retorcer em espasmos convulsivos estirado na calçada. Em poucas passadas ele encurtou a distância até onde jazia, postando- se à minha frente.

_ Ai... _ Choraminguei, quando ele segurou-me pelos braços e num solavanco puxou-me rispidamente, forçando meus pés pouco confiáveis a aderirem equilibrados no chão. Eu ainda não estava completamente refeito do baque que levara.

_ Não reclame. Fora sua desobediência que causou isso, se tivesse ficado no camarote como eu mandei nada disso teria acontecido. Agora aquietes e não teste ainda mais os limites inexistentes da minha paciência, ou juro que vai se arrepender. _ Ditou ele, envolvendo rudemente minha cintura com um de seus braços e puxando-me, mantendo-me preso pelo quadril de encontro a seu corpo pela trava solidificada de sua mão.

Relancei o olhar, voltando minha atenção para o vulto daquele ser que tentara me estuprar, passando ligeiramente inclinado ao lado, segurando com a mão destra o braço constipado pela fratura conforme esgueirava- se trôpego com destino a saída daquela viela, tentando em seu trajeto não voltar à atrair a atenção de Milo novamente para si, contudo falhando em seu intento.

Eu nunca saberia ao certo enquanto vivesse como exatamente se dera. Minha mente em estupor não dispós de tempo o suficiente para processar com exatidão a sequencia de fatos desencadeados pela ação de Milo. Contudo, num calculado movimento, premeditado, aproveitando- se da posição inclinada do sujeito à poucos centímetros a frente, Milo forçou sua outra palma livre na cabeça daquele homem pelo crânio contra o largo retalho de vidro defronte a uma robusta caçamba. O estalido seco e ensurdecedor de seu crânio atravessando o espesso molde do outrora vidro a paisana ricocheteando em lascas de fragmentos partidos com a força de um trem de carga em descarrilamento paralisou-me estupefato, atônito, descrente dos meus próprios olhos que no momento deveriam está esbugalhados nas órbitas.

Sua cabeça pendia lacerada por cacos estilhaçados de vidros fincados em toda extensão do seu rosto mutilado até abaixo da jugular. O sangue esguinchava férrico e viscoso alastrando- se até o pavimento sedimentado numa distorcída poça rubra. Seus membros flácidos não se moviam mais, inertes. E eu soube pelo pontiaguda lasca trespassada como uma lança de cerol na veia do seu pescoço que não havia possibilidade real dele ainda ter pulsação, de está vivo.

Congelei.

Eu nunca havia visto alguém morrer, morrer de verdade. Não aquelas mortes que você vê na TV, onde tudo segue um enredo milimetricamente ensaiado, atuativo, e o ator no fim das contas pode voltar para sua casa normalmente após o expediente, tomar um banho, jantar com a família, assistir o telejornal de preferência e depois dormir aguardando a repetição de todo o ciclo novamente no dia seguinte. O mais próximo de algo assim que eu já havia passado fora na morte de meu pai Dégel, quando eu tinha sido chamado para fazer o reconhecimento do seu corpo quase irreconhecível no necrotério do Estado.

A realidade em nada se assemelhava a ficção.

Era pior. Muito pior.

Quis ser capaz de deletar aquela imagem que eu sabia que enquanto respirasse queimaria como o cadinho de ferro em minhas retinas numa infídavel reprise de horror maldito. Mergulhar por inteiro nas turvas águas do esquecimento do Estige, abdicando- me em suas negras correntezas dessa memória encravada na eternidade da alma.

Olhar é terrível, pensar é terrível, recordar é um horror, reviver então... inconcebível.

Noite do inferno...

Naquele momento eu já nem sabia o que me doía mais. Minha catatonia não me permitia ao certo saber. Memórias? Pensamentos? Sensações físicas? Talvez. Não tinha realmente como saber. Na verdade não tinha como descrever... talvez um pouco de tudo. Só sei que sofro... apenas sei. Saber é sofrer...

_ Envie meus cumprimentos ao pessoal do andar de baixo e ao Diabo quando tiver chegado lá. _ Disse desdenhoso olhando o corpo sem vida se esvair em sangue pelos inúmeros cortes de cacos de vidro.

_ Você disse que o deixaria ir. _ Balbuciei em completo estado de choque.

_ Disse? Eu não me lembro de algo assim. Mas se o disse... eu menti. _ discorreu ele arrastando a fala em inconfundível escracho, indiferença, cinismo, total ausência de reverência ou consideração pela vida alheia ceifada traiçoeiramente por ele. Sua postura dissímulada era a própria personificação do descaso, sadismo, enquanto sorvia com seu par de olhos sagazes deitados em mim cada mínima reação que involuntariamente vazava em jorros por minha face. _ Vamos. _ Ditou facínora, arrastando- me como um fantoche de pano inanimado para fora da travessa. Não impús nenhuma resistência ou oposição ao seu desmando ditador. Sentia-me dormente, induzido à um semi- esturpor inconsciente, um espectador ocular de mim mesmo, despencando em queda livre por um ingreme desfiladeiro de fundo pedregoso, sem trilhos, encostas, ou dunas de areias para amortecer o findar impactante.

Eu estava me sentindo um velho ancião que viveu coisas demais, caducando após algumas rodadas bem fortes de Whiski.

Não atentava para o caminho no qual era praticamente arrastado por Milo, estava avoado em meu próprio mundo como uma pluma arrebatada pelo sopro do vento. Apenas registrei que não estava mais naquela travessa quando Milo acionou o alarme do seu carro sedã estacionado numa vaga isolada, destravando-o com o dispositivo anexado no chaveiro da chave de ignição, antes de sentir- me sendo colocado no assento carona do veículo.

Em curtas passadas ele contornou o carro até o banco do motorista, saltando para felinamente para o seu interior. Ignorando- me como se não houvesse mais ninguém no veículo, ele ligou o CD player no painel e engatou à marcha ré, logo a faixa de uma música vanguardista de The Fray repercutia absorvendo o silêncio daquela sufocante atmosfera como algodão imberbe em água ao embalo de How To Save A Life. Embora intimamente estivesse um tanto quanto surpreso com o refinamento de seu gosto musical, ainda mais somado ao fato que aquele albúm em questão era uma regravação acústica dos vindouros anos 1975 numa edição especial, a verdade é que naquele momento as límpidas letras daquela melodia soava- me como um acorde fúnebre, satírico, uma alusão odiosa e sem valia ao corpo sem vida deixado para trás.

Repousei a nuca na janela, olhando sem realmente ver através dela. Eu não sabia para onde estava sendo levado, e naquele momento não sentia nenhuma disposição ou animo para indaga- lo. Boa parte de mim apenas rogava para que eu me enfiasse debaixo das camadas aconchegantes e aquecidas das minhas cobertas e me entregasse a todo o cansaço que me consumia tanto o corpo quanto o psicológico em frangalhos, abatimentos, farrapos. Numa absoluta revelia com uma outra parte que temia fechar os olhos e ser invadido pelos pesadelos que eu sabia que eventualmente iriam vir ao meu encontro.

Eu era uma bagunça antagônica em mim mesmo de vontades opostas e contraditórias. Pedido, era assim que eu me sentia. Sem saber para onde ir, o que fazer, e tão pouco o que pensar. Confuso.

Sim! Confuso.

Confuso desse saber que não se sabe e desse dizer que nada diz.Talvez Confúcio devesse ser o meu nome.

Em contrapartida ao meu entorpecimento alienado eu não fiquei realmente surpreendido quando finalmente o carro parou frente ao portão de sua ostentosa propriedade, do qual eu já havia estado dias atrás contra minha vontade. O portão fora aberto por um vigia grandalhão de aparência truculenta, intimidante, que se limitou à cumprimentar Milo com um respeitoso menear de cabeça, sendo retribuido pelo mesmo com igual gesto.

Entrelacei as mãos entre os dedos nervosamente quando Milo estacionou o sedã frente a escadaria da entrada principal da mansão, e saiu do carro sem proferir uma única sílaba após puxar o freio de mão, deixando-o num 'ponto morto'.

_Vamos! Saia. _ Ditou ele abrindo a porta do passageiro ao qual me encontrava acomodado. Descruzei as mãos unidas engolindo em seco o caroço alojado na garganta, e cambaleando sobre os próprios pés rompi para fora do veículo.

_ Porque estou aqui? _ Perguntei exitante, retesando- me sobre o conforto do casaco ao experimentar a nublosa geada chicoteando minha pele como farpas de arame.

_ Preocupado Camus? _ Maliciou insinuante, ignorando deliberadamente minha vocalizada pergunta. _ Não tem o que temer. Não irei abusar de você, nem leva- lo para algum lugar sombrio para lhe estuprar, ou encurralá-lo para saciar minha fome devorando-o... por hora. _ Acresceu com um sorriso trocista emergindo nas linhas finas de seus lábios repuxados. Suas palavras dúbias evidentemente não foram proferidas com o intuito de apaziguar meu pandemônio interno de temores e incertezas, ao invés disso serviu apenas de combustível para alimenta-las em toda sua inglória.

O desgraçado filho de uma mulher da vida era um exímio manipulador.

Alheio, completamente travado, e sem saber o que dizer, porque minha garganta pode ter se fechado, eu somente me vi sendo levado pelo braço para dentro dos seus domínios. Diferentemente da última conturbada vez que estivera ali fomos recepcionados por uma jovem moça logo no Hall da entrada. Suas vestimentas sóbrias e a rigor indicavam que de certo ela era uma funcionária para a manutenção daquela extensa propriedade, talvez a governanta, apesar de aparentar ser deveras jovem para um cargo que requer experiência para exercer tal ofício.

_ Precisa de alguma coisa Sr. Kalomires? _ Indagou servil, numa incutida polidez.

_ Leve Camus para um dos quartos de hóspedes disponíveis e providencie algumas mudas de roupas que melhor lhe sirva para após se banhar. Pode se retirar agora Sra. Kido e efetivar para que minhas ordens sejam devidamente cumpridas no menor prazo possível. _ Demandou dispensando-a com um sinal de mão enquanto me empurrava comedidamente pela costas com sua outra palma na direção da Sra. Kido.

Sentindo- me um caos muito pior que o big bang que supõe- se ter originado o planeta, e sem uma opção real para rebelar-me contra o comando autoritário de Milo, limitei- me tão somente a ligar- me no modo automático e a seguir numa pequena distância as coordenadas mudas da empregada rumo a uma das várias portas ao final do corredor no segundo andar.

A sra. Kido que deu- me a conhecer seu primeiro nome como sendo Saori, deixou- me só em um dos leitos após instalar- me no cômodo e acender o interruptor do banheiro adjacente ao quarto.

Ansiando me livrar de toda aquela sujeira que parecia ter grudado em minha pele, derme e epiderme como se fosse a própria peste negra que devastou 1/3 da Europa ocidental na idade média, emergi tão logo me vi sozinho no recinto debaixo dos jatos quentes do chuveiro.

Entretanto tomar banho nunca me pareceu um engenhoso instrumento de tortura como naquele momento enquanto a água bombardeava todo a musculatura tensa e enrigecida do meu corpo. Todos os meus membros pareciam ranger em contato com o liquido cristalino despencando como agulhas sob as costas, omoplatas, espinha e quadris, como se eu tivesse sido surrado a pauladas ou atropelado por uma manada hipopótamos desembestados. Meu estômago hipersensível, talvez por estar vazio e nauseado, parecia se revirar em rebuliços com o impacto aquoso sendo derramado, como se o chuveiro ao invés de gotículas de água estivesse gotejando minúsculos misséis de cima. Não obstante a cabeça que parecia ter se tornado um balão inflado prestes a estourar e a temperatura ambiente fria em contraste com os pingos efervescentes da ducha fazendo-me lembrar de forma piegas, porém, propício naquela circunstância da expressão “gato escaldado”.

Fechei o registro e me escorei exaurido na parede azulejada, sentindo- me o Atlas reencarnado carregando sobre os ombros todo o fardo do mundo nas costas. Esperei alguns instantes, talvez minutos, não sabia, testando minhas forças ou o que restara delas enquanto observava em reflexão a água em baixo de mim ser drenada pelo ralo. Queria que aquela noite nunca tivesse acontecido, que fosse só um delírio inventado por algum sonho estranho ou senão que os ponteiros retrocedessem algumas horas no relógio. Mas o universo é constítuido de quatro coisas que nunca voltam para trás: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida, e o tempo passado, e não há nenhum sortilégio na rotatividade humana capaz de mudar o que por ordem e natureza é por si mesmo imutável.

Eu teria de um jeito ou de outro digerir o que havia acontecido naquela rua.

Mesmo que fosse a base de soníferos.

Notando que as que as pequenas poças que antes encharcavam minha pele estavam secando pelo meu prolongado transe embabascado, obriguei- me a sair de dentro do box e enrolei-me numa comprida toalha, tateando em seguida para fora do banheiro.

Encontrei um par de roupas de frio dobrado com alinhado esmero em cima da cama ao retornar para o quarto, consistindo basicamente numa blusa de manga e uma calça moletom, porém, grandes demais para o meu desvantajoso tamanho de anão de jardim, juntamente com uma peculiar touca de lã cor de vinho trazido com os outros trajes. Vesti-me sem pressa, demorando- me no improviso para ajeitar aquelas roupas no corpo, sem dispensar o último item para encobrir a cabeça do frio.

Fixei minha atenção na porta ao escuta-la bater contidamente por mãos leves e ser aberta logo em seguida pela Sra. Kido. Disfarcei um ligeiro desconforto com a intensidade penetrantemente analítica de seus olhos verde-oliva postos em mim, medindo- me, tecendo seus próprios juízos e julgamentos.

_ O Sr. Kalomires solicita sua presença em seu escritório. _ Informou- me ela, cordada, numa neutra formalidade. Apesar de manter a face impassível na superfície quis rir ironicamente de sua óbvia tentativa de minimizar as reais palavras do contexto daquele recado repassado a mim. Solicita?oras! Faça- me o favor. Tenho plena e absoluta certeza que o termo usado por Milo fora algo mais do que um verbo que abrange a possibilidade de ter sua vontade desacatada, declinada. Algo ditador do tipo ' ordenar', 'mandar' e outros afins de igual gênero.

Limitei- me apenas à assentir com um displicente aceno de cabeça para a Sra. Saori, pondo- me a segui-la novamente para fora do quarto, rumo à algum lugar do andar debaixo. O que Milo ainda poderia querer comigo? Bem da verdade é que eu havia levantado a possibilidade de ir embora dali sem chamar a atenção após o banho, saindo de fininho pela tangente. Talvez chegando mesmo a apelar para uma encenação de entregador de pizza ou encanador caso viesse a ser interceptado por um daqueles homens subordinados a Milo no portão de saída.

A lentidão arrastada dos meus passos provavelmente denunciava o quanto eu estava me sentindo um judeu em plena segunda guerra mundial indo ao encontro de Hitler ou algum outro soldado nazista de alta patente. O que vindo daquele maníaco lunático era uma comparação bastante plausível, oportuno até.

Eu estava gostando tanto daquilo como um joelho gosta de um bastão.

Fui deixado sozinho numa espaçosa sala de estar que mais se assemelhava a uma mescla unificada de um escritório personalizado com uma biblioteca diversificada. O ambiente apesar de formal e impessoal era acolhedor e aconchegante, aquecido por uma antiquada lareira de tijolos vermelhos fundida na parede lateral, cujas chamas eram alimentadas pelas brasas acesas de lenha, gravetos e toras de madeiras. As únicas mobílias que ocupavam aquele recinto além das instantes de livros eram uma poltrona forrada com almofadas vermelhas posicionada de frente para a lareira sobre um felpudo carpete cinza circular e uma pequena mesa de madeira central.

Como estava sozinho no cômodo não contive minha crescente curiosidade sobre os gostos literários de Milo e passei os olhos num acervo de livros metodicamente alinhados na prateleira de uma das instantes de parede. Surpreendendo-me não pela primeira vez naquela noite com a preferência apurada de seus gostos para a leitura cotidiana, tais como: teologia, explanações políticas, história, mitologia, sociologia, táticas militares, etimologia, arte Greco- Romana, fílosofia, Platão, Sócrates, Aristóteles, dentre outros de ascendência Grega.

Franzi o cenho intrigado com aquilo. Porque tanto apego a cultura Grega?

Fascinado pus-me na pontinha dos pés e estiquei o braço para alcançar um livrinho de bolso jogado de qualquer jeito na última prateleira. Puxei-o pela capa visivelmente rasurada pelo tempo de uso, dedilhando-o com a ponta da unhas até escorregar pela borda em cima do meu peito, folheando-o constatei ser o clássico de Otelo de William Shakespeare.

Que provinciano...

_ Bela prenda tenho aqui. _ Sobressaltei- me assustado com o tom obscuro daquela voz única eclodindo sem nenhum pudor, num entoar obsceno bem atrás de mim.

Virei-me rapidamente como mariposa atraída pelo mel ou abelha pelo pólen, apenas para encontrar Milo recostado no batente com uma mão enfiada num dos bolsos laterais de sua calça coturno e a outra rodando casualmente um copo de bebida não reconhecida por mim. Contudo fora o brio ilegível reluzindo em suas iris lazúlis parecendo catalogar cada mínima parte minha com insaciável avidez, ganância, esquadrinhando- me atentamente dos pés descalços à touca na cabeça que fez-me apertar nervosamente o livrinho inerte em minha palma no mais intimidante embaraço, desconcerto.

_ Essas roupas o deixaram estupidamente...

_ Ridículo? _ Sugeri, interrompendo-o num impulso. Seus lábios alviteiros curvaram- se num sorriso torto ladino.

_ Eu ia dizer gracioso. _ Disse, levando o copo de bebida aos lábios despreocupadamente. Desviei os olhos para o fogo lambendo a lareira sentindo as bochechas se avermelharem com suas palavras, enquanto minha mente acostumada a analises rápidas tentava encontrar o significado oculto que eu tinha certeza haver naquela súbita cordialidade de sua parte.

_ Porque me chamou aqui? _ Fui direto ao vocalizar à pergunta, volvendo após alguns poucos segundos a face para a voracidade de seu escrutínio opressivo. A sensação de está sendo manipulado por ele como um fantoche num teatro de marionetes chegava a atingir níveis paranoicos, ou não, considerando com quem eu estava lidando.

Eu me sentia um peixe pendurado na linha.

Um gato de fraternidade preso por uma coleira.

_ Por nada em especial... _ Deu de ombros bebericando de sua bebida com uma expressão suspeitosamente soturna, calculada. Fiquei em alerta. Que tom amigável fora aquele? _ Apenas estou fazendo as vezes de um bom anfitrião. _ Complementou, e dessa vez havia o seu costumeiro cínismo trazido de volta a baila. Acompanhei com os olhos ele desencostar-se do batente da porta até uma garrafa de bebida em cima do compartimento da lareira, enchendo outro copo com aquele liquido tonificante em amarelo cobre.

_ Pegue. _ Proferiu, estendendo-me o outro copo de bebida. Enruguei a testa. Ele tinha dupla personalidade por acaso?

_ O que é isso? _ Indaguei cauteloso. Ele nem parecia se lembrar mais de ter matado uma pessoa à poucas horas atrás. Como se isso fosse tão banal quanto riscar um item de uma lista de afazeres, malditamente simples como torrão de açúcar derretendo na língua. Psicopata. Era isso o que ele era. O que só me fazia lembrar o destino que aguardava a mim mesmo quando ele se fartasse da novidade que eu representava.

Os olhos dele me observando com a agudez de uma águia do deserto pareciam fios de prata aromatizados no mais escuro dos azuis. Fascinante. Hipnotizante. Envolvente.

Aterrorizante.

_ Uma dose extra- forte de gin. _ Simplificou ele com um cintilar astuto tocaiado em seus orbes.

_ Eu não bebo. _ Declarei incisivo. Seria pedir muito querer ir embora? Eu já havia tido o bastante naquela noite maldita, mórbida, trucidando meus nervos por pelo menos até a próxima geração ou até a idade avançada de receber minha aposentadoria dos cofres do governo.

Não que eu realmente achasse que fosse viver tanto.

_ Onde estão os seus bons modos, Camus? Não é de bom tom ser descortêz com quem lhe hospeda. _ Contra argumentou persuasivo numa voz de barítono. Ele era um demônio, uma praga. Porque ele não me deixava simplesmente ir embora? _ Vamos, eu não mordo. _ Adicionou em um tom burlesco.

Não. Ele não morde. Faz coisa muito pior. Mas abstive- me de dar meu parecer sobre o assunto.

Forçadamente estendi minha mão até a sua para apanhar o copo de gin. Digo! Eu não tinha outra alternativa, tinha? Só que desafortunadamente ao pegar o copo suspenso em seus dedos minha mão acabou roçando na sua acidentalmente. E foi estranho, sabe. Porque quando isso aconteceu foi como se correntes elétricas de alta voltagem tivessem sido enviadas por toda minha corrente sanguínea, veia, artéria e órgãos do meu corpo, partindo desde a ponta dos dedos até a raiz dos cabelos encobertos pela touca.

Um fenômeno físico totalmente esquisito.

Podia ser tão somente um vazamento de eletricidade estática, não podia? Quer dizer! Que um de nós estivesse com acúmulo de energia estática ( muito comum entre atritos de materiais isolantes) e, consequentemente, passível de receber essas descargas elétricas em contatos com outros corpos. Sim! Devia ser isso mesmo, de outra forma o que mais poderia ser? Pensando bem até acho que deve ser um fenômeno bastante comum, bobagem minha. Até acho que toda a população mundial já deve ter recebido um choque estático ou anafilático desses na vida.

Essa teoria em base nas leis de Newton me parecia viável. Racional. Parecia factível.

Pura física lógica e explicável.

Disfarcei minha confusão bebericando da bebida que me fora dada por ele, me sentindo um ser tão sociável quanto um autista ou um homem das cavernas. O brilho indefinível que faiscou em suas esferas selvagens acuou- me, fazendo-me questionar internamente se ele notou minha breve pertubação, ou se ele também havia sentido o transbordamento da eletricidade estática passar naquele curto roçar de pele. Por alguma razão idiota e sem sentido eu tinha esperança que a resposta para essa pergunta fosse um formidável não.

Esperança... uma completa filha da puta. Nada mais que uma rameira que desliza sobre seu corpo e te apunhala pelas costas.

_ Então Camus, você é mesmo Francês? _ Perguntou- me ele, sentando- se numa cadeira giratória frente a mesa escritório, cruzando as longas pernas numa inflexível postura. Volvi os olhos em seu rosto de perfeição amoral, sem saber o que pensar da curiosidade genuína infiltrada em seu semblante sempre tão rígido, intransigente, endurecido.

_ Non é evidente? _ Retruquei um tanto seco, tentando não deixar ruir a inexpressividade aderida à minha face. Embora intimamente meu cérebro estivesse dando um nó com aquela repentina conduta amigável, civilizada até, de sua parte.

_ Nem tanto meu caro. Embora admita que com o nome que tem, realmente não poderia ser de outra nacionalidade, contudo Franceses costumam ser mais dóceis. _ Especulou arrastado, num timbre caçoista, sarro, escracho. Fitando- me trocista por sob o copo de gin.

Semicerrei os olhos sentindo o sangue ferver, atiçando- me, ou como se de repente tivesse uma batedeira enferrujada ligada a tomada em meu intestino com sua sutil ironia, irritando- me com sua conotação perjorativa, maldosa. Comecei a pensar em contas de tabuada para não fazer algo perigosamente imprudente, estúpido, algo como atirar o gin do meu copo em sua cara de fidalgo egocêntrico.

Só podia ser o diabo me fazendo pensar essas coisas.

Só que naquele jogo dois podiam jogar.

_ Docilidade não é uma questão de nacionalidade, e sim se a pessoa em pauta merece ou não amabilidades ou tais delicadezas a lhe serem dispensados. _ Devolvi petulante, enfatizando a palavra 'pessoa', arrancando dele uma risada humorada pela impertinência de minha resposta mal criada, supus. Repreendi- me mentalmente por me pegar apreciando o som grave, cristalino, de seu riso belicoso.

Maldito.

_ Ora, ora! Temos uma língua ferina por aqui. O que aconteceu com o doce e gentil sim, sim senhor, você está sempre certo?_ Escarneceu ele sardonicamente com um fogo se acendendo em seus olhos, ainda rindo provocativo, descontraído, inclinando-se felinamente na cadeira, parecendo relaxado comigo ali na sala.

Olhei-o boquiaberto, incrédulo. Ele era um bastardo cretino filho da puta. Um machista sem igual nos tempos modernos. E eu queria muito poder socar aquela cara convencida e arrogante dele que parecia escorrer esnobismo e soberba por cada poro de sua pele como veneno de víbora..

_ Tente a idade da pedra. _ Disparei, olhando-o com o máximo de superioridade como se ele nada mais fosse que um inseto desprezível. Era inconcebível para mim como uma mulher conseguiu criar alguém tão tirano, voluntarioso, dominador, intratável, bárbaro, com pouca empatia e consideração para com os seus semelhantes, sem nenhum sentimento de culpa ou remorso pelas suas ações mesquinhas e vis sempre visando a si mesmo e a realização absoluta de suas prerrogativas egoístas , sem enlouquecer ou perder sua sanidade mental em seu processo de crescimento.

Alguém que não sabia lidar com rejeição e aceitar um 'não' como resposta.

A mãe dele era uma santa mártir que merecia ser canonizada.

Vi a diversão invadir as labaredas azuis de suas retinas, com um sorriso promíscuo abertamente sexual. Senti a vermelhidão esquentar meu rosto. E o chão de repente se tornou muito interessante. Nossa, veja só, magníficas partículas de metal. Quais seriam seus efeitos no sistema pulmonar do homem?

_ Que garoto mais desrespeitoso! _ Acho que esmaguei a capa do livro de Otelo na mão com a saliência indecorosa e explícita de sua voz anasalada. _ Diga-me, você joga xadrez? _ Perguntou num expansivo rompante. Levantei a cabeça abaixada do chão, e me flagrei enveredado pelo sorriso de canto espetacularmente belo toldado em seus lábios devassos, sempre com aquele tique cínico suplantado neles de forma tão convidativa... digo, provocativa.

Cérebro, faça alguma coisa.

Era só uma pergunta boba sobre um jogo bobo, nada demais, algo insignificante e simples como quatro é a soma final de dois mais dois. Simples, simples, simples. Tenha isso em mente.

Malditamente simples.

Não se perca.

_ Sim, jogo. _ Disse, monossilábico, instruindo minha face a permanecer inalterada, neutra, concernido em disfraçar meu desnorteamento com aquele estranho clima estabelecido naquela ante- sala enquanto sugava uma longa dose de álcool do meu copo. Aquele comportamento quase galante dele não condizia em nada com o cretino que ele naturalmente era sem precisar se esforçar para isso. Então porque de uma hora para outra ele passou de calhorda insuportável para se tornar uma compania até engolível em certo ponto? Teria a lua mudado de fase? Os planetas se alinharam?

Ele estava drogado?

Quem era Milo de fato por detrás do véu daqueles olhos traiçoeiros? O que se ocultava por sob os bastidores impenetráveis daquela astuta mente? Por detrás do pódio obscuro de suas deslumbrantes cortinas cerúleas?

Eu realmente não sabia o que pensar sobre suas atitudes.

_ Jogue comigo. _ Intimou ele, apontando com o copo em punho para um tabuleiro de xadrez ancorado em cima do vão, arrancando -me de minha vaga dispersão com seu timbre afiado como uma aguda aljava trespassando- me o reduto incontido da subconsciência.

E foi assim que me vi meio minuto depois atravessando o curto espaço e sentando- me na cadeira da mesa de fronte ao adversário numa amistosa partida de xadrez. Pousei o livro de Shakespeare sob a planície lisa da mesa, ainda mudo, simplesmente porque não sabia o que falar naquela situação irreal, demasiadamente escabrosa, bizarra até, diga- se de passagem, para ser etiquetado com parâmetros convencionais pré-definidos o quão fora d'água e de usuais contexto eu me sentia naquele estapafúrdio roteiro de qualidade duvidosa, parecendo ter sido feito na medida exata unicamente para atormentar minha vida.

Quem disse que viver a vida era simples claramente não conhecia o desastre que eu era.

Parecia um daqueles filmes de zumbis horríveis que o Dite vivia alugando e me obrigando a assistir com ele nos finais de semana no meu apartamento com aquele seu doce jeito de ser, ou seja, com ameaças e gritos, onde de repente você pode ver os mortos- vivos do apocalipse zumbi chegando e não tem para onde correr. Você só tem que se conformar com o desfecho inevitável e esperar que os defuntos andantes não comam seu cérebro.

E eu realmente acho que eu estou viajando, sabe, avoando sem tirar os pés do chão para algum lugar inexistente do meu segundo plano, trocando o lógico pelo ilógico, chamando urubu de meu loro...

Ah, que inferno! O quão forte era a bebida que Milo me dera?

_ Sua vez. _ Comandou ele, alquebrando o silêncio após mover uma peça no tabuleiro, recostando- se em desleixo no respaldo da cadeira e descansando as mãos nos braços do estofado enquanto fixava sua atenção em meus movimentos, aguardando com apurada presteza minha jogada.

Concentrei- me no xadrez, procurando a maneira mais rápida para acabar logo com aquele jogo e me ver livre dele. Pela visão periférica vi-o tombar a cabeça para o lado, pousando seus olhos perspicazes no pequeno livreto de Otelo deitado na mesa que eu havia pego em sua instante. Suas sobrancelhas se arquearam em ceticísmo crítico ao descer os olhos sobre o titulo entalhado na capa. Mordi o lábio inferior sentindo minhas entranhas se enrolarem em si mesmas.

_ Por favor! Não me diga que você é um fã água com açúcar de Romeu e Julieta. _ Proferiu ele com asco, enojado, como se isso fosse um sacrilégio inominável, asqueroso.

Agora isso. Bom, pelo menos isso era algo seguro que eu podia discutir.

_ Não tenho nenhum apreço por Shakespeare e seus melodramas insossos que quase sempre terminam em suicídio. Mas não nego que tenho alguma consideração por Lady Macbeth e pela obra de Otelo._ Disse, todavia sem tirar minha concentração do xadrez. Mexi o cavalo duas casas à frente e virei num único despejo o restante da bebida em meu copo sobre a garganta.

O álcool parecia inundar meu sangue.

_ Ah, a casta e justa Desdemona. Leal e pura. _ Meu coração falhou um compasso com a forma malíciosa e carregada de sentidos duplos com o qual ele deixara escorrer profanamente as palavras 'casta' e 'pura', enquanto suas mãos voltavam a encher meu copo vazio novamente até sua borda com o gin. Enrubesci, certo que meu constrangimento tenha ultrapassado o tamanho do arco do tríumfo. Empertiguei- me no assento tentando camuflar minha desorientação com a maledicência escancarada embutida naquelas palavras casuais tão enganosamente inofensivas.

_ Eu, hum... _ Esforcei- me para conseguir encaixar meus pensamentos embaralhados, enturvados, e aparentemente começando a sofrer pelo influxo do álcool correndo solto na minha corrente sanguínea, liberando bilhões de suas propriedades químicas inibidoras em meu cérebro. _ Eu gosto da justaposição subjetiva da razão e paixão incutida na trama. _ Me expliquei, vendo-o se debruçar sobre o meio fio da mesa após mexer o peão no tabuleiro, pousando em seguida os cotovelos sobre a baqueta, entrelaçando os dedos por sob o queixo, a intensidade de suas esferas faiscantes baixados sobre meu rosto fez minhas pernas amolecerem e vacilarem sobre o banco.

_ Ah, sim, eu mesmo sou um fã crasso da paixão. _ Discursou vagamente, causando um abismal arrepio na minha clavícula e medula óssea com a inquietante fagulha abrasadora luzindo em suas pupilas cobaltos tão pertubadoramente deitadas nas linhas do meu rosto.

Minha mão se fechou com força por debaixo da mesa. Porque suas palavras retóricas pareciam soar tão ambínguas aos meus ouvidos? O que era real e o que era abstrato em seus dizeres? Ainda estávamos falando sobre Shakespeare?

Por via das dúvidas não me dignei a responder ou contrapor seu comentário. Apenas ingeri outra dose reforçada daquela bebida margosa abarrotada em meu copo, estudando minhas peças posicionadas no tabuleiro no intuito de encontrar a rota mais rápida para finalizar aquela partida a ir embora daquela casa mais rápido do que as amantes mortais de Zeus fugiam da ira de Hera quando essa descobria os seus casos extraconjugais.

A sensação que tinha era de estar caminhando esmo sobre uma finissíma membrana de gelo prestes a romper-se a qualquer instante sob meu peso, pondo fim a minha desventurada existência nas mortuárias águas desse açude, ou ainda como um trapezista iniciante tentando manter- se em equilíbrio sob a corda bamba de um trapézio. Eu não me surpreenderia caso minha vida se perdesse assim, nesse idilío. Perdas. Eu já deveria está acostumado a perder. Foram tantas perdas consecutivas em minha vida ainda tão no alvorecer desde... desde quando? Ora, desde sempre. Mas talvez para algumas pessoas esse fosse o curso natural da vida, perder. Há muito que aprendera que existem coisas que simplesmente não podem ser, estão fadadas a apagarem- se tais como as constelações que queimam todo seu brilho com o passar das éras. Talvez resignar- se no fim das contas também seja um ato de bravura, um degrau à mais na escalada para a própria redenção e amadurecimento.

Porventura a plenitude humana repleta de dissabores nada mais era que uma colcha de retalhos de efêmeros momentos felizes costurados por sentimentos bons, doces, inesqueciveis. No rodar do mundo nada é realmente permanente ou imutável.

Nem mesmo a vida...

_ Para onde sua cabeça está viajando Camus? Sua desatenção o torna um alvo fácil para um xeque. _ Sua voz enrouquecida continha um quê de algo indefinido, indistinto, vago, ao despertar- me de minhas divagações. Ergui a cabeça do xadrez do qual olhava sem realmente ver a tempo de vê-lo assoprar uma mecha de seu cabelo que caía em seus olhos, analisando- me ás feições com olhos de rapina, sua mandíbula ligeiramente quadrada estavam travadas numa possessa expressão de pura frustração estampada em seu rosto de serafim caído. Não consegui interpretar aquilo.

Ele realmente parecia um anjo. Um anjo do inferno.

Viajando. Desatento. Sim! Essas eram boas definições. Eu estava mesmo afundado em pensamentos amargurados que se avultuavam como espectros em meu horizonte. Sentimentos que nunca seriam externados, mas tampouco sufocados. Mon Dieu! Quem sou eu e o que fizeram comigo? Esse caos instalado em meus próprios pensamentos só podia ser sequela do choque de ter presenciado uma morte e saber que o meu fim não seria muito diferente do daquele homem, ou então aquela bebida em meu copo era bem mais forte do que eu havia suposto antes... mas que seja então. Até os retos vacilam, mesmo os justos titubeiam. Titubeei. Pronto, sou réu confesso dos meus próprios receios, incertezas e angústias. Vão fazer o que quanto a isso, prenderem- me? Condenarem- me? Penalizem- me então por ser um paradoxo em mim mesmo, por estar confuso e provavelmente dizendo coisa com coisa.

Talvez eu apenas precise de um psiquiatra, ou, quem sabe, de um tratamento de choque.

_ Talvez você esteja certo, talvez não. Contudo considerou que igualmente talvez minha presumida desatenção nada mais seja que um blefe? _ Respondi contido, porém, com uma suave alfinetada de deboche na entonação enquanto avançava duas casas à direita no tabuleiro, arrematando sua rainha desguarnecida com a minha torre. _ Creio que seu pretenso alter ego tenha lhe trazido problemas, Milo. Xeque- mate. _ Anunciei calmamente, escondendo de sua expressão desagradada, desgostosa, pelo resultado da partida um imperceptível sorriso de satisfação, triumfo. Ao menos no jogo eu podia vence-lo.

_ Eu mencionei, Sr. Versalhes, que a última pessoa que foi impertinente o bastante para me derrotar no xadrez foi jogado e torturado por noventa dias no calabouço dessa casa?

Não. Ele não mencionou.

_ Acho que você é um mau perdedor, Milo. _ Apontei com fastio, vendo-o semicerrar às pálpebras enquanto esfregava os olhos com a manga da blusa sentido-os quererem se fechar pelo sono.

_ Prefiro exercícios mais delicados. _ Disse sedutoramente, abrindo um sorriso enviesado repleto em malícia. Senti as maçãs do rosto sapecar em carmim com sua insinuação sem nenhum pudor, descarada.

Era incrivel sua aptidão de querer fazer-me atirar- me de cabeça em uma tempestade em alto mar de cima de uma prancha de navio pirata, ou me enterrar vivo para todo sempre dentro de um sarcófago profundamente escavado em algum lugar meio ao Oásis do deserto.

_ Eu não vou fazer isso de novo com você. _ Esbravejei emputecido sentindo o rosto assar furiosamente em chamas. Deus do céu! Ele não cansa não?

_ Isso o que, Camus? _ Perguntou jocoso, apoiando os braços na mesa enquanto observava- me ardilosamente com um brilho de divertimento tremeluzindo no azul escuro de seus olhos.

Pestanejei. Merde!

_ Isso... quer dizer... especificamente... b- bem... é-é... _ Gaguejei, sentindo a onda de rubor em meu rosto se espalhar como rastio de pólvora do rosto ao pescoço e do pescoço ao colo numa velocidade alarmante conforme me atropelava em minhas próprias palavras. O brilho de divertimento impresso em suas aquamarines cerúleas intensificaram- se sobre mim. Céus! Eu o odiava com a força de mil sóis, o desgraçado. Senti-me um asno idiota, oras, era só uma palavra que eu precisa acrescentar aquela frase, uma palavra muito comum usada por todo mundo que já tem uma vida sexual ativa. Super inofensiva. Sim. Absurdamente inofensiva. _ Isso quer dizer que não vou... digo, que nós não vamos... bem, eu quero dizer que nós não vamos de fato... hum, fazermos um animal de duas costas e tudo mais.

OH MEU DEUS!!!

MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA MATE- ME AGORA...

Um animal de duas costas? Eu realmente disse isso?

Eu é que era um animal estúpido. Um quadrúpede. Um antílope descerebrado. Sim! Porque ao invés de simplesmente cuspir a palavra sexo, ou transar, como qualquer pessoa normal faria, eu havia usado uma analogia de Shakespeare ao ato sexual. Uma citação realmente ridícula.

Alguém poderia por obséquio me apontar o buraco mais próximo? De preferência um bem fundo. Tamanho GG talvez sirva.

Encolhi- me dentro das roupas largas quando ele tombou a cabeça para trás e irrompeu numa sonora gargalhada daquela minha bizarra colocação, acho mesmo que ouvi-o repetir inteligível 'animal de duas costas' entre os intervalos para recobrar o fôlego para em seguida recomeçar a rir de novo. Afundei no banco. Era melhor eu parar por ali com a bebida. Estava começando a achar que eu tinha baixa tolerância ao álcool e estava me comportando feito um babaca por influência do mesmo. Espiei-o por entre os cílios ao escutar seu riso cessar, sentindo o peso de seus azulíssimos olhos postos em mim com uma rara expressão branda moldada em seu rosto.

_ Sua confiança em mim é lisonjeante, ruivo. _ Ironizou o bastardo, sardonicamente. O sorriso exuberante esboçado em seus lábios era de tal falsete que não me admiraria que pudesse derreter até barras de ferro com o veneno ácido imbuído neles.

Torci o nariz sem esconder o desdém. Confiança? Tá ai uma coisa que eu não entregava facilmente pra ninguém. Tudo bem, com a exceção do Dite não é algo que eu entregasse de jeito nenhum.

_ Claro Milo, afinal confiança também é saber lhe dar com o pior. _ Revidei sarcástico, fazendo uso da mesma ironia destilada por ele. E tive o extasiante prazer de ver seu sorriso de mofa fraquejar em sua esbelta face arrogante, embora não entendesse porque ele, alguém tão cheio de si, tenha se deixado atingir por tão poucas palavras ditas por mim, alguém sem importância que ele pretendia descartar assim que se cansasse de minha presença em sua cama. Talvez fosse o peso da verdade. Podia ser, ou não podia?

Seja qual fosse a causa aquilo era inédito.

E de certa forma me fez me sentir um pouco vingado.

E isso foi maravilhoso.

E eu estou bêbado...

_ Você me surpreende Camus. Ainda não conhecia esse seu lado megera. _ Rosnou ele , hostil, cuspindo as palavras.

Abri a boca para retruca-lo, mas a porta batendo me fez fecha- la de novo.

_ Entre. _ Autorizou ele, parecendo colérico com a interrupção.

_ Desculpe pela inconveniência, Sr. Kalomires. Mas há uma ligação em espera transferida para o telefone da sala aguardando-o na linha. _ Comunicou a Sra. Kido ao pé da porta.

Milo suspirou exasperado passando as mãos dentre os cabelos ourados.

Ótimo, eu poderia ir embora agora que ele tinha outras ocupações que não fosse tentar me enlouquecer com suas variações instáveis de humor.

_ Tudo bem Saori. Pode se retirar. _ Grunhiu irritadiço num franzir de cenho, virando toda bebida do copo com os olhos índigos eléctricos insistentemente ainda projetados em mim. Meu queixo tremeu e revirei-me inquieto no assento quando seus olhos se estreitaram e um sorriso perspicaz e malícioso adornou as linhas rijas de suas feições angelicais. _ Ah, Saori, já ia me esquecendo. Avise aos seguranças que o meu convidado não está autorizado a transpor os portões dessa casa. _ Emendou ele veemente e grosso para a serviçal, que apenas acentiu deixando o cômodo, provavelmente para cumprir as ordens despóticas do yakuza.

Olhei-o estático.

_ Você não pode fazer isso. _ Explodi revoltado sentindo o gin tontear minha cabeça.

_ Acho que você eventualmente irá descobrir que o 'não posso' é inválido para mim. _ Disse sério, levantando- se da poltrona.

Quis chorar.

Senti minha respiração ficar pesada quando sem me dar tempo para reagir ou escapar ele apoiou as mãos nos espaldos da minha cadeira, acuando- me de encontro ao estofado com sua aproximação intimidante. _ Você é meu Camus, pertence a mim. E o que é meu ninguém tira. E o que não é, eu tomo a força. _ Sussurrou maldosamente em meu ouvido em um falso tom de confidência, aspirando os fios de cabelo soltos que acobertavam a pele desprotegida da minha tez e pescoço com a ponta do nariz. Estremeci paralisado não me atrevendo a mexer um único músculo com aquela perigosa invasão do meu espaço pessoal.

Louco ditador.

_ Fique aqui. Eu não demoro. _ Demandou ele, resvalando o nariz na minha bochecha e se afastando, desaparecendo pela porta sem olhar para trás.

Enfiei a cabeça entre as mãos sentindo o peso das atribulações recair sobre mim novamente. A minha vida era mesmo uma piada de muito mal gosto, uma tragédia pior que as tramas de Shakespeare e seus finais mortis. As vezes a vida ainda conseguia me surpreender. Uma hora você perde … outra hora você volta a perder e depois perde de novo. E ai quando pensa que tudo está perdido e não existe mais esperança... você perde mais uma vez! É inevitável começar a se cansar de se debater, de dar murro em ponta de faca... cansa... exauri... mina-lhe as forças...a resistência... o homem inventou que a esperança é a última que morre, não que ela seja imortal, o que significa que em algum momento ela também perece... morre... definha como uma enfermidade, um câncer sem cura.

Era assim que eu me sentia. Um medíocre desesperançado.

Abracei o próprio joelho sentindo o frio aumentar naquele cômodo. Sacudindo a cabeça para dispersar os pensamentos pessimistas levantei da cadeira seguindo para perto do fogo aceso da lareira em busca de calor. Ignorei o sofá ali posto, preferido me sentar em cima do macio tapete cinza de algodão aos pés da poltrona que ocupava aquele espaço.

Não sei quanto tempo fiquei ali sentado comtemplando as vívidas chamas estalarem no crepitar da lareira, alumiando em tons rubros toda aquela atmosfera com suas bruxuleantes labaredas. O sono começou a pesar em minhas pálpebras, tornando a tarefa de permanecer com olhos abertos uma ação custosa. Apoiei os braços na almofada do sofá, aninhando ali a cabeça como apoio, não tardando para que eu me entregasse ao chamado da inconsciência restauradora do sono...