O Escorpião Escarlate
10 Final de semana parte 2
Arrependimento...
Era esse o sentimento predominante que me corroía as entranhas, estremecendo o alicerce solidificado de minhas estruturas internas, como um maremoto incontrolável, ou um vendaval sem bonança arrastando tudo o que encontra pela suas veredas ilhadas, ou ainda quem sabe, como as ondas encapeladas ricocheteando indômitas contra as pedras íngremes à beira mar, conforme Milo encurtava em passadas assaz e cadenciadas a diminuta distancia cujo destino final o levaria irremediavelmente até onde jazia estático. Mesmo naquele vago instante tão desacelerado aos meus olhos, congelado pelo redemoinho de incertezas, era impossível não notar a sagacidade destoante e imperiosa de seu caminhar languido. Comparar a eloquência aristocrática e distinta de suas passadas seria tão injusto como comparar a elegância altiva de uma bailarina profissional com uma criança ainda aprendendo a dar seus primeiros passos.
Suas esferas azuis tempestuosas estavam escuras, enegrecidas, dois precipícios sem fundo, sem escape, lembrando-me em seu breu cerúleo o buraco negro suspenso no espaço que tudo traga para o interior de sua penumbra insaciável e nada devolve. A lacuna deturpada de sua mente insidiosa, insana, estava bem ali, camuflada, sempre esgueirando-se sorrateira por detrás daquele único ponto de suas magnificas e sapientes íris revoltosas.
Apertei o aparelho celular ainda inerte em minha palma com mais força do que seria necessário, usando-o talvez como uma válvula de escape para as tormentas que me consumia, deteriorando minha tão presumida coragem como pragas devastando plantios. Engoli em seco a tala ácida que trespassava minha garganta como se fosse soda caustica á base de cianeto, ou uma afilada estalagmite de gelo. Faltava-me a nobre bravura tão imprescindível ás almas retas para ser imune a angustia paralisante, sepulcral, impostos pelo faiscar doentio, tirânico, por aquelas perturbadoras obsidianas, astutas em demasia para se deixar ser lubridiado por ações tolas, ingênuas, imaturas.
Balancei estupidamente a cabeça afugentando os pensamentos intrusos que eclodiam irrefreáveis o limiar ermo de minha consciência desvalida em um momento tão inoportuno. Enfiei rapidamente o aparelho no bolso e relanceei um último olhar em direção à Milo, vendo-o semicerrar os olhos no que me pareceu ser uma espécie de aviso mudo enquanto se desviava de algumas pessoas no trajeto, sem mais delongas virei-lhe as costas adentrando a multidão aglomerada.
Segui reto e sem desvio de rota rumo certo a saída principal da boate após chegar a prudente conclusão que a coisa mais sensata a se fazer era ir embora daquele lugar o mais rápido possível, saindo assim do alcance imediato de Milo antes de acabar sendo pego por ele, o que diga-se de passagem a julgar pela ira flamejante ardendo feito labaredas azuis dançando em seus orbes cobaltos não seria nada bom, para mim, logicamente. Senti um calor frio percorrer minhas artérias linfáticas, oprimindo as costelas de encontro à espinha e afundei o queixo sobre a malha acetinada do goro envolto na garganta. Santíssima virgem do céu! O que eu tinha na cabeça para afronta-lo daquele jeito tão frontal e sem um pingo de instinto de auto- preservação? Pior ainda! Te-lo mandado se foder via telefone? Idiota. Era isso o que eu era, um completo asno com acefalia. O absinto ingerido deve ter liberado excesso de endorfinas no meu hipotálamo e torrado meu cérebro, só podia ser.
Olhei cautelosamente para os lados me certificando de não estar sendo seguido por Milo. Porém para o meu alivio e estabilidade das batidas alucinadas do meu sistema cardíaco não havia sequer sinal de sua presença nas proximidades. Tudo o que se via eram pessoas fumando, outras rirem alto chacoalhando copos de bebidas e garrafas de cerveja enquanto se espremiam uma nas outras sobre o embalo ensurdecedor e enjoativo da musica. Como eu odiava esse tipo de lugar tão avulsa à minha natureza metodicamente pacata, introspectiva, que se olhasse detidamente os pormenores mais se parecia um prostibulo onde as pessoas se dispõem a frequentar em busca de satisfação física, sexo fácil. Havia alguns cantos isolados na parte de trás onde não batia iluminação artificial dos quais era possível entrever alguns góticos escorados naquelas paredes fazendo sabe-se lá o que, embora não fosse realmente difícil presumir ou imaginar se o cheiro enjoativamente nocivo de ópio, maconha, e os gemidos estrangulados ao ritmo de quadris ondulando em movimentos de coito vindos daquela área fosse indicativo de algo.
Eu não estava acostumado com esse tipo de ambiente, e nem estava interessado em me acostumar. Só tinha ido parar naquele inferno por insistência do Dite, só é tão somente por isso, e naquele instante só Deus sabia o quanto estava arrependido de não ter ficado em casa assistindo algum documentário da Discovery Channel acompanhado por meu mais novo vicio compulsivo por chocolate, e também agradecido por já não ter uma crise de asma há muito tempo, caso contrário estaria realmente em apuros no meio de toda aquela “estufa humana”.
Apertei o passo ao avistar a roleta metálica da saída a irrisórios metros de distancia. Contudo nem mais um centímetro fora dado quando tive um ofego de surpresa calado por uma mão pesada tampando minha boca, assustando-me, obrigando-me a puxar o ar para suprir os pulmões pelo nariz, e o corpo içado do chão por um braço de ferro circundando meu ventre. Congelei estático por uma fração de segundo na medida que era levado de volta pelo lado sem iluminação e isolado para dentro da boate, ao reconhecer sem margem de erros o único que tinha aquele perfume marcante, ligeiramente entorpecente e masculino, uma mistura intoxicante amadeirada e sutilmente almiscarado.
Era Milo.
Debati-me tremulo sobre si tentando soltar-me da trava de ferro dos seus braços envolta do meu quadril quando a realidade do que estava acontecendo atravessou minha compreensão sedada com a precisão de uma arma de fogo bélica manuseada por um atirador de elite. Tentei entreabrir os lábios tapados para verbalizar algo, contudo o seu punho áspero comprimido férreo em minha boca impossibilitava qualquer chance de vocalizar qualquer coisa que fosse.
Eu estava amordaçado e imobilizado pelos braços de Milo.
_ Que ingênuo você Camus, achou mesmo que conseguiria escapar assim tão facilmente de mim dentro de meu próprio território? _ Sibilou ele venenosamente como uma víbora, deixando as palavras escoarem da maneira mais suja e maliciosa possível sobre o lóbulo de minha orelha descoberta. Um arquejo de dor escapou num lamento sôfrego dos meus lábios quando ele maldosamente intensificou o aperto do seu braço duro no meu quadril, fazendo-me retrair instintivamente o corpo suspenso do chão contra o seu.
Senti minha respiração se tornar densa, dificultosa, rarefeita, e parei de relutar. Seu território? Claro. Como pude ser tão estupido por não ter juntado os pontos e não ter percebido isso antes? Afinal aquela boate ficava as redondezas de Kabukicho, zona barra pesada da capital Japonesa pertencente a maior facção da yakuza. Drogas, prostituição, escravidão sexual, bares de preços extorsivos, casas de programas, salões de massagens, salões sadomasoquistas, assassinatos sem soluções, narcotráficos, extermínios e chacinas de devedores, dentre outros abusos e ilegalidades ilícitas rolava solta naquela área empesteada pela corrupção, também sendo referida pela mídia como o “submundo do crime” ou “paraíso dos bandidos”. Olhando por essa vértice é inaceitável que eu não tenha associado os fatos e chegado à conclusão obvia que aquela boate fazia parte dos domínios monopolizados da yakuza.
Mon Dieu! Onde diabos eu fora me meter?
Algumas pessoas viam claramente eu sendo arrastado pela escada acima da ala restrita que dava acesso a área vip privativa no térreo, passando próximo aos dois armários dos quais guardavam a entrada de intrusos e invasores penetras que abriram caminho para Milo passar quando o avistaram. Todavia era notório o temor submisso esquadrinhado em suas faces festivas, o medo tornava as pessoas reféns e incapacitadas de quaisquer atitude interventiva. Logo não era difícil supor que auxilio algum adviria daquelas pessoas mais preocupadas em sair do caminho buscando não chamar atenção para si próprios.
Tive a boca destampada por sua mão quando atingimos o patamar vazio da escada, parando defronte uma escura porta de carvalho. Sem dizer uma palavra ele pousou meus pés no chão afrouxando o aperto na minha cintura, embora ainda firme o suficiente para não ter brecha para uma possível tentativa de fuga, e retirou uma compacta chave de bronze do bolso traseiro do coturno da calça. A porta fora aberta revelando um espaçoso camarote ou sala privativa absurdamente requintada levando em conta que o recinto era parte integrante da estrutura daquela boate. Parte do chão era revestido de um felpudo carpete cinza formal, o canto vertical direito era decorado com um mini bar de mogno ônix com uma adega quadrangular de vidro particular embutida na parede em conjunto com uma alongada bancada frontal para assentamento. O teto veniz sustentava dois pares de um ostentoso ventilador de teto, além da vista privilegiada de toda a pista de dança e do bar onde poucos minutos atrás eu estava sentado com Mu na parte de baixo através de um espesso vidro de paisagem que ocupava toda a parede da frente, e que eu sabia ser fumê pelo lado de fora. Porém a mobília mais peculiar naquele cômodo era a imensa mesa de bilhar em formato jukebox ancorado no centro da sala.
Sai de minha rápida observação ao sentir-me ser puxado bruscamente pelo antebraço sala adentro por Milo. Corri afoito, quase tropeçando nos próprios pés para o lado oposto da mesa, contornando-a, uma vez livre do grilhão férreo de sua mão em volta do meu cotovelo. Acompanhei com o coração em disparada e a respiração descompassada ele passar numa lentidão calculada a chave na porta, guardando-a posteriormente no cós da calça.
Entretanto fora quando ele finalmente virou-se para mim que eu soube sem meneios, com a certeza constante de um dia após o outro, o quão desgraçadamente fodido eu estava. O seus olhos safiras queimavam em fagulhas enlouquecidas fixadas em meu rosto, deixando desmoronar em graves rachaduras a impecabilidade de sua máscara descarnada tão bem posta. Permitindo entrever através do outro lado da janela de suas obsidianas viscerais toda essência temerária de seu caráter inescrupuloso, primal, cruel, sádico, destituído de qualquer vestígio aparente de misericórdia, piedade, ou condolência.
_ Camus... Camus...você me obriga a ter de puni-lo por sua impertinência em ousar me afrontar. Hoje vou ensina-lo de uma forma que jamais esquecerá as consequências de me provocar sem nenhuma noção do perigo que isso implica. _ Sentenciou arrastadamente numa entonação sedosa, deliberada, macia como veludo negro bailando ondulante sobre o mais refinados dos cetins. Ericei-me de imediato em alerta com a letalidade embutida no seu tom de voz estranhamente controlada, não condizendo em nada com as chamas astutas, ardilosas, adornando suas safiras obscurecidas como fogo negro com tanta intensidade que poderiam facilmente descongelar algumas calotas polares.
Ele avançou felinamente contornando a mesa de bilhar em meu encalço atribuindo à seus lábios tão maestralmente esculpidos um sorriso repuxado de canto banhado no mais puro sadismo, bestial. Senti minha pressão sanguínea cair alguns compassos e a cor deixar o rosto enquanto retrocedia receoso para o outro lado da sala atrás do balcão do mini bar, quando vi com terror os olhos de Milo alterar-se para um descontroladamente ensandecido, dilatando suas pupilas, nublando-os, enquanto desafivelava o próprio cinto da calça assumindo uma expressão impiedosa, crua, maldosa.
Em passos premeditados ele alcançou rapidamente o mini bar, encurralando-me entre o balcão de madeira e a adega. Em uma centelha de vivacidade e atitude escorreguei ágil sobre o carpete no chão, engatinhando para longe de si ao transpor a pequena bifurcação embaixo da bancada. Valendo-me do curto instante de liberdade me adiantei arfante em direção à porta, mesmo sabendo que ela estava trancada e a chave em sua posse. Não dizem que a esperança é a última que morre? A minha pereceu de morte súbita quando girei a maçaneta constatando o que racionalmente eu já sabia.
Uma risada mordazmente zombeteira vinda dele ecoou debochada pelos quatro cantos da sala, preenchendo meus ouvidos, esmigalhando ainda mais meus nervos que naquele momento não passavam de um pedaço de gelo derretido em um deserto escaldante.
_ Não se desgaste tanto. Você não consegue fugir de mim. _ Falou num tom cortante, desdenhoso, parecendo deleitar-se com o meu indisfarçável desespero. E eu apostava que ele realmente estava. Suprimi a súbita vontade que tive de me encolher abraçado nos próprios joelhos em algum recanto escuro e chorar tentando convencer a mim mesmo que aquilo não estava acontecendo, que era tão apenas uma miragem de qualidade duvidosa projetada pela minha mente exausta pelo cansaço acumulado das ultimas semanas.
Mas evidente que eu nunca daria esse gostinho de fraqueza aquele patife psicótico. Pelo menos não na sua frente.
Estanquei petrificado, sem reação, quando senti as costas embater contra algo solido atrás de mim. Virei-me rapidamente no eixo estremecendo nas bases ao deparar-me com os olhos enegrecidos de Milo pousados no meu rosto. Recuei um passo na tentativa de me afastar dele com o coração subindo pela garganta. Contudo num sagaz e rápido movimento quase não acompanhado pela minha percepção tive o pulso preso por sua mão e o corpo prensado contra a mesa de bilhar.
Mais aterrorizado do que julgava ser possível estar, porém ainda lúcido o suficiente para espernear, relutei, muito embora soubesse ser uma ação inútil. Ele juntou meus pulsos com uma única mão, atando-os com a correia áspera do cinto. Impotente senti suas mãos descerem com destreza até abaixo dos quadris, atordoando-me quando novamente içou-me do chão, deitando-me no vão acolchoado interno da mesa. Olhei-o temeroso e emudecido por debaixo dos cílios, receoso com o porvir. Muito embora milhares infindáveis de suposições passassem pela minha cabeça eu não sabia o que ele pretendia, mas fosse o que fosse eu tinha plena e absoluta certeza que eu não iria gostar, tampouco sair incólume, ileso. Eu tinha total noção que nessas alturas minha aparente inexpressividade tão inerente a minha face devia ter se ruído à um amontoado de pó soprado pelo vento.
_ Você me pertence ruivo. Posso fazer com você o bem entender, ou o que me apetecer. Garanto que depois da lição que vou lhe dar, você não terá problemas em se lembrar disso._ Pronunciou com um sorriso maldoso encerrado em seus lábios enquanto subia em cima da mesa, sentando-se sobre minhas pernas. Contorci-me tentando me livrar dele quando suas mãos ergueram meus pulsos atados acima da minha cabeça, deixando-me acuado, exposto, indefeso sobre o jugo de sua mercê.
Abri a boca pronto para retrucar o disparate de sua falácia prepotente. Mas as palavras morreram na garganta antes de chegarem a ser verbalizadas ao sentir algo gelado e metálico ser encostado no meu peito. Baixei os olhos não conseguindo evitar me alarmar ao deparar-me com uma afiada adaga de lamina dupla reluzindo mortal sobre os feixes do reflexo florescente advinda da luminária entalhada no teto. Arrepiei-me ao sentir a ponta afiada do aço frio tocar minha pele, perfurando a malha fina do tecido da camisa. Senti minha respiração se acelerar e o estômago se revirar enquanto buscava sem sucesso definir o que se passava por detrás do brilho sádico contido em suas esferas cobaltos.
_ M- Milo o que voc...
_ Quietinho. _ Ordenou passando a língua entre os lábios de forma obscena e soprando os fios loiros desalinhados de seus cabelos que caiam rebeldes sobre sua testa bronzeada. _ Porque está tão vestido se logo mais não vai precisar usar roupas para o que tenho em mente? _ Complementou retoricamente me fazendo pousar os olhos arregalados em sua face de serafim negro.
Senti a lamina gélida manipulada por sua mão deslizar precisa do meu peito à barriga, cortando no percurso o tecido de minha camisa polo. A brisa artificial criada pelos ventiladores de teto em contato com meu tórax agora desnudo, causou-me calafrios desconfortáveis nas costas, como se de repente dúzias de agulhas tivessem atravessado meu corpo numa sutura sem anestesia. Seus dedos ágeis desceram com a adaga até o botão da calça, arrancando-a pela costura num rápido golpe. Pisquei sucessivamente atônito quando o senti suspender-me levemente pelo tronco, puxando num esgar a calça retalhada para longe da mesa.
Apenas uma única peça me impedia de esta completamente nu sobre a mira de seus olhos de rapina. Mais precisamente uma cueca box branca transparente.
Eu estava certo que minhas bochechas se encontravam manchadas de vermelho rubro, se o calor saindo delas fosse alguma indicação.
Vi-o dobrar a adaga na bainha retrátil toldado no cabo, guardando-a no bolso traseiro do seu jeans. Com uma expressão sorrateira perpassando em seu rosto de perfeição amoral ele espalmou sua mão tórrida no elástico da minha cueca, rasgando-a num gesto brusco, beirando ao rude.
A conscientização que eu estava completamente nu estirado debaixo de seu corpo sobre o meu, fez-me contorcer nervosamente e lutar contra a amara do seu cinto atado em meus pulsos. Todavia o nó estava muito apertado, o que só causava dor a cada puxão que parecia esfolar a pele na tentativa de me libertar. Podia sentir os cabelos começarem a grudar na minha nuca com o suor, e o corpo completamente mole pela inercia sobre a mesa. Um sorriso cínico tocou seus lábios enquanto fitava com olhos de chacal minhas reações ditadas pelo medo.
Filho da puta.
_ O que foi Camus, perdeu a fala?_ Provocou sarcasticamente apoiando suas mãos cada qual ao lado da minha cabeça e inclinando-se sobre meu pescoço. Senti o goro ali enrolado ser puxado e ele roçar os lábios na minha jugular exposta, sua coxa esquerda subiu insinuante até minha virilha, despertando ali para o meu absoluto horror uma semi- ereção.
Não, não, e não. Mil vezes não. Eu não salguei a santa ceia para merecer isso. Eu me recuso a ficar excitado numa situação dessas, ainda mais por aquele cretino torturador de mentes tão empenhado em fazer da minha vida um inferno.
Por Napoleão Bonaparte! Quantos chicletes eu colei na cruz?
O pior é que eu realmente havia perdido a fala. Principalmente quando ele viu minha ereção bater rígida em sua coxa e me olhou malicioso.
Eu queria morrer agora...
Me arrastar para o fundo de uma ravena e ser soterrado vivo por uma avalanche... e morrer.
Vi ele endireitar os seus ombros pairando debruçado sobre mim e num giro imprevisto me virar de bruços sobre o vão aveludado da mesa pela cintura. Não pude deixar de pensar o quão assustador era a facilidade com que ele manejava meu corpo, como seu eu fosse apenas um leve boneco de trapos. Soltei o ar pela boca quando tentei impulsionar o corpo para cima na tentativa de escapar pela borda superior, acabando por ficar numa humilhante posição de quatro ao firmar os joelhos dobrados na parte interna da mobília. Senti o rubor escarlate aglomerado nas maças do rosto se espalhar por toda face até abaixo do pescoço quando escutei o seu riso jocoso atrás de mim, e não pude evitar fantasiar o quão maravilhoso seria acertar o meu punho no meio de sua cara prepotente.
Se eu pudesse eu o mataria e nem ao menos me daria ao trabalho de tentar esconder o corpo.
Senti suas mãos cravarem nas minhas pernas, puxando-me de volta para baixo, imobilizando-me de bruços no lugar com o peso do seu corpo sobreposto ao meu. Remexi-me agitado, aflito, quando senti seu próprio volume protuberante confinado na sua calça roçar endurecida contra minhas nádegas.
_ Onde pensa que está indo Camus? _ Inquiriu num tom inflexível, arrastando a voz com alarmante malícia, ironia.
_ Para algum lugar longe o bastante de você, seu louco desgraçado. _ Berrei enraivecido sentindo a ira destronar o sentimento predominante de medo que até então imperava absoluta sobre meus instintos, dando lugar à fúria. Eu seria capaz de vender a alma ao diabo só para não ter o prazer negado que seria poder socar sua cara presunçosa até vê- lo cair desacordado, melhor ainda, morto na sarjeta suja do chão.
_ Não se engane ruivinho, o ‘longe o bastante’ é inexistente para mim. _ Afirmou ele roucamente mergulhando o rosto na parte de trás do meu pescoço num tom obscuro, enigmático, indecifrável á minha mente analítica. _ Não pense que me esqueci o quanto você me irritou lá embaixo com sua insubordinação, Camus. _ Emendou numa melódica voz de soprano rente á meu ouvido. Tencionei de imediato debaixo dele. Que tom adocicado fora esse que ele usou? Uma armadilha – gritou uma voz frenética na minha cabeça.
Arrepiei quando senti suas palmas deslizarem serpenteando as omoplatas das costas até atingirem minhas nádegas, apalpando-as numa breve massagem. Contudo sem prévio aviso guinchei me engasgando de surpresa quando uma forte ardência se fez presente na minha bunda acompanhado de um audível som de estalo cortando o breve silencio da sala.
_ Mas... o que...?
_ Você foi um menino mau Camus. E meninos maus merecem castigo. _ Declarou ele tiranicamente interrompendo-me. Me debati bestificado, ultrajado pelo ato indigno executado por ele, como se eu não fosse mais que uma criança malcriada que precisava ser corrigida por desobedecer seus pais.
Meus olhos marejaram contra minha vontade quando sua mão pesada cortou o ar novamente estalando alto contra minhas nádegas de forma crua, punitivamente, magoando a pele sensível daquela área. Arquejei as costas banhadas de suor na medida que outros tapas eram desferidos initerruptamente se juntando ao primeiro, e outros, outros, e outros, até se submeter a um ritmo lento que reverbava cortante pelas paredes do camarote. A cada novo tapa que se repetia podia sentir a pele arder e esquentar onde a mão de Milo que nunca parava acertava implacavelmente sobre as minhas nádegas. A dor mortificante da humilhação e do rancor feriam-me o orgulho bem mais do que sua mão impiedosa me espalmando a pele, marcando-a com os dedos de sua mão, obrigando-me a sufocar os soluços que sacudia-me o corpo e afundar o rosto na camurça acolchoada da mesa para esconder as lágrimas que banhava-me as bochechas.
Quando ele finalmente cessou toda aquela sessão torturante eu já não me mexia mais, apenas fungava choroso. Tinha absoluta certeza que minha bunda ficaria dolorida por dias, talvez semanas. Senti suas mãos massagearem toda o local espalmado por ele que deveria está avermelhado, apertando toda a carne quente pelos tapas recém aplicados por si.
_ Sua bunda fica linda vermelhinha, maculada com as marcas dos meus dedos _ Sussurrou enrouquecido debruçando seu torso sobre minhas costas, cobrindo meu corpo despido com o seu, aspirando meus cabelos desarrumados espalhados em desalinho pelo vão aveludado. Abri a boca com uma resposta ferina queimando para sair na ponta da língua, contudo tratei de fecha-la temendo que minha voz saísse falha, gaguejante, embargada.
Um de seus braços circundou minha cintura, entrelaçando-a num aperto confusamente possessivo, dominador. Senti-o deitar-se sobre mim, afastando minhas pernas e se encaixando entre elas enquanto mordiscava meu ombro com a ponta dos dentes. Arfei afobado quando sua outra mão contornou meu quadril e envolveu meu membro entre seus longos dedos, enrijecendo-o outra vez pela fricção intencional de suas unhas afiadas raspando calculadamente na fenda da minha glande.
Senti minha boca ficar seca como se estivesse num avançado processo de abstinência liquida quando o som metalizado do fecho de sua calça sendo aberta perfurou meus ouvidos ruidosamente, denunciando assim seu intento. Sua mão firmou-se espalmada sobre meu quadril e sua respiração ligeiramente pesada ricocheteou irregular no alto de minha cabeça quando seu falo rígido forçou passagem pelo anel apertado do meu orifício, dilatando aquela cavidade ao se empurrar espremendo-se para o seu interior. A dor rasgou-me insuportável como em archotes de brasas incandescentes com a sensação lacinante de está sendo partido em dois, quando Milo arremeteu-se por completo sem previa preparação numa única e brutal estocada.
Meu músculos tencionaram enrijecidos com aquela abrupta invasão varrendo para segundo plano qualquer pensamento coeso fabricado pela minha consciência tomada pela dor. Cravei as unhas no forro da mesa de bilhar sentindo-me cheio com aquele volume pulsando quente dentro de mim, deflorando-me, tomando para si o que não lhe fora dado consensualmente. Entretanto podia sentir em cada poro de minha pele todo o auto- controle que ele parecia esta exercendo sobre si mesmo para não mover-se de imediato, numa completa deferência com a agressividade latente de sua brusca invasão.
Ele era um paradoxo de contradições indecifráveis em si mesmo, assim como a imprevisibilidade de suas ações explosivas.
_ Não relute contra mim. Apenas relaxe que logo a dor passa. _ Aconselhou com o timbre grave, numa combinação maciça de necessidade e luxuria, massageando a glande inchada do meu pênis com os dedos, arranhado levemente o prepúcio melado de pré- gozo com as pontas de suas unhas, distraindo-me com experiência e astucia da queimação excruciante de ser subitamente rasgado ao meio por seu membro turgido.
Eu só conseguia pensar que ele poderia muito bem me fazer o encarecido favor de ir para a merda ou para a puta que o pariu.
Ele começou a se mover ao notar que estava mais acostumado com toda sua extensão acolhida por completo pela minha entrada. Logo podia sentir seu membro teso vibrar dentro de mim, chegar inicialmente ao fundo com investidas lentas e tortuosas, alargando caminho pelo canal estreito com o vai e vem meticuloso de suas arremetidas, saindo por completo para logo em seguida retornar com mais ímpeto, aderência.
_ Você fica uma delicia com o meu pau dentro de você Camus, fodendo-o. _ Rosnou baixando uma de suas mãos para a lateral do meu quadril, apoderando-se de minha cintura novamente. Gemi afoito quando ele acelerou o ritmo de suas estocadas para uma mais potente, golpeando certeiramente aquele ponto érogeneo do meu interior, causando-me espasmos febris de choque se espalhando por todas as células do corpo que pareciam queimar em auto- combustão.
A malha áspera de sua calça atritava constantemente contra minhas coxas, tornozelos, e as nádegas ainda ardidas pelos tapas desferidos por ele anteriormente, causando uma mescla insana de dor e prazer pela fricção gerada pelo constante atrito. O aroma intoxicante de puro sexo e o som pegajoso de seus testículos endurecidos estalando teso contra minhas nádegas impregnava toda a atmosfera como uma das mais terríveis pragas. Podia sentir uma quantidade considerável de fluidos serem expelidos por sua glande causando um barulho molhado à cada golpe arremetido, lubrificando- me ainda mais com seu pré- gozo escorrendo sobre minha abertura e se perdendo na película verde- grama do forro da mesa, manchando-a com a evidência de seu prazer.
Suas mãos subiram hábeis passando por sobre cima da minha cabeça, alcançando meus braços ainda atados pelos pulsos, soltando- me da amarra encouraçada do seu cinto. Uma vez livre daquele incomodo empecilho que magoava a pele sensível dos meus pulsos, deixando uma muita provável marca naquele lugar, ele retirou-se por inteiro de meu corpo, confundindo-me os sentidos já tão desorientados ao apoiar os joelhos no vão da mesa e virar-me num calculado movimento de frente para si.
Sua blusa preta colava encharcada de suor sobre seus bíceps, peitoril, torso e panturrilhas, flexionados rígidos através do tecido escuro. A franja úmida de seus cabelos loiros cascateados aderiam grudadas na sua testa, pescoço, tez, acentuando a beleza primal de seu rosto de adônis tão arrasadoramente esculpido. Suas obsidianas azuis estavam tão escuras em sua tonalidade natural que beirava ao negro absoluto da mais enegrecida ônix. Ele estalou a língua entre os lábios e posicionou sua ereção maciça novamente na minha entrada, adentrando-a numa potente estocada após encaixar-se entre minhas pernas.
_ Sempre tão apertado_ Balbuciou rente ao lóbulo da minha orelha levando um do seus braços debaixo da minha cabeça, sustentando-a numa espécie de travesseiro. Escondi o rosto afogueado na curva do seu pescoço parecendo ter desaprendido a respirar, não sabendo se expirava e inspirava ou inspirava e expirava. Por via da duvidas tragado pelo redemoinho de sensações avassaladoramente luxuriantes optei por puxar um fio de ar pelo nariz e espalmei as mãos tremulas sobre sua bacia que ondulava rítmica a cada estocada.
Sua palma agarrou o comprimento do meu cabelo, forçando minha cabeça para trás, para as investidas devassas de seus lábios duros que pareciam querer esmagar os meus com a ganancia de seus beijos rudes, indelicados. Sua língua pecaminosa serpenteou maledicente sobre minha boca antes de adentra-la numa ávida exploração, fundindo nossas salivas, roubando-me todo ar dos pulmões, prendendo meu lábio inferior entre seus dentes impecavelmente alinhados. Protestei com um muxoxo lamuriante quando a necessidade de respirar se fez presente e ele se afastou dando-me espaço para recobrar o fôlego, descendo num rastro de fogo molhado sua boca até meus mamilos, intumescendo-os com a sucção ao abocanha-los com fortes chupões.
Ele subiu novamente nivelando seu rosto ao meu e retirou com uma suavidade desconcertante o seu braço debaixo da minha cabeça, deitando-a com cuidadoso zelo sobre o veludo macio da mesa como se eu pudesse quebrar como um frágil porcelanato com o menor dos impactos. Levei as mãos um tanto incerto sobre suas costas musculosas, adentrando-as por debaixo de sua camisa e dedilhei em círculos imaginários com a as pontas dos dedos o grande escorpião escandinavo que eu sabia haver ali. Senti-o estremecer e grunhir intensificando a força suas investidas, fazendo minhas pernas tremelicarem como se eu estivesse tendo uma crise incontrolável de epilepsia pela força primitiva de suas estocadas.
Os gemidos incansáveis que escapavam de minha garganta aumentavam vertiginosamente avisando-me o quão próximo do limite eu me encontrava. Parecendo perceber isso, do nada ele simplesmente brecou os movimentos, largando-me num estado febril, queimando como a fogueira da inquisição na própria ânsia por alivio, liberação, tentei força-lo a se mexer empurrando-o com a ajuda dos pés, conseguindo apenas com o ato agoniado arrancar-lhe uma risada presunçosa.
Maldito manipulador desgraçado.
Ergui os olhos para confronta-lo piscando algumas vezes para conseguir obter algum foco ou lucidez, e ele me encarava maliciosamente por debaixo dos espessos cílios escuros com o rosto perigosamente próximo ao meu. Ele enviesou os lábios num sorriso torto de canto, provocativo, com o seu membro ainda pulsando parado dentro de mim.
_ Peça para que eu te faça gozar. _ Mandou numa entonação distorcida, despótica. Meu queixo caiu em incredulidade por tamanho egocentrismo e presunção, e se não fosse tão bem colado ao maxilar provavelmente continuaria caindo.
Naquele momento eu queria sim que ele me fizesse gozar, e como queria. Mas ele estava sonhando ou me subestimando se realmente achava que eu faria algo tão infame quanto pedir para ele continuar a me foder. Semicerrei os olhos olhando-o com máximo possível de desdém que a situação vexatória me permitia.
_ Continue sonhando no país das maravilhas seu grande filho da puta. _ Respondi rilhando os dentes pouco me lixando naquela altura do campeonato por ter- lhe xingado em alto e bom som. Eu queria mesmo era erguer as pernas e dar uma joelhada memorável bem no meio das suas e deixa-lo com o pior caso de saco roxo que um homem poderia ter já registrado na historia.
Eu poderia jurar que ele me agrediria pela resposta atravessada, me deixaria na mão com os hormônios em ebulição, ou até mesmo me espancaria até entrar em coma ou desfalecer. Mas eu não poderia jurar que ele simplesmente jogaria a cabeça para trás e gargalharia me olhando de um jeito como se eu tivesse agido exatamente como ele esperava. Porém tive que disfarçar o quão temeroso eu fiquei quando ele retirou minhas palmas ainda pousadas em suas costas e prendeu-as deitadas com as suas mãos contra o revestimento da mesa.
_ Resposta errada. Ande, peça por favor com gentileza, Camus. _ Repetiu a ordem com uma expressão odiosamente arrogante.
_ Por favor! Por gentileza, vá se foder. _ Escarneci cuspindo as palavras. Eu morreria com uma puta ereção antes de chegar a me rebaixar a lhe implorar qualquer coisa que fosse.
Céus! Como eu o odiava.
_ Acho que você prefere mais o contrário, Camus. _ Maliciou belicosamente fazendo-me contorcer em espasmos ao retomar suas investidas de forma mais devastadora, castigando minha entrada com os potentes golpes de suas estocadas.
Suas mãos soltaram as minhas sem jamais deixar de fixar seus olhos dilatados de meu rosto, parecendo não admitir ou aceitar perder nenhuma das menores reações que eu esboçava. Arrebatado pelo mais puro êxtase de prazer infindável entrelacei as pernas em volta de seus quadris puxando-o para ainda mais fundo naquela posição. Vibrei internamente ao escuta- lo soltar um gemido abafado de deleite surpreendido pela ação inesperada.
O tecido seco de sua calça resvalava continuamente contra minha ereção latente batendo rígido pouco abaixo de sua barriga, roçando-a numa continua e torturante fricção. Ele mergulhou a face orvalhada de suor em minha jugular lambendo toda sua extensão até a clavícula e o pomo de adão, deixando um rastro de vermelhidão causada por sua barba rala por fazer e lava liquida em cada pedaço de pela que sua língua lasciva tocava. Meus gemidos se tornaram rajadas sonoras graves quando Milo atingiu com precisão sua glande inchada e quente contra minha próstata, surrando-a impiedosamente com suas estocadas brutais.
Senti minha mente esvanecer ficando turva, vazia, incapacitada de formular quaisquer resquício de pensamento eloquente. Meu corpo inteiro convulsionou em espasmos parecendo almejar desfalecer na mais sublimes das perdas do sentido a qualquer instante em cima da mesa, e sem mais nem uma corda de domínio sobre mim mesmo cheguei ao meu limite me derramando fortemente sobre sua mão que se apoderara do meu membro no último derradeiro segundo.
Desabei sem forças sobre o forro acolchoado, exaurido, fatigado, debilitado pela intensidade pós- orgasmica. Senti meu canal se contrair, estreitando em suas paredes internas a ereção maciçamente endurecida de Milo. Vi os músculos de suas costas se contraírem sob as pálpebras semicerradas pela letargia e suas mãos descerem por entre minhas coxas, apertando-as com força desmedida o suficiente para deixar a marca carimbada de seus dedos rudes ali, e desferir urrando mais algumas estocadas antes de despejar em jatos quentes toda sua excitação viscosa e esbranquiçada no meu interior.
Seu corpo tombou sobre o meu, usando todavia suas pernas como suporte para não sobrepor-me com todo seu peso. ele encostou sua testa suada na minha, liberando sua respiração quente e descompassada no meu rosto corado pela atividade recém praticada. Senti-o mover preguiçosamente seu membro ainda aninhado no meu interior, terminando de esvaziar por completo seu gozo antes de retira-lo agora flácido de sobre mim e guarda-lo de volta ao confinamento da cueca.
Ele se levantou de cima de mim descendo felinamente da mesa com a agilidade mercenária de um lince em dia de caça. O silencio pesado que se instalou na sala só era quebrado esporadicamente pelo som agudo das respirações, constrangendo-me no sentido mais ácido que a palavra abrange. Sentei-me a beira da mobília evitando propositadamente esbarrar com seus olhos viscerais que eu sentia está pousados em mim.
Eu queria uma picareta agora para cavar um túnel bem fundo até o centro da terra.
Um gemido dolorido se esgueirou para fora dos meus lábios quando minha traseira violada e ardidas pelos tapas aplicadas por sua mão entrou em contato com a madeira fria da bancada de bilhar. Ótimo! Eu provavelmente andaria como um pato por semanas.
Cerrei os punhos ignorando-o como se apenas eu estivesse ocupando aquele espaço quando sua risada cínica tilintou em meus ouvidos repleto de escarnecimento por aquela infâmia ultrajante. Era mais do que evidente que ele se divertia com o meu visível desconforto.
Canalha desprezível.
Olhei consternado para o que um dia fora minha roupa, sem saber como diabos sairia dali se até minha cueca não passava de um monte de farrapos empilhando o chão. Perfeito! Mais um aborrecimento para se juntar a lista. O que seria do bolo sem a cereja?
_ Vista-se com isso. _ Ditou Milo estendendo-me um pesado casaco sobretudo preto, que com à exceção dos pés há julgar pelo tamanho deveria cobrir todo o corpo. A contragosto levando em conta minha aversão por qualquer coisa que vinha dele, mas também não desejando continuar nu sobre seus olhos com um frio glacial avizinhando- se do lado de fora, aceitei a peça de agasalho oferecida por ele.
Pulei sobressaltado da beirada da mesa apressando-se em me vestir quando alguém bateu insistentemente do outro lado do batente da porta, rompendo o estranho clima que havia se avolumado naquele camarote. Pelo menos para mim, já que a postura despreocupada de Milo não deixava antever nenhum desconforto aparente de sua parte.
Em vez de se preocupar em abrir a porta ele meramente limitou-se em levar as mãos nos bolsos, apalpando-os, retirando de um deles uma caixa de maço de cigarros e um isqueiro, e acender um, levando-o incandescente de forma relaxada entre os lábios zombeteiros. Ele não parecia remotamente interessado em atender quem quer que fosse que batia na porta. Entretanto uma rápida centelha de irritação atravessou suas feições endurecidas quando as batidas ao invés de cessarem se intensificaram, tornando-se intoleráveis ao ouvidos, impossíveis de serem simplesmente ignoradas.
_ Se está com pressa arromba a porta com os chifres seu filho da puta. _ Disparou ele praguejando num tom de voz alto o suficiente para ser ouvida pela pessoa do outro lado.
_ Milo, seu safado mau acabado, eu sei que sou fodasticamente gostoso pra caralho e que você me ama, mas sinto lhe informar que não vai ter Kanon para você. Sabe como é, você não faz a porra do meu tipo. _ Provocou marotamente uma voz chauvinista que eu conhecia muito bem da noite que fui ameaçado por Milo e mantido em cárcere privado num dos quartos de sua propriedade.
Vi Milo dar uma prolongada tragada no cigarro e revirar os olhos em escárnio.
_ Diga de uma vez o que quer Kanom, não estou com humor para aturar seus gracejos esganiçados e sua irritante voz de gralha carcarejando em meus ouvidos. _ Volveu Milo numa entonação ríspida, passando a mão canhota de forma enfadonha e exasperada nas cascatas em desalinho de seus cachos d’ouros.
_ Quanto stress! Mas que seja. Por mais que eu deteste servi de carteiro daquele juiz carniceiro a informação relatada por ele é de seu total interesse. Se bem que é quase certo que o seu humor vá piorar instantaneamente com o vazamento das últimas informações que me foram passadas por aquele otário pomposo! Agora será que dá para pra pelo menos fingir ser um anfitrião civilizado e abrir a porta, ou prefere que eu grite daqui mesmo para toda boate ouvir o recado?_ Disse Kanon de forma trocista, pilhérico. Alguns músculos do rosto de Milo se contraíram numa expressão de desagrado, esmorecendo à despreocupação de sua postura relaxada para dar lugar a uma endurecida, sombria, antes dele sacar o pequeno molho de chaves da calça e se dirigir ao batente da porta.
_ Não saia daqui. _ Ordenou autoritário dispensando-me um rápido olhar. Enruguei a testa unindo as sobrancelhas com uma indisfarçável ponta de aborrecimento e chateação vendo-o atravessar o eixo da porta rumo ao corredor, deixando-a convidativamente entre- aberta. Digo! Ele realmente achava que podia me dar ordens e ainda ter a pretensão de crer que eu iria de fato acata-las?
Oh, ledo engano...
Embalado pelas minhas próprias convicções monoteístas forjadas desde tenra idade pela minha independência, desci com os pés descalços da mesa apertando o grosso sobretudo sobre o corpo ao sentir a sola aquecida em contraste com o frio térmico do chão metálico. Calcei meus sapatos espalhados ao redor do imóvel de bilhar e recolhi meus objetos pessoais no compartimento do que outrora fora minha calça. Pus minhas chaves, carteira e celular no bolso frontal do casaco dobrando a longa manga da mesma, que por ser grande demais para o meu tamanho caia cumprido engolindo completamente minhas mãos.
Segui na ponta dos pés até a porta parcamente entre- aberta tentando ser tão silencioso como um gato. Me esgueirei na pequena abertura distinguindo a forma de Milo e Kanon de costas numa sacada com vista para a rua desértica vinculada no lado dos fundos da boate. Fosse o que fosse que Kanon reportava para Milo ele parecia absorto com o cigarro dançando entre os dedos, compenetrado em absorver as informações que lhe chegavam ao conhecimento.
Em passadas leves buscando ser tão discreto quanto a situação exigia venci o curto trajeto do corredor, alcançando sem contratempos o hall da escadaria. Felizmente não fora barrado pelos dois sentinelas que faziam guarida naquela área, que apenas se limitaram à me lançarem olhares sujos, lascivos, maliciosos, de certo imaginando com precisão quase profética o que havia acontecido no andar de cima. Claro! o fato de eu provavelmente estar desgrenhado, amarrotado, e portando um providencial sobretudo do qual não fazia parte do meu vestuário quando fui arrastado por Milo para o térreo não desmistificava de forma alguma, apenas contribuía, para o quadro obsceno que de certo suas mentes pérfidas deveriam está tecendo.
Santo Deus! Que vergonha.
Antes de atravessar o arco da saída pude vislumbrar Mu aparentemente entretido numa acalorada conversa com um peculiar loiro de aspecto severo, taciturno, rígido até, eu diria, bebericando distraidamente o que supus ser uma dose de tequila considerando a cor acre do liquido sendo rodado no copo cristalizado na mão destra do homem e trajando uma roupa formal que exalava conservadorismo. Quer dizer! Era bem atípico, isso para não dizer anti- natural, alguém usar terno e gravata aparentemente Armani numa boate gay de idoneidade duvidosa no subúrbio da cidade onde a violência e o descaso das autoridades competentes imperava absoluta. Tentei não focar os pensamentos preocupados nos mais variados tipos de estripulia que o Dite sozinho era capaz de se meter num lugar daqueles sem uma supervisão responsável para freá-lo em seus excessos, ainda mais quando ele passava dos limites na ingestão de bebidas alcóolicas. Da última vez que ele exagerou no consumo eu acabei tendo que reboca-lo de táxi ás 03:45 de uma madrugada excepcionalmente gélida no centro recreativo do parque nacional, dormindo quase nu dependurado em cima de um frondoso galho de uma árvore centenária.
Escutei o toque clássico de Mozart advindo do meu celular ressonar melódica no silencio sepulcral da rua, despertando minha atenção. Puxei-o do casaco prevendo se tratar do Dite exigindo saber onde raios fui parar que não estava mais sentado com Mu no balcão do bar. Porém um calafrio agudo cortou minha espinha juntamente com minha suposição quando visualizei o nome de Milo piscando no visor da tela. Rejeitei a ligação sem sequer pestanejar e como a chamada persistia em seu intento coloquei-o no modo silencioso, e o devolvi para o fundo do sobretudo. Um singelo sorriso de satisfação brincou em meus lábios ao imaginar a cara de Milo quando retornara ao camarote e encontrou o lugar vazio. Mesmo ciente que eu estava cutucando um leão assassino com a varinha do Harry Potter ou com um palito de dente eu não conseguia me importar, na verdade quis rir do absurdo surrealista da minha situação. Chame de humor negro se quiser, eu realmente não me importo, até porque essa definição era muito cabível nas circunstancias atuais.
Dobrei a esquina computando numa escala de 1 a 10 qual a probabilidade de eu arranjar um táxi naquela área inóspita da periferia e chegando a catastrófica conclusão que a resposta é nula, zero absoluto, temperatura ambiente cientificamente comprovado onde a água se congela por completo cessando toda atividade atômica e molecular.
O jeito seria ter que me deslocar cerca de uns dois quarteirões até avenida mais próxima se quisesse encontrar um ponto de taxi naquela principio de madrugada. A temperatura havia caído drasticamente o que era incomum levando em conta que estávamos no outono. Podia sentir as lufadas gélidas do vento fustigarem as maças do rosto, me fazendo encolher ainda mais dentro do casaco quentinho e enfiar as mãos nos bolsos do mesmo na tentativa de aquecer os tendões dormentes dos dedos.
Atravessei o que me pareceu ser a rua principal daquela periferia, trocando o passo curto que antes dava para um mais longo, incomodado com o silencio incomum das ruas desérticas. Fiz uma cara de desgosto quando adentrei uma travessa ao lado de um prédio em construção que mais parecia um deposito de lixo do porto desativado. Havia centenas de containers enferrujados empilhados uns sobre os outros na parede de concreto, contendo toda sorte de sucata, guinchos, ferro velho, e barras de metais descartados. Fora os largos moldes de vidros quebrados, riscados e rachados, desfeitos perigosamente sem isolamento ou proteção adequada, abandonado de qualquer maneira numa rua de circulação pública. Levantei a cabeça visualizando uma figura mais a frente, iluminada apenas pela luz da lua crescente. Ignorei-o voltando a acelerar o passo.
Assim que nossos caminhos se cruzaram, já que andávamos em sentidos contrários, senti-me sendo inspecionado de cima abaixo pelo olhar do estranho perpassando sobre mim. Estremeci convicto de que não fora pela baixa temperatura e tentei continuar a andar, porém, senti uma mão segurar meu braço fortemente. Tentei desvencilhar-me daqueles dedos rígidos, mas falhei. Sem entender realmente o que acontecia, senti-me sendo facilmente empurrado pelo tronco contra a parede pichada, e logo, dedos grossos passavam por minhas nádegas. Foi então que compreensão atingiu-me do que se tratava. Eu estava prestes a ser estuprado por um completo desconhecido na solidão vaga de uma rua abandonada.
_ Você tem uma bunda maravilhosa, porque não rebola ela em cima do meu pau? _ Arrulhou num tom pastoso, bafejando seu hálito fétido no meu pescoço. Fiquei rígido ao sentir suas mãos nodosas tentar forçar o sobretudo que usava para fora do corpo, cônscio que nada mais usava debaixo daquele casaco.
Entretanto fora as duas fendas de seus olhos ébanos que me gelaram no mais recôndito âmago da alma. Sim! Porque quando comtemplei aqueles orbes mais vazios que tumba oca caiada, apagadas, opacas, eu soube, tive a completa e plena certeza, de que não me restava muito mais tempo de vida. Eu não só seria estuprado como também iria perecer depois da violação consumada, ali mesmo, nos braços daquele desconhecido, um qualquer.
Engraçado como a vida podia ser um reality Show. Uma sucessão de artistas que entram e saem de um picadeiro sem fim. Cada qual carregando seu papel já tecido pelas Moiras que fiam desde os primórdios da humanidade o destino dos homens incansavelmente em seu tear, um efeito dominó que culmina em situações fora de suas capacidades, momentos relâmpagos que definem toda uma existência, ou tão somente o marco de uma morte. Sempre credite meu papel na vida como o de coadjuvante de outros personagens de melhor cunho ao meu redor, nunca como o protagonista senhoril de meu próprio destino. Certamente um coadjuvante merecedor de um Oscar, mas ainda assim tão somente um coadjuvante. Ou como declarou Shakespeare já definhando seus últimos dias “ A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios”.
Oh! A vida para mim no momento nada mais era que uma viúva amarga eternizando seu luto.
Virei a face para o outro lado buscando escapar do toque repulsivo de sua boca asquerosa, pútrida, resvalando contra a pele descoberta da minha jugular, ferindo minhas narinas com o odor pungente de ópio emanado por suas roupas surradas, me enchendo de um asco tão intolerável que nunca até então julguei ser capaz de desenvolver por alguém, ainda que esse alguém em questão não passasse de uma escória.
_ Sabe garotinho, não sei quem foi tão irresponsável de deixar uma gracinha doncel como você vagar desprotegido por essa parte sem lei da cidade. _ Falou rindo de forma hedionda, abjeta, provocando uma vertigem insuportável de enjoo se revirando em engulhos em meu estomago.
Fechei os olhos tentando me concentrar em qualquer outra imagem que não fosse aquele corpo asqueroso pressionando o volume protuberante de seu membro ereto sobre o meu, e as feições distorcidas de prazer antecipado moldado em seu rosto grosseiro. Ironicamente a única imagem que minha mente teimava em invocar eram cenas aleatórias de Milo vivenciadas naquela última semana. As ameaças constantes, o assédio, a coação, o sorriso mordas sempre esculpido em seu rosto, o cinismo enervante continuamente impresso em seus olhos cerúleos que sempre variavam para outros tons dependendo de seu humor inconstante, bipolar, indo desde um azul Aquamarine para o mais escuro dos cobaltos. Dizer que ele era complexo não tocava nem mesmo a ponta do iceberg. E porque inferno minha mente insistia em se apegar a esses fragmentos de memórias? Insano. Era isso. Eu estava pensando coisa com coisa...
Não pude terminar de concluir os pensamentos relapsos que transpassavam minha consciência devido a uma forte pressão exercida sobre meu peito, fazendo todo ar escapar dos meus pulmões.
Algo havia me jogado no chão com toda força, tirando-me dos braços do meu agressor. Ferido pelo abrupto impacto, arrastei-me no chão, saindo o mais rápido que podia de perto. Quando já não aguentava mais, talvez pela dor espalhada por todo o corpo ou talvez pela curiosidade genuína do que havia acontecido, parei encostado na lataria de um dos containers, sentando-me no chão e ergui a cabeça para cima buscando me situar. Senti o chão sumir abaixo de meus pés e o corpo petrificar quando me deparei com a visão aterradora de Milo segurando aquele ser que havia tentado me estuprar pelo pescoço, suspendendo-o do chão. A visão era por demais impressionante. Se ele havia conseguido suspender alguém que facilmente havia me dominado, o que ele não poderia fazer comigo se assim não quisesse? Senti um frio sepulcral percorrer todos os meus ossos e mumifiquei paralisado. Os olhos azuis de Milo estavam escurecidos, injetados, destilando um ódio que eu não queria nunca ter voltado para mim.
Me afundei contra o casaco abraçando os próprios joelhos levemente esfolados pela queda tendo à perturbante certeza que aquele cara dependurado grosseiramente pelo cangote deveria começar a se preocupar agora com sua própria segurança...
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