O Escorpião Escarlate
7 A flor da pele
Notas iniciais
Estanquei petrificado.
Mon Dieu! O que aquele mafioso filho de uma dama que mantém relações extraconjugais fora do casamento fazia ali no portão de entrada da faculdade?
Engoli em seco essa e outras dúvidas saqueando-me a consciência aturdida como um ladrão fantasma de alto escalão altamente capacitado, enquanto tentava, porém fracassando miseravelmente, manter a face impassível perante o olhar implacável de Milo postos em mim, devorando-me de forma lascívia dos pés a cabeça, com os olhos azuis escuros faiscando malícia e um sorriso cínico delineado em seus lábios perfeitos.
Não. Eu não tenho um bom pressentimento sobre isso. E porque o infeliz ônibus não passa quando precisamos dele? Droga! Isso não é bom. Isso não é nada bom. Maldita hora que resolvi vir para a faculdade hoje. Com certeza eu teria ganho mais se tivesse permanecido no refugio acolhedor e aconchegante de minhas cobertas, entupindo as artérias de glicose por me empanturrar de chocolate meio amargo. Sim! Eu sei. Isso soa deprimente e sedentário, sem mencionar no alto risco em acabar tornando-me uma baleia jubarte no processo. Mas pelo menos, na melhor das hipóteses, eu não estaria aqui agora hiperventilando e suando frio feito um claustrofóbico reumático com sintomas evidentes de um principio de uma síndrome do pânico.
Patético.
” Tudo bem, respira e inspira. Mantenha a calma e as rédeas de suas emoções. Isso. Não há razões risíveis e justificáveis para surtos neuróticos. Não vai acontecer nada de demais. O fato dele está ali não significa que tenha algo a ver com você. Afinal a rua é publica, não é?” Disse racionalmente para mim mesmo. É possível que ele algum conhecido estudando por coincidência na mesma instituição que eu, aquela faculdade era a maior de Tóquio, portanto essa teoria não é totalmente improvável. Ou talvez ele esteja aqui, sei lá, para cometer um homicídio doloso. Vindo de Milo definitivamente eu não me admiraria com essa possibilidade. E o que é aquela protuberância no cós de sua calça?
Kami- sama ! será que ele trouxe uma arma para a faculdade?
Recuei instintivamente alguns passos para trás encolhendo-me acuado debaixo da blusa sentindo o coração martelar oco nas costelas, parecendo querer perfurar minha caixa torácica e fugir para nunca mais voltar, quando Milo desencostou-se ferinamente da porta do sedã e começou a vencer a distância que o levaria onde me encontrava.
Se tivesse um buraco ali agora eu pularia dentro sem pestanejar com um sorriso agradecido no rosto.
Ele caminhava de maneira predatória, me fazendo lembrar de uma serpente ondulante e sinuosa prestes a dar o bote. Contudo também havia elegância desenvolta e fluida em seu porte, beirando ao aristocrático. Era irreal até para minhas próprias concepções o quanto Milo me desestruturava com sua presença, num paradoxo de atração e repulsão.
Sabe, quando se vai avaliar se uma vida é trágica ou não, é imprescindível pesar a profundidade das adversidades e perdas que a pessoa teve. Mas a verdade inegável é que a partir do momento que afirmamos que existem indivíduos passando por situações piores do que a nossa, só estamos tentando escapar da realidade, iludindo-nos com pretextos e frases decoradas de auto- ajuda, numa vã esperança de convencermos a nós mesmos sobre algo com o qual não estamos psicologicamente preparados para lhe dar. Então se alguém me questionar se eu considero minha existência trágica, apesar de eu não suportar dramas engrolados e previsíveis típicas das novelas Mexicanas dos quais o Dite sempre chora no último capitulo, ou ainda os contos literários de Shakespeare que até hoje me fazem indagar quais foram os critérios utilizados para elegê-lo como o maior romancista da era Vitoriana, sendo que ele era uma fraude bajuladora e letrado que não sabia escrever o próprio nome, iriei responder sem pestanejar o quanto minha vida é um grande excremento. Nasci com o estigma amaldiçoado de um dóncel, minha mãe faleceu no parto, sou um estrangeiro numa terra hostil e estereotipada, perdi meu pai em um acidente de carro provocado por um burguês alcoolizado pertencente à elite tradicionalista Japonesa, que nem detido fora por conta da influência e do alto poder aquisitivo de sua família, quase fui estuprado numa rua asquerosa, fui sequestrado, chantageado, humilhado, ameaçado e como desgraça pouca é bobagem agora tem um psicopata problemático me perseguindo. Então meu diagnóstico é simples e irrefutável. MAIS QUE DROGA DE VIDA É ESSA?
Fechei os olhos não suportando mirar aquela odiável expressão sardônica adornando a face de Milo, era preocupante e suspeito demais. Ah! Como eu gostaria em voltar a ser somente o nerd quatro olhos fracassado e invisível, tão insignificante que os professores não raramente chegavam esquecer o meu nome na hora da chamada. Você sabe, aquele cara esquisito e sem vida social que ninguém vê, que já sofreu bulling nas mãos dos valentões acéfalos e skinheads no ensino médio por ser uma aberração ruiva que nunca saia da biblioteca na maior parte do tempo. Tudo parecia mais fácil naquela época.
_ vai á algum lugar ruivo? _ Arrepiei-me com o efeito submisso que aquela voz rouca e dominadora impunha sobre mim, enfraquecendo minha vontade. Eu não precisava abrir as pálpebras para saber quem havia falado comigo. Lógico que é ele. Eu reconheceria aquele timbre grave e inconfundível mesmo se eu estivesse no meio de uma multidão ensurdecedora. Apertei nervosamente a alça da bolsa recostada na lateral de minha cintura, buscando camuflar de seus olhos sagazes as reações aterradoras e conflituosas causadas por sua aproximação.
Reunindo as migalhas de coragem ainda existente em meu interior abri abruptamente os olhos, apenas para ser tragado pelas profundezas oceânicas daquelas insondáveis obsidianas cerúleas deitadas sobre mim. Mergulhar na magnificência límpida daqueles orbes cobaltos tão belamente esculpidos era como atirar-se desprotegido no vácuo de um abismo íngreme, letal, inescapável, absorvendo-o para o turbilhão de seu centro opressor e destrutivo. Eram olhos impiedosos de alguém que há muito perdera a razão, e foi então que, mais uma vez, pude enxergar sua insanidade deturpada e tirânica esgueirando-se por detrás de sua fachada sedutora tão bem colocada.
O quão controverso aquele homem poderia ser?
Dizem que quando você olha para o breu sem fundo de um abismo por demasiado tempo, consequentemente o abismo terminará notando sua presença, sugando-o na penumbra de sua imersão. Eu poderia contradizer essa vertente com argumentos práticos e menos figurativos. Contudo essa citação nunca fez tanto sentido do que nesse vago instante paralisado ali, comtemplando impotente à força visceral jorrada por aqueles orbes belicosos.
Eu me sentia uma lebre hipnotizada pelo encanto de uma naja.
Pode parecer narcisista, e talvez seja, mas de certa forma Milo lembrava-me um diamante rustico. Quer dizer! Um diamante se caracteriza por ser belo e ser a única pedra preciosa afiada o bastante para dilacerar coisas, além de ser a única joia existente capaz de riscar outro diamante. Assim era Milo, possuidor de uma beleza devastadora, desconcertante, deslumbrava facilmente sem precisar usar de artifícios ou subterfúgios para tal. Mesmo agora era possível escutar suspiros audíveis de fascinação vindos dos estudantes que começavam a deixar os portões da faculdade, atraídos por sua figura magnética.
Todavia por mais bem talhado que seja um diamante ele possui um defeito irreversível. Era duro, cruel até, eu diria. Sua aspereza mesclada com sua inflexibilidade tornava-o capaz de destroçar o mais resistente dos vidros, esmigalhar quaisquer outra pedra inferior á sua força. E ele é assim, sabe, dilacerava vidas sem se importar com nada nem ninguém que não seja a si mesmo e seus caprichos egoístas. Usava e abusava de quem caísse em suas mãos vis e depois descartava sem remorsos como um joguete que perdeu sua diversão e utilidade. Eu só podia esperar que quando a mesmice e o enfado chegassem, e chegariam, ele não me aniquilasse como uma barata suja rastejando na sarjeta. Porém penso que é imbecilidade esperar complacência genuína de uma pessoa como Milo, não de um ser humano tão calculista, sangue frio, que tomava decisões mesquinhas e planejava frigidamente suas estratégias. Ele era perito na arte da manipulação, de tal magnitude que você custa a perceber as cordinhas sendo manipuladas, e quando finalmente percebe o mais provável é que seja tarde.
Eu é que o diga.
Pisquei os cílios aturdido, dando-me conta que em minha imersão de pensamentos incoerentes encarava Milo intensamente por mais tempo do que seria admissível. Enrubesci em vários tons de carmim enquanto ele me olhava com uma sobrancelha arqueada e uma expressão indecifrável. Queria uma pá para cavar uma cratera até o núcleo da terra. Que constrangedor.
Merde! Porque um cometa não despenca sobre meu crânio agora?
_ E-eu n-não v-v-vou á lugar nenhum _ Gaguejei nervosamente, intimidado com sua presença. Só uma coisa ecoava na minha cabeça. O que ele queria?
Ele parecia se divertir apreciando assistir cada reação nervosa e desconcertada de minha parte. As pupilas cobaltos cintilavam astutamente como as de um chacal registrando o mínimo movimento executados por mim, sendo eles conscientes ou não. Ele me lembrava um traiçoeiro escorpião negro do deserto circundando sua presa, antes do bote. Engoli em seco a trava entalada na garganta com esse último pensamento nada reconfortante.
_ O que faz aqui Milo? _ Perguntei gélido recuperando a compostura perdida. Reconheço, ainda que a contragosto que ele me afetava, atemorizava, eu assumo isso nem que seja para mim mesmo. Mas não cometeria o erro de deixa-lo ter conhecimento desse fato.
Sua expressão se tornou soturna, premeditada. E compreendi de imediato pela sua postura corporal rígida que aquela era uma pergunta que ele não esperava, e não desejava, que eu tivesse feito. Desnecessário dizer que todas as alavancas de minha curiosidade foram acionadas no nível máximo. Eu não me considerava uma pessoa invasiva no que não me diz respeito, mas sua reação indisfarçavelmente dissimulada foi muito estranha, e isso me intrigou.
_ Muito bom Camus_ Anuiu abrindo um sorriso suspeito de canto enquanto eu aguardava impaciente o complemento de sua resposta. _ Próxima _ Estalei a língua indignado, não acreditando no descaramento de sua resposta evasiva. Claro! não é como se ele me devesse satisfações dos seus atos, e eu não sou obtuso, tampouco louco, para considerar em exigi-las. Entretanto a verdade é que sua presença ali naquele cenário bucólico estudantil era estranho o suficiente para que eu me atrevesse um pouco e o indagasse. Mas aquela resposta sutilmente debochada fez o meu sangue ferver nas veias.
Virei as costas irritado, decidido em continuar meu caminho rumo ao ponto de ônibus, xingando Milo mentalmente de nomes que sequer sabia que constava no meu vocabulário interno, inclusive em minha língua natal. Porém mal dei um passo quando senti meu pulso ser aprisionado fortemente como uma trava de ferro, imobilizando-me no lugar. Quase tropecei nos próprios pés quando fui puxado bruscamente para trás num solavanco ríspido que chocou-me contra o torso pétreo do seu corpo.
_ Onde pensa que vai com tanta pressa Camus? Eu não gosto de ser ignorado, e você faria bem em não me virar as costas quando estiver falando. Não sou conhecido pela paciência, então não me tentes ou esteja preparado para arcar com as consequências _ Sibilou despótico roçando os lábios em meu ouvido, arrepiando a pele protegida do meu pescoço por um espesso cachecol de lã.
Encolhi-me ainda mais sobre minha blusa, sufocando um gemido de dor por conta da pressão desmedida imposta no meu pulso. Denunciando assim sua irritação.
_ Eu estou indo trabalhar _ Apressei em me justificar, temendo a cólera azul avolumando-se em suas íris. Aquela sua personalidade instável e igualmente inconstante assustava-me bem mais do que estava disposto a admitir. Pois eu nunca conseguia prever quais seriam seus próximos passos, suas ações. O que só condensava aquela aura perigosa e agressiva emanada por ele. Era como se eu tivesse andando esmo sobre uma finíssima camada de gelo que poderia se romper á qualquer instante, sucumbindo ao seu peso e ceifando sua vida.
Ninguém nunca sabe o que vai na cabeça daquele homem. Milo era em si uma pessoa impossível de desvendar. E tenho para mim que tentar descodificar aquela mente que lampejava loucura era inútil, uma missão fadada ao fracasso.
Senti a força esmagadora no meu pulso abrandar, porém sem solta-lo, e a ira faiscante em seus olhos recuar, retrocedendo para os confins insondáveis e enigmáticos daquelas obsidianas revoltosas.
_ Você não deveria ir almoçar antes? _ Inquiriu exigente, avaliando-me detidamente com o cenho franzido, como se estivesse me estudando, decifrando. Não obstante trespassando minhas sólidas e intransponíveis muralhas de concreto, dos quais até então, sempre julguei ser impenetráveis, na devastidão inócua contidas em suas esferas intransigentes.
_ Eu não disponho de tempo o suficiente para isso _ Disse inexpressivamente, incomodado pelo olhar insistente dele sobre mim. Fazendo sentir-me exposto, violado, um livro aberto.
_ Hum! Está decidido então. Vou leva-lo para almoçar e depois o deixo na entrada da livraria _ Não era uma pergunta, ou um convite do qual eu dispunha da alternativa para recusar, usando de polidez ou elaborando uma desculpa padrão. Era uma ordem que não admitiria ser contestada.
Milo era um ditador que desconhecia o significado de “ democracia” ou “ livre arbítrio”.
_ Eu não pos..
_ Cale-se. Se o seu objetivo é me irritar Camus, você está conseguindo. Não estou pedindo o seu consentimento, simplesmente porque irá fazer o que eu mandar, quer queira ou não. _ Ditou com uma pontada de fúria na voz _ Vamos _ Complementou, puxando-me pelo pulso ainda retido entre sua mão até o carro. Eu devia está numa palidez digna de um anêmico enquanto me via sendo arrastado em direção ao sedã, aqueles surtos repentino de bipolaridade dele assustava-me, pegava-me desprevenido. Eu não sabia como lhe dar com esse tipo de situação.
Escutei o ‘ clic’ proveniente da maçaneta do carro eclodindo alto em meus tímpanos e de forma indelicada e bruta fui jogado para dentro do banco da frente, como se fosse um saco de batatas. Enterrei os dedos no estofado buscando regularizar minha respiração acelerada, densa, rarefeita, parecendo comprimir meus pulmões na espinha. A concepção de passar algumas horas sozinho acompanhado por aquele mafioso yakuza barra pesada, vingativo e emocionalmente instável, congelava meu sangue num zero absoluto.
Virei o rosto para o lado da janela quando ele deu a volta em torno do veiculo e entrou no carro sem proferir uma palavra. Senti meu olfato ser invadido pelo seu cheiro, uma essência amadeirada e cítrica impregnada fortemente no interior do carro. De certa forma eu estava me sentindo um expectador ocular de minhas próprias ações, ao invés de seu executor. Talvez pelo fato de não esta tendo uma escolha propriamente dita. Eu temia que do nada, em um dos seus rompantes, ele resolvesse atingir-me cumprindo a ameaça que havia feito dias atrás naquela mesa do café da manhã, ao mostra-me fotos do Dite, Shion e Dhoko. Sendo Milo quem era, sabia que ele não teria escrúpulos em cumprir sua ameaça.
Acho que nem um milagre poderia me tirar dessa situação. O que um insignificante girino poderia fazer contra um tubarão? Ou uma formiga contra uma montanha?
Um silêncio constrangedor instalou-se no carro. Apenas o som de nossas respirações nos cercava, além do barulho que os estudantes faziam fora do portão de entrada, por conta do final das aulas. Agradeci mentalmente á todas as divindades possíveis por ter saído mais cedo e consequentemente evitado esbarrar com o Dite nos corredores. O que em nome de deus eu iria dizer para ele caso tivesse me visto com aquele lunático? Estremeci tenso só de imaginar essa possibilidade. Ainda bem que o vidro do sedã era de fumê reforçado.
Fiquei imóvel como uma pedra aguardando ele dá a partida sabe-se lá para onde, porém ele nada fez. Sem saber o que ele pretendia, desconfiado, virei discretamente á cabeça em sua direção de forma que eu pudesse ver o que ele fazia, pelo canto dos olhos, e por mais uma vez senti meu rosto em chamas. Quieto, com as mãos apoiadas no volante e com os olhos semicerrados, ele me observava atentamente. Um arrepio atravessou meu corpo, assim que senti as maças do meu rosto inflamarem-se.
_ Porque está coberto dos pés a cabeça? Não acha que está quente demais para usar cachecol? _ Questionou com as pupilas escurecidas brilhando perigosamente. Havia algo de sorrateiro e astuto em suas feições que eu não consegui identificar.
Gelei. Por um momento veio o pânico. Eu não queria que ele visse de jeito nenhum as marcas arroxeadas de unhas e chupadas espalhadas pelo meu corpo e pescoço. Era muita humilhação. Sem mencionar que esse ultraje era culpa dele mesmo por ser um bárbaro promiscuo que não sabia se controlar.
Por Napoleão Bonaparte! Aquilo era o ápice da degradação.
_ Camus... _ Continuou detendo sua análise na minha garganta _ você esta suando. _ Acrescentou mordaz, como uma cobra venenosa enrolada, pronta para atacar. Seus olhos obscurecidos se estreitaram, malevolentes, reluzindo de forma maníaca, com a ferocidade de um lobo enjaulado.
_ Eu... _ balbuciei estupidamente num fiapo de voz, como se assim eu fosse despertar de minha inercia _ Eu estou bem _ Articulei por fim, incisivo.
_ Não, você não está. Vamos, tira esse cachecol _ Ordenou num faiscar facínora, e eu gemi internamente desejando entrar em ebulição e evaporar pela fresta entreaberta da janela. Porque essas coisas só acontecem comigo?
_ Eu... _ comecei tentando dialogar de forma civilizada _ Eu estou realmente bem, assim. Não há necessidade de se preocup...
_ O que está tentando esconder de mim com essa teimosia? Eu não vou repetir uma terceira vez Camus. Tire esse cachecol ou eu mesmo irei fazer isso em seu lugar _ Cortou-me trincando a mandíbula. Com um rápido impulso ele chegou mais próximo do banco do carona e eu imediatamente recuei de encontro a porta abraçando inconscientemente minha bolsa.
Senti sua mão se apertar sobre meu joelho e afundei-me ainda mais contra o banco do passageiro, porém de nada adiantou. Com rapidez quase sobre- humana ele arrancou num puxão o cachecol de meu pescoço. Automaticamente levei a mão á garganta, tampando os vergões agora expostos. Senti meu rosto se esquentar furiosamente, e ele sorriu torto cinicamente.
Maldito filho da puta.
_ Você não irá mesmo tirar a mão dai, não é? _ O canto de seus lábios repuxou, em um sorriso sarcástico.
_ Não mesmo _ devolvi enfrentando-o. Quem aquele bastardo assassino pensa que é?
_ Sabe de uma coisa ruivo? Estou começando a achar que você é masoquista _ Disse, fazendo as palavras escorrerem da forma mais suja possível entre seus lábios, carregados de duplos sentidos, obscenidades e malicia. E tive de conter-me para não demonstrar que estava mais nervoso do que tenho certeza que já transparecia.
_ Eu...
_ Não vai tirar?_ Interrompeu-me.
_ Não _ Reafirmei.
_ Ótimo. Foi você que pediu.
Em um ágil movimento, de maneira que sequer tive tempo para reagir ele saltou do banco do motorista para o carona, aterrissando em minhas coxas. Imobilizando-me em meu lugar com o seu peso, depositando cada uma das pernas em cima das minhas e bruscamente arrancou minhas mãos de meu pescoço. Tentei abaixar a cabeça para esconder a garganta e o meu colo de seus olhos, todavia fui impossibilitado outra vez por seus rápidos reflexos. Ele segurou minhas duas mãos com apenas uma e com a outra ergueu forçadamente minha mandíbula, expondo-me a jugular do pescoço a seus olhos.
Ele enrugou a testa a dedilhou o polegar na pele descoberta da minha garganta, traçando com a unha um dos vergões ali presentes. Remexi-me no assento petrificado com sua aproximação bem em cima de mim e mortificado com a situação.
_ Você fica uma gracinha assim. Estonteantemente belo quando fica embaraçado e com as faces coradas, sem jeito debaixo de mim _ Murmurou rouco prensando-me ainda mais contra o estofado e descendo a mão desocupada do meu pescoço até minhas coxas, deitando o punho ali. Seu rosto se encontrava tão próximo do meu que sentia sua respiração ricochetear nas minhas bochechas _ Essas marcas lhe caíram muito bem, uma variação orquestrada de vermelho e roxo. Um lembrete para que você nunca se esqueça á quem pertence, porque você é meu Camus, só meu. Entendeu? _ Entender o que? Que ele é um desgraçado? Um maníaco? Sim! Eu havia entendido isso muito bem. E lá estava o seu velho conhecido, o detestável sorriso cínico cheio de arrogância.
A minha vontade era de protestar, contrariar aquela afirmação aos gritos, cuspir em sua cara prepotente e sair pela porta chutando impotentemente as primeiras malditas coisas que cruzassem meu caminho.
Algo assim.
Mas como querer não é poder...
Apesar dele ter dito essas palavras em tom baixo e grave, fora o bastante para preencher meus ouvidos como meia centena de auto falantes. Que direito ele tinha de pensar, pior ainda, agir como se eu fosse sua propriedade privada? Ele era louco? A resposta é obvia, simples como acrescentar açúcar no café. O bastardo egocêntrico realmente pensa que eu sou seu cachorro encoleirado. Sua puta passiva e domesticada ao seu bel prazer.
Droga! Eu já comentei o quanto odeio minha vida? Pois é. Nessas horas é que chego à conclusão que se a vida fosse realmente boa não haveria tantos suicidas.
Senti sua mão abandonar minha coxa e subir até meu rosto, surpreendendo-me ao capturar uma mecha solta do meu cabelo colado em minha testa banhada de suor, depositando-a atrás de minha orelha num gesto estranhamente gentil, cuidadoso, inclusive. Uma sensação quente percorreu-me por inteiro, se abrigando no meu peito, e me flagrei novamente hipnotizado por aquelas esferas turquesas tempestuosas. A verdade é que Milo poderia facilmente ser confundindo com um anjo arrasadoramente divino, tamanha beleza e fascínio que ele exalava por cada poro de seu corpo desenvolto. Mas eu sabia que o seu caráter cruel e sanguinário faziam dele um demônio
Ainda hoje mi impressiono com a capacidade que as aparência tinham em iludir os incautos. Sempre tenha em mente que Lúcifer também era um anjo.
Sobressaltei-me ao escutar o som do cinto de segurança sendo passado em mim, tirando-me de meus inúteis devaneios. Ele crispou o lábio superior de forma satírica, decerto escarnecendo de minha evidente desatenção, 99% de chance dele está me achando um babaca estupido. Xeque mate. Eu realmente estava me sentindo um.
_ Eu não posso transportar um passageiro inadequadamente sem o cinto de segurança. Não que eu vá perder a direção e bater o carro em algum momento. Mas eu não quero incorrer em uma multa desnecessária _ Sussurrou perigosamente perto do lóbulo de meu ouvido enquanto levava o cinto de segurança ao encaixe, roçando premeditadamente a mão na minha perna. Senti meus pulsos detidos serem soltos e ele piscou jocosamente para mim antes de rolar com destreza em retorno para o banco do motorista.
Soltei a respiração que nem percebi se encontrar presa em meus pulmões. Era de uma constatação funesta o conhecimento que eu era suscetível de alguma maneira inaceitável à Milo. E talvez ele tenha notado essa fraqueza incompreensível sobre a ótica da razão. Isso explicaria aquele sorriso irônico impresso em seu rosto de anjo caído.
Tombei levemente a cabeça para o lado, apoiando-a no vidro escuro da janela, anulando assim o contato visual sustentado impecavelmente por ele. O silêncio sepulcral que se instalou no recinto era desconfortante, entretanto ele não parecia minimamente afetado por isso. Não tardou para que aquela desagradável ausência de sons fosse cortado pelo barulho do motor do carro sendo ligado, e em fração de segundos sair cantando pneus pelas ruas movimentadas de Tókio.
Tinha ímpetos de questionar á ele para onde exatamente estávamos indo. Porém tinha a peculiar impressão que seria um desgaste inútil de saliva, ele não me diria. Sem mencionar que isso poderia soar como se eu estivesse com medo dele. E bom, com medo não restava dúvidas que eu realmente estava, afinal quem confia em assassino morre assassinado. Mas evidente que eu não assumiria essa fraqueza em voz alta nem sobre a forca.
Nenhuma palavra á mais fora dita durante o percurso, o que só serviu para acentuar o clima tenso e embaraçoso, al menos para mim. Porque Milo continuou dirigindo naturalmente como se eu nem estivesse ali, ou se lembrasse de minha presença a poucos centímetros ao seu lado, ele me ignorava como se eu nem existisse ou estivesse ali presente. Desnecessário então dizer que eu fiz o mesmo, e digamos que eu fui relativamente bem sucedido. Eu sempre soube que ser um esquife de gelo inexpressivo um dia me serviria para alguma coisa, e bem, eu estava certo.
Quando finalmente o carro desacelerou a velocidade depois do que me pareceu horas infindáveis de opressão pela sua proximidade sufocante, mas que provavelmente não passou de insignificantes minutos há julgar pelas horas no visor do GPS embutido no painel do sedã, eu já sentia um principio de enxaqueca comprimindo minha nuca, desgastando-me tanto física quanto psicologicamente. Lamentei não ter um analgésico na bolsa.
Milo estacionou o carro em uma vaga isolada de um amplo estacionamento privativo. Olhei curiosamente através do vidro da janela tentando decifrar que lugar era aquele. Claro! ele havia dito que me levaria para almoçar, porém isso não significava que eu soubesse onde isso se daria. E eu não conhecia o lugar onde estávamos, só presumia que sua localidade se dava nos arredores da torre Sky Tree, devido a vista privilegiada do monumento.
_ Deixe sua bolsa no carro _ Ditou Milo, quebrando o silêncio estabelecido antes de desligar o veiculo e puxar a chave da ingnição, guardando-a no bolso frontal da calça.
Assenti em concordância, incerto do que deveria fazer. As vezes minha insegurança era maior do que eu mesmo. Passei a alça da bolsa sobre a cabeça e deixei em cima do assento de couro. Pela visão periférica vi Milo saltar para fora do carro e passar a mão na cascata dourada de seus fios soltos ondulando no ritmo da brisa em suas costas largas e omoplatas. Suspirando audivelmente em descontentamento deixei o veiculo firmando minhas pernas bambas no chão pavimentado. Deixei os músculos rígidos do corpo relaxarem com a caricia fresca dos ventos outonais.
_ Vamos _ Disse batendo a porta do sedã, travando-o.
Segui- o mudo, impondo uma distância segura dele conforme atravessávamos o estacionamento rumo a uma porta transversal de vidro. Varri analiticamente o ambiente com os olhos franzindo o cenho ao visualizar uma placa de carvalho moldando o alto da parede intitulando o local como “ restaurante ying e yang “. O designe em estilo feudal do recinto em junção com o modernismo contemporâneo da pintura abstrata da infra- estrutura e dos moveis, conferia ao ambiente uma atmosfera requintada e convidativa aos olhos, e certamente ao paladar.
Quase como se tivesse acabado de fazer uma invocação, uma chuva de suspiros cobiçosos percorreu como rastilho de pólvora as mesas ocupadas pelos fregueses, por conta da presença magnética de Milo. Revirei os olhos em desdém imaginando se aquelas pessoas despudoradas continuariam á praticamente come-lo com os olhos se soubessem quem Milo era por debaixo de sua máscara seduzente. Será que abaixariam a cabeça ou sairiam correndo pelas portas do fundo? Claro, não se podia negar que ele era um misto antagônico de atração e repulsão. E se o sorriso zombeteiro esculpido em sua face fosse indicativo de algo, eu apostava que ele tinha pleno conhecimento do efeito embevecido que causava nas pessoas, e se divertia com isso.
Porque ele não morre asfixiado com seu próprio ego?
_ Milo você por aqui? _ Indagou um homem de estatura mediana alta e um sorriso despreocupado irrompendo pela escada que dava acesso ao segundo piso do andar do restaurante.
_ Você não esta me vendo? _ Retrucou Milo arqueando trocista uma sobrancelha para o estranho homem.
_ Estou _ Respondeu o outro anuindo.
_ Então ai está sua resposta _ Adicionou Milo, retirando um maço de cigarro de um dos bolsos da calça e acendendo-o sem desviar os olhos do homem um instante sequer.
_ Bem, eu pensei que talvez pudesse ser uma miragem, ou um holograma _ Disse o homem passando uma das mãos no cabelo castanho chocolate, bagunçando-os, com um sorriso de divertimento no rosto.
_ Você é um idiota Aiolia. Que tal você calar essa sua boca que só sabe vomitar asneiras e nos conduzir á uma mesa? De preferencia a mais afastada que tiver. _ Falou com uma inegável pontada de impaciência em sua voz, levando a bituca do cigarro à boca e dando uma prolongada tragada, soltando em seguida um anel espiralado de fumaça cinzenta para cima.
Senti meu estômago dá uma cambalhota de 360graus com sua última exigência.
_ Gentil e espirituoso como sempre Milo _ Debochou provocativo o tal Aiolia antes de voltar sua atenção para mim _ Não vai me apresentar essa beldade ruiva do seu lado não? _ Indagou maliciosamente me observando de forma descarada de cima abaixo. Cerrei os cílios aborrecido. Qual o problema das pessoas comigo ultimamente?
_ Não. _ Respondeu Milo secamente.
_ Ora Milo não seja egoísta. Onde foi parar os seus modos tão impecavelmente encenados? _ Ponderou Aiolia com um sorrisinho potencialmente dissimulado. Sem prévio aviso pegando-me de desprevenido ao deslizar os dedos no meu queixo, pressionando-o para cima, em direção a suas pupilas verdes esmeraldas scaneadores. Enrubesci e retesei com seu atrevimento impertinente. Eu odiava ser tocado desnecessariamente por quem quer que fosse.
_ Como se chama ruivinho? _ Perguntou-me gentil, deslizando a mão na minha bochecha.
_ É Camus. Camus versalhes. _ Disse arredio tentando desvencilhar-me da pressão de sua mão em meu queixo, o que só fez com que ele impusesse mais força no meu maxilar.
O chiado de algo se queimando e o odor pungente de nicotina penetraram meus sentidos e quase que imediatamente senti a mão de Aiolia largar o meu queixo retido.
_ Caralho Milo! Puta que pariu! Quanto mau humor, não precisava ter apagado a porra do cigarro na minha mão seu viado. Eu já entendi o recado. _Praguejou Aiolia raivoso assoprando freneticamente as costas da mão que ele usou para me segurar, fuzilando Milo com os olhos cor de jade.
_ Sua mão? Desculpe, devo ter me confundido com o cinzerro _ Disse cinicamente jogando a ponta apagada do cigarro pela janela.
_ Você é mesmo um doente filho da puta _ Sentenciou Aiolia chateado _ Melhor leva-lo logo para sua mesa de costume _ Complementou bufando.
_ Até que enfim. Estou esperando por isso desde que entrei pela porta _ Desdenhou o loiro arrastando a voz.
Aiolia grunhiu indignado e guiou-nos para uma mesa reservada no patamar vazio da varanda compactada no segundo andar. Eu não fazia a menor ideia qual era a ligação de Milo com Aiolia. Um amigo? Um parente? Um cumplice? Um bandido? Essas eram umas das enxurradas de questões que rondavam meus pensamentos. Aiolia não tinha jeito de mafioso com aquela postura despreocupada e marota. Porém se tem algo que eu podia palestrar por experiência própria, é que nada é mais enganoso do que as aparências.
Sentei-me na imponente mesa retangular e apesar de apetite ser a última coisa que eu sentia no atual momento tendo Milo tão perto acomodado na cadeira de frente para a minha, optei pela cordialidade polida e pedi um tradicional teriyaki acompanhado por molho Shoyu no cardápio. Quanto antes eu fosse servido, mais rápido terminaria aquela tortura. Sem contabilizar que eu ainda teria que inventar uma desculpa convincente para Dohko pelo meu atraso na livraria. Milo pediu somente saquê para Aiolia, que anotou os pedidos em um bloco de bolso e saiu depois de trocar mais algumas farpas com Milo levando consigo os pedidos. Deixando-me sozinho com ele.
_ Diga-me uma coisa Camus. O que você fazia andando tão tarde da noite naquele beco mal iluminado alguns dias atrás quando o conheci? _ Inquiriu subitamente, apoiando os cotovelos no vão da mesa e entrelaçando as mãos debaixo do queixo, encarando-me pensativamente.
Acho que corei com a intensidade de seu olhar, mas preferi fingir que não.
_ Eu não tive escolha. Como tinha saído tarde da faculdade acabei perdendo o último horário do ônibus. O que consequentemente me obrigou a ter que passar por aquela rua para alcançar o próximo ponto. _ Porque estou explicando isso a ele? A única ameaça com o qual fui agraciado na ocasião – Por favor! Sintam a ironia – fora justamente ter esbarrado, literalmente, com aquele patife manipulador.
_ Camus... Camus... parece que você anda tendo uma vida cheia de aventuras _ Proferiu pausadamente com a voz aveludada destilando sarcasmo.
Aventura? Aquilo era uma piada, não era? Ou então ele era doutorado com honras inigualáveis no humor negro. Digo, ele me ameaça, coagi, chantageia, sequestra e ainda me fode em todos os sentidos da palavra e tem a cara de pau, no auge do cinismo, de mi vir com essa “vida cheia de aventuras”. Oras! Faça-me o favor.
Ah, sim. Minha vida era fantástica. Tanto que quando eu sair daqui vou comemorar tanta boa sorte me afogando numa caixa de chocolates e uma garrafa de vinho. Um brinde a minha existência fodida. Adorável não?
O absurdo mórbido da situação fez um discreto sorriso escarninho surgir em meus lábios.
_ O que é tão engraçado? _ quis saber ele, exigente, vincando a testa numa interrogação muda.
_ A vida. Ela é hilariante _ Declarei com pouco caso, dando levemente de ombros.
Seus olhos de lince fitaram-me sobre os cílios, semicerrados, parecendo ansiar apossar-se de meus pensamentos, sua face perfeita extenuava um paradoxo controverso de frustração e... fascínio?
_ Você me confunde _ Ele disse, para minha total e absoluta surpresa. Senti meus sangue fluir mais rápido nas veias. O que diabos ele quis dizer com isso? Minha cabeça pragmática e racional velozmente computou centenas de interpretações possíveis. Uma mais improvável e descabida que a anterior, devo dizer.
_ Suponho que isso seja novidade então _ Eu disse, jogando verde.
_ Com certeza _ Concordou grosseiramente estralando os dedos na palma da mão, parecendo irritado com algo cuja fonte não consegui atinar, se eu estivesse lendo-o bem. A despeito daquele curto e confuso diálogo, tinha a inquietante sensação de que aquelas breves palavras continha bem mais do que ele deixou transparecer. Aquelas labaredas azuis faiscando em suas íris cobalto era perturbador demais para me deixar tranquilo.
Felizmente Aiolia reapareceu rompendo o estranho clima, portando consigo uma bandeja prateada contendo nossos pedidos. Notei que sua mão direita estava enrolada em uma compressa de gelo, onde Milo o havia queimado com a ponta do cigarro. Aiolia encheu uma taça de saquê até á sua borda armazenada dentro de um masu, recipiente onde se conserva a bebida, entregando-o para Milo. Desenrolei os hashis do guardanapo e servi-me de uma pequena poção de teriyaki da tigela, degustando sem muita vontade aquela iguaria típica das terras nipônicas.
_ Sabe o que realmente está me intrigando Aiolia? É o porque exatamente você esta servindo mesas sendo que esse lugar lhe pertence, e até onde me consta essa não é bem sua ocupação de praxe. _ Observou Milo com enfado na voz, bebericando de sua taça de saquê entre os dedos.
_ Sou um revolucionário Milo. Estou expandindo novos horizontes. _ Revidou Aiolia como se isso fosse o maior acontecimento histórico da humanidade desde a descoberta da eletricidade por Benjamim Frankle.
_ Sei. Então isso não tem nada a ver com o fato de você ter perdido alguma aposta para o Kanon e está sendo obrigado a fazer trabalho escravo para ele e o Saga, inclusive dentro de seu próprio estabelecimento? _ Disse Milo, provocador, fazendo o outro suspirar e dar um sorriso amarelo.
_ Está assim tão obvio? _ Perguntou Aiolia consternado.
_ Está. E muito. Você não é a pessoa mais discreta do mundo, bichano vira-lata _ Alfinetou Milo com um sorriso satírico. Aiolia lhe deu o dedo do meio.
_ Vai se ferrar Milo. Isso tudo é culpa daquele miserável escroto do Kanon que só pode ter feito pacto com o capeta e subornou aquele jogo de pôquer. Acredita que o traste teve a cara deslavada de entrar pelado no meus quarto ontem dizendo que se eu fizesse um “ boquete dos deuses” nele eu não precisaria ser seu burro de carga por uma semana? _ Desabafou revoltado, mostrando todo seu choque e incredulidade pelo ocorrido. Abaixei minha cabeça sentindo meu rosto esquentar com o teor daquela conversa. Milo desatou numa gargalhada insana com a história, ou talvez com a expressão de ultraje e afronta de Aiolia.
_ E o que você fez Aiolia? Se ajoelhou e chupou o pau do Kanom? _ Pergunto Milo maldosamente, enxugando algumas lágrimas no canto dos olhos. Afundei na minha cadeira querendo sumir dali, ou que o chão se abrisse e me tragasse até o limbo. A expressão de nojo de Aiolia provocou outra gargalhada em Milo.
_ O que você acha? Soquei a cara dele até ele perder a consciência e depois o deixei apagado no quarto de Saga. Eu não curto a mesma fruta que tenho entre as pernas _ Falou Aiolia sério enfiando as mãos no bolso.
_ E eu que achei que você tinha queimado a rosca com o Kanon _ Zombou Milo ainda com dificuldades para controlar o riso.
_ Vai á merda desgraçado _ Rugiu Aiolia caindo na obvia provocação de Milo. Ele pegou a bandeja em cima da mesa e saiu fechando os punhos.
Voltei minha atenção para o prato como se ele fosse à coisa mais interessante do mundo enquanto segurava o bolinho de arroz com os hashis, levando-o da forma mais natural possível á boca. Se estava bom? Pelo aspecto supus que sim. Mas como estava bem mais preocupado com os olhos astutos de Milo queimando minha nuca feito lava, eu não poderia ter certeza, e tampouco me importava.
_ Você parece tenso Camus, algo o preocupa? _ Sim, você.
_ Não _ Menti monossibálico.
_ Não é o que parece _ Observou cínico, bebendo de uma só vez o saquê da taça, olhando-me criticamente.
Ele está me irritando, e eu tenho certeza que é deliberado. O que ele queria? Que eu assumisse por escrito que estou com medo dele, e o que ele pode fazer comigo? Tsc! É bem mais fácil eu morrer engasgado com minha própria saliva do que ele extrair de mim alguma reação ou confissão dos demônios que internamente me assombravam num purgatório de receios e incertezas.
_ Humm... _ Eu balbuciei em descaso, lançando- lhe um olhar glacial.
_ Nossa Camus, como você fala _ Ironizou. Reprimi o ímpeto de esquecer que os hashis não eram agulhas terapêuticas de acunpuntura, e que portanto eu não deveria fura-lo com os palitos como mandava minha consciência.
Deitei os hashis cruzados em cima do prato e levei o guardanapo á boca, pressionando- o entre os lábios. Não tinha disposição para erguer a cabeça e esbarrar com as obsidianas viscerais de Milo fixos em mim. Aquilo era desconcertante, fazia minhas mãos formigarem. O que Milo estava pretendendo com tudo isso? Sem nada a dizer levantei-me da mesa da forma mais natural que consegui representar. Precisava clarear as ideias e consegui alguns minutos sozinho, preferencialmente.
_ A onde você vai? _ indagou o crápula, como uma ave de rapina prestes a emboscar sua presa.
_ Ao toalete. Ou não posso? _ Respondi grosseiramente, despindo-me de minha habitual civilidade, sentia-me sufocado. Não esperei por sua resposta, não me importava. Virei ás costas e segui pela porta no final do corredor, que eu julguei ser o banheiro.
Entrei no cômodo e fui direto para a grande pia de granito acoplado no azulejo malte da parede. Abri a torneira giratória e fiquei comtemplando por alguns segundos de apatia o escoar cristalino da água se esvaindo pelo ralo. Apoiei os cotovelos na bancada e molhei meu rosto sentindo algumas mechas colarem na testa e atrás do pescoço. Encarei minha própria imagem refletida no espelho embutido na parede superior da pia, escarnecendo da figura patética mostrada pelo vidro obsoleto. Eu poderia facilmente ser confundido com um cadáver conservado em baixas temperaturas polares, uma múmia congelada. A palidez translucida do meu rosto chegava mesmo a ser doentio, apagado, de um leucêmico. O quão deplorável e abatido minha figura desestabilizada transparecia aos olhos dos outros? Eu odiava fraquezas psicológicas ou emocionais, era uma desordem, uma anarquia inaceitável e revoltosa. Entretanto aqui estava eu, refém de meu próprio caos emocional, um caleidoscópio descontrolado de sensações conflitantes e antagônicas. Ridículo, lamentável, uma verdadeira heresia aos padrões racionais da lógica.
O que estava acontecendo comigo?
Enxuguei a face úmida escorrendo gotículas de água com uma toalha de papel, descartando-a em seguida na lixeira adjacente. Minha vida estava inundada de problemas insolucionaveis, eu me sentia um naufrago se afogando nesse turbilhão marítimo de adversidades funestas. Como foi que eu consegui chegar nesse ponto sem volta? Ah, se eu pudesse voltar no tempo...
Senti meu coração saltar pela boca e sufoquei um grito de susto quando senti um braço rodear minha cintura , manuseando- me sem dificuldade como um fantoche e jogando-me de frente contra a parede fria azulejada.
_ Não devia ficar tão distraído assim ruivinho. Nunca se sabe quando alguém de má índole e perigoso pode te atacar _ Sussurrou uma voz lasciva e belicosa em meu ouvido, que para o meu alivio e desespero reconheci como sendo á de Milo. Quando foi que ele havia entrado no banheiro? E como eu não percebi?
_ O que pensa que está fazendo? _ Questionei. Teoricamente era para minha voz ter soado seca e firme, mas a pratica se mostrou um fiasco, decadente, inclusive.
_ O que lhe parece que estou fazendo? Oras Camus! Você não pode ser tão inocente assim. _ Falou, descendo suas mãos até minha bunda, apertando-a. seu corpo avantajado pressionou o meu o meu contra seus quadris, e senti sua ereção turgida roçar nas minhas coxas.
_ Você é louco? Não tem decência não? Isso aqui é um banheiro de um restaurante. _ Argumentei tenso, começando a entrar em pânico. Ele não iria fazer o que acho que ele faria... ou sim?
Senti meu corpo ser girado habilmente por suas mãos, de forma á encara-lo de frente. Engoli em seco ao deparar-me com suas pupilas cobaltos mais escuras do que o normal fixadas em mim. Os cabelos compridos aloirados e revoltosos em contraste com sua pele bronzeada, típico de um nativo de países tropicais, conferiam-lhe uma aura indomável, selvagem, letal.
_ Louco? Esse é meu adjetivo preferido. Decência? O que é isso? É de comer? _ Disse anasalado debochadamente, lambendo os lábios com um brilho malicioso nos olhos.
Dizer que eu estava nervoso era o cúmulo do eufemismo, eu estava apavorado. Até onde ia as sandices de Milo? Espalmei o peito dele tentando afasta-lo, um ato infrutífero, já que ele não de moveu um centímetro sequer. Sua mão insolente desceu o zíper de minha calça social, e mordi minha língua para sufocar um gemido infame quando seus dedos experientes adentraram minha cueca boxe, agarrando meu membro que rapidamente endurecia com a fricção proporcionada pela sua mão quente, acariciando minha glande e o prepúcio.
Ele era um bastardo miserável e manipulador
_ Milo... isso é erado _ Insisti tentando argumentar eloquentemente e enfiar alguma lucidez na cabeça daquele ditador, chamando-o para á razão. Porém sua mão estimulando meu falo desperto não estava contribuindo para o sucesso do meu plano diplomata.
Eu já mencionei que ele é um digníssimo filho da puta?
_ Foda-se. Quem se importa? Eu com certeza é que não. _ Ditou rouco, apertando a base do meu pénis, arrancando um gemido traidor e sôfrego de meus lábios. Senti minha sanidade se esvair, minha mente se tornar nublada e a coerência escapar como vento entre os dedos.
Minha garganta ficou seca e estremeci como se uma corrente elétrica de alta tensão tivesse me atravessado, quando sua outra mão desocupada desabotoou minha camisa entrando em atrito com a pele exposta e nua, sensível por conta dos hematomas ali presentes com sua mão ávida e impaciente. Um resmungo inconsciente fugiu de minha boca no momento que sua mão abandonou meu membro que parecia explodir implorando por atenção e alivio.
Tive o corpo pressionado ainda mais de encontro a parede e a protuberância avolumando sua calça justa se esfregou no meu joelho. Levei timidamente a mão no emaranhado de seus cachos dourados, sentindo a textura sedosa e macia em minha mão. Escutei um grunhido de aprovação e sua perna direita subiu entre as minhas até alcançar a virilha, comprimindo-a, acariciando-a por cima do tecido fino com seu joelho.
Um ofego de dor e prazer ecoou pelas paredes marmóreas do banheiro no instante que Milo afundou seu rosto em minha jugular e cravou os dentes no meu pescoço desnudo, lambendo e assoprando o local em seguida. Tinha certeza que ficariam outras marcas arroxeadas no lugar depois para somar com as que já tinha. Como forma de vingança cravei as unhas na tatuagem tribal do seu ombro rígido, fincando-as em sua carne até sentir a ponta dos dedos viscosos com o seu sangue. Em retaliação ao ato ele agarrou toda extensão do meu cabelo, enrolando-o na mão e puxando- me de encontro a sua boca pecaminosa e sedenta. Seu braço livre apertou meu quadril com força desmedida e arfei em sua boca quando nossas ereções se encontraram, tocando-se pulsantes sobre a malha. Sua respiração pesada se misturava à minha, batendo contra minhas bochechas coradas pela falta de fôlego. O membro dele parecia tão duro e apertado no tecido diminuto da cueca, que chegava a machucar minha coxa com sua pressão se esfregando ali.
_ Abra os olhos Camus. Quero você olhando para mim quando estiver fodendo-o _ Entre abri as pálpebras que nem sabia que as tinha fechado de tão entregue e imerso em meus próprios e incontroláveis desejos. Era impossível frear as necessidades instintivas do meu próprio corpo efervescente de desejos luxuriantes.
Escutei o som do meu cinto sendo desafivelado, e num ágil movimento tive minha calça puxada para baixo, deixando-me apenas de cueca, que seguiu o mesmo caminho da calça ao ser jogada de qualquer jeito no canto da parede, deixando-me apenas com a camisa desabotoada, expondo minha nudez aos seus olhos. Senti as maças de meu rosto esquentar e me agitei embaraçado com o olhar dilatado e profano de Milo queimando todo meu corpo despido e exposto a seu escrutínio voraz.
Ele passou a língua úmida de forma depravada no lábio inferior e prendeu meu membro ereto novamente em sua mão, massageando a glande com o dedo indicador. Minha respiração acelerou parecendo querer estourar os pulmões, forçando-me á buscar o oxigênio pela boca. Sua outra mão apalpou minhas nádegas, tateando perigosamente minha entrada com os dedos enquanto sua língua ia traçando um caminho de saliva pelo meu peito, tórax, barriga, baixo ventre, até alcançar minha intimidade ereta e expelindo algumas gotas de pré- sémen.
Ele pendeu a cabeça para o lado e encarou minha ereção em riste com um sorriso tão jocoso que estremeci. Sua mão escorregou até a base do meu pénis e sem nenhum pudor ele se agachou no meio de minhas pernas e abocanhou meu falo por inteiro em sua cavidade molhada e infernalmente quente. Apoiei na beirada meio- fio da pia fria, e travei os sons de deleite que exigiam deixar minhas cordas vocais. Não queria correr o risco de ser flagrado por algum freguês daquele restaurante em uma situação tão vexatória. Droga! Eu não sou gay. Isso era apenas um acidente de percurso. Não era?
Minhas pernas ficaram moles e soltei um suspiro entrecortado de luxuria, completamente subjugado pelo prazer indescritível da felação proporcionada pela boca despudorada de Milo. Senti seus dentes rasparem de leve a pele fina da glande, sugando-o como se estivesse degustando uma fruta fresca e suculenta apanhado em um pomar. Sua língua hábil rodeou a cabeça do cogumelo, chupando-o, e revirei os olhos pela sensação avassaladora pré- orgasmica. Instintivamente empurrei os quadris em direção a sua boca devassa, desesperado por mais contato com aquela cavidade salivante que sugava-me de forma tão enlouquecedora e torturante. Uma pessoa não podia suportar tantas sensações avassaladoras sem desfalecer, podia? Porque se sim, eu morreria engolfado naquela tsunami torrencial de ânsias e desejos puramente primitivos. Uma lambida particularmente concentrada na película finíssima do prepúcio fez-me contorcer em agonia, e tremores musculares retesaram todo meu corpo num aviso palpável da chegada bem- aventurada do clímax.
Mas ao que parecia essa ainda não era a vontade de Milo que simplesmente cessou á felação libertando meu membro da prisão deliciosa de seus lábios. Uma imprecação frustrada e inteligível escorregou pela minha boca, maldizendo em Frances o cretino sacana que olhava-me sadicamente com um sorrisinho presunçoso emoldurando seu rosto. Semicerrei os olhos furioso. Mas não pedi paciência para deus. Ultimamente tenho requisitado tanto essa virtude á ele em detrimento de minha eterna sexta- feira treze desde o meu encontro com aquele mafioso assassino, que se eu ousasse pedir novamente o mais provável é que ele me mandasse para o inferno, o tártaro, ou para o raio que me parta.
_ Você só vai gozar quando eu quiser _ Proferiu maldosamente, arrepiando-me por inteiro. Eu me sentia inclinado, disposto até, em enforca-lo, espanca-lo, tortura-lo, desmembra-lo, esquarteja-lo e por fim mata-lo. Claro! Não necessariamente nessa ordem.
Antes que eu registrasse minha indignação, insultando o bastardo até em sânscrito, ele ergueu- se num pulo gatuno e com um sorriso que não advinha nada de bom tive o corpo virado de costas contra ele, comprimindo-me frente á parede azulejada. Seus braços poderosos envolveram minha cintura, apertando-me de encontro a si, enquanto seus quadris simulavam uma penetração em minha bunda empinada contra seu membro.
_ Chupa _ Ordenou perigosamente no meu ouvido, levando um de seus dedos em minha boca. Com a visão nublada e turva pelo ósculo nem me passou pela cabeça desacatar seu comando. Com o coração bombeando com a velocidade de uma hélice de um helicóptero passei a língua por toda extensão de seu dedo anelar, umedecendo- o com minha saliva. Um calafrio prazeroso atravessou minha espinha dorsal quando senti seus lábios molhados mordiscar meu pescoço, empurrando os cabelos que caiam nas costas para o lado.
Aquilo era bom. Inegavelmente bom.
Depois do que jurei ser horas chupando seu dedo desavergonhadamente, e adquirindo outras marcas na garganta, ombros, omoplatas, costas e braços, ele retirou seu dedo anelar de minha cavidade bucal e o levou até minhas nádegas separando-as com as mãos e introduzindo- o no orifício ali exposto.
Apesar daquela invasão não ser a primeira o desconforto foi o mesmo, retesei com o incômodo, e num breve momento de lucidez tentei escapar esgueirando- se pela abertura lateral do lado, contudo como se ele tivesse lido ou adivinhado minha intenção, vi-me cativo pela prisão de músculos inescapáveis de seus braços, mantendo-me imobilizado no lugar.
_ Relaxa _ Disse mordiscando de leve o lóbulo da minha orelha. Fácil para ele falar. Não era com ele. Ou como profere o ditado “pimenta nas córneas dos outros é refresco“. Se bem que no meu caso não é exatamente as córneas que estavam ardendo.
Quando já me encontrava familiarizado com o seu digito alargando minha entrada, outro dedo fora acrescentado a equação e eu ofeguei quando tive meu ponto sensível atingido por sua unha. Escutei uma risadinha maldosa resvalando na pele ouriçada da minha nuca, e ele concentrou sua atenção naquele ponto impudico, causando-me gemidos e espasmos.
Ouvi o som de zíper si abrindo reverbando pelas paredes, e ele libertou sua ereção pulsante através do fecho da calça. Senti a cabeça grossa e gotejante de seu membro sendo empurrado contra minha fenda. Dessa vez a dor não chegou a ser insuportável como na minha primeira vez. Talvez pelo fato de eu está extremamente excitado com todos os estímulos recebidos, ou por Milo ter me preparado antes daquela invasão. Possivelmente uma junção de todos esses fatores. Sentia-me cheio, preenchido por seu falo nada modesto forçando passagem contra as braguilhas do meu canal estreito.
_ Huummm.... que buraquinho mais guloso. Vê como ele engole o meu pau? _ Sibilou enrouquecido no pé do meu ouvido, adentrando por completo meu orifício com seu membro teso que expelia seus fluidos pela glande inchada nas paredes internas da minha cavidade.
Gemi alto quando ele afundou seu falo de uma só vez numa potente estocada, chocando os testículos duros contra minha entrada. Espalmei as mãos pegajosas de suor na parede buscando suporte para as pernas enfraquecidas, que pareciam quere sucumbir sob meu peso.
Nossos corpos banhados de uma fina camada de suor estavam tão colados que pareciam querer se fundir. O cheiro de nossas essências perdiam- se uma na outra numa sinfonia perfeita que impregnava toda atmosfera. Minhas costas se ergueram e um quase grito deixou meus lábios secos quando ele arremeteu duro de encontro á minha próstata em golpes violentos e certeiros, fazendo meus joelhos vacilarem.
Sua mão pesada agarrou novamente meu cabelo, trazendo minha cabeça para perto do seu rosto. Empinei os quadris contra seu baixo ventre dando mais acesso as suas investidas. Meu membro se encontrava tão duro que eu tinha certeza que se o tocasse acabaria gozando. Com esse pensamento e querendo por fim aquela agonia quase dolorosa da excitação, levei a mão até meu pénis ansiando por libertação. Porém tive as mãos detidas e presas atrás das costas antes de alcançar o destino final.
_ Não quero que se toque. Você só vai gozar com o meu pau o fodendo. _ Disse, enquanto ainda se movia cada vez mais fundo dentro de minha cavidade. O choque da força de suas estocadas batendo duramente contra minhas nádegas criava um som pegajoso aos meus ouvidos.
_ Ahhh... não seja mau _ Murmurei fraco repousando a cabeça ainda segura pelos cabelos no seu ombro. Ele entrelaçou seu braço na minha cintura e retirou sua ereção melada de nossos fluidos do meu interior soltando meus pulsos seguros por seu punho, e num hábil impulso virou-me de frente.
Suas pupilas estavam dilatadas e as íris obscurecidas de forma faminta e insana. Senti-me tonto quando suas mãos apossaram-se de minhas coxas suspendendo-me do chão e passando minhas pernas ao redor de seus quadris. A parede fria ás costas causava arrepios na espinha e nas costelas num choque hipotérmico de roubar o fôlego dos pulmões. Ele posicionou sua ereção em minha entrada, acomodando-se entre minhas pernas seguras em suas mãos e urrando ensandecido arremeteu, penetrando-me de uma só vez com uma estocada tão forte que senti-me sendo empalado ao meio.
Sentia seu membro sólido pulsando vibrante á cada arremetida sobres as pregas do meu canal. Umideci os lábios ressecados com a língua tentando barrar os gemidos profanos que teimavam em sair, e vi o olhar escuro de Milo se estreitar fixos na minha boca antes de ser tomada em um beijo feroz e ganancioso, roubando todo ar dos meus pulmões. Sua língua maliciosa serpenteava minha boca sem pedir permissão, adentrando-a, parecendo querer sugar minha alma pela garganta, deixando seu gosto entorpecente impregnarem meus sentidos falhos no aroma viciante que emanava de si.
O suor orvalhado escorria na lateral bronzeada de sua tez, e mechas douradas colavam-se na sua testa e pescoço. Senti sua boca abandonar a minha descendo pela mandíbula, jugular e ombros. Meus lábios estavam doloridos e ardendo, e eu soube que provavelmente deveriam esta vermelhos, magoados e inchados em decorrência de seu beijo bruto, beirando ao cruel, que parecia querer me punir por algo do qual não alcançava meu entendimento.
Suas estocadas brutais foram intensificadas batendo contínua e ritmadas contra minha próstata causando espasmos contorcidos por todo meu corpo. Como um fio condutor de potente voltagem eletrocutando todo meu sangue nas veias. Descansei a cabeça no seu ombro tatuado, mordendo-o, tentando abafar os gemidos altos e incontidos que escapavam.
Afundei os dentes na sua carne quando ele apertou as minhas coxas entrelaçadas na sua cintura aumentando as estocadas, de tal maneira que sentia a fivela metálica do cinto de sua calça se chocar contra minhas nádegas a cada arremetida dura. Abracei seu pescoço rígido empapado de suor, buscando apoio naquele turbilhão de sensações inumanas, devastadoras. Eu me sentia uma gota d’água perdida na penumbra de um oceano. O pavio de uma vela lutando para manter sua singela chama acesa numa tempestade de neve.
Senti todo meu corpo torpe pelo prazer se convulsionar incontrolavelmente e uma onda libertadora de orgasmo me atingiu em sua plenitude, jorrando na barriga desnuda de Milo. Meu corpo estava mole, bambo, incapaz de sustentar-se sozinho, por si mesmo. A fadiga das noites insones pesaram sobre mim, deixando-me exaurido, fraco, zonzo, com sono.
Podia sentir todo seu membro duro dentro de mim sendo espremido pelas paredes internas, fechando-se em torno de sua ereção. E em última estocada também chegar ao clímax, derramando jatos quentes de seu gozo no meu interior soltando um gemido rouco de satisfação.
Aninhei minha cabeça em seu tórax cansado, perdendo a batalha contra o sono que chamava-me para sua inconsciência. A última coisa que registrei antes de entregar-me a escuridão foi de sentir-me sendo suspenso, como se estivesse sendo carregado.
Depois apenas o silêncio... e o nada...
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