O Enterro do Lince
1 Em Meio aos Livros
Notas iniciais
Murmúrios. Ruídos. Sussurros. Passos. Páginas folheadas.
━ Ei, com licença...
━ Pois não? ━ Disse a bibliotecária de modo simpático ao homem que a chamou caminhando até o mesmo em passos largos.
━ Desculpa incomodar. Você saberia me informar onde fica a ala B5? Preciso de um livro sobre bactérias para a faculdade. ━ Disse o estudante falando quase que num sussurro. ━ Está escrito aqui que ficava em outra ala, mas me informaram que mudaram e não estou conseguindo encontrar, sabe?
━ É só seguir está reta e virar no terceiro corredor a esquerda, senhor. ━ Respondeu, virando-se um pouco de lado e gesticulando com a mão a fim de informar com mais facilidade.
━ Ah! Muito obrigado mesmo. Bom dia! ━ O estudante se propusera a caminhar após finalmente receber a informação que almejava. Passou em passos rápidos pela mesa em que um rapaz ariano dormia com a cabeça por cima de vários papéis espalhados tranquilamente.
A Biblioteca Pública de Nova Iorque começara a ficar um pouco mais movimentada. Era aproximadamente quase meio dia. A iluminação natural do sol adentrava de maneira bela o ambiente daquela ala de leitura, localizada no centro. Os vidrais refletiam a luz deixando-a um pouco mais amarelada e, curiosamente, não proporcionavam calor no local deixando-o ainda mais agradável e harmonioso. Dava para notar pessoas folheando páginas de livros que as interessavam assim como a locomoção delas, algumas em passos mais lentos e outras um pouco mais apressadas na procura de conteúdo literário.
━ Ei, espera. Você está bem? Aqui está cheirando muito a sangue.
O rapaz de cabelos negros presos em um frouxo rabo de cavalo parou de relance perto do ariano quando passara por ele para prosseguir até a ala destinada dos livros de bactérias. O cheiro forte havia começado a concentrar-se naquele ponto e definitivamente concluiu que vinha do deitado.
━ Cara, acorda!
Com a mão no ombro do loiro ele sacudiu-o um pouco, mas não obtendo resposta começou a entrar em pânico.
Um suspiro saiu dos lábios da bibliotecária aparentemente jovem com os olhos castanhos agora fechados. Ela se põe a andar até a direção que os rapazes localizavam-se devido estar um pouco mais afastada, segurando junto ao busto um caderno de anotações.
━ O que houve? Não pode falar alto aqui.
━ Ele está ferido! Chame uma ambulância.
━ O quê? ━ Exclamou, assustada caminhando dois passos para trás.
O homem virava com força e cautela o corpo da vítima e confirmou que a mesma não só estava cheia de sangue próprio como gravemente machucada na parte inferior direita do abdômen. A quantidade de sangue já jorrado do rapaz era absurdamente abundante, todavia devido a posição que o mesmo permaneceu fizera com que o sangue escorresse pelas roupas de um modo não notório.
━ Meu Deus! Que horror! ━ A mulher de cabelo curto levou uma mão a boca tampando-a enquanto outrora permanecia segurando o caderno.
━ Aqui, pega meu celular. Ligue pro hospital, AGORA! ━ Disse estendendo o aparelho apressadamente na direção da outra após tirá-lo do bolso detrás da calça.
━ Vocês precisam de ajuda? Senhor! Vou pegar algo pra ajudar a estancar o sangue. ━ Comentou outra funcionária que se propôs a ajudar depois de aproximar-se dali ao notar o alvoroço. Ela corria até o balcão tentando achar algo que servisse para alguma coisa.
Aquilo era uma catástrofe.
As pessoas que estavam sentadas levantaram-se e começavam a se aproximar da mesa algumas curiosas e outras preocupadas. Como o único que estava sentado nela era o loiro ninguém havia notado quaisquer anormalidades e muito menos sentiram o odor ferroso e de sangue pisado. O rapaz ferido de igual modo também não parecia em momento algum ter alarmado ou dado indícios de estar machucado, portanto talvez tenha sido por isso que ninguém havia cogitado em prestar-lhe ajuda antes.
━ Mas, mas...
A primeira bibliotecária estava em choque ainda e o homem sem mais paciência acaba por ligar ele mesmo para o hospital mais próximo da região digitando os números de forma apressada e desajeitada, muito nervoso.
━ Alô! Emergência, é do Hospital Lower Manhattan? Aqui é da Biblioteca Pública de New York. Poderia mandar uma ambulância o quanto antes para cá? Tem um rapaz gravemente ferido aqui, pelo que parece ele levou uma facada muito funda no abdômen e está com hemorragia. ━ A voz estava trêmula. Tamanho era o desespero. ━ Muito obrigado.
O rosto do menino estava muito pálido. O homem mais velho levou os dedos até o pulso esquerdo da vítima tentando encontrar a artéria radial da mesma para verificar sua pressão arterial com a finalidade de ver se pelo menos ainda estava viva. Não satisfeito, levou a mão até a artéria carótida do afetado situada na lateral do pescoço, rente a garganta.
━ O nome dele... O nome... Ele pegou alguns livros hoje mais cedo! ━ Falou a mulher, desnorteada, acalmando-se do choque.
Ela abria rapidamente o caderno de anotações que carregava consigo, sendo este um sumário que continha também a lista de nomes de recém leitores do dia.
━ Ash Lynx. ━ Disse, ao encontrá-lo, apreensiva.
Olhou para o homem moreno cujo até então parecia alerta, mas que por agora seu semblante havia mudado de um preocupado para cabisbaixo e aterrorizado.
━ Ele está morto.
Após uns 15 minutos a sirene da ambulância podia ser escutada anunciando sua chegada. Enfermeiros entraram na biblioteca com uma maca, primeiros socorros além de utensílios para talvez uma possível reanimação. As pessoas afastavam-se para que o socorro fosse mais rápido, entretanto parecia ser tarde demais. Após os enfermeiros terem colocado Ash dentro da ambulância o carro partiu em retirada rapidamente até o hospital cujo ficava três quarterões apenas de distância dali e ao chegarem perante situação crítica eles tentaram de tudo restituir o vigor do corpo desfalecido colocando aparelho de ar, soro, injetando proteínas para ativar a circulação sanguínea, estancando o sangue, cobrindo a perfuração exposta e fazendo o processo de parada cardíaca ao notarem que o coração já não batia mais. O cuidado foi demorado e cansativo, entretanto um fator fora confirmado.
Ash não estava mais entre os vivos.
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