A chuva caía lentamente lá fora. Eu desejava senti-la. Apreciar as gotículas deslizando sobre minhas folhas ainda nascendo. Deliciar-me com o cheiro da terra molhada do meu vaso. Gozar do vento balançando meus galhinhos.

Mas o homem fechara a janela. Talvez ele não soubesse dos meus desejos. Quem sabe ele achara que seria melhor para mim. Ele já me aguara de qualquer jeito. Talvez o vento até me derrubasse e espalhasse minha terra sobre a bancada.

A chuva apertava. Eu observava as grandes árvores lá fora. Invejando seu esplendor e sua liberdade. Ninguém fecharia a janela para elas. Nunca. Eu era só uma pequena, subjulgada, que nem frutos produziria. Como eu queria ter frutos. Os pássaros viriam gananciosos sobre mim, e eu os alimentaria como uma mãe que acolhe as crias da natureza.

Mas eu deveria me conformar. Eu era somente o que seria para sempre. Nunca poderia mudar minha natureza. Continuaria vivendo através das sementes, uma vida após a outra, sempre tendo alguém para fechar a janela para mim. Até que algum dia não houvesse mais ninguém.

Ondas sonoras reverberavam pelo quarto. Elas eram leves, ritmadas e minhas folhas apreciavam muito.

Oh! Era uma voz. O homem falava. E falava comigo!

Que alegria. Eu sentia minhas raízes confortáveis na terra fértil e meus galhos se moviam debaixo do toque do homem. Que gentil. Dando-me atenção! Talvez eu fosse muito mais sortuda que as imponentes lá fora, porque não, ninguém fechava a janela nelas, mas ninguém as dava amor. Não como a mim.

Talvez eu fosse a planta mais sortuda, sim. Porque, se alguém fechava a janela para mim, era porque me amava.

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